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Druidismo: Alma Celta em AçãoOs
celtas possuem mestres de sabedoria a quem chamam de druidas.
Em nossos dias, talvez a mais visível forma desse resgate seja o druidismo moderno: recentemente reconhecido oficialmente pelas autoridades britânicas como uma religião válida, o moderno druidismo britânico conseguiu atingir um nível de coerência e significado que o põe em pé de igualdade com muitas outras correntes espirituais alternativas. Mas o que é, de fato, o druidismo moderno? Quando essa pergunta foi dirigida a Philip Shallcrass, fundador e líder da British Druid Order (BDO), sua resposta foi clara: “Druidismo é aquilo que os druidas fazem. Isso, obviamente, gera outra pergunta: o que é um druida?” Ele então pô-se a narrar os esforços de pesquisas feitas por diversos membros da comunidade druídica britânica no sentido de se oferecer uma percepção comum do que fosse um druida e, portanto, do que seja o druidismo. Diante da diversidade das respostas, o resultado da pesquisa concluiu que existem três elementos compartilhados por todos os grupos druídicos: “Todos usam túnicas brancas... com exceção de alguns; todos usam alguma versão da Prece Druídica Universal de Iolo Morganwg... com exceção de alguns; todos celebram seus rituais à luz do dia... com exceção de alguns. No fim das contas, a pesquisa revelou que a única coisa que esses druidas realmente têm em comum é o fato de se designarem druidas”. Por trás da resposta bem humorada está a certeza de que não há como se tentar padronizar o druidismo moderno: ele é multi-facetado, pois sua natureza histórica é multi-facetada; ele varia de local para local porque já na Antiguidade ele era regional. O druidismo moderno não permite uma uniformização porque na verdade ele celebra a localidade, individualidade, a sazonalidade. É como já dito: se a Alma Celta é multifacetada o druidismo, por sua própria natureza, também o é. O que vale dizer que qualquer tentativa de se catalogar o druidismo corre o risco de ser injusta com as suas muitas vertentes e, acima de tudo, de desrespeitar sua natureza plural. Como as águas de um rio caudaloso, pode-se até tentar represar o espírito do druidismo, mas basta uma cheia para que os limites que se tenta impor cedam e ele volte a correr livre. Eis, justamente, o segredo do sucesso do druidismo britânico: cientes de sua multiplicidade, as lideranças druídicas da Inglaterra, ao invés de tentarem criar uma entidade que “normatizasse” o druidismo, permitiram que suas múltiplas manifestações coexistissem em respeito e liberdade, a partir da identificação de uma essência comum a todas as suas vertentes. Mas qual é essa essência comum? No texto a seguir (escrito para a formação de minha primeira turma do curso de druidismo e utilizado desde então), exploraremos alguns pontos cruciais para definir o druidismo.
O Mundo do DruidismoImagine viver em um mundo onde as grandes forças da natureza não são temidas, mas compreendidas; onde cada pessoa é responsável por seu destino; onde, ao invés de desrespeitar e manipular as energias da natureza, os seres humanos se inspirem em sua beleza, seu poder oculto e sua inesgotável energia. Para muitas pessoas, a figura do druida é, geralmente, a de um velho senhor de longas barbas brancas trajando vestes igualmente brancas, com um cajado à mão e capaz de controlar os elementos e operar magia. A imagem acima se aplica perfeitamente a Panoramix, o famoso druida da tribo de celtas gauleses de Asterix, personagem eternizado pelos quadrinhos e agora no cinema; também corresponde com precisão ao mago Gandalf de "O Senhor dos Anéis", bem como a Albus Dumbledore, das aventuras de Harry Potter. Apesar dessa visão clássica ainda persistir, ela está longe de ser a única imagem dos druidas. Vindos de diferentes segmentos sociais, pertencendo a ambos os sexos e a diversas faixas etárias, os druidas modernos buscam no passado a inspiração para criar um futuro melhor. Mas que passado é esse?
