Irlanda: 1.Introdução > 2.Celtas (Tara) > 3.Cristianismo > 4.Medievo > 5.Vikings > 6.Normandos >
7.Domínio Britânico > 8.A Grande Fome > 9.Inglaterra: Amor e Ódio >
10.Levante da Páscoa > 11.Irlanda Livre > 12.Partição > 13.Tigre Celta

Irlanda & Inglaterra, Amor & Ódio

As ligações entre esses povos vizinhos são mais profundas do que os séculos de intermináveis conflitos militares, religiosos, políticos e culturais podem fazer supor - a começar pelas origens celtas comuns (para mais sobre os celtas, ver seção correspondente aqui).

Ao norte da Inglaterra situa-se a Escócia, cujo produto mais famoso é o whisky. Poucos sabem que essa bebida, na verdade, é originalmente uma criação irlandesa: a palavra whisky vem do gaélico irlandês uisge, que significa "água". Como, então, um irlandês diferencia a água 'comum' do whisky em seu idioma? Chamando o whiskey de "uisge beatha" - a "água da vida"!

O próprio nome Escócia, na verdade, significa "Terra dos Irlandeses" - a raiz latina "scotum" significa literalmente "irlandês". Isso porque o reino da Escócia surge a partir de colônias de irlandeses do reino de Dal Ríada que, séculos antes, atravessaram o estreito braço de mar que separa as duas ilhas ao norte da Irlanda e lá se estabeleceram, influenciando as tribos locais com sua cultura superior.

É inegável que a Inglaterra deve muito à Irlanda, sobretudo no período medieval, como já vimos - e especialmente no campo da religião e da filosofia: muitas igrejas e mosteiros na Inglaterra foram fundados por monges irlandeses.

Mas o passar dos séculos e as constantes transformações na população das duas ilhas criaram diferenças irreconciliáveis entre ambos - o que não impediu associações importantes, mesmo nos momentos de maior crise.

Irlandeses lutando pela Inglaterra

"É uma curiosa contradição - não muito lembrada na Inglaterra - que durante várias gerações os soldados do exército britânico eram, em sua maioria, irlandeses".
-- Cecil Woodham Smith, historiadora britânica

Costumo dizer que o sangue celta jamais deixará de correr nos irlandeses: a tendência tipicamente celta de lutar em guerras de outros povos é recorrente na história da Irlanda - nas Guerras Napoleônicas, rebeldes irlandeses formaram o "Regimént Irlandaise" e lutaram a favor do imperador francês - contra os ingleses, vistos como inimigos comuns. Mas há diversos exemplos de irlandeses guerreando a favor do poderoso Império vizinho - por lealdade ou opressão, os irlandeses sempre se mostraram valorosos combatentes e são de fato responsáveis pela construção do Império Britânico, seja em situação de paz, quando milhares de operários irlandeses ajudaram a construir ferrovias e a administrar colônias britânicas nos quatro cantos do mundo ou nos campos de batalha nas fronteiras do Império, como veremos abaixo.

Irlandeses dos Connaught Rangers - regimento conhecido como "The Devil's Own", ou seja, "(O Regimento) do próprio Demônio" - foram fundamentais na vitória britânica sobre o Império Napoleônico - aqui, na sangrenta tomada de Badajoz, Espanha.

 

 

 

Soldados do Royal Irish Regiment pausam ao lado das pirâmides, em campanha das forças imperiais britânicas no egito e Sudão.

 

Os irlandeses dos Royal Irish Fusiliers e Royal Dublin Fusiliers mostram sua força no cerco a Pieters Hill, 1900, nas Guerras Boer (África do Sul).

 

 

 

Estes são pequenos exemplos de quão importantes foram os soldados irlandeses para a formação e expansão do chamado Império Britânico. A seguir, uma lista de alguns de seus mais notórios comandantes - todos filhos da Irlanda:

Marechal de Campo Sir Hough Gough (1779-1869)
Um verdadeiro mito do Império Britânico, lutou contra os holandeses na conquista da Cidade do Cabo e contra as Forças Napoleônicas na Espanha antes de entrar para a história com suas campanhas na China e na Índia Britânica. Adorado por seus comandados, Gough costumava trajar um casaco branco em batalha - para ser facilmente visto ao atacar o inimigo.

 

 

Visconde Sir Garnet Woseley (1833-1913)
Nascido nas cercanias de Dublin numa família de passado militar, Woseley alistou-se cedo e logo tomou parte nas constantes guerras de sua época na distante Birmânia, onde de imediato mostrou sua coragem, ao comandar, na tenra idade de 20 anos, um pelotão no assalto de Myat Toon. Posteriormente, seu espírito de comando o levaria a vitórias na Criméia, na China e na Índia. Sempre um profissional da arte da guerra, Wolseley saiu em licença para, em 1862, poder "assistir" à Guerra Civil norte-americana! Voltaria à América do Norte para suprimir revoltas no Canadá, e ainda participaria de muitas batalhas na África, no Egito e no Sudão. Sua brilhante carreira foi coroada com a indicação pela Rainha Vitória para o posto mais alto do exército britânico - o de comandante-em-chefe. Deixou como legado uma importante literatura militar que revolucionou as táticas da época.

Conde Herbert Kitchener (1850-1916)
Talvez o último general do período "romântico" e seguramente o último grande militar do Império Britânico, Horatio Herbert Kitchener, nascido no Condado de Kerry de um pai militar, frequentou a escola militar de Snadhurst e era um exímio estrategista e cartógrafo. Serviu nos conflitos no Egito, Sudão, na África do Sul e na Índia, e foi um dos principais nomes das forças birtânicas no início da Primeira Guerra Mundial. Era conhecido por sua ferocidade em combate, e seu carisma e retidão de caráter fizeram dele um verdadeiro ícone na campanha pelo alistamento das tropas britânicas para a Grande Guerra.


Essa disposição de lutar a favor do Império Britânico mudaria exatamente no ano da morte de Kitchener. Um velho ditado já dizia, "a dificuldade da Inglaterra é a oportunidade da Irlanda". Diante do envolvimento crescente da Grã-Bretanha com a I Grande Guerra, um pequeno grupo de irlandeses - um deles, um ex-soldado britânico - tentaria aproveitar o momento para mudar o destino da Irlanda. De uma forma ou de outra, eles conseguiram.

Segue para 1916 - O Levante da Páscoa

Topo

 

| Blog | Mapa do Site | Contato |

© 2008 - Claudio Quintino Crow – Conteúdo do site registrado na Biblioteca Nacional – Lei Federal 9.610/98.
Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor.