A
Ciclicidade Sagrada cura sua Vida
Os
quatro grandes festivais celtas, registrados e descritos nos textos
vernaculares, reconhecidos em séculos de tradições
folclóricas e ainda hoje celebrados de diversas formas são:
Imbolc, Beltane, Lughnasa e Samhain.
- John
King
Como costuma
ocorrer com as religiões nativas ao redor do mundo e ao longo
da história, a espiritualidade celta emana da Natureza. Suas
crenças e práticas derivam do reconhecimento e da compreensão
das forças que regem a vida no mundo em que vivemos. A partir
de seu íntimo entendimento da Natureza, os celtas desenvolveram
uma série de festivais sazonais, através dos quais eles
compreendiam e explicavam as transformações da paisagem
- tanto a exterior quanto a interior, em cada um de nós. Afinal,
tudo que acontece no mundo à nossa volta se reflete e influencia
o que acontece em nossa paisagem interior, no universo íntimo
da alma de cada um de nós.
A "Roda
do Ano Celta" - como é conhecido o conjunto
desses festivais - é composta pela seqüência de celebrações
em datas específicas, que têm sua origem na observação
da passagem das estações do ano.

Origens:
Quatro Estações, Quatro Festivais
O
verão se iniciava em Beltaine (possivelmente significando “O
Grande Fogo”) a 1º de maio,
e o inverno começava em Samhain (“Fim do Verão”),
a 1º de novembro.
Os outros dois festivais, diretamente associados a deidades específicas,
eram Lughnasadh, o festival do deus Lugh, celebrado a 1º de agosto
como uma festa tradicional da colheita; e Imbolg (tido como significando
“Leite de Ovelhas”), que caía em 2 de fevereiro.
Imbolg estava sob os auspícios da deusa Brighid e, posteriormente,
de sua sucessora cristã, Sta. Brígida.
Seu festival comemorava o início da primavera e o nascimento
das ovelhas e de outros rebanhos.
- Juliette Wood
Graças
aos textos medievais e ao folclore sobrevivente na Irlanda, é
possível afirmar que os celtas da Antigüidade celebravam
quatro festivais importantes, cada um associado a uma das estações.
Assim, o
giro da Roda começa com o festival de SAMHAIN, que anuncia a
chegada do inverno, da escuridão e da suspensão da vida,
prosseguindo para o festival de IMBOLC (ou Oimelc), a celebração
do retorno da vida na Primavera. Em seguida, o apogeu da vitalidade
e da fertilidade é celebrado em BELTAINE; a beleza do declínio
outonal é o tema de LUGHNASADH e, por fim, retorna-se a Samhain.
O ‘Calendário de Coligny’ – uma série
de tabuletas de bronze encontradas na França - possui nomes semelhantes
para as datas, o que leva a intuir que, ainda que com pequenas variações
regionais, os mesmos festivais eram observados em todo o mundo celta.
A seguir,
uma breve introdução a cada um dos festivais.

Samhain
O giro da
Roda começa com o Ano Novo Celta: o festival
de SAMHAIN - celebrado a 1o. de novembro
- que anuncia a chegada do inverno, da escuridão e da suspensão
da vida.
O inverno no Hemisfério Norte, especialmente na Idade do Bronze,
é um período de recolhimento, em que a vida na natureza
entra em suspensão - animais migram ou hibernam, a vegetação
resseca ou congela, o tema da morte é constante.
Da mesma
forma que os antigos procuravam proteger-se do frio no interior de suas
casas, cada um de nós, nesse período, é estimulado
a mergulhar em seu interior para compreender nossas questões
mais profundas.
Um tema recorrente
associado a Samhain é a maior proximidade entre nossa realidade
- este mundo - e os domínios espirituais, morada dos deuses e
de nossos ancestrais - o Outro Mundo. As lendas irlandesas relatam como
foi neste período que o herói Cuchulainn conhece donzelas
do outro mundo. Não por acaso, o catolicismo adotou a mesma data
do contato dos deuses celtas para honrar seus santos (1o. de novembro,
Dia de Todos os Santos) e o dia seguinte para honrar seus ancestrais
(2 de novembro, Finados). Como se vê, a importância de Samhain
para a psique é tal que ele sobrevive e se impõe à
introdução do cristianismo nas terras celtas.
A princípio,
um festival associado aos ancestrais e ao outro mundo pode soar um tanto
lúgubre à mente moderna – mas não podemos
esquecer que os celtas viam a morte de uma forma muito diferente: para
eles, a morte era – como de fato é, ainda que tentemos
negar – um processo natural e necessário para a continuidade
da vida. Qualquer observação de nossa rotina nos mostra
que é da morte que surge a vida – numa refeição,
outros seres devem morrer para que continuemos vivos, e esse é
um processo natural a ser encontrado em todos os níveis da existência.
Ao proporcionar uma releitura do que é a morte, o festival celta
de Samhain permite que compreendamos melhor o que é a vida, passando
assim a desfrutá-la melhor e com mais respeito e honra.

