Alma
Celta - Legado Espiritual
De certa forma, o druidismo é a soma dos conceitos religiosos,
artísticos, intelectuais, sociais e científicos dos celtas
antes da chegada do cristianismo.
- Jean Markale
Um dos mais prolíficos
e influentes autores sobre a espiritualidade celta, o francês
Jean Markale nos oferece, na frase acima, um bom panorama da riqueza
que caracteriza a Alma Celta. Seu resgate jamais pode se limitar somente
à tentativa de se reproduzir rituais ou mesmo compilar as crenças
dos celtas da Antiguidade; muito mais do que isso, o resgate da Alma
Celta implica em recuperar a visão espiritual e religiosa dos
celtas; a inspiração artística e intelectual que
eles despertam; e os valores sócio-culturais que regiam suas
vidas. Com isso em mente, não podemos deixar passar desapercebida
a palavra “soma” na frase de Jean Markale: por ser a soma
desses conceitos, o druidismo não pode ser reduzido a somente
um deles - qualquer que seja.
A informação
é clara: o druidismo não é ‘apenas’
uma religião, tampouco é ‘apenas’ uma forma
de ver, pensar e expressar o mundo, ou ‘somente’ um estilo
de vida: é a soma de tudo isso. A mesma informação,
por um outro prisma: a percepção do druidismo como somente
uma senda espiritual é apenas uma forma de se deixar inspirar
pela Alma Celta. É a partir dessa percepção mais
completa e, portanto, mais próxima da espiritualidade celta original,
que exploraremos a rica herança da Alma Celta em nossos dias.

Assim como a essência
de religiões como o hinduismo, o judaísmo e o próprio
cristianismo evoluíram ao longo dos séculos – muitas
vezes assumindo múltiplas manifestações simultâneas
-, também a Alma Celta vem se transformando com o passar
do tempo, mantendo-se viva, ativa, válida e inspiradora.
Pode-se dizer que o druidismo moderno é um reflexo atualizado
das crenças e percepções dos druidas históricos
de séculos atrás. Apesar de não possuir “escrituras”
sagradas, o estudo das diversas fontes históricas sobre os celtas
e suas crenças são subsídios suficientes para a
recuperação dos valores éticos e espirituais do
druidismo – claro, sempre adequados à nossa realidade.
É justamente essa
ausência de escrituras, aliás, que permite ao druidismo
adaptar-se aos tempos e mudanças sociais, mantendo-se sempre
atual, válido e transformador. Nas palavras de Emma Restall Orr,
“é evidente que as práticas do druidismo moderno
são diferentes das do druidismo de dois mil anos atrás
– afinal, se assim não fosse, essas práticas hoje
seriam ilegais, imorais e, principalmente, ineficazes”.
Isto posto, veremos agora
alguns elementos consensuais que formam o conjunto de crenças
do druidismo da Antigüidade e que, de uma forma ou de outra, influenciam
as modernas manifestações da espiritualidade celta.

O Divino
O conceito de um deus ou
uma deusa único não encontra respaldo no druidismo histórico.
Há tentativas modernas de se enxergar um monoteísmo nas
crenças druídicas – notadamente nalgumas vertentes
do moderno druidismo francês e no espiritismo kardecista;
essas tentativas, contudo, esbarram nos registros históricos
que dão conta de que os celtas prestavam culto a incontáveis
(literalmente) deuses e deusas. Pelos mesmos motivos, também
a afirmação - recorrente em meios neo-pagãos -
de que “os celtas cultuavam a Grande Deusa” é equivocada
e não encontra respaldo no estudo da espiritualidade celta histórica.
Portanto, é seguro
afirmar que os celtas históricos eram politeístas,
ou seja: criam em diversos deuses e deusas (ver Mitologia Celta
na seção "Mitos & História").
Isto porque o conceito de deidade do ponto de vista celta é muito
diferente da visão da moderna sociedade judaico-cristã:
um deus ou uma deusa celta não são distantes, não
moram nas nuvens ou num “Paraíso remoto”; nem são
“onipresentes, oniscientes e onipotentes”. Os deuses
e deusas celtas são as próprias forças da Natureza.
Há mesmo alguns autores modernos que hesitam em utilizar os termos
“deus” e “deusa” para se referir
aos seres divinos do universo mitológico celta: e de fato, quando
comparados a seus equivalentes noutras culturas, as deidades celtas
são bem diferentes.
O resgate dessa percepção
da esfera divina como algo imanente e presente em nossa própria
realidade é uma preciosa contribuição
para auxiliar no estabelecimento de uma nova relação entre
a alma do mundo ocidental e a Natureza que nos cerca. Ao ver a paisagem
imbuída com a presença divina, a Alma Celta resgata uma
das mais marcantes caracaterísticas das espiritualidades nativas
de todo o mundo: o Animismo.

Animismo
Para a Alma Celta, tudo
que existe é dotado de alma. Obviamente não se
trata do conceito de ‘alma’ como o espírito de alguém
falecido, um fantsma, “encosto” ou “obsessor”.
A alma presente em tudo que existe pode ser descrita como sua energia,
a sua identidade intrínseca. Assim, cada característica
da natureza – um rio, uma montanha, um lago, uma floresta, a chuva,
os ventos, o trovão, as estações do ano –
tudo isso possui, do ponto de vista celta, um espírito próprio,
com o qual é possível estabelecer um diálogo,
uma relação, um contato – de alma para
alma. A esse princípio damos o nome de ANIMISMO: reconhecer a
presença da alma (anima em latim) em tudo que existe.
Se algo tem alma, é vivo; se é vivo, é sagrado.
Se é sagrado, é divino. Se é divino, é dos
deuses.
Numa cultura como a nossa,
em que muitos hesitam em reconhecer a presença de alma em outros
animais (por si só, uma contradição lingüística)
e em que a principal religião moderna reconheceu somente no século
XIX que mulheres tinham alma, absorver o conceito do animismo é
um enorme desafio. Os benefícios de assim fazer, contudo, são
muitos – num nível pessoal e coletivo.
A percepção
animista da espiritualidade celta é facilmente identificada nos
textos que relatam as crenças e práticas do druidismo
histórico, e não deixa dúvidas sobre a natureza
xamânica das práticas druídicas (ver abaixo).

