Introdução

O termo ‘celta’ é uma bolsa mágica, onde tudo pode ser inserido e da qual quase tudo pode sair... tudo é possível no fabuloso crepúsculo celta.
JRR Tolkien


A Alma Celta é rica e sedutoramente atraente. Multifacetada, ela pode nos atrair pela magia de suas lendas e mitos, ou pela harmonia e ritmo da música das terras celtas; talvez sejam as paisagens silvestres da Irlanda, Escócia ou País de Gales, ou a encantadora arte dos entrelaçados celtas; pode ser a mística dos antigos druidas, ou a ourivesaria das palavras de seus escritores e poetas; talvez a história gloriosa de independência e resistência, ou ainda a sacralidade da Natureza no pensamento celta.

Não importa o motivo que lhe atraia em primeiro lugar: cedo ou tarde, a Alma Celta logo nos conduz suavemente a procurar saber mais sobre outros aspectos da cultura celta.

Ao longo dos anos, por meu trabalho como escritor e instrutor de cultura celta, encontrei incontáveis pessoas, das mais diferentes faixas etárias e áreas de interesse, dizendo exatamente a mesma coisa: “não sei explicar porque gosto tanto dos celtas”... Parece uma sedução inconsciente – e, por isso mesmo, irresistível. De alma para alma.

À primeira vista, para muitos pode soar estranho que uma cultura do passado se mostre de alguma forma atraente até mesmo para quem não tem sequer ancestralidade direta. Contudo, o contato com a história e a cultura dos celtas do passado - bem como seus desdobramentos na moderna cultura das terras celtas (em especial da Irlanda) - apresenta muito mais do que a satisfação de mera curiosidade sobre um passado remoto: através do conhecimento da cultura celta podemos entender muito do que somos no mundo ocidental – e resgatar elementos importantes dessa nossa identidade comum.

Música, arte, espiritualidade, filosofia, Natureza: em busca da Alma Celta, cada um de nós trilha seu próprio caminho. A beleza da individualidade dessas buscas forma um caleidoscópio de imagens, idéias, emoções, sensações e conceitos. Compartilho abaixo os passos de meu caminho, como forma de retribuir à Alma Celta a inspiração recebida.


Um Chamado para a Jornada

Os celtas são uma paixão antiga: desde minha infância, ao ler as deliciosas aventuras criadas pelos franceses Uderzo e Gosciny para Asterix, um "gaulês da Gália celta", apaixonei-me pela figura sábia, justa e fascinante do druida Panoramix. Nos quadrinhos é ele quem prepara a poção mágica que dá força sobre-humana a quem dela bebe. Em mim, Panoramix e seus amigos despertaram uma curiosidade mágica de saber quem eram os celtas. Pus-me a pesquisar.

Numa era anterior a googles, yahoogrupos, Amazon e outras facilidades modernas, minha fonte de pesquisa eram livros - importados, praticamente todos, pois não dispúnhamos de muitos títulos em português. E como importei livros... mitologia, arqueologia, história - tudo que se relacionasse aos celtas em geral - e à sua espiritualidade em particular.

Foi essa sanha por conhecimento que me pôs em contato com o trabalho de importantes autores acadêmicos, como James MacKillop, Simon James, François LeRoux, Nora Chadwick, Barry Cunliffe, Proinsias McCana, Jean Markale e Miranda Green. As obras desses importantes pesquisadores forneceriam as bases históricas de meu trabalho.


Inspiração

Pois ao ler sobre a espiritualidade celta, sobre sua íntima conexão com a natureza e sua filosofia profunda acerca das coisas do espírito, entendi que não podíamos estar falando de algo do passado, que não existisse mais. Entendi que, de alguma forma, a Alma Celta precisava estar viva.

