A Alma Celta e as
Relações com o Sagrado
Em todas as formas de religião/espiritualidade
(aqui esses termos SEMPRE possuem o mesmo significado) encontramos diferentes
tipos de relação com o sagrado, que variam entre si de
acordo com fatores diversos, como o conceito de sagrado numa dada religião,
a percepção individual do sagrado e a vocação
desse indivíduo para o contato com o Sagrado. Vocação
aqui não significa "ser apto ou não" a contatar
os Sagrado - até porque para a espiritualidade celta o sagrado
está em todos e, portanto, ao alcance de todos. Na verdade, a
vocação determina que tipo de vivência do sagrado
cada um de nós pode desenvolver, de acordo com as características
individuais de cada um.
A partir do quanto visto na seção anterior ("Legado
Espiritual"), a seguir vamos explorar as múltiplas
possibilidades de experiência do sagrado dentro de uma ótica
celta - e para isso vamos recordar como essa mesma ótica celta
percebe o sagrado.
Uma visão celta do Sagrado
Ao lado dos textos de autores gregos e romanos,
os registros literários medievais da Irlanda e do País
de Gales são a principal fonte de informação para
conhecermos a espiritualidade celta, seus pontos de vista e suas práticas.
Por definição, e levando-se em conta essas fontes, a espiritualidade
celta é uma espiritualidade politeísta, animista e xamânica
de origem européia – mais especificamente, segundo fontes
clássicas como Julio Cesar, originária das Ilhas da Grã-Bretanha
e Irlanda. Esta definição é importante para que
possamos ter maior segurança na busca dessa percepção
druídica do sagrado, e também para eliminarmos as distorções
geradas em séculos mais recentes.
DEUSES E DEUSAS - Manifestações do Divino
Quando dizemos que a espiritualidade celta é
politeísta, temos de ter em mente a multiplicidade de deuses
e deusas cultuados na Antiguidade pelos celtas. Sempre de acordo com
as fontes mencionadas, esses deuses e deusas não estão
num paraíso remoto e distante (apesar de poderem ser encontrados
também em terras mágicas), mas sim na própria paisagem
– rios, o mar, montanhas, bosques, árvores individuais:
cada uma dessas características da natureza é a ‘encarnação’,
a manifestação física das deidades celtas. Da mesma
forma que, reciprocamente, as deidades celtas dão vida e alma
às forças da natureza.
O Sagrado na Paisagem
O Sagrado celta, portanto, é algo próximo,
acessível, tangível. Isso por si só torna mais
simples a vivência desse Sagrado, pois não há necessidade
de ‘atravessadores’ ou intermediários. Quem
se banha num rio na Irlanda, por exemplo, não mergulha somente
num corpo d’água, mas sim no ventre de uma deusa (Sionann
no Rio Shannon, Bóann no Rio Boyne e assim por diante). O mesmo
vale para outras características da paisagem irlandesa, como
prova o Dindshenchas, ou “o conhecimento
dos lugares notáveis” – uma série de versos
maravilhosos que relatam a origem mágica dos nomes dos locais
sagrados da Irlanda – ou seja, toda ela. Por paralelismo, e tendo
por base os registros da etnografia e da arqueologia (para não
mencionar a toponímia), podemos expandir essa visão dos
celtas da Irlanda para outras terras outrora habitadas por povos celtas.

Sobrevivência da Paisagem Sagrada: Ben Bulben,
impresionante formação rochosa em Sligo, Iralnda.
Morada mítica do herói Fionn MacCumhaill e seus nobres
guerreiros, era também admirada pelo poeta WB Yeats.
Contato Direto
Não há
sequer uma lenda irlandesa que faça menção a templos
- algo por si só notável.
- Jean Markale
A ausência de templos no universo celta é outra prova dessa
proximidade e intimidade com o sagrado – é sabido que os
celtas da Gália só passaram a erguer templos após
o contato e influência com as culturas helênica e romana
(é sempre pertinente esclarecer o equívoco histórico
- e hoje inaceitável - de se creditar locais como Stonehenge
como ‘druídicos’ – sua construção
nada tem a ver com os druidas celtas, a despeito das práticas
de diversas ordens modernas).