A Alma: Uma Visão Celta
A
percepção celta não atribui limites de espaço
ou tempo à alma.
Não existe "prisão da alma". A alma é
a luz divina que flui em você e em seu Outro.
- John O'Donohue
Um dos mais belos conceitos da espiritualidade celta é o que
trata da natureza da alma: para os celtas, a alma de um indivíduo
é a manifestação temporal de uma consciência
maior e impessoal, que é o conjunto de todas as almas. Essa alma,
segundo os druidas, é indestrutível, como o próprio
espírito do universo. Ao descrever a profunda filosofia druídica
a respeito da alma, os autores gregos demonstravam espanto em identificar
num povo “bárbaro” ensinamentos comparáveis
aos do grande filósofo Pitágoras.
É através
desses textos clássicos que a doutrina druídica da alma
é descrita como semelhante à metempsicose pitagórica
– a crença de que a alma de um indivíduo pode ‘migrar’
para qualquer outra criatura no pós-morte. Isso foi confundido
com a teoria da ‘reencarnação’, e equivocadamente
muitos descrevem o druidismo como reencarnacionista. Os conceitos modernos
da reencarnação implicam num constante processo evolutivo,
que em teoria um dia se encerra. Num universo infinito, nada pode se
encerrar, tudo deve se transformar e reciclar. Ademais, o conceito moderno
de ‘evolução’ espiritual pressupõe
uma “hierarquia”, em que uma espécie ou indivíduo
é ‘superior’ a outro (sem o que não haveria
‘evolução’). Desse conceito equivocado surge
o “especismo”, preconceito entre espécies, para o
qual um determinado ser é mais evoluído do que outro.
Este é um conceito tão danoso e equivocado quanto o racismo.
Afirmar que um ser é
superior a outro é o mesmo que afirmar que uma raça é
superior a outra – mais do que isso, é ignorar o fato de
que, para o universo, um ser humano, uma bactéria e um átomo
de hidrogênio têm todos a mesma importância na grande
rede da existência.
Por outro lado, quando compreendemos
que os celtas criam que a alma de um ser humano poderia renascer (diferente
de reencarnar) noutra criatura, reforçamos a percepção
de que tudo na paisagem é sagrado, dotado de vida – como
vimos acima. Por fim, essa percepção nos põe em
grau de igualdade e parentesco com todas as criaturas do mundo no qual
vivemos – sejam elas a nossos olhos animadas ou não. E
‘animado’ significa “possuidor de alma”,
de espírito, divino – como os rios das terras celtas, manifestações
físicas de deusas.

Druidismo
e Xamanismo: Elementos comuns
Querer
separar o xamanismo do druidismo é desdenhar do xamanismo, como
se este fosse mera bruxaria. Nas palavras de Mircea Eliade, o mais destacado
estudioso da área, "o xamanismo é a mais valiosa
experiência das religiões arcaicas" e suas práticas
rituais originadas de crenças profundas
e pensamento metafísico geralmente possuem a mesma precisão
e nobreza
das experiências dos grandes místicos do Oriente e do Ocidente."
- Jean Markale
Em “O
Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase”,
obra seminal do historiador romeno Mircea Eliade, o autor afirma que
“desde o início do século XX, os etnólogos
se habituaram a utilizar como sinônimos os termos xamã,
‘medicine-man’, feiticeiro e mago para designar certos indivíduos
dotados de prestígio mágico-religioso encontrados em todas
as sociedades “primitivas”. Por extensão,
aplica-se a mesma terminologia ao estudo da história religiosa
dos povos “civilizados” e fala-se, por exemplo, em xamanismo
indiano, iraniano, germânico, chinês e até babilônico
para referir-se aos elementos ‘primitivos’ encontrados nas
respectivas religiões.”
Assim, apesar
de strictu sensu o termo “xamã” só
ser correto quando designa um curandeiro/mago das tribos siberianas,
atualmente essa palavra transcende os limites de sua origem e descreve
as crenças encontradas em praticamente todas as espiritualidades
do mundo. Ao estudar as práticas espirituais de diversos povos
‘primitivos’ ao redor do globo, Eliade identificou alguns
pontos comuns que tornam possível descrever uma certa religião
como xamânica: o animismo, já mencionado
acima; o totemismo – a crença na existência
de espíritos que, na forma de animais, orientam, protegem, ensinam
e curam; a reverência aos ancestrais como guardiões
e instrutores da tradição espiritual; o êxtase
ritual como ponte de acesso ao Divino.
As lendas
e mitos que nos chegam de diversas terras celtas atestam a existência
desses elementos no cerne das práticas e crenças dos povos
celtas – não só entre os druidas, mas também
entre guerreiros, reis, poetas e representantes de outras camadas da
sociedade celta, o que reforça a idéia de que esses conceitos
eram comuns a todos – e não restritos a uma determinada
categoria de indivíduos.

Alguns exemplos:
além de rios vistos como entidades vivas e possuidoras de espíritos
sagrados, também objetos como espadas, caldeirões, portões
e casas surgem nas narrativas celtas como dotados de vida própria,
caracterizando Animismo; diversas deidades e figuras míticas
recebem nome (Cuchulainn, Badbh), proteção ou instrução
(Fionn, Fintan, Macha) de animais, alguns chegando a assumir suas formas
(Morríghan, Sadbh, São Patricio), caracterizando Totemismo;
a reverência aos Ancestrais surge nas figuras do Falcão
de Achill, em Fintan e muitos outros; e práticas como a misteriosa
imbas forosnai dos druidas irlandeses, o furor de combate de
Cuchulainn e a iluminação obtida por Fionn ao sugar seu
próprio polegar implicam em estados alterados de consciência
– ou êxtase ritual.
Para muitas
pessoas, o termo ‘xamanismo’ evoca idéias de povos
‘primitivos’ e rituais bizarros. Um estudo mais aprofundado
das crenças e técnicas xamânicas revela que elas
são facilmente encontrados até mesmo nas religiões
monoteístas institucionalizadas. Isso é importante para
eliminar o preconceito nutrido pelo desconhecimento: afinal,
preces, arrebatamentos, mantras e cânticos são formas de
êxtase ritual tanto quanto os estados alterados de consciência
produzidos pela ingestão de alguma substância psicotrópica
nalgum culto dito ‘primitivo’.