Afinal, como poderia uma espiritualidade que enaltece a natureza ter desaparecido? Como uma filosofia que reconhece a sacralidade da vida em todas as suas formas não existiria mais? Como crer que havia desaparecido uma sociedade na qual a honra pessoal e o bem estar da comunidade conviviam harmoniosamente, naturalmente? Como aceitar que uma sociedade em que as mulheres tivessem mais direitos do que hoje ficasse relegada ao passado? Como um sistema jurídico para o qual a palavra empenhada valia mais do que qualquer assinatura num contrato teria deixado de existir?

Pus-me a pesquisar mais e mais – e essas pesquisas me revelaram que a Alma Celta tinha um vigor e um apelo que não cabia no olhar de uma mera análise superficial: para mim ficara claro que a forma dos celtas verem o mundo, verem a vida e interagirem com a realidade não era algo somente apreciável: em seu âmago, a Alma Celta trazia respostas a questões importantíssimas de nosso dia-a-dia.

Quando mais eu pesquisava sobre os celtas, mais eu percebia que estava diante de uma espiritualidade e uma filosofia que não devia nada às decantadas correntes filosófico-espirituais do Oriente: até por uma comprovada herança comum, a espiritualidade celta tem muitos paralelos preciosos com os ensinamentos e lições do budismo, do taoísmo e do hinduismo, o que a torna tão válida quanto essas respeitadas sendas espirituais.

 

Peregrinatio

Foi então que resolvi ir ter com as terras e lugares celtas eu mesmo. Inglaterra e, principalmente, Irlanda, por duas vezes me receberam. Visitar as paisagens que inspiraram aquela espiritualidade que muitos julgavam desaparecida foi um experiência transformadora: numa tarde chuvosa, sobre a sagrada Colina de Tara, o coração espiritual da Irlanda Celta, percebi que meu espírito tinha encontrado o caminho de volta para casa. Percebi que a Alma Celta não se limitava aos livros, que ela estava viva e pulsante - sob meus pés, na canção dos ventos que sopravam e da fina chuva que nos banhava naquela tarde de outono.


1996 - primeira visita à Sagrada Colina de Tara

Ao conhecimento dos autores acadêmicos acima mencionados somei o trabalho inspirado de autores como John e Caitlín Matthews, Philip Carr-Gomm, Patricia Monaghan e Emma Restall Orr que, pautados no mesmo apreço pela historicidade, lançam importantes bases para o resgate da espiritualidade celta para nossos dias. A partir dali, esse seria meu caminho.

Retribuição

Divulgar a espiritualidade e a filosofia celta de forma séria e sem mistificações, através de minhas palestras, artigos e livros tornou-se um ofício e um prazer. A amizade com Emma Restall Orr e John Matthews enriquece meu trabalho, e também traz responsabilidades: em 2002, após treinamento e iniciação bárdica conduzidos pela própria Emma, tive a honra de ser por ela indicado como representante no Brasil da British Druid Order e, posteriormente, da Druid Network. Por diversos anos, exerci essa função com carinho e orgulho - até que o sagrado momento de renovação clamou por novos ares e novas mãos para dar continuidade ao trabalho. Ao mesmo tempo, desenvolvi os cursos de druidismo e espiritualidade celta. Ao longo dos anos, das turmas formadas por esses cursos geraram diversos grupos druídicos, criados dentro da tradição do moderno druidismo britânico.

Apesar disso, minha abordagem não se limita ao druidismo como se este fosse a única manifestação moderna da espiritualidade celta. Ao contrário: como veremos a seguir, o druidismo atual é uma dentre várias heranças que os celtas da Antiguidade nos legaram – a ele se soma o rico folclore das terras celtas preservado nas lendas, nas canções tradicionais e nas tradições cristianizadas, sobretudo da Irlanda.
A Alma Celta, como vimos, é rica e multifacetada.

Eis porque aquele que deseja realmente compreender a preciosa herança cultural dos celtas não pode se deixar limitar pelos rótulos - tão valorizados por muitos praticantes modernos, mas ao mesmo tempo tão sabotadores de uma compreensão mais profunda do que seja a Alma Celta.