O fato de
Samhain ser o Ano Novo Celta é mais um indicativo disso: para
os celtas, o tempo não é linear, mas cíclico: assim,
todo fim é, na verdade, um recomeço.
Samhain é um período de se honrar os processos mágicos
de início, fim e reinício – vida, morte e renascimento,
a contínua e eterna ciclicidade da criação. Como
ainda fazemos no Ano Novo civil (31 de dezembro/1º de janeiro),
Samhain é um momento indicado para reavaliar conceitos e planos,
livrando-se daquilo que não serve mais, descartando idéias
obsoletas e abrindo espaço para o novo, um verdadeiro processo
de renascimento.
Em
parte, as comemorações de Samhain celebravam a cópula
ritual de Dagda com três divindades: a Morríghan, Boann
e a filha anônima de Indech. Não sabemos até que
ponto estas práticas incluíam ritos de fertilidade, mas
na tradição oral irlandesa e escocesa Samhain é
tido como um período excepcionalmente favorável para mulheres
engravidarem.
- James MacKillop

Imbolc
/ Oimelc
No
que tange o ano agrícola, Imbolc provavelmente assinalava o período
de lactação das ovelhas, quando o rebanho podia ser levado
às pastagens altas.
- Barry Cunliffe
Após o recolhimento e a introspecção do
inverno,chegamos ao festival de IMBOLC (ou Oimelc), a celebração
do retorno da vida na Primavera.
Este festival,
celebrado a 1o. de fevereiro, está intimamente associado à
deusa Brighid - Senhora da Tríplice Chama, que
aquece nossos lares, que cura e que inspira. Oimelc significa, em irlandês
arcaico, “lactação das ovelhas”, justamente
porque era neste período que as ovelhas, prenhes, produziam leite
para seus filhotes - e também para o consumo dos humanos.

Portanto,
o tema “maternidade” e nascimento é o carro-chefe
deste festival. Tão forte é a imagem de Brighid no subconsciente
ocidental que essa deusa ancestral foi cristianizada na figura de Santa
Brígida, padroeira da Irlanda. Obviamente o dia dessa
santa católica é justamente o dia 1o. de fevereiro - mais
uma prova do vigor dessa data no inconsciente coletivo.

Beltaine
Numa
sociedade pastoral como a dos celtas, e em especial os da Irlanda, este
era um momento crucial, no qual os rebanhos podiam sair de seus abrigos
e levados aos pastos. (...) As chamas que brotavam da pira na colina
de Tara, acesas pelo rei da Irlanda e sob a proteção dos
druidas, eram mais do que um símbolo. No ciclo dos dias e estações,
elas eram a prova de que a vida pode nascer da morte.
- Jean Markale
Depois do
retorno da vida em Imbolc, chegamos ao alegre e colorido festival de
BELTAINE, celebrando o apogeu da vitalidade e da fertilidade; como forma
de aproveitar os ventos favoráveis dessa data - 1o. de maio -,
muitos casamentos costumam ocorrer nas celebrações de
Beltaine.

