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O Fim da Igreja Celta

e a chegada dos Normandos

Já vimos que, ao contrário do que a fama dos vikings costuma fazer supor, sua presença em terras irlandesas não se resumiu a pilhagens e violência: ao contrário, eles introduziram diversos elementos de “modernização” – as primeiras cidades, a cunhagem de moedas e um intenso comércio. Pouco a pouco, esses vikings se “irlandesaram”, mesclando-se à cultura gaélica local. Em sangue, costumes, cultura e idioma, em poucas gerações os invasores vikings já eram totalmente irlandeses. Mas é claro que os conflitos vikings na Irlanda deixaram sua marca negativa: uma ruptura no brilhante progresso das artes e da vida monástica irlandesa anteriores à sua chegada. E o que é pior: a estabilidade criada por Brian Boru veio abaixo com sua morte na Batalha de Clontarf, pois nenhum de seus herdeiros possuía sua força e seu carisma.

A chegada do século XII, tão importante para a formação da Europa moderna, também traria profundas transformações à Irlanda. A começar pela reestruturação da Igreja Irlandesa, por iniciativa do bispo de Armagh, Máel Sechnaill (São Malaquias, famoso por suas profecias). Em conversa com o mais influente personagem do século XII, São Bernardo de Claraval, Malaquias (esq.) queixou-se do ‘retrocesso’ da igreja na Irlanda que, através de monges hereditários (chamados coarbs), resgatara de seu passado celta a agora indesejável - aos cristãos - figura dos fíli (bardos) e brehons (juízes celtas). Nas suas palavras a São Bernardo, “a Irlanda é cristã no nome, mas pagã na realidade”. Como se vê, a essência não costuma morrer com facilidade.

Graças ao contato com São Bernardo e à introdução dos mosteiros da ordem de Cister, São Malaquias reformou o monaquismo irlandês, e a investidura de quatro arcebispos irlandeses finalmente aproximava a Igreja Irlandesa da de Roma. Pode-se enxergar neste ato de “união” o fim da identidade única que caracterizara o cristianismo irlandês dos primeiros séculos: onde antes havia o monge em contemplação da natureza, agora havia o bispo em sua função de ampliar e supervisionar o seu ‘rebanho’; onde antes reinava o apreço pela palavra escrita (fosse ela cristã ou pagã em origem), agora havia a restrição das ordens continentais. E principalmente, onde antes havia a liberdade e a autonomia típica dos celtas, agora brotava o controle imperial e despótico do papa de Roma. O cristianismo irlandês nunca mais seria o mesmo.

E em poucos anos, não só a Igreja mas toda a Irlanda seria totalmente transformada, graças à chegada de outro grupo de invasores: os normandos. E tudo começa com um adultério...

Ostracizado por seus pares após fugir com a esposa de um deles, Diarmuid MacMurchada, Rei do Leinster, atravessou o Mar da Irlanda e desembarcou em Bristol, para pedir o apoio do Rei da Inglaterra em sua busca por vingança. Quis o cruel destino que a sentar-se no trono inglês estivesse um dos mais formidáveis reis da Idade Média: Henry II (dir.).

 

Apesar de entrar para a história como Rei da Inglaterra (título que conquista de fato), Henry II era, na verdade, de sangue normando – os normandos eram parentes dos mesmos vikings que aterrorizaram a Irlanda, mas que se haviam estabelecido no norte da França, na região que passou a ser conhecida como Normandia (terra dos normandos). Um século antes de Henry II, sob o comando de William, “o Conquistador”, os normandos subjugaram os ingleses e fizeram da Inglaterra uma extensão de seu reino na Normandia. Tecnicamente falando, Henry II enquanto “Rei da Inglatera” era, também ali, um invasor, um forasteiro, cuja lealdade estava muito mais voltada à Normandia do que à Inglaterra. Pois bem, é a esse monarca normando que Diarmuid MacMurchada recorre em sua sede de vingança, prometendo lealdade a Henry II em troca de tropas normandas que o reconduzissem ao poder. Um dos barões normandos, Richard de Clare, aceita a proposta de auxiliar Diarmuid em troca da mão de sua filha Aoife e, claro, poder na Irlanda. Richard de Clare, mais conhecido como Strongbow, era um ambicioso duque que, com uma considerável força militar, desembarca em Waterford a 23 de agosto de 1170 na primeira de muitas invasões de ingleses à Irlanda – ironicamente, a convite de um irlandês...

Diarmuid não teve muito tempo para lamentar, pois morreu no ano seguinte. Mas mesmo após morto, continuou a causar problemas à Irlanda. A questão de sua sucessão serviu de oportunidade perfeita para Strongbow, casado com a filha do rei morto, postular o trono do Leinster – e, em total contrariedade às leis e costumes irlandeses, de fato coroar-se Rei. As tentativas irlandesas de reduzir o poder de Strongbow se mostraram insuficientes, tamanha era a força dos guerreiros normandos, então na vanguarda das artes bélicas: suas armas, armaduras e táticas dominaram com facilidade a resistência irlandesa. Richard Strongbow, Conde normando de Penbroke, era agora Rei do Leinster e aspirante ao trono de toda a Irlanda.

A possibilidade de outro rei normando ganhando poder tão próximo da Inglaterra alarmou o próprio Henry II – não tardou para que ele próprio desembarcasse na Irlanda com uma força formidável, para sujeitar não só seu conterrâneo Strongbow, mas de quebra também os reis irlandeses.

Valendo-se do documento forjado conhecido como “A Doação de Constantino”, segundo o qual o último imperador romano “doara” as terras do Império à Igreja de Roma – inclusive as terras por conquistar! -, Henry II recebeu do Papa Adriano IV (ele próprio um inglês) a autorização para “ir à ilha da Irlanda com a finalidade de sujeitar aquele povo” e “reformar o estado espiritual daqueles ilhéus desorientados” – isso pouquíssimo tempo depois da reforma proposta por São Malaquias que, como vimos, aproximava a Igreja da Irlanda a suas equivalentes continentais!

Essa aparente contradição tem duas explicações: a primeira, a deslavada ambição dos reis normandos em expandir seus domínios (eles já haviam conquistado terras até mesmo ao sul da Itália); e a segunda, o fato de que mesmo as reformas de São Malaquias estavam agora em descompasso com a posição cada vez mais totalitária e controladora do Vaticano. Nas palavras dos escritores Peter e Fiona Sommerset-Fry, “os bispos irlandeses sentiam que seu dever era meramente abençoar e ratificar, enquanto que o Vaticano desejava que eles instruíssem, orientassem e governassem” – a Igreja assumia abertamente sua posição imperialista.

Poucos séculos antes, a Irlanda, em isolamento, salvara a Europa das trevas. Agora, um povo europeu estabelecido na Inglaterra impunha à Irlanda suas leis e costumes, ao mesmo tempo em que um Papa inglês impunha ao cristianismo irlandês a padronização e a hierarquia a que tanto se opuseram, por natureza, os irlandeses celtas.

Para sempre as relações entre Irlanda e Inglaterra seriam tensas.

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