OS DRUIDAS NOS TEMPOS DOS CELTAS Entre os celtas – um dos mais influentes povos da Europa pré-clássica -, os druidas eram conhecidos como grandes sacerdotes e filósofos, e os historiadores gregos e romanos descrevem seus rituais e a importância atribuída a eles pelas tribos celtas. As funções dos druidas, porém, ultrapassavam em muito as de um mero sacerdote: conhecedores dos mistérios da natureza, estudavam as propriedades mágicas e curativas de plantas, ervas e árvores. Eram também os responsáveis pela preservação da cultura, pois eram os guardiões da história e das lendas da tribo, eternizando os feitos dos reis e rainhas em versos de rara beleza. Poetas por excelência, cantavam seus conhecimentos em poemas que deviam ser memorizados, e também atuavam como legisladores nas disputas pessoais e inter-tribais. Por fim, eram também conselheiros dos reis e rainhas celtas, em muitas vezes exercendo sobre eles a autoridade que advém não do poder, mas do respeito. Por tudo isso, podemos dizer que os druidas eram, como bem diz o Dr. Simon James, “o pilar ao redor do qual toda a sociedade celta se estruturava”. TRÊS CAMINHOS, UM SÓ DRUIDISMO
Segundo os textos dos escritores gregos e romanos que viveram na mesma época dos druidas, essa multiplicidade de funções originava três categorias distintas: os Bardos, os Vates e os Druidas propriamente ditos. Essas categorias não formam hierarquias nem são independentes uma das outras: ao contrário, elas se complementam para formar o todo do druidismo, assim simplificadas: Os Bardos
são os poetas e contadores de histórias, responsáveis
pela preservação e transmissão da identidade cultural
da tribo, através das lendas e mitos, das canções
e sagas, das odes e linhagens que relatam as origens, os feitos e conquistas
da tribo.
Essas três categorias dos druidas da Antigüidade também são encontradas séculos mais tarde, nos textos medievais irlandeses (a Irlanda é hoje a principal fonte de conhecimento celta) sendo, portanto, adotadas por diversas ordens e grupos druídicos modernos. Você encontra mais informações sobre os druidas na sociedade celta aqui: LINK
DIVERSIDADE DE AÇÃO E SABER As múltiplas funções dos druidas – sacerdotes, filósofos, juristas, poetas, historiadores, conselheiros, diplomatas – geram a diversidade do druidismo moderno: um indivíduo que se identifique mais com a função sacerdotal, por exemplo, encaixa-se mais com o aspecto do druida, ao passo que alguém que tenha uma abordagem mais histórica ou que se interesse pelos mitos e lendas identifica-se com o caminho do bardo, uma pessoa que se interesse por oráculos segue o caminho do uate e assim por diante. Essa diversidade no druidismo gera também uma certa dificuldade em se definir o druidismo: há quem veja no druidismo uma religião, enquanto que para outros é uma filosofia e, para outros mais, um modo de vida.
RELIGIÃO, FILOSOFIA, MODO DE VIDA? O druidismo é todos
esses e nenhum. Para quem, como dito acima, enfatiza o aspecto sacerdotal
do druidismo, é claro que ele tem uma coloração
sacerdotal, ritualística; para alguém que aprecie o pensar
e os valores sociais dos celtas, o druidismo é uma filosofia.
SACRALIDADE DA VIDA Para os druidas de ontem e de hoje, o universo é todo feito de energia – e energia é, no fim das contas, a melhor definição para a Vida, para a alma. Logo, tudo no universo tem alma, merecendo assim ser respeitado e compreendido. Se tudo tem alma, tudo é vivo. Se tudo é vivo, tudo é sagrado.
A espiritualidade celta é rica em exemplos de árvores vivas, animais que se comunicam com humanos, rios que na verdade são o corpo de uma deusa, assim como bosques são o corpo de diversos deuses. Quando se adota uma visão dessas, fica difícil - impossível, eu diria - poluir um rio: afinal, seria o mesmo que tentar matar uma deusa. Quanta devastação teria sido evitada se esses princípios ainda estivessem arraigados em nossa forma de ver o mundo...
UMA ESPIRITUALIDADE VERDE Uma das questões fundamentais
de nossos tempos é a necessidade de reestruturar os valores e
formas de agir e pensar de nossa sociedade com relação
ao ambiente em que vivemos. O resgate de uma percepção
como a druídica, segundo a qual toda a paisagem – rios,
lagos, florestas, animais, bosques, humanos – é sagrada
é um dos pontos-chave para o futuro de nosso planeta: o geólogo
e filósofo norte-americano Thomas Berry menciona a necessidade
de se desenvolver uma “Eco-Espiritualidade”,
ou “Espiritualidade Verde”, que devolva ao ser
humano a percepção da sacralidade da vida. O druidismo
se encaixa perfeitamente nas teorias do Prof. Berry.