O contato com as deidades celtas,
como se pode ver, era feito diretamente, num nível pessoal –
e mesmo após a cristianização, a relação
dos irlandeses com o Sagrado preserva essa característica individual
e direta: o folclore da Irlanda é rico em registros de encontros
pessoais com os espíritos de santos ou de ancestrais mortos –
e até mesmo com a Virgem Maria e o Cristo. A
rica tradição literária irlandesa das lendas de
viagem ao Outro Mundo - as imramma - são outro exemplo
dessa proximidade, assim como a imagem da Avalon arthuriana e da cidade
de Ys do folclore bretão. E o folclore recente das terras irlandesas
é riquíssimo em exemplos de contato entre mortais e visitantes
do mundo espiritual. O intercâmbio é constante, e tanto
os espíritos e deuses vêm a este mundo quanto nós
podemos ir ao Outro Mundo.
Na Irlanda, este mundo e o mundo dos espíritos não
estão distantes. Já ouvi falar de um espírito que
viveu muitos anos numa árvore e outros mais no arco de uma ponte.
- WB Yeats, The Celtic Twilight

A percepção do mundo
espiritual como sendo próximo enfatiza um ponto crucial: para
a Alma Celta, a experiência do sagrado não depende da figura
do sacerdote. Em momento nenhum isso quer dizer que não
existisse essa figura na sociedade celta. Ao contrário, ela existia
– e em diversas modalidades.
Druidas:
muito mais do que meros sacerdotes
É comum atribuirmos ao druida
a função sacerdotal, e esta é uma verdade –
mas não toda a verdade sobre os druidas. Mais do que
apenas sacerdotes, as múltiplas funções associadas
aos druidas celtas dão conta de sua importância para a
sociedade celta como um todo: filósofos, conselheiros
de reis, juristas, profetas, curandeiros, historiadores – não
é à toa que o Dr. Simon James, uma das maiores autoridades
modernas em cultura celta, afirma que “os druidas eram o eixo
ao redor do qual gravitava toda a sociedade celta.”
Rei
Divino
Muitos
estudiosos contemporâneos afirmam que, nas tradições
celtas, várias das funções cerimoniais
tradicionalmente atribuídas a sacerdotes eram desempenhadas pelo
Rei tribal, cabendo ao druida um papel mais profundo. O próprio
Daniel Anthony Binchy, pioneiro nos estudos da legislação
da Irlanda celta, afirma que na Irlanda celta, o rei deveria
ser, além de líder guerreiro, um juiz e um sacerdote.
Temos então dois candidatos - igualmente válidos - ao
papel de sacerdote arquetípico na sociedade celta: o próprio
druida e o rei.

É fato que a figura do rei celta é muito diferente da
nossa percepção atual – a começar pelo fato
de que os reis eram eleitos pelo povo dentro de preceitos rigorosíssimos
de conduta e capacitação. Afinal, o rei era o representante
de toda a comunidade, aquele que intermediava a relação
do povo com a terra – sagrada e viva – em que habitavam.
No texto Audacht Morainn ("O Testamento
de Morann"), a descrição do rei ideal exige que ele
seja um governante bom e justo, possuidor da fir flathemon
(“a verdade do governante”). Essa verdade é aqui
sinônimo de correção e justiça, características
compatíveis com a função de juiz elencada por Binchy.
Era também dever do rei “assegurar a paz e a justiça,
a segurança das fronteiras de sua tuath (tribo) e a
prosperidade de fartas colheitas e rios altamente piscosos.”
(James MacKillop)
Imagem
romântica de Brian Boru,
último
Rei de toda a Irlanda
Por outro lado, a função
sacerdotal do druida é evidenciada em frases como a de Julio
César, que afirma que os gauleses não celebravam nenhum
ritual sem a presença de um druida.