Ao longo dos anos, recebi e recebo contato de pessoas de lugares distantes interessadas em meus cursos – em outros estados brasileiros e até do exterior. Evidentemente, dada a sua natureza vivencial e prática das aulas que apresento, é impossível disponibilizar todo o conteúdo num webiste. Mesmo assim, foi pensando nessas pessoas – e naqueles que, por diversos motivos, não têm oportunidade de participar de meus cursos – que criei estas páginas.
Nos textos a seguir, coloco a seu dispor o fruto de meu aprendizado e minha experiência no druidismo - afinal, como sempre digo a meus alunos, "ter acesso ao conhecimento é um dever de todos; transmitir conhecimento é um dever de quem tem." Espero que, de alguma forma, as palavras que se seguem sejam capazes de transmitir ao amigo internauta toda a magia, a profundidade, o encantamento e a paixão que a Alma Celta desperta.

Escadaria no místico mosteiro de Skellig Michael, Irlanda

 

Múltiplos aspectos, uma Essência

Com o tempo e a experiência, o contato mais aprofundado com a Alma Celta nos mostra que todas as suas muitas manifestações - na música, na história, na arte, na espiritualidade celtas - apresentam as principais características que formam a identidade do que se convencionou chamar de "herança celta": uma apreciação pelo belo, a liberdade de criação, a fluidez e o entelaçar de estilos, traços, vozes e idéias.

É assim que a Alma Celta vê o mundo e, para que sejamos capazes de compreende o quanto ela tem a nos oferecer, é preciso que aprendamos a perceber o mundo com essa mesma visão livre, poética e artística. Isso exige um esforço consciente, pois por muito tempo nossa mente moderna nega valor ao poético, ao livre, ao criativo. Nas palavras da poetisa de origem irlandesa Anne Hartigan,

"a tradição filosófica ocidental, através da qual formamos nossas percepções, nos condicionou a ver tudo em pares de opostos: branco/preto, corpo/alma, espírito/carne, bem/mal, luz/treva, homem e mulher. Esta forma de ver as coisas nos tem trazido problemas contínuos, pois persiste numa visão de 'ou isto ou aquilo' ao invés de 'ambos unidos e iguais'".

O que a Alma Celta nos propõe, portanto, é o saudável desafio de recuperarmos a visão que permeia toda uma cultura, cultura essa que está na base do mundo ocidental: uma visão que recupere a beleza e a poesia dos ciclos da vida, a liberdade e a criatividade da ação inspirada, o equilíbrio e a complementaridade daquilo que é diferente mas que, no conjunto, se entrelaça e se funde formando um único, belo, poético e inspirado painel: o mundo em que vivemos.


A mente celta jamais se viu atraída pela linha reta, e evita formas de ser e perceber que se satisfaçam com a certeza. A mente celta possui um maravilhoso respeito pelo mistério do círculo e da espiral.
- John O'Donohue

 

Escolha seu Caminho...

Nossa jornada pelo mundo da espiritualidade celta se inicia numa bifurcação.

Uma das trilhas, "Celtas: Mito & História", nos conduz por importantes informações acerca da cultura celta – afinal, não há como compreender uma espiritualidade e sua mitologia sem conhecer o povo que a desenvolveu. São conceitos, elementos sócio-culturais e um breve relato das aventuras desse povo através do Tempo. Já o outro caminho, "Em busca da Alma Celta", nos leva a contatar a faceta mais filosófica da espiritualidade celta em geral - e do druidismo em particular. São caminhos independentes, mas que se complementam e se fundem – algo facilitado pelos hyperlinks contidos ao longo do texto. Os links abaixo conduzem a cada uma dessas trilhas; se a princípio você se interessa mais por uma do que pelo outra, verá que, inevitavelmente, uma levará à outra.

Escolha por onde começar: deixe-se levar pelo fascínio que os temas exercem. Ao final, todos os caminhos conduzirão a uma melhor compreensão da Alma Celta.

Claudio Quintino 'Crow'
Junho de 2007
1ª atualização: Setembro de 2010

2ª atualização: Fevereiro 2011

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