Em irlandês
antigo, o nome Beltaine
significa “Fogos de Bel” (Bel/Belenos é um deus celta
geralmente associado ao sol), ou “Fogos da Cura”; era ao
redor das fogueiras que os celtas da Antigüidade cantavam e dançavam
a alegria de viver e a fertilidade da terra, da comunidade e dos indivíduos
que a compõem.
A sensualidade
e a jovialidade são as marcas principais deste festival, e sua
temática ainda hoje pode ser percebida na tradição
cristianizada de que maio é o “Mês das Noivas”.

Lughnasadh
Desde
há muito um festival celebrando o amadurecimento dos grãos
e, depois de sua introdução, a maturação
das batatas, Lughnasa celebra Lugh Lámfhota, um dos mais proeminentes
heróis da literatura irlandesa primitiva. (...) De acordo com
a tradição irlandesa, contudo, foi o próprio Lug
que estabeleceu o festival em honra a sua mãe adotiva, Tailtiu,
em Brega, atualmente no Condado de Meath. (...) A Igreja não
se opôs à continuidade do festival que assinalava o início
da colheita e o desaleitamento dos bezerros e ovelhas, mas os nomes
diferentes a ele atribuídos obscureceram suas origens pagãs.
-- James MacKillop
A beleza
melancólica do declínio outonal é o tema de LUGHNASADH,
celebrado a 1o. de agosto. Literalmente, Lughnasadhé o “Festival
de Lugh” – mas ao contrário do que se costuma
dizer, o festival não é uma comemoração
ao próprio Lugh Lamfhóta, mas sim uma celebração
por ele inaugurada em honra à sua mãe de criação
- Tailtiu, uma deusa ctônica das terras irlandesas.
(Obs.:
o nome Lammas, apesar de usado abertamente por muitos neo-pagãos
para descrever este festival, é preterido no druidismo em favor
do nome original Lughnasadh. Afinal, Lammas sequer é um vocábulo
celta, mas sim anglo-saxão em origem: Hloaf-mass, ou “Festival
do Pão”)
Por se tratar
de um festival outonal, seu simbolismo é a fartura da colheita
- tanto das riquezas da terra quanto de tudo aquilo que fazemos em nossas
vidas - aquele que planta bem, colhe bem.

Assim, retorna-se
a Samhain. O ciclo se completa e se renova - eternamente.

Para além
das Origens...
Sabemos
que o calendário original celta, baseado em séculos de
estudos do firmamento e de uma admirável habilidade matemática
para calcular os movimentos dos astros,
era uma engenhosa adaptação de um calendário lunar
aos ritmos solares.
- Venceslas Kruta
Como vimos
acima, os festivais celtas possuem em sua origem elementos que os remetem
às estações do ano – porém, sua profunda
mitologia e seu simbolismo ultrapassam em muito os limites da observação
da ciclicidade da paisagem: a real compreensão dos mitos dos
festivais traz alterações profundas em nossa percepção
do que é o tempo, a vida, a morte e o renascimento.
Isso exige
muito estudo, muita reflexão e, principalmente, muita prática.

Aprofundando
a Roda do Ano
Os
quatro festivais sazonais refletem os ciclos agrícola e pastoril
do ano, mas eram também períodos mágicos nos quais
cria-se que as fronteiras entre os mundos real e sobrenatural estavam
mais tênues.
- Juliette Wood

