
Irlanda:
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e Ódio >
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Irlanda
Celta - a Primeira Era de Ouro
Um renomado
estudioso afirmou, num de seus textos, que dada a riqueza da Idade do
Bronze irlandesa, ela bem podeia se chamar de "Idade do Ouro".
A comparação não é exagerada: as maravilhosas
peças em ouro encontrads em túmulos e sítios arqueológicos
celtas deste período nos mostram uma sociedade rica e próspera.
Num sentido figurado, a expresão "Idade do Ouro" também
é correta: a Irlanda Celta nos deixou um rico legado artístico
e cultural, além da inegável herança espiritual do
druidismo e de suas sobrevivências e renascimentos até nossos
dias.
Os primeiros
celtas
(Para
saber mais sobre as origens dos celtas, clique aqui)
Vindos do continente
europeu por duas rotas migratórias (uma através da Grã-Bretanha,
a outra diretamente do continente pela Península Ibérica),
os celtas chegaram à Irlanda em sucessivas e distinas levas. A
prosperidade acima mencionada se deve em grande parte às ricas
jazidas minerais do solo irlandês e ao intenso comércio com
as populações da vizinha Grã-Bretanha e também
de áreas mais remotas como a Ibéria, a moderna Alemanha
e a região do mar Báltico.
Ao comércio de produtos e matérias primas somava-se também
o intercâmbio profissional, pois sabe-se que muitos artesãos
irlandeses, renomados por suas habilidades metalúrgicas, viajavam
a terras distantes para lá estabelecer suas oficinas - intensificando
o intercâmbio cultural e econômico com outras culturas.
Magnífico
torc em ouro, encontrado em Broighter.
Mas os celtas da Irlanda eram,
sobretudo, celtas - o que vale dizer que a Irlanda na Idade do Bronze
era dominada por uma cultura guerreira, vaidosa, que apreciava o bom viver
e não media esforços nesse sentido.
Sociedade
A sociedade
na Irlanda celta não diferia muito do quanto descrito na sessão
sobre os celtas deste website - a tripartição
das funções sociais tipicamente indo-européia é
facilmente identificada nos textos e relatos irlandeses, a saber: a nobreza,
composta
pela elite de guerreiros e líderes tribais; o clero, formado pelos
druidas; e os artesãos, conhecidos na Irlanda como Aes Dána,
"aqueles das artes". O poder da nobreza era demonstrado nos
fartos banquetes oferecidos pelos chefes tribais, que serviam para preservar
a fidelidade de seus súditos, conquistar aliados e intimidar os
rivais. Essa tradição tipicamente celta - assim como muitas
outras - sobreviveu na Irlanda durante a Idade Média graças
ao fato de que a Irlanda não foi romanizada, ou seja: suas instituições
sócio-culturais permaneceram por mais tempo puramente celtas.
Um banquete irlandês - à mesa, os nobres;
no centro, o bardo (fíli) recita seus versos ao som da harpa,
símbolo do ofício bárdico.
Outra
característica marcante da Irlanda celta é o uso dos carros
pelos guerreiros, como fica claro nos relatos dos feitos de Cuchulainn
e seu fiel amigo e cocheiro Láeg no "Táin". A
mobilidade conferida pelo uso de cavalos dava aos guerreiros irlandeses
uma considerável vantagem sobre os que lutavam a pé, especialmente
porque esses carros eram projetados para dar os guerreiros agilidade em
combate. Outra vantagem era o envio de homens e mulheres descansados à
frente de batalha, recuando os guerreiros cansados da investida anterior
numa espécie de revezamento, dessa forma mantendo o exército
sempre descansado.

Um guerreiro irlandês
em seu carro, com seu fiel cocheiro,
rasgam
as verdes planícies da Irlanda - Cuchulainn?
Mas o elemento
que realmente merece destaque na sociedade celta irlandesa é o
papel da mulher.
Os mitos de um povo mostram sua forma de ver e sentir o mundo no qual
vivem, e formam seus conceitos sócio-culturais mais profundos.
A profusão de deusas importantes na mitologia celta da Irlanda
(Brighid, Morríghan, Macha, para citar algumas) e também
de heroínas mortais (Deidre, Gráinne, Scatha) indica claramente
que a mulher celta irlandesa gozava de um prestígio que suas equivalentes
no mundo greco-romano sequer poderiam sonhar para si.
De
todas as heroínas irlandesas, a que melhor encarna a força
da mulher celta é, sem dúvida, a rainha Maedbh
(Maeve) de Connacht. Soberana, poderosa, independente, irascível,
resoluta, Maedbh é uma porta-voz perfeita do espírito da
mulher celta.
Vários
textos medievais, especialmente as conhecidas Leis Brehon, confirmam os
amplos direitos reservados às mulheres na sociedade celta irlandesa.
A explicação para isso é simples: apesar de algum
contato com o mundo mediterrâneo, os celtas da Irlanda mantiveram-se
suficientemente isentos da influência de gregos e romanos e sua
tendência à opressão da mulher. Talvez esse seja um
dos principais motivos para a voz da Irlanda atualmente servir de inspiração
a quem tenta restabelecer uma sociedade mais equilibrada no que diz respeito
à relação entre homens e mulheres.
A
Magia da Terra
Já vimos
que a mitologia celta da Irlanda aponta para um equilíbrio entre
o masculino e o feminino - diversos deuses e deusas, diversos heróis
e heroínas sem demonização de um ou de outro gênero.
Vimos também que esses mitos refletem a própria sociedade
celta em geral - e irlandesa em particular. Completa a imagem o fato de
que esses deuses e deusas, que tanto inspiram a sociedade humana, são
na verdade personificações da paisagem irlandesa.
Textos
como o Dindshenchas, ou "Conhecimento dos Lugares
Importantes", revelam que praticamente cada local, cada acidente
geográfico, cada rio, lago, montanha, bosque e vale possui um espírito
- um deus ou uma deusa - que lhe anima e o torna sagrado. Até hoje,
muitos desses locais ainda são conhecidos por suas associações
mitológicas, provando que a voz das terras da Irlanda continua
a se fazer ouvir, ainda que insconscientemente, por todos nós.
Alguns exemplos:
| 
Montanhas
Paps of Danu
|