Isso tudo está em perfeita
consonância com a definição primordial da palavra
‘sacerdote’ – aquele que é treinado
para desempenhar a função de ‘contato’, intermediando
a relação entre os mortais e a divindade, o Sagrado.
Tendo isso mente, sabemos que,
por definição, o sacerdote intermedia o contato
entre o Sagrado e a Comunidade – e aqui, a ênfase
na palavra ‘comunidade’ é a chave. O sacerdote celebra
ritos públicos - ato facilmente encontrado nas lendas celtas
sendo praticado tanto por druidas quanto por reis.
No mundo da espiritualidade celta, temos muitos exemplos de druidas
presidindo os festivais sazonais de Samhain, Imbolc, Beltaine e Lughnasadh;
por outro lado, em diversas lendas, quem desempenha essa mesma função
sacerdotal nesses mesmos eventos é o rei tribal. Não está
em questão aqui se essa função era mais desempenhada
pelo rei ou pelo druida, o que é de se ressaltar é que
tanto o rei quanto o druida são representantes de uma
comunidade: a ênfase recai na importância da comunidade
nesses ritos sagrados coletivos.
Eis porque é impossível
para quem quer que seja dizer-se sacerdote sem haver uma comunidade
para que ele a represente junto ao Sagrado.
Se por um lado na sociedade celta
o rei é a personificação física da comunidade,
devendo zelar por seu bem estar, sua defesa e sua prosperidade, por
outro o druida é o representante espiritual – e também
intelectual - dessa comunidade, estando sob sua responsabilidade a educação,
a preservação da história, a distribuição
da justiça para todos. E assim como não há
rei sem reino, não há druida sem comunidade.
Ou seja: entre os celtas, a função
sacerdotal é exercida pelo druida num contexto coletivo. Não
existe sacerdócio sem coletividade. Essa relação
Rei-Druida-Comunidade é tão profundamente
arraigada na filosofia celta que se preserva por séculos até
nossos dias, com a sobrevivência das Lendas Arthurianas em que
Arthur é o Rei, Merlin o Druida e Camelot a Comunidade - o Reino.
Em consonância com os estudos de Georges Dumézil, esa relação
Rei-Druida-Comunidade encontrada nas endas arturianas eca também
a união dos três pilares das sociedades indo-européias.
Aprendendo com as Lendas
Merlin é o exemplo
do ser que cruza a ponte entre os mundos por si mesmo e que auxilia
outros em suas travessias. (...) O rei conduz o exército, mas
quem torna possível a travessia dos guerreiros é o druida.
No segundo ramo do Mabinogi, o herói Bran serve ele próprio
de ponte para seu exército - provando, assim, que não
é somente um rei, mas um druida, um xamã.
- Jean Markale
Esta brilhante
associação de Markale estabelece uma preciosa ponte
de comparação entre a função sacerdotal
do druida-xamã - personificado no exemplo acima por Merlin e
Bran - e o sumo-sacerdote da mais difundida religião de nossos
tempos: o Papa, também conhecido pelo termo Pontífice.
A origem desta palavra é o vocábulo latim Pontifex,
“o fazedor de pontes”, um termo usado primeiro
pelos romanos para identificar o líder do Colégio Sacerdotal
de Roma e, posteriormente, adotado também pelos cristãos
para designar o governante da Igreja. Em todos os exemplos, o simbolismo
da ponte é evidente: quem constrói uma ponte liga duas
margens – dois mundos –para que a comunidade possa livremente
atravessar. Eis o papel desempenhado pelo rei gigante Bran - Bendigeidfran,
ou "Bendito Corvo" - no Mabinogi. As figuras do rei e do sacerdote,
neste caso, sempre se misturam – porque, como já dito,
não há rei sem reino, nem druida sem comunidade.

"Senhor",
disseram seus comandantes, "conheces a natureza deste rio, que
impede qualquer coisa de atravessá-lo e que não possui
pontes a cruzá-lo? Qual é vosso aconselhamento quanto
a pontes?"
