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Herança Cultural
O vigor
da cultura celta pode ser atestado pelos muitos elementos culturais modernos
associados àquele povo. Mas
o que é, de fato, ‘celta’?
Como descrito
em várias outras páginas deste website, o termo “celta”
é bastante atraente, sendo por isso usado com freqüência
para descrever estilos musicais, poesia, dança, caligrafia, decoração
e muito mais.

'Tanglewood' (Bradley W. Schenck)
Muitas dessas
características costumeiramente descritas como "celtas"
na verdade são variações folclóricas de culturas
regionais, e não manifestações originais da cultura
celta ancestral. O exemplo mais marcante é o da música:
diversos artistas são rotulados como "música celta",
quando na verdade o mais correto seria usar a expressão "música
tradicional irlandesa." O próprio Taisce Cheol
Dúchais Éireann ('Arquivo da Música
Tradicional Irlandesa', órgão oficial vinculado ao Ministério
da Cultura da Irlanda) define “música irlandesa” como
"um termo muito amplo que inclui diferentes tipos de música
vocal e insturmental, bem como estilos de diversos períodos".
O mesmo vale
para a arte celta - os famosos knotworks, ou entrelaçados
celtas. Em sua maior parte, esses elementos decorativos são originários
da Irlanda cristã, encontrados nos preciosos manuscritos dos monges
copistas irlandeses. A arte celta propriamente dita - aquela representada
pelos artefatos dos períodos Hallstatt e La Tène, era diferente
do que se costuma imaginar.
Em todos os
casos, porém, pode-se notar a presença das principais características
que formam a identidade do que se convencionou chamar de "herança
celta": uma apreciação pelo belo, a liberdade de criação,
a fluidez e o entelaçar de estilos, traços, vozes e idéias.

A Alma Celta
vê o mundo dessa forma, e para entendermos a Alma Celta e o quanto
ela tem a nos oferecer, é preciso que aprendamos a perceber o mundo
com a mesma visão livre, poética e artística. Isso
exige um esforço consciente, pois por muito tempo nossa mente moderna
nega valor ao poético, ao livre, ao criativo.
Nas palavras
da poetisa hiberno-britânica Anne Hartigan, "a
tradição filosófica ocidental, através da
qual formamos nossas percepções, nos condicionou a ver tudo
em pares de opostos: branco/preto, corpo/alma, espírito/carne,
bem/mal, luz/treva, homem e mulher. Esta forma de ver as coisas nos tem
trazido problemas contínuos, pois persiste numa visão de
'ou isto ou aquilo' ao invés de 'ambos unidos e iguais'".
A compreensão
da Alma Celta em suas muitas manifestações depende disso:
uma percepção poética da vida, da ciência,
da religião, da política. Poética no sentido literal:
criativa, viva, transformadora, real.
A mente celta jamais se viu atraída pela linha reta, e evita
formas de ser e perceber que se satisfaçam com a certeza. A mente
celta possui um maravilhoso respeito pelo mistério do círculo
e da espiral.
- John O'Donohue

Entrelaçados Celtas: prazer aos olhos, ouvidos e alma
Consciente da multiplicidade e fluidez do universo, a Alma Celta sabe
que nada é somente uma coisa. Nada é somente o que aparenta
ser, tudo possui diversas interpretações e percepções
– diferentes entre si mas não exludentes. Ao contrário:
por apreciar a fluidez e a diversidade, a Alma Celta, ao estimular diferentes
interpretações, permite que elas se somem para produzir
uma compreensão mais completa do todo.
Isso é
facilmente identificado nos já mencionados knotworks,
em que as linhas enrolam-se entre si, ora aproximando-se, ora afastando-se,
num eterno balé que não tem começo nem fim. Pode-se
enxergar nesse estilo de ornamento uma interpretação simbólica
do fluir do tempo cronológico e também de nossas experiências
individuais e coletivas - padrões que se repetem sem nunca serem
os mesmos, em infinita e eterna progressão.

O entrelaçar
dos knotworks celtas não se resume ao universo visual:
também a música que vem das terras celtas – sobretudo
da Irlanda – possui essa mesma natureza, facilmente identificada
nos “diálogos” entre os instrumentos que, ao redor
de um tema base, tecem uma tapeçaria de vozes, texturas, ritmos
e nuances que traz aos ouvidos o mesmo fascínio que os knotworks
trazem à visão.
Também
no plano das idéias e emoções, a Alma Celta mostra
sua apreciação pelo sinuoso, pelo complexo, pelo entrelaçado,
pela existência de diversos substratos e níveis interpretativos.
A moderna
literatura irlandesa nos apresenta preciosos exemplos de como a Alma
Celta reproduz, através da arte, a complexidade fluida do mundo.
A despeito de serem recentes, obras de autores irlandeses modernos como
“At Swim-Two-Birds” e “Ulysses”,
para mencionar apenas duas, inegavelmente possuem uma vibrante reprodução
temática dos knotworks celtas em sua composição.
Na primeira, o autor Flann O’Brien apresenta três
histórias distintas que se entrelaçam, com personagens que
saltam de uma narrativa para outra, metaficção em seu melhor.
Já em ‘Ulysses’, opus maxima de James
Joyce, nada é o que parece ser: tudo – da estrutura
narrativa aos nomes das personagens – possui ao menos um outro significado
secundário, quase nunca evidente, quase sempre vital para uma compreensão
mais profunda do texto.

Em 'At Swim-Two-Birds', o autor Flann
O'Brien entrelaça a narrativa do mitológico
Rei Sweeney com cowboys e outras figuras na Dublin do século XX.
Esta multiplicidade
de sentidos e interpretações é freqüentemente
encontrada nos textos mitológicos da Irlanda medieval, em que os
nomes de lugares e personagens, eventos e conceitos são todos apresentados
com mais de uma possível explicação – um lembrete
de que nada é somente uma coisa, tudo se mescla e se mistura ao
todo, num processo que não deixa dúvidas: o sentido, como
a beleza do provérbio, “está nos olhos de quem contempla”.

Continuidade: entrelaçando passado, presente e futuro
Em termos de arte visual, é possível identificar uma continuidade
entre os estilos Hallstatt e La Tène e, posteriormente,
entre este e as iluminuras medievais da Irlanda. Da mesma forma, ainda
que mais sutil é possível identificar a continuidade que
une a literatura primitiva da Irlanda Celta e os luminares da moderna
literatura irlandesa.
Por trás
de ambas essas continuidades, uma abordagem mais carinhosa identifica
a presença constante da Alma Celta: livre, fluida, multi-facetada,
sempre inspiradora e jamais restrita a limites. Essa liberdade
e essa fluidez têm tons verdadeiramente espirituais, inspirando-nos
e arrebatando-nos por seu vigor e multiplicidade. Essa liberdade e fluidez,
tão características da Alma Celta, são justamente
as mais poderosas características da própria Natureza. E
essa liberdade e fluidez são, a meu, ver, o maior presente da Alma
Celta a quem com ela faz contato.

No próximo
link, uma explicação mais detalhada acerca dos estilos de
arte descritos como celtas, suas variações e contexto histórico.
Segue
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