O QUE O DRUIDISMO OFERECE? Transformação: essa é a essência do druidismo - e é o mais precioso bem que ele oferece. O passar do tempo é uma energia irresistível e que traz transformação – a nossos corpos, à paisagem, a nossas idéias. Ao longo dos séculos, desde suas origens até nossos dias, também o druidismo sofreu grandes transformações, adequando-se aos valores de cada época e às necessidades de cada período. Essa capacidade de se adequar
e de se adaptar é que está por traz da força do
druidismo: ele sempre se mantém válido e coerente. O contato
com outras culturas - a exposição a outros valores que
alteram e moldam os valores originais - também promovem grandes
transformações, e isso vale tanto para uma pessoa quanto
para um povo. É justamente isso
que faz do druidismo moderno um caminho espiritual válido. Em
lugar de prometer uma vida eterna de paz ou tormentos; ao invés
de prometer a evolução numa "outra vida",
o druidismo põe nosso destino próprio em nossas mãos
- através da consciência, da reflexão e da experiência.
O INDIVÍDUO E A TRIBO A
instituição druídica era simultaneamente estruturada
no seio da tribo e do povo, na própria estrutura da Gália
e de toda a comunidade celta original. Isto confirma nossa convicção
de que o druidismo era a religião de todos os celtas, e também
ajuda a esclarecer que o druidismo era absolutamente inseparável
da sociedade celta, com a qual formava um organismo único, do
qual era o esqueleto espiritual.
Eis porque nunca poderá haver um druidismo ‘padronizado’, centralizado: a vivência do druidismo é uma experiência pessoal, cada indivíduo vivencia o druidismo à sua forma. Ao mesmo tempo, o druidismo é um caminho coletivo: nas palavras do celtista francês Jean Markale, “não existe druida sem comunidade”. Isto porque, como vimos acima, o druida era a figura central da sociedade celta da Idade do Ferro, atuando como mediador, sacerdote, conselheiro, curandeiro, historiador, jurista. Todas essas funções só se desenvolvem plenamente dentro de uma comunidade. É por isso que existem tantos grupos, associações, colégios, ordens, groves, Gorseddau e outras formas de reunir druidas em coletividades. Druidas são criaturas sociais, com uma tendência natural a formar tribos, compartilhando com os demais suas visões, seu conhecimento, sua inspiração. Mais uma vez citando Markale, "a ação individual não tinha significado a não ser que estivesse integrada à atividade do grupo".
INSPIRAÇÃO No mundo do druidismo, aprendemos a nos relacionar de forma honrosa - com as pessoas, com nosso trabalho, com nosso alimento, com o ambiente em que vivemos. Aprendemos a nos maravilhar com as coisas mais simples do dia-a-dia, tirando delas a inspiração que nos permite viver de forma mais digna, mais íntegra. No mundo do druidismo, cada dia é uma bênção, cada gesto é uma transformação, cada alvorada é uma nova promessa, cada palavra uma fonte de inspiração. O druidismo é um mundo em que aprendemos a conhecer melhor os segredos do universo e, por conseqüência, aprendemos a conhecer melhor a mais complexa e importante fonte de magia que existe: nós mesmos. Bem vindo ao mundo do Druidismo. © 2003,
2009 - Claudio Quintino Crow – Registrado na Biblioteca Nacional
– Lei Federal 9.610/98.
Esta seção do webiste foi criada para apresentar o druidismo de forma clara e sem mistificações, com informação pautada em fontes históricas e no trabalho de conceituados historiadores modernos. Seu objetivo é levar informação responsável àqueles que, por diversas razões, não podem participar dos cursos, workshops e palestras que apresento - é minha contribuição para que o druidismo possa levar seus presentes a um número cada vez maior de pessoas, sementes que lanço ao vento para que possam encontrar seu solo fértil e ali se desenvolver. Como todo bom jardineiro deve saber, contudo, antes de plantar a semente é preciso limpar o terreno - e existe muita desinformação sobre o que é de fato o druidismo. Nosso próximo passo, então, é esclarecer os fatos e dirimir as dúvidas mais comuns. Vamos lá?
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