"Não há nenhum conselho", respondeu Brán,
"salvo que aquele que é um líder que ele
seja uma ponte. Assim farei".
(Mabinogi)
Múltiplas
funções, diferentes formas de contato com o Divino
Cesar faz pouca distinção entre bardos, ovates e druidas,
agrupando-os todos numa única categoria de profissionais respeitados.
O treinamento desses três grupos deveria ter muitos pontos comuns,
com a especialização vindo somente nos estágios
finais do aprendizado. Assim, quando Cesar fala dos druidas, ele pode
estar se referindo também aos ovates e bardos.
- Philip Freeman
A frase do autor norte-americano Philip Freeman é um precioso
lembrete para aqueles que, equivocadamente, enxergam hierarquia entre
as figuras do bardo, do ovate e do druida. Essa percepção
enganosa surge nas primeiras ordens druídicas modernas, ainda
no final do século XIX, mas infelizmente persistem até
hoje. O caminho da Espiritualidade Celta, como se sabe, é vasto
e diversificado - para cada uma das três ‘ramificações’
- Bardo, Ovate e Druida - correspondem incontáveis subdivisões
e especializações. Assim, podemos afirmar que, com base
no quanto já visto, o sacerdócio jamais pode ser definido
como a única função do druida. Da mesma forma,
e pelos mesmos motivos, em tempos modernos o sacerdócio jamais
pode ser visto como a única forma de Relação com
o Sagrado entre aqueles que buscam resgatar a Alma Celta. Isso
se deve justamente ao fato já mencionado que, do ponto de vista
celta, o Sagrado está em toda a parte: nas paisagens externa
e interna, no coletivo e no individual, em tudo que é e que há.
Para a Alma Celta, o contato com
o Sagrado não precisa de um templo - todo lugar é sagrado
- nem de intermediários, podendo acontecer em qualquer lugar,
a qualquer momento. Evidentemente, os quatro festivais celtas são
momentos especiais que, hoje como ontem, envolvem toda a comunidade.
E, nesses eventos, a figura do sacerdote - fosse ele o rei ou o druida
- era importante por seu preparo e treinamento para mediar esse contato
em momentos tão ricos e densos, nos quais a comunidade - e não
o indivíduo - era o foco.
O Sagrado para além do Ritual
As celebrações sazonais
celtas eram momentos importantes para a comunidade, celebrando sua diversidade,
promovendo o contato com o Sagrado e, através desse contato,
propiciando justiça, fartura, alegria e unidade a toda a coletividade.
Por tudo isso, é impossível dissociar as figuras do druida
e do rei dessas celebrações. Nos outros momentos, contudo,
o Sagrado poderia ser igualmente acessado por qualquer indivíduo
- na prece, no oráculo, na oferenda votiva, no contato íntimo
com esta ou aquela a divindade.
Treinamento, Experiência e…
Se ainda pairam dúvidas sobre
a questão sacerdotal, recordemos que os celtas viveram na Idade
do Ferro e que sua sociedade guerreira era pautada na Honra
e no respeito obtidos através da batalha. Nesse cenário,
imaginemos uma comunidade formada exclusivamente por sacerdotes. Por
mais que saibamos pelos registros históricos que druidas participavam
de combates, é difícil imaginar qualquer nível
de sucesso numa luta armada entre um druida arquetípico - de
idade avançada, com longas barbas e túnicas - contra guerreiros
que faziam do combate seu ofício, com anos de treinamento e experiência
em técnicas de luta.
Pois esses mesmos fatores que fazem
de alguém um grande guerreiro - treinamento e experiência
- são capazes de tornar alguém um grande sacerdote. Um
grande ferreiro. Uma grande curandeira. Um grande poeta. Uma grande
escritora. Um grande professor. Uma grande comerciante. E assim por
diante.
Treinamento e experiência:
o que faz, então, que alguém seja um grande sacerdote
mas não um grande guerreiro, ou vice-versa? Eis que surge o terceiro
ingrediente do sucesso: a Vocação.
