Para
compreender os celtas, sua civilização, suas buscas
intelectuais e espirituais, é fundamental abandonar o sistema
aristotélico que forma a civilização humanista
ocidental. O celtismo traz outra forma de humanismo, outra forma
de encarar as coisas, de sentir, de absorver a realidade, de conceituar
a deidade. É uma outra forma de viver, outro método
de raciocinar.
Ignorar
essas diferenças inerentes pode levar à formação
de uma imagem completamente falsa. Palavras não possuem
necessariamente o mesmo sentido para um gaulês dos tempos
de Vercingetorix e para um francês do século XX.
Ademais, as palavras por si só nada significam: para obter
valor elas precisam de um contexto. E enquanto não houver
esforços para definir o contexto, o significado exato da
palavra, do fato ou do conceito jamais poderá ser comprendido.
Como
uma das expressões do que é ser celta, o druidismo
não pode ser alienado, e sendo o druidismo o denominador
comum da civilização celta, compreender o druidismo
é compreender os próprios celtas, e vice-versa.
- Jean Markale
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As palavras acima, de autoria
de um dos mais influentes celtistas do século XX, seguramente
figuram entre as mais importantes para quem deseja compreender a Alma
Celta, pois sintetizam de forma cristalina a importância
de se conhecer os aspectos históricos da cultura celta para se
compreender a força de sua espiritualidade. Da mesma
forma, para entender a aventura histórica das tribos celtas,
é preciso conhecer sua mente e, acima de tudo, sua alma.
Durante o 1o. Simpósio
de Estudos Celtas e Germânicos, realizado em 2004 na Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das duas comunicações
que apresentei chamava-se "Resgatando os Mitos Celtas".
Em essência, a comunicação tratava justamente de
compartilhar com o universo acadêmico a abordagem que sempre adotei
em minhas pesquisas e transmiti em meus cursos: uma leitura unificada
e transdisciplinar dos estudos celtas, em que os dados arqueológicos
e antropológicos daquela cultura são complementados por
uma releitura viva de sua mitologia / espiritualidade. Ou, simplificando,
que à abordagem lógica e científica dos
estudos celtas seja somada uma leitura verdadeiramente espiritual de
sua mitologia - fornecendo, assim, o "contexto"
nos moldes do quanto sugerido por Jean Markale no parágrafo que
abre este capítulo.
É fato que não
há nada de novo nessa proposta - essa transdisciplinaridade é
comumente utilizada para estudos sociológicos em nossos dias.
Mas especialmente quando se estuda uma cultura como a celta, separar
mitos da história é algo impossível e, especialmente,
improdutivo.
Contudo, para que esse proposta
de abordagem possa realmente surtir efeito é preciso algum esforço.
Vivemos numa cultura alicerçada há séculos sobre
a forma de pensamento que Markale chama acima de "sistema aristotélico".
A linguagem popular possui uma forma bastante simplista, mas bem direta
para definir esse sistema: a percepção de que "uma
coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa". Ainda
que desconhecido da maioria de nós, o pensamento aristotélico
está na base de praticamente todas as esferas da vida moderna,
moldando sutilmente nossa percepção do mundo, seus fenômenos
e criaturas e as relações que com eles estabelecemos.
A mente celta não
vê o mundo dessa forma: Michael Dames, autor
de "Mythic Ireland", nos auxilia a efetivar essa
mudança de percepção com a frase "Mitos
não seguem a lógica binária de “ou isso,
ou aquilo”, mas emprega os termos “tanto isto quanto aquilo”."
Para a mente celta, um rio seguramente é um curso d'água
onde podemos nos banhar e saciar a sede, assim como um salmão
é inquestionavelmente um peixe que vive na água e pode
nos servir de alimento. Mas essa condição de ser objetiva
não impede que o rio seja também uma deusa e que o salmão
seja a personificação da Sabedoria.

Um
mito é uma história tradicional, anônima, geralmente
com origens numa sociedade pré-literatura, que trata de divindades,
heróis ou ancestrais que encarnam verdades difusamente compreendidas
que se originam no mais profundo de nossos seres. Alguns mitos explicam
a origem do cosmos e de nós mesmos, ou como a vida se relaciona
com a morte, ou porque o clima muda. Esta função explicativa
(etiologia) não é exclusiva dos mitos, pois também
pode ser encontrada nos dogmas religiosos.