A
celebração dos festivais da Roda do Ano é um dos
pilares da vivência da Alma Celta. Sua importância
pode ser atestada pela absorção dos festivais por outros
caminhos espirituais, como a wicca e outras sendas neo-pagãs.
(Apesar de a wicca também observar a roda do ano, seu significado
para aquela tradição espiritual é bem diferente,
e possui poucas semelhanças com o simbolismo e a mitologia original
dos celtas como resgatada pelo druidismo moderno.)
Contudo,
poucos parecem se aperceber da profundidade dos festivais. Sua celebração
correta é um processo verdadeiramente transformador e iniciático
por si só - desde que se compreendam os simbolismos mais profundos
de cada festival. Afinal, cada um desses festivais possui vários
níveis, citando alguns:
- o Nível
Ambiental, com as origens sazonais de cada celebração
e os temas associados;
- o Nível Intrínseco, em que micro e
macro se integram para explicar a ciclicidade da vida em suas diferentes
esferas;
- o Nível Mitológico, em que os mitos
de cada festival fornecem ingredientes preciosos para sua vivência
plena;
- o Nível Pessoal, em que se percebe as correspondências
entre todos esses níveis e o indivíduo.
Evidentemente
é possível vivenciar os festivais celtas somente nos níveis
mais superficiais – aqueles que nos conectam à paisagem
onde estamos. Contudo, sem se compreender essas múltiplas facetas,
não há como desfrutar plenamente da magia da Roda do Ano.
Os vestígios irlandeses
indicam que os celtas anualmente celebravam quatro festivais principais,
cada um aparentemente associado à fertilidade e à ciclicidade
das estações.
As festas, contudo, refletem mais do que somente o ciclo anual de fazendeiros
e pastores: também estão ligados à vida política
e religiosa das comunidades irlandesas.
- Simon James

Norte
ou Sul?
Um dos temas
mais polêmicos entre os druidas brasileiros (bem como em outros
pontos do planeta, como a ativa comunidade druídica australiana)
é o que trata da questão dos Hemisférios. É
sabido que as estações do ano são invertidas
nos dois hemisférios: por exemplo, quando é inverno
no Hemisfério Sul é verão no Hemisfério
Norte, e assim por diante.
Ao resgatar
os festivais celtas - Samhain, Oímelc, Beltaine e Lughnasadh
-, as modernas tradições druídicas buscam restaurar
a íntima conexão com a ciclicidade da Natureza
e com seus processos criativos, transformadores e regeneradores,
uma característica marcante das crenças e práticas
espirituais de nossos ancestrais. Através da celebração
dos rituais sazonais, as forças naturais do nascimento (primavera),
expansão e fertilidade (verão), frutificação
e declínio (outono) e morte e adormecimento (inverno) podem ser
vivenciadas intensamente não só na paisagem externa, mas
também - e principalmente - no interior de cada um de nós,
em nossa alma.
Mas a inversão
das estações nos hemisférios com relação
às datas calêndricas gera um mar de dúvidas ao druida
moderno. Tomemos Beltaine como exemplo: se estou no sul e Beltaine está
em sua origem associado ao verão, como celebrar esse festival
em pleno inverno? E se eu simplesmente inverter as datas, corro o risco
de perder contato com as milenares tradições a elas associadas?
Antes de
prosseguir, é necessário frisar que não
existe ninguém em condições de
dizer que existe forma certa ou errada de se celebrar a Roda do Ano
- a escolha é individual e deve sempre ser pautada por
uma compreensão profunda e informada.
Apenas para
recordar, em seu nível mais superficial os festivais estão,
de fato, associados às estações do ano. Mas vimos
que existem outros níveis, mais profundos, que envolvem o simbolismo
mitológico, os arquétipos, as deidades, as correspondências
astrológicas...
Nesses casos, a mudança da paisagem (outra região, outro
continente, outro hemisfério...) não influencia o simbolismo
da data.
Como já
dito, contudo, para que isso faça sentido é preciso abandonar
a leitura superficial das datas e realmente compreender seu significado,
suas origens e temas.
Para alguns
praticantes, a inversão das estações do ano nos
hemisférios justifica a alteração das datas dos
festivais, para adequá-los ao ritmo sazonal no Hemisfério
Sul. Tem sentido, e funciona - especialmente na wicca e em outras correntes
da chamada bruxaria moderna, que adotam a mitologia conhecida como o
“Romance da Deusa”, em que cada festival corresponde a uma
‘fase’ na relação estabelecida entre a figura
tipicamente romântica da Grande Mãe e o Deus seu amante/filho.
(Nunca é demais reforçar que a mitologia
do "Romance da Deusa", de desenvolvimento recente, ecoa a
figura do “incesto sagrado’ presente em outras mitologias
da Antigüidade, mas não se reflete nos mitos e lendas celtas.)
Contudo,
a passagem das estações do ano não é
o único - nem o mais importante – elemento dos festivais
celtas, o que faz com que outras correntes neo-pagãs
percebam na inversão das datas uma ruptura com a poderosa energia
dos festivais em suas datas originais. É o caso de diversas vertentes
do druidismo moderno.
Por enfatizar
um mergulho mais aprofundado nos mistérios das celebrações,
seu simbolismo e seu poder transformador, o druidismo estimula que,
para que se possa desfrutar da energia dos festivais celtas, outra solução
seja adotada - afinal, é impossível deixar de
notar que os temas mais profundos das datas do calendário druídico
original são tão fortes e potentes que sobrevivem e encontram
paralelos em outras tradições mágico-espirituais,
como o cristianismo – como vimos nalguns exemplos acima - e a
Astrologia: a sobreposição dos festivais celtas
à roda zodiacal apresenta correlações surpreendentes.