Alguns estudiosos sugerem que os entrelaçados celtas surgiram
como
representações de visões de transes místicos
ou mesmo como
imagens capazes de induzir a estados meditativos, como os yantras indianos.
No universo da espiritualidade
celta, os relatos que nos chegam pelas lendas e mitos descrevem diversas
dessas práticas e crenças xamânicas com naturalidade,
ou seja: os narradores e redatores das lendas aceitavam a realidade
e, especialmente, a validade dessas técnicas. Ao estudar o xamanismo
presente nas lendas celtas, Jean Markale afirma que,
para o xamâ,
“O
principal objetivo é retornar do Outro Mundo - daí a prudência
dos xamãs que nunca se aventuram a sós nas regiões
proibidas. No início eles são sempre acompanhados por
um xamã mais experiente, que age não só como guia
mas também como protetor. Somente os heróis predestinados
e os xamãs experientes conseguem cruzar a ponte impunemente para
em seguida retornar. As técnicas para a travessia são
extremamente variadas: os sonhos são uma forma, o delírio
outra, o orgasmo outra mais. (...) Tais conceitos são comuns
no universo celta, assim como em outras culturas indo-européias.
O furor divino, o "frenesi" de certos heróis gregos,
o nome do proeminente deus-xamã Odin-Wotan, a fúria do
complexo personagem irlandês Fergus (cujo nome se origina em ferg,
"fúria, potência"), o calor interior de Cuchulainn
- todos remetem ao mesmo tema.”
Trocando
em miúdos, enquanto conjunto de técnicas e conceitos,
o xamanismo consiste na obtenção de uma percepção
diferenciada da realidade, um novo ponto de vista, que é obtido
através do transe ou êxtase ritual, para que o praticante
possa, munido dessa nova percepção, enxergar a realidade
sutil por trás dos fatos, compreender nesse estado de arrebatamento
a natureza da questão que motiva a ação xamânica
e, em seguida, retornar com a resposta e/ou o curso de ação.
A informar todo o processo, a essência xamânica é
a crença na sacralidade da vida e da possibilidade de comunicação
e real compreensão com o mundo sutil.
Para
entender a importância do xamanismo em nossos dias, leia os artigos
“A Resposta Xamânica”, de autoria de K. Lauren de
Bôer, e Uma Espiritualidade para Salvar a Terra, de Cláudio
Quintino Crow ambos na seção “ECO-ESPIRITUALIDADE”

Espaço
Sagrado
A manifestação divina está em toda
parte, nossos olhos é que não estão abertos para
ela.
O maravilhamento é a força que nos impele adiante.
- Joseph Campbell
Com isso em mente, podemos entender a real natureza dos deuses e deusas
celtas: eles são os espíritos que habitam nosso mundo,
dando-lhe forma e interagindo conosco. Um sinal inequívoco dessa
visão está preservado até hoje na toponímia
de diversos rios em terras celtas: o rio Shannon, na Irlanda, deve seu
nome à deusa Sionann; na Escócia, o Clyde é a manifestação
física da deusa Clótha; na Gália, a deusa Sequana
é quem anima (animar = “dar alma”) o rio Sena –
e assim por diante. Diversas montanhas, florestas, nascentes e lagos
das paisagens celtas refletem a mesma crença de que a paisagem
é povoada por poderosos espíritos da natureza –
em outras palavras, deuses e deusas.

A
Espiritualidade Celta nos lembra que não vivemos somente de nossos
pensamentos, sentimentos ou relações.
Nós pertencemos à terra. Os ritmos da terra e suas estações
vibra em nossos corações. O sol aquece a terra e propicia
a vida.
A lua abençoa a noite. No mundo simplificado da Espiritualidade
Celta, há uma percepção clara do sacramento da
Natureza que gera a presença visível.
– John O’Donohue
Ruínas
do Mosteiro de Clonmacnois, Irlanda:
Um dos primeiros mosteiros cristãos da Irlanda, Clonmacnois foi
fundado por São Ciáran às margens do rio Shannon
– prova de que os primeiros cristãos reconheciam a energia
do local como sagrada. Afinal, para os celtas os rios são sagrados,
pois deles depende a saúde de toda a comunidade das áreas
vizinhas. O Rio Shannon recebe o nome da deusa celta Siónann
- para os celtas, o rio era a própria deusa que os mantinha vivos.
Que diferença faria para nossos modernos rios urbanos se essa
visão fosse restaurada...
Essa sacralização
da paisagem é um dos principais atrativos que a Alma Celta oferece
a nossos tempos: resgatar essa visão num nível mais amplo
e coletivo seguramente criará uma nova consciência
para as relações do ser humano com a natureza.
Impossível,
do ponto de vista celta, observar a degradação do meio-ambiente
sem sentir que um rio poluído é um ser divino que sofre
e que morre, matando por conseqüência todas as criaturas
que dele dependem – inclusive os humanos. Essa percepção
enquadra-se com perfeição no conceito de uma “Espiritualidade
Verde”, alinhada com a visão de uma nova sociedade
proposta pelo geólogo Thomas Berry em seu projeto
para a Sociedade Ecozóica.
Clique
na seção "Eco-Espiritualidade"
do menu acima e acesse as traduções por mim feitas de
importantes textos sobre a Sociedade Ecozóica - esse pensamento
revolucionário que fomenta o desenvolvimento de uma nova consciência
de vida, seja no plano individual e coletivo, mental e espiritual, filosófico
e das ações. Numa época em que o aquecimento global
é uma ameaça real ao nosso futuro, é fundamental
que desenvolvamos uma espiritualidade de vanguarda, ativa, transformadora.
O mundo não nos foi dado para com ele fazermos o que bem entendermos:
não somos seus servos, nem tampouco seus guardiães. Ao
contrário, nós somos parte desse mundo, dele dependemos
e com ele interagimos constantemente. E essa interação
deve ser honrosa, reconhecendo-se o espírito e a sacralidade
da Paisagem.
Afinal,
nossa interação com o mundo em que vivemos é justamente
a força que forma e transforma esse mundo.
Templo onde estiver
Os celtas realizavam seus cultos em bosques, no mundo natural, atraídos
pela silenciosa divindade dos locais silvestres. Certas nascentes, árvores,
animais e aves lhes eram sagrados. Saber onde e o que um determinado
povo cultua indica sua percepção da fonte da vida. O Deus
cristão é acessado através das idéias, das
palavras e dos rituais: os celtas não circundavam seus cultos
com paredes. Estar em contato com a Natureza já bastava para
pô-los em contato com a Presença Divina.
A natureza era o teatro das diversas dramaturgias da imaginação
divina.
– John O’Donohue
O fato de os druidas históricos não construírem
templos é explicado justamente por sua crença de que nenhuma
estrutura erguida por mãos humanas é tão sagrada
quanto a Natureza em que vivemos. Os druidas da Idade do Ferro celebravam
seus rituais em bosques sagrados, chamados de “Nemetons”:
essa palavra de origem gaulesa significa literalmente “bosque
sagrado” (e hoje também designa grupos druídicos
modernos que se reúnam regularmente para celebrar seus rituais).
Uma das prováveis origens para o próprio termo druida
aponta para o significado "aquele que tem a sabedoria do carvalho"
- ou seja, aquele que conhece a magia do passar das estações
do ano, metáforas para nossa vida.
O equivalente
irlandês para o termo Nemeton é Fidnemed,
‘bosque sagrado’. A compreensão do real
significado de se ganhar acesso ao sagrado a partir de um determinado
local ganha mais força quando lembramos que a palavra para designar
o “Céu”, no sentido de “morada divina,
paraíso” é Nem –
a mesma raiz linguística presente em Nemeton e Fidnemed.
Para um druida, o local onde ele se põe em contato como sagrado
é uma reprodução terrena do Outro Mundo –
o mundo dos espíritos.

