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Os
Celtas:
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Afinal, quem são
os celtas?
Quais suas origens?
Onde e quando desenvolveu-se
sua cultura?
Vamos começar do começo...
"Chamam-se povos indo-europeus os que utilizam uma das línguas indo-européias."
- Pierre Lévéque, As Primeiras Civiizações Vol III
Os celtas falavam línguas
de origem indo-européia, variações das quais ainda
existem em nossos dias na forma do irlandês, do gaélico escocês,
do córnico, do idioma falado na Ilha de Man, do galês e do
bretão – portanto, é correto afirmar que os celtas
pertenciam à grande família cultural indo-européia.
Isso os põe em parentesco – ainda que em alguns casos bem
distante - com outros importantes povos da Antigüidade, como os germânicos,
os eslavos, os gregos, os romanos e os indianos - todas essas culturas
têm as mesmas origens indo-européias, mas diferenciam-se
pelo contato e absorção das culturas com as quais se mesclam
em seu longo e contínuo processo de desenvolvimento. Mais uma vez
citando Lévéque, "cada um dos povos 'indo-europeus',
na sua localização histórica, resulta de uma síntese
étnica entre, pelo menos, populações pré-históricas
locais cujas raízes remontam no local até os tempos paleolíticos
e, por outro lado, imigrantes portadores de uma língua indo-européia
cuja imposição à região e evolução
local desembocam nas línguas historicamente atestadas."
Uma vez que as línguas são apenas um de vários aspectos
que determinam a idade cultural de um povo, podemos intuir que os celtas,
além da língua, herdaram também costumes sociais
e valores espirituais de seu passado indo-europeu.
"Entre os indo-europeus toda noção tende a tomar forma,
todo princípio é personificado. Grande parte do panteão
dos deuses provém desta tendência de considerar a idéia
viva e o pensamento vívido."
-Jean Haudry, Os Indo-europeus
Essa afirmação
corrobora com a visão clássica dos celtas serem, já
em sua origem indo-européia, animistas por natureza – visão
atestada pelos incontáveis exemplos de deuses e deusas celtas como
personificações das forças da natureza. Na terminologia
usada por Haudry, a "noção" e o "princípio"
dos rios, por exemplo, "toma forma" e é "personificada"
por deusas – Síonann e Bóann na Irlanda (rios Shannon
e Boyne), Clótha na Escócia (rio Clyde), Sequana na Gália
(rio Sena), apenas para citar algumas.
Outros elementos irrefutavelmente indo-europeus da cultura celta são
a valorização da vida e da busca dos prazeres e confortos,
o enaltecer da glória pessoal e da honra (o caráter) como
sendo a principal qualidade do indivíduo.
Assim, não basta ao herói ou heroína a busca pela
glória no sentido de "conquista": a verdadeira glória
é aquela que é obtida dentro de rigorosos princípios
de honra, ética e caráter.
Um dos maiores desafios dos pesquisadores – historiadores, paleontólogos,
lingüistas – foi determinar qual território teria sido
o ponto inicial da cultura indo-européia. Apesar de ainda existirem
pontos discutíveis acerca desta ou daquela afirmação,
parece seguro dizer que os indo-europeus surgem no que hoje é o
Irã, e dali se expandem em duas vagas – uma para leste, outra
para oeste. A que nos leva ao Ocidente é justamente a que vai originar
a cultura celta.

Ilustração de chefes tribais dos celtas da fase La Téne
- note-se
a riqueza e sofisticação de suas vestes, armas e ornamentos.
O Nascimento
dos Celtas
“Quando os celtas surgem pela primeira vez nos registros históricos,
por volta de 500 a.e.a., aparentemente eles já haviam ocupado grande
parte da região dos Alpes e as áreas imediatamente ao norte,
na França central, e em partes da Península Ibérica.
Tradicionalmente, esses primeiros celtas costumam ser amplamente associados
à cultura Hallstatt da Idade do Ferro européia. As escavações
revelam tumbas ricamente adornadas, tidas como pertencentes aos chefes
tribais ou às classes reais, e associadas a uma série de
centros de defesa. Esses ‘principados’ nos fornecem evidências
de comércio com o Mediterrâneo clássico, especialmente
com a colônia grega de Massalia (Marselha).”
A partir do quinto século a.e.a., num território que se estende do leste da França até a Boêmia, surgiu uma nova cultura celta, que recebe o nome do sítio arqueológico de La Téne na Suíça, onde foi identificada pela primeira vez. Também esta fase se caracteriza por sepultamentos esplendidamente decorados, contendo evidências de contato com o mundo clássico (cidades etruscas, através dos Alpes). Pouco depois de 400 a.e.a., estes celtas La Téne irromperam através dos Alpes, invadindo e estabelecendo-se no vale do Rio Pó e saqueando Roma por volta de 390 a.e.a. Os romanos os conheciam como Galli, gauleses – um termo posteriormente aplicado especificamente aos celtas da França. Outros migraram através dos Bálcãs, atacando a Grécia e saqueando Delfos talvez em 279 a.e.a. Conhecidos pelos gregos como Keltoi ou Galatae, alguns deles cruzaram o Helesponto e instalaram um reino na Turquia Central (a Galácia).”