Representação
moderna da deusa Danu |
Danu
é uma deusa da qual se sabe muito pouco, além do fato
de ser provavelmente uma deusa civilizadora, visto que os principais
deuses da mitologia celta da Irlanda são conhecidos coletivamente
como Tuatha de Danann, "a Tribo da Deusa Danu". Como é
o caso de várias deusas por todas as terras celtas, seu nome
está associado a um rio - no caso, o Danúbio, no coração
da Europa e berço da cultura celta. Como se vê, mais
uma vez os mitos parecem confirmar a história - ou seria
o contrário? |

Rio
Boyne |

Deusa
Bóann, nos traços do artista Jim Fitzpatrick |
Bóann
é mais uma deusa tutelar de um rio. Seu nome significa "aquela
que possui vacas brancas", estando, portanto, associada à
fartura e à riqueza, como convém a um rio, que traz
vida a uma região. Em um 'affair' com o Dagda, Boann gera Angus
Óg, o deus da juventude e, nalguns mitos, protetor dos amantes. |
|

O
mar, na dramática paisagem dos Cliffs of Moher. |

Manannan
Mac Lír, personificação do mar. |
Manannan Mac
Lir é um dos poucos deuses a integrar os diversos ciclos mitológicos
irlandeses. Sempre associado ao mar, é também uma espécie
de Senhor do Outro Mundo - nas lendas celtas da Irlanda, é
através do mar que se chega ao domínio dos deuses. |
Diante desses
poucos exemplos, podemos imaginar que, caso essa visão tivesse
sido preservada, dificilmente teríamos poluído rios e oceanos,
devastado florestas, depredado a Natureza. Afinal, poluir um rio que é
de uma deidade é bem menos dramático do que poluir
um rio que é a própria deidade... Mais uma vez,
temos muito a aprender com os antigos celtas da Irlanda.
A
sacralidade que os celtas atribuíam às terras da Irlanda
é evidenciada também em sua divisão da Ilha em Cinco
Províncias - uma para cada direção e uma quinta,
Míde (O Meio), desempenhando o papel de "centro sagrado".
Segundo Alwyn e Brinley Rees, autores de Celtic Heritage, "o
quatro representa os cantos mais distantes, enquanto que o cinco é
o centro do todo". Não por acaso, na província de Míde
(moderno condado de Meath) fica a Colina
Sagrada de Temhair (Tara), capital e centro espiritual
da Irlanda celta. Em Tara era coroado o Rí Ruirech,
o “Rei dos Grandes Reis” da Irlanda. (apesar de muito usado
em tempos recentes, o termo Ard Rí, "Grande Rei",
foi cunhado mais recentemente e não figura nos textos legais da
Irlanda). Para ser identificado, o postulante ao trono deveria posicionar-se
diante de uma pedra conhecida como Lia Fáil, a "Pedra
do Destino", que, diante do verdadeiro rei, canta. Para os celtas,
a terra não só é viva como possui uma voz - a voz
da Soberania. Assim, o Rí Ruirech, centro
de um povo, governa a partir de seu palácio em Tara, centro de
uma terra: o casamento sagrado entre soberano e Soberania. Lia Fáil
no centro de Tara; Tara no centro de Míde; Míde no
centro da Irlanda: completa-se assim o axis mundi, "eixo
cósmico" entre os mundos, unindo as realidades mundana e divina
- "as above, so below", "assim na Terra como no céu".
Tara Hill (esq.); Lia Fáil (dir.)
Pois foi exatamente
em Tara que, segundo a lenda, São Patrício - o evangelizador
oficial da Irlanda - mostrou aos druidas a força da Nova Religião
e introduziu o cristianismo em terras irlandesas... mas isso é
outro capítulo!
Segue
para Patrício e a chegada do cristianismo
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