Ora, nem
as datas sagradas do calendário cristão e nem a Astrologia
são invertidos no Hemisfério Sul - apesar de suas incontestáveis
origens e associações a eventos astronômicos e sazonais
do Hemisfério Norte. E ninguém em sã consciência
há de questionar a validade tanto da mitologia cristã
como da ciência astrológica em terras meridionais.
Assim, quando nos dispomos a compreender não só o simbolismo,
mas também as origens e os significados de cada festival, percebemos
que existem muitos outros fatores - mitológicos, espirituais,
arquetípicos - associados a cada festival, que não devem
ser desprezados - sob pena de se acessar somente uma parcela ínfima
do poder transformador dessas datas.

Não
há como negar: é do conhecimento e da compreensão
dos mitos, costumes e lendas de cada festival que surge uma vivência
plena desses momentos especiais.
E são
justamente os mitos celtas associados aos festivais que nos fornecem
uma indicação preciosa de como os druidas no Hemisfério
Sul podem acessar a ancestralidade espiritual de seus festivais sem
perder contato com a paisagem na qual estão inseridos. Afinal,
para uma espiritualidade como o druidismo - em que a ligação
entre o indivíduo e a paisagem, seus ciclos e ritmos sagrados,
é tão importante - não faria sentido abrir mão
da conexão com esses ciclos e ritmos.

Solstícios
e Equinócios
O
calendário celta e, portanto o calendário de festivais
druídicos, seguramente não possuía nenhuma ligação
com os solstícios - ao contrário do quanto propagado por
ondas de neodruidas que extraem seu conhecimento e suas tradições
de suas próprias fantasias. (...) Não há sequer
um único texto antigo que mencione qualquer data sagrada celta
nas proximidades dos solstícios de verão ou inverno.
- Jean Markale
Atualmente,
o início das estações do ano é oficialmente
identificado por momentos astronômicos especiais e ritmados, conhecidos
como solstícios (de verão e inverno) e equinócios
(de primavera e de outono). A palavra ‘solstício’
tem sua origem no latim, e significa “O sol parado”
– uma alusão ao fato de que nesses dois dias, a trajetória
do sol ao nascer no horizonte parece parar por alguns dias antes de
inverter a direção. O Solstício de Inverno
ocorre quando as horas da noite (entre o crepúsculo e a aurora)
atingem seu ponto alto - a noite mais longa do ano. De forma análoga,
o Solstício de Verão assinala o dia (da
aurora ao crepúsculo) mais longo do ano. Já equinócio
- do latim ‘æqui-noctium’, ‘noite
igual (ao dia)' – indica os momentos em que as horas
entre o nascer e o pôr-do-sol são iguais às horas
noturnas – a noite igual ao dia.