Bosque de teixos em Reenadinna Woods, Killarney,
Irlanda
Todas as terras são, obviamente, sagradas, e parte de nosso trabalho
hoje é recordarmo-nos
da
sacralidade da Terra – uma terra que foi dessacralizada.
- Philip Carr-Gomm, The Druid Way

Tempo Sagrado
Os registros
de autores clássicos e também a etnografia das terras
celtas constituem um rico manancial de informações acerca
da natureza dos rituais celtas de outrora. Atualmente, a observação
desses rituais é resgatada pelos modernos grupos druídicos
e reconstrucionistas, mas sua sobrevivência também é
encontrada em muitas práticas cristianizadas, notadamente na
Irlanda.
Quando a Imaginação Celta ergueu seus olhos, ela buscava
por significados e por padrões de existência. Ela percebeu,
nos ritmos e padrões de estrelas, do sol e da lua, toda a ordem
do universo.
- John O’Donohue
As datas sagradas dos celtas estão em sua origem associadas às
estações do ano, cada qual contendo temáticas e
mitos que promovem a compreensão dos ciclos da vida –
nascimento, apogeu, declínio, morte e renascimento –
em diversos níveis: nas estações do ano, na paisagem,
no dia-a-dia, em nossos projetos, relacionamentos e na nossa vida como
um todo. Compreender a fundo o simbolismo mágico dos festivais
celtas requer estudo e vivência, mas é uma experiência
transformadora, que traz um novo significado à vida de cada indivíduo
e transforma sua visão do mundo - e do papel de cada um neste.

"Four
Seasons", por Hillary Luetkemeyer
A sobrevivência
dos festivais sagrados dos celtas pode ser atestada na literatura medieval,
no folclore das terras celtas e nos achados arqueológicos. Essas
fontes revelam quatro festivais principais: Samhain, Imbolc,
Beltaine e Lughnasadh, e sua
ordem e simbolismo apontam para uma percepção não-linear
do tempo, ou seja: dias, estações e anos se sucedem em
perfeita e harmoniosa ciclicidade.
Quando compreendemos
que não há inverno, por mais frio e tempestuoso que seja,
que não traga a primavera; quando percebemos que não há
noite, por mais escura e longa que seja, que não traga a aurora;
então estamos prontos para entender que não há
morte ou fim, por mais triste e doloroso que seja, que não traga
um renascimento e um recomeço. Micro e macro em perfeita harmonia,
a Vida como círculos concêntricos e interligados: um dia,
um ano, uma vida, a eternidade; um indivíduo, uma coletividade,
um ambiente, um Universo. A vivência dos festivais celtas através
da chamada "Roda do Ano" nos traz de novo a magia de viver
em integração com a paisagem que nos rodeia, e a compreensão
da ciclicidade mostra, como bem sabem os que vivem em contato íntimo
com os ritmos da Natureza, que há um tempo certo para tudo -
reduzindo nossa ansiedade, ensinando-nos a aproveitar os fluxos da vida
e a viver melhor celebrando a Vida.
Clique aqui para Celebrar a Vida através da Roda
do Ano