Vocação
A vocação, como a
própria palavra nos diz, é a voz
(interior ou divina, pouco importa - no fundo são o mesmo) que
nos diz o que somos, para que servimos. É o chamado para a nossa
aptidão, para a função que desempenhamos sem grande
esforço, quase que naturalmente. Nada tem a ver com os desejos
de nossos pais ou mesmo com aquilo que cremos ser mais interessante
para nós: por vezes, nossa vocação é algo
surpreendentemente “diferente” de nós, com o qual
temos de fazer as pazes.
Encontrar a própria
vocação é algo fundamental para o desempenho de
qualquer função - em especial aquelas que envolvem
as sagradas tarefas de contato e intermediação com o universo
divino. Descobrir a vocação pessoal - artista, atleta,
bardo, guerreiro… - é um processo íntimo e pessoal
que exige honestidade.
Parece claro agora que, para a
Alma Celta, uma verdade é inquestionável: nem todos nasceram
para ser sacerdotes. Mas todos nasceram para viver o Sagrado em suas
vidas.
A percepção tipicamente
celta que vê o Sagrado em tudo ajuda a devolver a sacralidade
a todos os ofícios - médicos, juristas, músicos,
historiadores, professores – e até sacerdotes.
Uma das mais belas coisas
da mente celta é seu senso de espontaneidade, um dos maiores
dons espirituais. Ser espontâneo é libertar-se da jaula
do ego, crendo naquilo que está além do self.
- John O'Donohue
Eliminando
Riscos
Assim, antes de prosseguir
recapitularemos alguns pontos importantes para nosso progresso:
a) o Sagrado não
se encontra num “plano superior” ou num paraíso
remoto, mas na própria paisagem que nos rodeia;
b) por essa proximidade, a experiência do sagrado de um
ponto de vista celta mostra-se acessível a quem quer que seja,
onde quer que seja, quando quer que seja;
c) Em determinados momentos especiais (celebrações e rituais),
nos quais a experiência do sagrado não é somente
individual mas envolve toda a comunidade, o contato com o sagrado
é facilitado por indivíduos que desempenham a função
sacerdotal – o druida e/ou o rei;
d) A partir dessas observações, percebemos que o
desempenho da função sacerdotal está intimamente
ligado à existência de uma comunidade, da qual
o sacerdote - no caso, o druida e/ou o rei - é o digno representante
espiritual, designado por sua sensibilidade, seu treinamento e sua capacidade.
É aqui que surge
o risco de perceber o sacerdócio como a única forma de
contato com o Sagrado: não é. Mas qual é o risco?
É o de se limitar a experiência do sagrado à prática
e celebração de rituais em detrimento de muitas outras
formas – as quais serão abordadas a seguir.
Culto
aos Deuses
Por distorção
do sentido original, muitas pessoas associam o termo ‘culto’
a uma ritualística carregada, confundindo culto com rito. Strictu
sensu, para o dicionário Houaiss a palavra culto
denota uma ‘reverência respeitosa a uma divindade (Deus,
deuses, santos ou qualquer ente ou elemento da natureza divinizado)”.
Esta definição em momento algum implica em uma estrutura
formal para o contato com o sagrado, que envolva gestos, posturas, momentos,
locais ou palavras específicas – em outras palavras, rituais.
O que vale dizer que, em
que pese a confusão entre os termos, a experiência sagrada
do culto se diferencia do sacerdócio porque o culto a
uma divindade pode ocorrer de forma individual e mais ‘informal’,
mais íntima.
Para todos os efeitos, o
culto uma forma válida de contato com o Sagrado, que parece dispensar
a ritualística e, como a própria palavra implica, precisa
ser cultivado – culto, cultura e cultivo têm a mesma
raiz lingüística. Cultuar uma divindade, portanto,
é uma ação que pode ser individual, mas que exige
o contato constante – o cultivo – que fortalece
e torna significativo esse contato com o Sagrado – tanto quanto
o sacerdócio.
