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São Patrício e a chegada do cristianismo

Atualmente, praticamente todos já ao menos ouviram falar de São Patricio, o santo padroeiro da Irlanda descrito como o evangelizador dos gaélicos. Se não por outro motivo, ao menos por ser o santo que tem a celebração mais festiva, barulhenta e associada ao consumo de cerveja do mundo: St. Patrick's Day, comemorado no mundo todo a 17 de março. A popularidade de São Patricio certamente se deve à força da cultura de massa norte-americana - nos EUA, até o rio Chicago costuma ser tingido de verde nas comemorações do Paddy's Day. Afinal, como veremos mais adiante, a imigração irlandesa para a América do Norte foi intensa e contribuiu fortemente para a formação da identidade cultural dos Estados Unidos. A partir dessa influência global, escolas de inglês, bares e pubs ao redor do mundo - da Coréia à Alemanha, do México ao Brasil - passaram a comemorar regularmente a data - mais uma prova do carisma e da força do espírito irlandês.

Poucas pessoas sabem, no entanto, que Patricio na verdade não foi o primeiro cristão da Irlanda: antes dele, no ano de 431, um bispo chamado Palladius foi enviado pelo papa Celestino I para ser o primeiro bispo da Irlanda - e mesmo Palladius só foi destacado para essa missão porque ao que tudo indica, à essa altura, uma crescente comunidade cristã já florescia na Irlanda. Pouco se sabe sobre os feitos de Palladius como bispo. O que se sabe é que seu sucessor, Patricius - um jovem britânico de origem romana - teve não só seus resultados mas toda a sua vida muito bem documentados, o que o credenciou a ser melhor conhecido e, portanto, reconhecido como o cristianizador dos irlandeses.

Sua 'biografia' é conhecida como "A Vida Tripartida de São Patricio" e relata como ele, por volta dos dezesseis anos, foi aprisionado em terras britânicas por piratas irlandeses, que o levaram para a Irlanda na condição de escravo. Reza a lenda que, certo dia, Patricio ouviu uma voz divina a lhe ordenar que se encaminhasse ao litoral, pois um barco o levaria dali pondo fim a seu suplício. Ele prontamente atendeu - não se deve jamais desprezar as ofertas da providência divina... - e, com efeito, conseguiu escapar da Irlanda, peregrinando pela Europa, onde foi ordenado bispo. Foi então que ele resolveu retornar à Irlanda para por lá pregar o critianismo - a Irlanda era predominantemente pagã, sua espiritualidade dominante era o que chamamos de druidismo. Segundo os relatos oficiais, Patrício decidiu levar os evangelhos à Irlanda para livrar aquele povo de sua religião "primitiva", centrada na natureza e que via toda a existência como sagrada. A julgar pelos resultados posteriores da cristianização da Irlanda - os "Troubles", conflitos ente católicos e protestantes e várias gerações traumatizadas pelos abusos do clero católico - é tendador imaginar que o que teria movido Patricio a levar o cristianismo à Irlanda não fora caridade, mas sim vingança...

Uma coisa, contudo, parece inegável: os biógrafos de Patricio eram bons de marketing. Segundo a sua hagiografia, ao acender uma fogueira de Páscoa na Sagrada Colina de Tara, Patricio provocou a fúria dos druidas irlandeses, a quem ele derrotou num duelo mágico, o que teria facilitado a disseminação do cristianismo entre os irlandeses. Também é atribuída a Patricio a expulsão das serpentes da Irlanda (imagem acima) - talvez uma metáfora, dada a imagem negativa atribuída àquele réptil, da capacidade de Patricio em expurgar o druidismo. Com efeito, a Irlanda não possui serpentes nativas. Mas isso se deve não aos milagres de um santo, e sim à incapacidade de as serpentes e cobras chegarem às terras irlandesas: após o degelo, quando o clima ficou suficientemente quente para atrair serpentes, cobras e outros répteis para o noroeste da Europa, a Irlanda já estava isolada do continente pelo braço de mar formado pelo derretimento das geleiras.

Noutra passagem da vida de Patricio, diz-se que ele teria apanhado do chão um pequeno trevo - chamado seamróg em irlandês - para transmitir aos irlandeses o conceito da Santíssima Trindade. Desde então, o shamrock é um dos símbolos nacionais da Irlanda. (A tarefa de Patricio foi obviamente facilitada pelo fato de que, entre os celtas, o três já era considerado um número sagrado, pois todo o universo - e não só o conceito abstrato do deus cristão - é tripartido: corpo-mente-espírito, ontem-hoje-amanhã, pai-mãe-prole, acima-meio-abaixo... na alma e na mente celta, não há espaço para conflitos entre bem ou mal, certo ou errado, bom ou ruim, homem ou mulher, sagrado ou profano: todos são parte do todo).