Cosmovisão: Um Olhar Celta sobre o Universo
Universo
em Criação
No
eterno vir a ser, que parece ser a concepção druídica
do mundo, não se pode voltar atrás. Ao contrário,
é necessário ir adiante, e a renovação e
o rejuvenecimento estão à frente, e não atrás.
- Jean Markale
Uma das características
mais marcantes dos mitos celtas é a ausência de
cosmogênese – não há um relato da
criação e início do universo: isto porque, em última
análise, o universo não foi criado: ele vem sendo criado
através das eras, pelas ações transformadoras do
tempo, das intempéries e das criaturas – inclusive, nós.
Esta visão nos devolve a responsabilidade pelos nossos
atos, tanto individuais quanto coletivos. Joseph Campbell nos
diz que "sua vida é o resultado de suas próprias
ações. Não há ninguém a culpar, a
não ser você mesmo", e é por isso que
a Alma Celta hoje não se limita a ser somente uma filosofia ou
uma religião, mas é também um modo de vida para
o qual a preservação e restauração da natureza,
os direitos dos outros animais, o consumo consciente de produtos e recursos
e a vida ética são práticas fundamentais.
Micro
x Macro: chave do pensamento celta
Em nossos
tempos, a base da sociedade é o indivíduo: é comum
ouvirmos que cada um deve ser respeitado em sua "individualidade"
ou que temos de preservar os "direitos individuais"; produtos
são vendidos em porções "individuais"
e a competitividade artificalmente embutida no universo profissional
faz com que todos pensem em si sem pensar no coletivo. Do trabalho para
a coletividade e até para o seio da família é somente
um passo curto, mas devastador para as relações pessoais.
Isso simplesmente
não tinha espaço na Sociedade Celta. NO seio da tuath,
a tribo, cada pessoa tinha a sua liberdade assegurada de acordo com
sua condição pessoal, mas acima de tudo estavam os interesses
comuns da tribo. O Corus Bescna, um texto
legal produzido na Irlanda Medieval, afirma que "É um
dos deveres da tribo oferecer apoio a cada membro da tribo, e isso a
tribo faz quando nas condições ideais. Os deveres de um
indivíduo para com sua tribo são: que aquilo que ele não
comprou ele não venda; que ele não cause ferimento; nem
deseje ferir ou trair". Ou seja, a tribo, como entidade-nase
da sociedade, é responsável pelo bem estar de cada indivíduo
dentro de suas possibilidades. Em contrapartida, as ações
do indivíduo não podem desrespeitar os interesses da tribo
como um todo.
Do ponto
de vista celta, cada pessoa é uma parte vital de sua tribo, como
um órgão de um organismo. A relação entre
ambos é de interdependência: um não existe sem o
outro e o desequilíbrio de um implica no desequilíbrio
do outro. Da mesma forma, e até pela inter-relação
de almas que o princípio anímico da Alma Celta propõe
(ver "Animismo" acima), a relação do indivíduo
com a sua comunidade amplia-se para a relação entre essa
comunidade e a paisagem em que vivem. Essas relações são
variações de um mesmo tema, em micro- e macro-níveis,
como fica claro na compreensão pelos celtas irlandeses do simbolismo
da Colina de Tara para a Alma da Irlanda. (link)
A
ação individual é parte da ação global:
pelo pensamento celta, estamos todos interligados - algo que, graças
a teorias modernas como o Pensamento Sistêmico e a Física
Quântica, somente agora a mentalidade ocidental parece capaz
de compreender/recordar. Isso determina que quem se identifica com a
espiritualidade celta deve ter consciência de seus atos, das causas
e conseqüências, das origens das coisas e pensamentos, das
interconexões. Em resumo: trata-se de um caminho de consciência
e responsabilidade, que nos mostra qual o nosso papel dentro do Universo.
Parece pretensioso
e distante da realidade, mas é mais simples do que se pode imaginar.
Ao afirmar que “o objetivo da vida é fazer com que
o pulso de seu coração entre em harmonia com o pulso do
universo, alinhando a sua natureza individual com a Natureza”,
o grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell ecoou com precisão
a essência da espiritualidade celta que, com sua profunda compreensão
da Natureza, oferece a cada um de nós a chance de viver melhor
a partir do re-entendimento da qualidade de nossa relação
com o mundo.
O Universo
Celta
Como praticamente
todos os povos de origem indo-européia, os celtas viam o universo
composto por três níveis de realidade: um mundo
superior; este mundo intermediário; e um mundo inferior - todos
interligados de forma harmônica, entrelaçados como num
‘knotwork’ celta. Uma vez que o druidismo é
uma filosofia que preza o equilíbrio e não o conflito
entre os extremos, não existem conceitos como bem ou mal absolutos:
portanto, não existem “Paraíso” ou “Inferno”.
O que existe é a percepção do ‘mundo médio’
– o universo fenomenológico em que vivemos – e o
Outro Mundo, o mundo sutil, espiritual, divino.
'Terra dos Abençoados': Visões Celtas
do Outro Mundo
Seja na forma
de ilhas a oeste das terras celtas, seja na forma das ‘colinas
ocas’ da paisagem britânica, o Outro Mundo Celta é
sempre descrito como um local paradisíaco, habitado por deuses
e deusas, heróis e heroínas, onde não há
inverno nem tempestades e há fartura e alegria. O Outro
Mundo é o reflexo da perfeição, e é
dever do druida viajar ao Outro Mundo em busca dessa perfeição
para aplicá-la neste mundo. Essa é a característica
do druida como xamã, o ‘caminhante entre mundos’
que conhece a realidade do “Paraíso” e aplica-a em
nossa realidade, promovendo a cura e a harmonia.
Quer dizer
então que é possível viajar ao Outro Mundo em vida?
Para a Alma Celta, sim. Os mitos e lendas celtas nos mostram que diversos
heróis e heroínas fizeram a ‘perigosa travessia’
que os levou ao Outro Mundo transformando-os para sempre. Através
das aventuras de Arthur e seus companheiros nas lendas galesas, bem
como as Imramma ("viagens por mar") irlandesas, embarcamos
em verdadeiras jornadas xamânicas para Avalon / Inis Afalach (a
‘Ilha das Macieiras’), ou Hy Brasil, a ‘Ilha dos Abençoados’.
O
Vaso da Perfeição
Poucos conceitos
são tão celtas em sua essência quanto "A Busca
pelo Graal": seja na forma de um Cálice, como na mais conhecida
literatura arthuriana medieval, seja como um Caldeirão no Outro
Mundo nas lendas galesas originais, ou ainda na forma das fontes e nascentes
irlandesas, o Graal é o Recipiente Mágico de onde jorra
a Vida e a Inspiração. Alocado em terras sagradas no Outro
Mundo - Avalon, Hy Brasil ou Annwn - o Cálice
Sagrado ou o Caldeirão Inesgotável da Fartura é
o recipiente que contém o néctar transformador e restaurador
da Vida. Encontrar o Graal e dele beber é a metáfora perfeita
para a filosofia celta.