- James MacKillop, Myths and Legends of the Celts
Entre os mais diferentes
povos da Antiguidade, a existência do universo, de um fenômeno
ou de um determinado povo era explicada através de mitos. Em
linguagem antropológica, são chamados de "Mitos
Etiológicos". Mesmo nas modernas religiões institucionalizadas,
encontramos - como bem lembra o Prof. MacKillop no trecho acima - os
tais "mitos etiológicos" - exemplos comuns são
os mitos judaico-cristãos da criação do mundo em
sete dias ou do surgimento da mulher a partir da costela do homem.
Em tempos dominados por teorias
científicas como o Big-Bang e o Evolucionismo,
a moderna mente racional é simplesmente incapaz de aceitar
os fatos que são descritos nos mitos de qualquer cultura:
afinal, os mitos se dispõem a explicar a origem das coisas através
de uma linguagem simbólica e, por que não dizer,
poética. Cabe lembrar, contudo, que as explicações
científicas modernas só surgiram poucos séculos
atrás - antes do Iluminismo, a origem do universo, do ser humano
e de tudo que existe ainda era a oferecida pelo Livro do Gênesis
judaico-cristão.
Ou seja: até bem pouco
tempo, o que hoje é "fato científico" (lógico)
estava intimamente aliado e intrinsecamente unido ao que é "mitológico"
(poético). Não se trata aqui de querer justificar o que
os mitos nos dizem ou aceitar o quanto escrito como "verdade"
- até porque, como veremos adiante, "quando
as metáforas são interpretadas como fatos, então
surgem os problemas"
(Joseph Campbell). O ponto chave é que, quando lidos
com os olhos da alma - e não apenas com os da mente racional
- os mitos revelam muito de realidade.
Isso é
especialmente verdadeiro quando falamos da cultura celta: suas origens,
sua história e seu desenvolvimento são hoje fartamente
documentados através dos estudos arqueológicos e antropológicos
realizados sob um prisma predominantemente científico, sobretudo
após a segunda metade do século XX. É interessante
notar, porém, que muitas das descobertas obtidas nas últimas
décadas, sobretudo através de estudos genéticos
e também através das mais avançadas técnicas
de datação arqueológica, corroboram com algumas
versões etiológicas encontradas nas lendas celtas da Irlanda.
Um exemplo claro é
o fato de que, até pouco tempo atrás, os pesquisadores
acadêmicos criam que as primeiras tribos celtas a desembarcar
na Irlanda ali haviam chegado oriundas do que hoje é a França
através da Grã-Bretanha. Dada a grande presença
de vestígios da cultura celta tanto na França quantto
na Grã-Bretanha, e sabendo-se que o movimento de expansão
da cultura celta seguia no sentido leste-oeste, essa tese fazia todo
sentido. Estudos mais recentes, contudo, comprovam que a rota migratória
dessas tribos celtas seguiu outro caminho, sem passar pela Grã-Bretanha,
vindos da Península Ibérica - exatamente como redigido
muitos séculos antes no famoso Leabhar Gabala na
hÉireann, ("Livro das Invasões da Irlanda"),
verdadeiro mito etiológico celta. Como se vê, mitos e história
costumam andar de mãos dadas.
A
História constantemente se assemelha ao mito porque, no fundo,
ambos são feitos da mesma matéria.
- J.R.R. Tolkien

Chegamos então a mais
uma bifurcação em nossas trilhas pelo universo da Alma
Celta: aos que desejam saber mais sobre a história dos povos
celtas, aspectos de sua cultura e seu legado cultural na arte, na música
e na literatura, o caminho a seguir é o da esquerda (História:
Origens e Sobrevivência). Já os que se interessam
mais em conhecer as fontes fundamentais, personagens e narrativas da
mitologia celta devem optar pelo caminho da direita (Mitologia
Celta). Isso, claro, sem jamais esquecer que um inevitavelemente
leva ao outro pois ambos estão, como num knotwork celta, harmoniosamente
entrelaçados.