O culto é semelhante – mas não tão intenso
– quanto outra forma de relação com o sagrado: a
devoção
Devoção
Na raiz do termo devoção
está a palavra ‘voto’ – o
devoto é aquele que faz um voto à deidade,
aquele que a ela se dedica. É uma relação
íntima e pessoal, mais profunda do que o culto –
pois este último pode ser grupal. A ligação ente
o devoto e o Sagrado é geralmente tocante e profunda, e pode
até envolver alguma prática ritual, mas não necessita
de liturgias.
Uma das mais freqüentes
críticas ao moderno mundo ocidental, com sua forte herança
judaico-cristã, é a de que o Sagrado foi retirado da paisagem
e da natureza, foi afastado do nosso dia-a-dia. De fato, o conceito
de um deus distante em seu inacessível Paraíso torna difícil
para muitos aceitar a idéia de que o Sagrado pode estar perto
de nós. Muitos dentre os que buscam a Alma Celta ainda não
conseguem se livrar dessa percepção e crêem que,
para contatar o Sagrado, precisam necessariamente de uma formalização
que lhes dê a condição de ‘sacerdote’.
Afinal, desde a formação da igreja ocidental, “Deus
está onde o bispo está, e quando o bispo se ausenta, Deus
se ausenta.”
Na
Espiritualidade Celta não é assim. Ao menos, não
necessariamente. Afinal, a proximidade dos deuses e deusas celtas pode
ser comprovada pela já mencionada sacralidade da paisagem, e
também pelos muitos registros de mitos e lendas nos quais os
deuses e deusas interagem diretamente com mortais. Essa interação,
aliás, é tão intensa que ocorre das mais variadas
formas: deuses que vêm ao mundo dos mortais, mortais que vão
ao reino dos deuses – pelos mais variados motivos: lutar contra
os deuses, ajudá-los a desempenhar tarefas, relacionar-se afetiva
e/ou sexualmente…
Essa forma tão celta
de compreender o sagrado preservou-se na Irlanda até mesmo nos
primeiros séculos aos a chegada da fé cristã àquelas
terras, com o desenvolvimento de um cristianismo independente do cristianismo
de Roma. Em muitas ocasiões, esse cristianismo irlandês,
chamado por suas diferenças de “cristianismo celta”,
opunha-se abertamente aos preceitos e princípios da igreja de
Roma, lutando durante séculos para manter-se independente dos
dogmas impostos pelo Vaticano, enfatizando a importância da experiência
individual do sagrado e, de certa forma, preservando noções
perfeitamente pagãs no que tange à proximidade do divino
e à sacralidade da natureza, de seus ciclos e forças.
Guerreiros
celtas depositam oferendas votivas numa nascente sagrada
(ilustração de Angus McBride)
Como se vê, o contato
com o sagrado é uma constante na mentalidade celta - há
um belo ditado irlandês que exemplifica bem isso: Tá
Tír na nÓg ar chúl an tí, Tír álainn
trína chéile, ou “Tír na nÓg
(um dos nomes para o Outro Mundo) fica nos fundos de casa, um belo reino
a este mesclado.” Ou seja: este mundo – a realidade dos
mortais – e o Outro Mundo – o domínio dos deuses
– são, na verdade, um só. A compreensão desta
verdade é fundamental para quem deseja de fato vivenciar a espiritualidade
celta.
O que nos traz, por fim,
ao último ponto deste ensaio, a última forma de experiência
do sagrado contemplada neste estudo.
Vivência
Não é raro
os praticantes do druidismo e de outras espiritualidades pagãs
proporem em celebrações, cursos e eventos, atividades
descritas como ‘vivências’. De forma corrente, o termo
‘vivência’ é usado para definir atividades
nas quais o participante não apenas recebe informação
e/ou assiste a um ritual, mas experimenta algo, através da prática
e/ou da reflexão proposta.