Se no macrocosmo
das estações a primavera e o outono são pontos
de equilíbrio entre as forças do frio (inverno) e calor
(verão), os equinócios de Primavera e de Outono representam
uma reprodução desse equilíbrio no microcosmo do
dia e da noite. Tanto equinócios quanto solstícios são
momentos astronômicos importantes, observados em todos os continentes
e determinantes para a elaboração dos calendários
das mais variadas culturas da Antigüidade e de nossos tempos.
Entretanto,
e a despeito do fato de que o druidismo observa esses momentos desde
o Renascimento Druídico do Século XVIII, não
há indícios de que os celtas celebrassem solstícios
e equinócios. Isso pode ser parcialmente explicado pelo
fato de que os celtas pareciam possuir um calendário originalmente
lunar - e solstícios e equinócios são fenômenos
solares.
Numa cultura como a celta, em que lendas e mitos são atribuídos
a cada característica da paisagem e da Natureza (ver, por exemplo,
o Dindshenchas irlandês), o fato de não
haver lendas ou mitos equinociais ou referentes aos solstícios
suporta a tese de que tais datas não eram observadas pelos celtas
– e mesmo que fossem, atualmente os registros são tão
escassos que se mostram insuficientes para a revitalização
de suas práticas. Some-se a isso o fato de que alguns estudiosos
– como o Prof. Ronald Hutton – afirmam que solstícios
e equinócios só foram associados aos inícios das
estações em tempos bem recentes – mais precisamente,
no século XIX.
Assim, até
o momento temos a seguinte situação:
a) Os quatro
festivais originais que compõem a "roda do ano" celta
– Samhain, Imbolc, Beltaine e Lughnasadah - possuem diversos mitos
e lendas a eles associados que, quando devidamente estudados, nos fornecem
elementos preciosos para sua vivência;
b) A força desses mitos e lendas pode ser atestada por sua sobrevivência
em outras correntes mágico-espirituais (cristianismo, folclore
e astrologia);
c) Nessas correntes, sua sobrevivência é perceptível
nas mesmas datas, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul;
d) Os celtas não celebravam nem solstícios, nem equinócios,
como indica a ausência de mitos correlatos.
A
Via do Meio
Isso abre
a perspectiva da criação de um sistema que permita aos
druidas do Hemisfério Sul preservar a conexão
espiritual e simbólica com as datas originais, sem descuidar
- como convém a druidas que se prezam - da ligação
com a sacralidade da paisagem local.
Mas como
isso ocorre?
Ocorre justamente
graças à ‘liberdade’ que a ausência
de práticas, mitos e costumes originalmente celtas associados
a solstícios e equinócios oferece para que o druida se
harmonize com os ciclos da paisagem externa que o rodeia - enquanto
que a observação dos quatro festivais celtas mantém
a ‘ponte espiritual’ que conecta o druida meridional às
suas origens e à sua herança mito-religiosa.

Trocando
em miúdos, os festivais celtas são mantidos em suas datas
originais do Hemisfério Norte, para preservar a conexão
mitológica e simbólica, enquanto que os solstícios
e equinócios, livres de associações mitológicas
no calendário celta, oferecem a conexão com a paisagem
do Hemisfério Sul. Esse sistema surgiu anos atrás, a partir
de meus estudos e vivências pessoais: quando eu o apresentei a
grupos de estudos e em meus cursos, ele foi chamado de “Roda Mista”
– nome que perdura até hoje.
A "Roda
Mista" permite que, ao celebrar os festivais celtas em
suas datas originais, o druida tenha acesso ao poder transformador desses
festivais em toda a sua profundidade, graças à vivência
dos mitos e lendas, enquanto que a celebração dos solstícios
e equinócios pelas datas do sul fortalece a conexão sagrada
entre o indivíduo e o mundo em que vive.
Afinal, o
druidismo só tem sentido de fato quando atende-se a uma das mais
belas tríades do druidismo britânico:
“São
três os deveres de um druida:
- curar a si mesmo;
- curar a comunidade;
- curar a terra,
sem o que não merece ser chamado de druida.”
(British
Druid Order)
Como se nota,
o tema é por demais complexo e oferece diversas nuances e variáveis
- não será um artigo como este a explaná-lo por
inteiro. Peço, assim, que o amigo leitor encare este texto como
uma mera introdução ao debate sobre o
tema – e que sempre tenha em mente que não existe resposta
“única”ou definitiva para a questão: apenas
reflexões que precisam sempre – como toda reflexão,
mas especialmente no druidismo – da prática para ser ou
não efetiva às necessidades e desejos de cada um.
© 2008,
Claudio Quintino Crow
(1a revisão - Imbolc 2011)
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