Irlanda:
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O Nascimento da IrlandaOutrora ligada à Grã-Bretanha e ao continente europeu por uma "ponte" de terra, a Irlanda tornou-se uma ilha após o final da Era Glacial, por força da elevação dos níveis das águas marinhas. Como se pode supor, o clima de então era bastante frio, e as espécies animais e vegetais que se desenvolveram na região nesse primeiro instante eram típicas das áreas mais frias. Foi somente com o gradual aquecimento do clima que outras espécies, mais adaptadas a climas temperados, migraram para a Irlanda - entre elas, os primeiros humanos. Esses 'imigrantes' primitivos formam a primeira manifestação da alma irlandesa. Os Primeiros Humanos Vestígios tênues de ocupação humana na Irlanda remontam ao período mesolítico, cerca de 10.000 anos atrás. Eram caçadores-coletores que atravessaram os braços de mar que já então separavam as Ilhas Britânicas do continente europeu. O que teria levado esses pequenos grupos de aventureiros a essa aventura só podemos especular - mas podemos afirmar que eram pequenas comunidades ainda sem conhecimentos agrícolas, que viviam da caça de animais pequenos, porcos selvagens, aves e peixes, estabelecendo-se em grupos de tendas simples e espalhados escassamente pelo território irlandês. A esta altura, porém, as terras irlandesas já abrigavam indivíduos de outra espécie, talvez tão importante quanto a humana a julgar por sua presença constante nos mitos e lendas da Irlanda através das eras: as Árvores. As verdadeiras Pioneiras da Irlanda
Os Primeiros Fazendeiros e as Maravilhosas 'Catedrais' Pré-Históricas Antes da chegada dos primeiros povos neolíticos à Irlanda, os habitantes primitivos deixaram pouquíssimos registros de sua presença - como mortais nos nossos primeiros anos de vida, a Irlanda tem poucas memórias de sua infância. Mas esse cenário muda dramaticamente em meados do quarto milênio a.e.a. com a primeira onda de derrubada de árvores em grande escala, para a criação de plantações e pastagens por uma cultura recém-chegada. Esse povo trazia consigo as evoluções de mais de três mil anos de técnicas de deflorestamento e plantio, desde o surgimento da agricultura, no Oriente Médio. É aqui que a Irlanda recebe mais dois de seus mais ilustres e mitológicos habitantes: os suínos e os bovinos, trazidos pelos fazendeiros neolíticos - esses animais virão a ser centrais em muitas das sagas e lendas dos celtas da Irlanda, como os importantes "Táin Bó Cuailgne" ("O Roubo do Gado de Cooley") e "Scélla Mucce Meic da Thó" ("A História do Porco de Mac da Thó"): gradativamente, o espírito da Irlanda vai ganhando forma diante de nossos olhos.
Reconstrução
de casas neolíticas Mas as maiores contribuições do período neolítico para a formação da identidade da Irlanda surgiriam algum tempo depois: as estruturas megalíticas de Brú na Bóinne (Newgrange), Dowth e Knowth, no Vale do Rio Boyne. Newgrange, aliás, é tão impressionante em sua grandiosidade e magia que merecerá atenção especial, num capítulo à parte.
Ao vistar
estruturas desse porte, dessa magnitude e de tamanha precisão matemática
e astronômica, percebemos que seus construtores dispunham de um
dos mais mágicos ingredientes que uma pessoa pode encontrar em
sua vida: senso de propósito. Ao tocar as imensas pedras que compõem
a galeria interior de Newgrange, ali posicionadas há praticamente
seis mil anos, tive por seus idealizadores e executores um respeito e
uma admiração que me trouxeram lágrimas aos olhos.
Basta imaginar uma verdadeira montanha artificial projetada e construída
por pessoas de forma que a entrada de sua galeria interior esteja perfeitamente
alinhada ao nascer do sol num dos mais significativos dias para praticamente
todos os povos da Antigüidade - o Solstício de Inverno,
a noite mais longa do ano, em que as forças da luz e da vida começam
a retornar e a derrotar a escuridão e o frio. Não bastasse
Newgrange, não muito longe dali temos a ainda maior estrutura de
Knowth, sem contar os inúmeros dolmens, cairns e colinas ocas espalhadas
por praticamente toda a Irlanda. Essas estruturas são os equivalentes
neolíticos das catedrais góticas erigidas na Idade Média
na Europa continental - ambas causam maravilhamento por sua grandiosidade,
pelo senso de própósito de seus construtores e pelo profundo
componente espiritual que motivou suas construções - envolvendo
centenas, talvez milhares de pessoas ao longo de vastos períodos
de tempo para que suas crenças e anseios dotassem a paisagem de
uma forma ao mesmo tempo divina e mundana - como tudo na Irlanda, aliás. Círculo de Pedras de Drombeg, Co. Cork Esses monumentos megalíticos são o testemunho silencioso dessa cultura que tão bem trabalhava a terra, domesticando e criando animais com grande sucesso, interagindo com a paisagem em que vivia, transformando-a, sacralizando-a. Desde a mais remota Antigüidade, as terras da Irlanda sempre se mostraram plenas de vida e magia aos humanos que sobre ela caminhavam.
Túmulo megalítico de Carrowmore, Sligo |
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