Ao contrário do que algumas versões da história podem fazer parecer, a cristianização da Irlanda foi lenta e gradativa. Mesmo com todos os esforços de Patricio em viajar por uma terra sem estradas, erguendo igrejas de madeira, batizando pessoas aos milhares e criando bispos às centenas, a população irlandesa preferia manter-se fiel à sua espiritualidade nativa, o druidismo. Pouco a pouco, porém, a nova religião foi sendo aceita pelos irlandeses. É certo que houve resistência por parte dos druidas locais mas, diferentemente do que ocorria em outras partes da Europa, em momento nenhum essa resistência descambou para a violência ou para a perseguição - até nesse aspecto, a Irlanda diferia do resto da Europa.

Nas palavras do frei Richard Woods (OP), "diferentemente dos missionários desalmados dos últimos séculos, os primeiros evangelizadores da Irlanda não visavam a supressão dos mitos e sagas pré-cristãos, pois os redigiram - ainda que com ressalvas adequadas a um monge quando o conteúdo se mostrava excessivamente libertino ou violento."

Assim, uma das características principais do cristianismo que se estabelece na Irlanda é o monaquismo - e não uma igreja episcopal como Patricio planejara. Ao contrário de uma igreja estruturada e hierárquica nos moldes de Roma, a igreja irlandesa era pautada no isolamento dos indivíduos para que a busca pelo divino - o novo Deus único - ocorresse pela reflexão e contemplação dos monges, e não através do intermédio exclusivo dos bispos. Muitos dos mosteiros fundandos pelos primeiros cristãos irlandeses eram verdadeiros centros de cultura, onde os monges copistas compilaram e preservaram não só textos cristãos e clássicos, mas também muito do que hoje sabemos sobre a mitologia e a espiritualidade celta pré-cristã. Ao incorporar diversos elementos da arte celta, as penas inspiradas desses monges deram origem a algumas das mais belas páginas de manuscritos do mundo ocidental, com destaque para o Livro de Kells e suas arrebatadoras iluminuras (abaixo).

Por não ter sido conquistada pelo Império Romano, a Irlanda permanecia livre do fenômeno da urbanização, e o lento processo de cristianização ainda não afetava de forma determinante a vida de seus habitantes. Os valores sociais da gloriosa cultura celta permaneciam válidos, temperados por alguns elementos trazidos pelo cristianismo. Características marcantes da sociedade celta - como os direitos da mulher e a sacralidade da Natureza - continuavam a ser importantes, apesar de agora revestidos por um verniz cristão. A distância e o isolamento da Irlanda em relação a Roma, o centro do cristianismo ocidental, garantia aos cristãos irlandeses uma autonomia e liberdade que se traduziram em um cristianismo sui-generis: ao invés do proselitismo da evangelização, a busca da iluminação pessoal; em vez da misoginia e da demonização do feminino, a valorização deste em figuras como a de Santa Brígida; ao invés da negação da matéria, a valorização do mundo físico e das pessoas; até mesmo a figura do Deus cristão medieval, tirânica, punitiva e opressora, dava na Irlanda lugar a um Deus que falava com os homens através da Natureza e dos poetas. Vestígios do druidismo, sem dúvida, como comprova a Prece de São Fiónan ao Sol:

O olho do grande Deus,
O olho do Deus glorioso,
O olho do Rei das hostes,
O olho do Rei dos vivos,
Derramando-se sobre nós
A cada momento, a cada estação,
Derramando-se sobre nós
Suave e generosamente.

Glória a ti,
Ó glorioso Sol.
Glória a ti, ó Sol,
Rosto do Deus da vida.

De tão animista em sua essência, de tão naturalista em suas palavras, essa prece poderia ter sido encontrada numa estela do Antigo Egito, ou numa inscrição grega, ou num afresco etrusco, ou nas palavras de um monge irlandês - como de fato o foi. Preservada no século XIX pelo escocês Alexander Carmichael, ela faz parte de uma antiga tradição oral celta cristianizada que, na Irlanda, foi entoada por São Fionán ao avistar um rochedo na tempestuosa costa sudoeste irlandesa, onde ele e seus companheiros criaram o famoso mosteiro de Skellig Michael.

Mas se a Irlanda, ainda que lentamente, se convertia ao cristianismo, o que foi feito dos druidas, que se haviam mostrado resistentes à nova religião, como visto acima? Nas palavras sussurradas de um professor de história irlandês, "os druidas foram os primeiros monges cristãos"... A inexistência na Irlanda de 'mártires de sangue' (aqueles que se tornaram santos por morrerem em nome do cristianismo) é indício de que essa afirmação pode ser verdadeira. O escritor Geoffrey Moorhouse afirma que uma "característica dos primeiros tempos da Igreja na Irlanda era a preservação das crenças e do conceito de criação anteriores ao cristianismo." É inegável que a visão da Natureza pela chamada Igreja Celta difere enormemente da negação, demonização e 'coisificação' da matéria que caracteriza o pensamento católico agostiniano. Voltando a Moorhouse, "os primeiros cristãos e as gerações seguintes mantiveram um grande carinho pelo seu passado celta, pela sua forma de compreender os fenômenos naturais - e não viram razão nenhuma que os impedisse de assimilar essa comprensão às suas novas crenças. Assim, eles preservaram muito da tradição pagã numa nova forma".

A própria característica monástica do cristianismo irlandês indica, se não uma conversão dos druidas à nova religião, ao menos uma absorção por parte do cristianismo de valores e prinípios druídicos. Muitos santos irlandeses (alguns dos quais sequer reconhecidos pelo Vaticano) eram filhos ou filhas de druidas, um dado que pode ser uma metáfora para a conversão desses indivíduos outrora representantes da religião celta. Esses santos estão muito longe dos "ideais" cristãos de castidade, pureza, e abnegação: muito ao contrário, diversos santos e santas irlandeses se mostram bastante afeitos aos caprichos e defeitos de qualquer mortal: ciúmes, vingança e teimosia são algumas de suas características mais comuns. Em dada oportunidade, São Ciáran e São Columba, por exemplo, envolvem-se numa acalorada discussão para ver quem era mais pobre e, portanto, mais próximo do exemplo deixado por Cristo (a discussão é interrompida por um anjo que declara Columba mais santificado por ter renunciado à sua nobreza)... Ainda que para muitos isso possa parecer um ponto fraco dos santos irlandeses, na verdade a santidade deles se mostra mais próxima, e portanto, mais acessível à maioria dos mortais.

Entre as características mais marcantes do cristianismo celta, poranto, figura uma percepção da natureza não como "caída", mas ao contrário, sagrada, divina - como fora, é e sempre será aos druidas. Isso pode ser interpretado como a preservação do "instinto coletivo" dos irlandeses, incapazes de conceber um universo sem que todo ele seja sagrado - algo que transpira dos escritos e biografias de muitos homens santos irlandeses.

Nem todos os santos irlandeses, porém, foram bispos, pregadores ou mártires: uma delas é, na verdade, a cristianização de uma deusa celta pré-romana: Santa Brígida de Kildare, versão cristianizada da deusa Brighid, Senhora da Tríplice Chama da Inspiração, Cura e Metalurgia. A importância de Brighid/Santa Brígida para a Irlanda ainda hoje é imensa: diversos costumes e crenças de Santa Brígida - perfeitamente aceitos pelo catolicismo moderno - remetem a práticas pagãs anteriores, sempre fazendo alusão aos atributos de Brighid, a deusa: os mistérios femininos da geração e manutenção da vida, a riqueza representada pela fartura do gado - em especial do leite - a saudação ao retorno da vida na Primavera. Não por acaso, a data cristã de celebração de Santa Brígida é a mesma em que era celebrado o dia sagrado de Brighid e a lactação de ovelhas e vacas.

Todos esses santos irlandeses estão - direta ou indiretamente - ligados à criação de incontáveis mosteiros: Ardagh, Clonmacnois, Clonard, Durrow, Rahen, Lismore, Lindisfarne. Em pouco tempo, esses mosteiros - que abrigavam centenas de monges e deram origem a muitas das modernas cidades irlandesas - veriam sua influência e sua importância ultrapassarem as fronteiras da Ilha Esmeralda e, de certa forma, alterariam toda a história do ocidente.

Com a queda do Império Romano, toda a Europa mergulharia num período de caos político, social, cultural e espiritual - conhecido como Idade das Trevas. Fisicamente afastada e com um grande grau de independência, a Irlanda em breve seria chamada a salvar a alma da Europa. No momento em que o mundo ocidental estava por um fio, coube aos irlandeses, nas palavras do historiador Thomas Cahill, "salvar a civilização".

Segue para Idade Média: A Irlanda salva a civilização

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