'A Donzela do
Graal' - Dante Rossetti
O
Outro Mundo e Nossa Realidade
Na
verdade, há momentos em que os mundos estão tão
próximos que parece
que
nossas coisas terrenas não passam de sombras das coisas do além.
- WB Yeats, The Celtic
Twilight
É
consenso que o Outro Mundo celta está próximo a este,
ou mesmo a este mesclado. Mas engana-se quem crê que isso facilita
o contato com o Outro Mundo. Ao contrário, essa proximidade –
maior do que se imagina – é justamente o que dificulta
o acesso ao mundo espiritual: afinal, o Outro Mundo celta não
está num ponto geográfico determinado. Como bem lembra
John Carey, “existem múltiplos outros mundos irlandeses,
localizados em lugares específicos, tanto no subterrâneo
quanto em ilhas. O Outro Mundo é uma abstração
moderna”. Se o Outro Mundo é uma abstração,
não é a movimentação física que nos
leva até ele: mais que um local geográfico, o
Outro Mundo é um estado de espírito. Quem não
entender esta realidade está condenado, qual Cavaleiro do Graal,
a vagar em busca do inatingível objetivo.
Outro Mundo Celta: um mundo ideal
Nas terras
paradisíacas do Outro Mundo celta não há fome nem
inverno, e lá vivem guerreiros heróicos, poderosas damas
e nobres reis. Pode-se dizer que o Outro Mundo Celta é um mundo
ideal – e aqui esta palavra ganha mais de uma acepção:
para além do sentido comum segundo o qual “ideal”
é algo perfeito, o ‘mundo ideal’ do Outro Mundo celta
evoca o universo das idéias – da sagrada criatividade
do pensamento e da imaginação. Eis porque o conceito
celta de Outro Mundo é difícil de ser compreendido: jamais
será encontrado num local geográfico, porque é
ideal. E é ideal porque o pensamento e a imaginação
– a verdadeira Magia da alma humana – é incapaz de
criar algo defeituoso ou incompleto. Em cada um de nós, nos níveis
mais íntimos de nossas almas, a criação daquilo
que é ideal gera perfeição. A força do mundo
ideal está na inspiração que ele gera e nas emoções
que ele desperta – as quais, por sua vez, traduzimos em nossas
ações.
Eis porque
a Alma Celta atribui tanta importância e poder à Arte:
a criatividade do poeta, do escultor e do músico que, a partir
da página em branco, do bloco de pedra ou das cordas estáticas
do instrumento, produz vida e transforma o mundo. Por esse prisma, a
Arte – plástica, literária, musical ou ritual -
é a manifestação neste mundo do ideal e da perfeição
que o artista vislumbra no outro mundo.
George Bernard
Shaw, controverso mas genial dramaturgo e pensador irlandês, afirma
que "A imaginação é o início da
criação: você imagina o que quer, deseja o que imagina
e, por fim, cria o que deseja." Aos estudiosos das artes mágicas,
esta é uma fórmula perfeita, que explica como um indivíduo,
ao trabalhar sua criatividade, desperta sua natureza, faz aflorar as
forças criadoras, comunga com os deuses. Para
a Alma Celta, a Inspiração é Sagrada -
uma visão traduzida com poética precisão no conceito
da Awen / Imbas.

Awen / Imbas: Inspiração
Sagrada
Toda religião
possui uma palavra-chave: para o budismo, a Iluminação;
para o cristianismo, a Salvação, e assim por diante. Para
a espiritualidade celta, essa palavra é Inspiração.
A palavra
galesa Awen já foi traduzida como “espírito
que flui” através de nós, ‘êxtase
poético’, arrebatamento profético e até
mesmo como “musa” – o espírito feminino
que, entre os gregos, inspira as artes. A chave para a compreensão
da real natureza da Awen é a palavra inspiração.
Inspirar
é receber algo, introjetando-o. Tal como o ar que inspiramos
e que enche nossos pulmões, a Awen nos toca, nos estimula,
nos transforma. Similarmente, da mesma forma que temos de expelir o
ar de nossos pulmões para continuarmos vivos, a Awen
– a inspiração que recebemos – deve ser transformada
em ação. De espírito para espírito, de alma
para alma.
A Awen,
portanto, é o espírito que flui através de nós
– é a ‘musa’ que inspira nossas ações
e reações. Quando reconhecemos a presença do espírito
em tudo (animismo), possibilitamos o contato profundo entre cada um
de nós e “o outro” – seja o outro em questão
uma pessoa, outro animal, uma paisagem, um nascer do sol, um lugar,
um prato de alimento, nosso trabalho.
De Alma para Alma
O conceito
irlandês do Anam Chara,
“o amigo de alma”, é tipicamente celta e ilustra
bem isso. Tal conceito ganhou visibilidade em nossos dias graças
ao trabalho do inspirador filósofo e poeta irlandês
John O’Donohue. Segundo seus textos, um Anam Chara
é uma amizade no sentido mais profundo da palavra, em que duas
almas se tocam não no nível intelecutal ou no físico
apenas: a união ocorre no misterioso e transformador nível
da alma. “Ao romper as barreiras da persona e do egoísmo
e alcançado o nível da alma”, diz O’Donohue,
“uma união de almas nesse nível não se quebra
facilmente”.

O Anam
Chara é uma ligação de alma para alma, inspirada
e inspiradora, entre duas pessoas. Mas o conceito fundamental dessa
ligação de alma para alma pode ser extendido para qualquer
tipo de relação: pessoa-pessoa, pessoa-outro animal, pessoa-objeto,
pessoa-trabalho, pessoa-conceito, pessoa-paisagem. Quando ocorre esse
contato, flui a inspiração.
O termo
‘awen’ vem do idioma galês – seu equivalente
irlandês é a palavra Imbas, geralmente
traduzida como “inspiração/conhecimento poético”.
Em diversos relatos, Awen/Imbas é algo a que o druida/poeta
tem acesso ao desempenhar procedimentos específicos. Awen/Imbas
é um conceito abstrato: é como uma sinapse que nos une
aos diversos aspectos do universo: é através dela que
nos relacionamos, estabelecendo vínculos, pontes e interconexões
com todos e cada um dos aspectos de nossas vidas, ressacralizando-a.
Quando conhecemos algo, entramos em relação
com esse algo.
– John O’Donohue
Seja no nível pessoal (psicologia) quanto no coletivo (sociologia),
relacionar-se com “o outro” é uma das primeiras lições
que um indivíduo deve aprender. Em nossos primeiros meses de
vida, ainda não somos capazes de identificar a separação
individual entre mãe e filho. O processo de individuação
é fundamental para o desenvolvimento saudável da psique
de cada um de nós. O mesmo processo ocorrerá mais tarde
num outro nível, quando passamos a identificar o que é
nosso e o que é dos outros – algo válido tanto para
objetos quanto para idéias, conceitos e opiniões; é
o processo formativo da identidade individual de cada um de nós.
Ao resgatar a sacralidade das relações, a Alma Celta propõe
uma melhor formação individual, bem como uma melhor compreensão
de quem de fato somos – eis porque os celtas reverenciavam suas
Ancestralidades.