Por definição, ‘experiência’
é tudo aquilo que vivemos. Aquilo que vivenciamos. Se
trouxermos essa percepção para nosso estudo, o termo ‘vivência’
designa toda e qualquer forma de experiência do Sagrado,
seja em rituais coletivos, no culto individual e na devoção
pessoal. Nenhuma dessas formas – sacerdócio, culto, devoção
- é superior ou inferior às demais, pois todas oferecem
ao indivíduo o contato com o sagrado e a vivência plena
desse contato.
A etimologia da palavra ‘sagrado’ remete ao particípio
passado do verbo sacráre, ou seja: ‘consagrar, sagrar,
dar caráter sagrado a; votar, dedicar’.
Resgatando o Sagrado Celta
Falando especificamente da
espiritualidade celta, vimos na primeira parte deste ensaio que o Sagrado
está na paisagem, nas forças da Natureza (tanto exterior
quanto interior). Portanto, para a Alma Celta as forças
da natureza externa – o clima, o tempo, a paisagem – bem
como as da natureza interna - emoções, idéias,
inspirações e conceitos – são sagradas.
Em seus mitos, os deuses e deusas celtas que incorporam essas forças
nos mostram a importância de se compreender as relações
que estabelecemos com cada uma delas e conosco mesmos.
São muitos os níveis
de relações que as lendas e mitos contidos nos antigos
manuscritos da Irlanda e do País de Gales nos deixaram: um mito
que nos fale de um deus soberano e doador da vida que se une a uma deusa
associada à batalha, à morte e à profecia é
muito mais do que um relato sobre o encontro de dois seres divinos.
Se soubermos apreciá-lo, esse mito nos fornece um retrato preciso
do encontro das forças criativas e destrutivas dentro de cada
um de nós individualmente - e também nas relações
que cada um estabelece com a família, a comunidade, o trabalho,
os valores coletivos da sociedade.
Antes que os mais incautos
afirmem que esta abordagem reduz os deuses a meros ‘arquétipos’
psicológicos, cabe lembrar que o termo arquétipo
foi cunhado por Carl Gustav Jung, ele próprio
profundo conhecedor da força dos mitos como um poderoso manancial
para compreender as relações humanas. Os mitos que tratam
das deidades e figuras heróicas clássicas – Afrodite,
Édipo, Gaia - costumam ser mais amplamente utilizados para esse
fim somente pelo fato de que, por razões históricas, os
mitos gregos possuem maior alcance no mundo ocidental; mas a mesma abordagem
é perfeitamente aplicável e válida – desde
que respeitosa – quando tratamos de mitos celtas. Isso só
comprova a proximidade dos deuses e a valia de um contato mais íntimo
e direto com eles.
Derrubando Pilares
Por influência da mitologia
judaico-cristã e seu deus único e distante – mas
também pela percepção clássica de deuses
em retiro no alto do Monte Olimpo – muitos druidas modernos inconscientemente
preservam esse distanciamento ao tratar dos deuses celtas, insistindo
em uma relação desequilibrada pela qual os
deuses e deusas são inacessíveis à todos, salvo
uma minoria de ‘eleitos’ – os sacerdotes.
Ao longo deste ensaio, passeamos por diversos conceitos que derrubam
essa percepção estereotipada e, importante dizer, totalmente
não-celta.
Após séculos
de afastamento do mundo espiritual – primeiro pelo distanciamento
do Sagrado pela ótica judaico-cristã e depois pelo materialismo
do mundo moderno – a espiritualidade celta como resgatada em nossos
dias propõe a RESTAURAÇÃO de uma percepção
do sagrado mais próximo, que divinize nossas vidas, o mundo em
que vivemos e as relações que estabelecemos de
forma equilibrada, ou seja: horizontal e em duas mãos.
Pela ótica celta,
não somos meros “joguetes dos deuses”, nem
seus “servos”; tampouco somos seus “mestres”
ou “senhores”. De forma simplista, somos parceiros
dos deuses na eterna e contínua dança da criação
do universo, pois eles agem através de cada um de nós
e nós vivemos através deles, em perfeita simbiose –
tanto na relação coletiva do ritual celebrado por um sacerdote,
quanto em nosso culto e devoção individual. O tempo todo,
em toda parte.