Ancestralidades
Uma das principais
fontes de inspiração para quem busca conhecer a Alma Celta
é a sua própria História. As crenças dos
celtas da Antigüidade, os feitos dos heróis e heroínas
celtas e suas lendas e mitos maravilhosos nos inspiram a resgatar a
Alma Celta para nossos dias, tornando-a uma espiritualidade ativa, coerente,
embasada e transformadora. Este apreço pela história é
um dos aspectos da Ancestralidade de um ponto de vista celta.
Plural
Todos nós
estamos familiarizados com o conceito de ancestralidade significando
“linhagem sangüínea”. Somos filhos de um pai
e de uma mãe – nossos primeiros ancestrais – e também
de avós, bisavós, trisavós e assim por diante,
recuando até a aurora dos tempos e – assim nos explica
a moderna genética - nos irmanando com praticamente todos os
seres humanos. Essa ancestralidade sangüínea determina,
através da transmissão de informações genéticas,
quem somos fisicamente: a cor de nossos olhos, tez e cabelos, estatura
e compleição física etc. No fundo, a todos esses
nossos ancestrais de sangue devemos o simples fato de existirmos - sem
eles, não estaríamos aqui - gostemos disso ou não.
Mas essa
não é nossa única ancestralidade: outra, tão
importante quanto a sangüínea, determina no que cremos,
nossos valores, nossa filosofia – em outras palavras, determina
a herança de nossa alma: é a Ancestralidade Espiritual.

Quando optamos
por seguir um determinado caminho espiritual, seja ele qual for, ingressamos
numa senda aberta por outros antes de nós. Para que possamos
trilhar esse caminho com segurança, é necessário
que conheçamos suas características, sua história,
suas origens e transformações. Essa é a nossa Ancestralidade
Espiritual. E ela não é limitada pela ancestralidade sangüínea,
pois se assim fosse não haveria nenhum budista que não
fosse indiano, nem cristão que não fosse de origem judia.
Conhecer
a história da espiritualidade celta é honrar nossas origens,
impedindo mistificações, falácias e fantasias.
Da mesma forma que é possível traçar uma árvore
genealógica que nos mostra quem são nossos ancestrais
de sangue, é importante que possamos traçar uma ‘genealogia’
espiritual que nos ponha em contato com o sagrado e inesgotável
manancial de inspiração que vem dos druidas históricos,
passa pelos bardos e santos medievais e pelos modernos poetas, romancistas
e filósofos irlandeses. Isso é honrar nossa história,
nosso caminho, nós mesmos.

Honra
Poucas palavras são
tão mal compreendidas como ‘honra’. Honra não
é o mesmo que ‘orgulho’ – basta flexionar os
verbos para compreender a diferença: orgulhar-se é pessoal,
volta para si mesmo. Honrar é externo, é uma doação
ao outro. Ou ainda: “Honro meu país” é bem
diferente de “orgulho-me de meu país” – neste
caso, honrar é ativo, orgulhar-se é passivo.
A honra é a chave
da boa relação – seja entre pessoas, uma pessoa
e seu trabalho, seu alimento, sua história. É o elemento
que determina o bom fluxo da Imbas – da inspiração
– numa dada relação.
Até por isso, para
a Alma Celta a Honra torna a existência de escrituras supérflua.
Em primeiro lugar, porque a espiritualidade celta era e ainda é
uma tradição basicamente oral, ou seja: seus ensinamentos
são transmitidos sem que se recorra a textos sagrados, ou a mandamentos
recebidos do além, ou ainda a visões de um profeta. Os
textos sagrados do druidismo são a paisagem em que vivemos: as
mudanças do clima e a ciclicidade do tempo; os espíritos
dos ancestrais e do local em que vivemos; o fluxo da inspiração
que emana de cada criatura, de cada momento. É da compreensão
desses ciclos e dessas interrelações que os druidas destilam
sua compreensão do universo em que vivem e, assim, estabelecem
os códigos de ética e de conduta que norteiam sua experiência.
Era assim na Antiguidade celta, deve ser assim hoje e sempre.
Mas então por que
não existem textos que normatizem esses ensinamentos dos antigos
celtas? Porque isso seria matar aquilo que a Alma Celta tem de mais
sagrado, de mais precioso: o incentivo ao desenvolvimento pessoal,
individual. Qualquer texto, qualquer conjunto de mandamentos
e regras pré-determinadas inibem, pelo simples fato de serem
impostas, a individualidade. Afinal, nas palavras do grande Joseph Campbell,
“O que cada um deve buscar jamais pode ser encontrado nalguma
terra ou além mar. É algo que vem de sua própria
potencialidade individual para experimentar, algo que jamais foi e jamais
poderia ser experimentado por outra pessoa.” Ou como diz
o ditado inglês, “o leite de um homem é o veneno
de outro”, o que é correto para um não é
necessariamente correto para os demais. A situação fica
ainda mais complexa quando falamos de regras e conceitos escritos séculos,
milênios atrás, quando os valores sociais, os costumes,
as relações entre os seres humanos e entre estes e a paisagem
em que vivem eram totalmente diferentes.
Bem X Mal?
Essa explanação
já basta também para acabar com a percepção
errônea de que ‘honra’ e ‘moral’ são
sinônimos. A palavra ‘moral’ traz em seu bojo conotações
como certo e errado, bom e mau, bem e mal. Esses conceitos dualistas
simplesmente inexistem na espiritualidade celta.
A espiritualidade celta
inspira-se e deriva da compreensão da natureza: não
existe, na Natureza, bem ou mal. Portanto, a espiritualidade
celta não reconhece esses princípios. E, ao não
reconhecê-los, inviabiliza a redação – seja
ela ditada pelos deuses, recebida por um profeta iluminado ou canalizada
por um espírito – de códigos de conduta, de leis,
de mandamentos.
O que nos traz ao ponto
inicial deste raciocínio: como então viver uma vida ‘equilibrada’
sem ‘manuais de instrução’? A resposta mais
objetiva é: vivendo a vida; inspirando-se nela e por ela; honrando-a.
Afinal, a vida não é um aparelho previsível, lógico,
mecânico para ter um ‘manual de instruções’:
ela é viva e, por assim ser, não existem regras para todos
a todos os momentos.
O
objetivo da vida é fazer com que o pulso de seu coração
entre em harmonia com o pulso do universo, encaixar a sua natureza com
a Natureza.
- Joseph Campbell
Com equilíbrio, aliando
o conhecimento à inspiração, a razão à
emoção, a Alma Celta ensina cada um de nós a descobrir
o seu caminho. Esse é um caminho de Honra.

Transformação
Nossa cultura moderna é
pautada na funcionalidade – por conta disso, somos obcecados pela
continuidade: se algo está funcionando, fazemos de tudo para
que assim continue. Ao emprestar uma sensação de conforto
advinda da familiaridade, a busca moderna pela continuidade empobrece
nossa existência e nos faz temer a mudança. Esquecemo-nos
de que o universo esteve, está e sempre estará em constante
transformação; esquecemo-nos de que nossas vidas são
feitas de constante mudança: manhã-tarde-noite, primavera-verão-outono-inverno,
diástole-sístole, sono-vigília, vida-morte.

No
druidismo a mudança é sagrada. Ela é tão
integral à nossa tradição quanto aos ciclos da
Natureza, às fases da lua, às marés,
às
estações do ano...
- Emma Restall Orr
Essa ligação
com a natureza, característica tão xamânica da espiritualidade
celta – e não esqueçamos que o xamanismo está
na base de todas as religiões – é que faz do druidismo
uma religião ‘pagã’. Pagão:
palavra que vem do latim paganus, aquele que nasce no pagus,
ou seja, no campo. Assim, em termos espirituais, ‘pagão’
se refere a uma espiritualidade do campo, da Natureza. É
do contato com esses espíritos da Natureza que os druidas e druidesas
modernos obtêm sua inspiração, canalizando-a, fazendo
bom uso dela e, assim, honrando sua fonte, sua origem.
O
druidismo não é somente uma tradição mágica,
mas sim uma busca pela pureza da quintessência da vida. Pode-se
passar eras e eras ponderando sobre teorias e crenças; pode-se
crer ter encontrado alguma verdade superior, o que nos leva a derrapar
no desejo de salvação e de poder. Porém, é
na experiência da conexão, de espírito para espírito,
que podemos saborear a verdadeira inspiração,
o verdadeiro leite da Mãe Natureza, o toque dos deuses.
- Emma Restall Orr
A ligação da Alma Celta com os ritmos e ciclos da Natureza
é poderosa: mesmo em suas manifestações
cristianizadas, a Alma Celta preserva essa ligação com
a ciclicidade da Natureza, como atestam várias preces
produzidas pelos primeiros cristãos irlandeses. No primeiro exemplo,
a inconstância das marés, a fluidez do ar e o fulgor das
estrelas são evocados como bênçãos:
Paz profunda
das ondas que rolam a ti
Paz profunda do ar que flui a ti
Paz profunda da terra em repouso a ti.
Paz profunda das cintilantes estrelas a ti.
Paz profunda do Filho da Paz a ti.
Já no próximo
exemplo, veremos como a alternância entre as estações
– representada pelo sol e pelas chuvas – também são
transformações valorizadas e benéficas:

Que a abençoada
luz do sol brilhe sobre ti e aqueça teu coração
até que ele se ilumine qual um grande fogo na lareira, para que
o estranho nele encontre calor, tanto quanto o amigo.
(...)
E que as bênçãos da chuva recaiam sobre ti –
a suave e doce chuva.
Que ela banhe teu espírito para que pequenas flores possam brotar
espalhando sua doçura no ar.
(...)
As bênçãos
e preces produzidos pelos monges irlandeses preservam em sua essência
a lírica ligação que nos une à Natureza
e seus ciclos sagrados, e são ecos diretos das celebrações
sazonais dos celtas da Antiguidade.

A visão da sacralidade
da natureza;
O Animismo;
A compreensão dos ciclos e ritmos do tempo;
A proximidade do Outro Mundo;
A busca de relações inspiradas em nossas vidas;
A compreensão de nossa ancestralidade e dos processos históricos
que fazem de nós quem somos;
A importância atribuída à Honra e aos processos
transformadores da vida:
Estes são apenas alguns
dos muitos valores e conceitos originalmente celtas que, quando resgatados,
podem nos trazer benefícios. Em conjunto, elas formam um verdadeiro
circuito que, como sempre no pensamento celta, se entrelaçam
e possibilitam uma compreensão mais profunda da Alma Celta.
Um exemplo: a percepção
anímica resgata a sacralidade da paisagem, que traz a compreensão
dos ciclos os quais, por sua vez, mostram a força e as bênçãos
da transformação e nos ajudam a entender as relações
que estabelecemos com os outros à nossa volta – a começar
por nossos ancestrais, ponte direta com o mundo dos espíritos...
Ou então: ao honrarmos
nossas origens, compreendemos de onde viemos e as transformações
por que atravessamos em nossa aventura neste mundo, inspirando-nos com
as relações que estabelecemos em nossa jornada para compreender
melhor o mundo de nossa espiritualidade...
A partir da compreensão
de que não há ordem, cronologia ou hierarquia no aprendizado
da espiritualidade celta, as combinações dos elementos
acima são infinitas – como infinito é o benefício
que vem de sua compreensão.