-- Simon James, Exploring the World of the Celts
Uma cultura não nasce
da noite para o dia: o processo é longo e envolve, como vimos anteriormente,
a mescla de diversas culturas originais diferentes entre si, mas que contribuem
para a geração de uma nova identidade cultural. A primeira
etapa do desenvolvimento da cultura celta, conhecida como Hallstatt, costuma
ser identificada com o período que vai de 700 a 450 a.C., mas seguramente
variações dos idiomas celtas já eram falados pela
Europa muitos séculos antes. A chegada do idioma indo-europeu à
Europa costuma ser datada em torno de 4000 a.C., quando teria ocorrido
uma invasão de povos indo-europeus, e a partir de então
suas diversas ramificações se desenvolveram .
Os paleo-lingüistas apontam para o vale do rio Danúbio, na
Europa Central, como o berço onde surge o idioma celta. Os vestígios
arqueológicos da região mostram que, nessa área,
desenvolveu-se a cultura Hallstatt, caracterizada por fortificações
em colinas, sepultamentos ricamente elaborados (alguns com carruagens
inteiras) e uma arte singular. Nessa área fica a vila austríaca
de Hallstatt onde, em 1846, Georg Ramsauer descobriu um cemitério
da Idade do Ferro. As escavações revelaram mais de mil sepulturas
com objetos – espadas, escudos, lanças, cerâmica –
de formas características, identificadas com a cultura celta. Anos
depois, em 1857, uma seca no lago Neuchatel, na Suíça, revelaria
uma nova fase da evolução da cultura celta, que receberia
o nome da vila às margens do lago: La Tène.
As traduções dos textos de autores clássicos – gregos e romanos – localizavam os celtas precisamente naquela área. Assim, conhecemos hoje o berço da cultura celta.
Expansão
| Conforme nos ilustra Simon James no tópico anterior, os celtas promoveram incursões regulares às terras circunvizinhas, culminando com a expansão dos territórios por eles povoados. Partindo de suas terras na Europa Central, os celtas estabeleceram-se nas Ilhas Britânicas (700 a.e.a.), na Península Ibérica (600 a.e.a.), no norte da Itália (400 a.e.a.), saquearam Roma (390 a.e.a.), cruzaram os Cárpatos (310 a.e.a.), saquearam Delfos na Grécia (279 a.e.a.), fundaram os reinos celtas da Galácia na Ásia Menor e de Tylis nas margens do Mar Negro e quase certamente se estabeleceram ao longo do Rio Don, na Ucrânia. Essas diferentes ondas migratórias não fazem parte de um processo articulado, mas são a ação natural de um povo para quem a guerra e a conquista era um modo de vida. | ![]() |
| Brennos saqueia Delfos |
Por suas origens indo-européias,
as tribos celtas sempre mostraram uma grande pré-disposição
para a guerra – seja entre eles, seja contra outros povos. A adoção
da metalurgia em ferro, por volta de 750 a.e.a., fez deles guerreiros
ainda mais temíveis. Mas os celtas não eram, ao contrário
do que algumas fontes fazem supor, um bando de bárbaros sanguinários.
Os primeiros contatos entre celtas e gregos ocorreram de forma pacífica,
na colônia comercial de Massalia (atual Marselha), fundada em 600
a.e.a. Ali, os celtas (chamados pelos gregos de keltoi)
forneciam os bens que os gregos desejavam – metais, peles, escravos,
mel e âmbar - em troca de cerâmica e, principalmente, vinho.
(Esta, aliás, é a origem de alguns dos mais cobiçados
vinhos modernos: as vinícolas às margens do Ródano
– literalmente, Côte du Rhône – foram criadas
para saciar a sede dos nobres celtas pelo néctar fermentado das
vinhas. Desde então, o vinho que lá se produz é um
dos melhores do mundo – ancestrais videiras celtas!).
O comércio, aliás, foi o responsável pela chegada
da cultura Hallstatt às Ilhas Britânicas, por volta de 550
a.e.a. – mercadores costumavam navegar até aquelas terras
em busca de matérias primas como o cobre, o estanho e o ouro.
O comércio entre os celtas e o mundo clássico parece ter
surtido um efeito nefasto: os vestígios tumulares indicam a formação
de uma elite dominante e altamente dada à ostentação,
possivelmente motivados pela competição entre os chefes
tribais que disputavam o comércio. Mas mudanças nas rotas
comerciais de então trouxeram um fim abrupto para a cultura Hallstatt
– e talvez a concentração de renda e poder nas mãos
de poucos tenha contribuído para a revolução cultural
que se seguiu, dando origem ao período La Tène da cultura
celta, que surge na região da Boêmia, por volta de 450 a.e.a.,
e que chega à Grã-Bretanha poucas décadas depois.
Este
período foi marcado por grandes ondas migratórias, como
a que levou tribos celtas para o norte da Itália em 400 a.e.a.,
com o subseqüente saque de Roma por celtas liderados por Brenno.
Ao sitiar a cidade e invadi-la, Brenno cobrou aos romanos um pesado tributo
em ouro para poupar-lhes a vida e a cidade. Consta que, ao ver o ouro
que era pesado pelos celtas, um romano teria se lamentado, ao que Brenno
respondeu a célebre frase: “Vae Victis”, “Ai
dos vencidos!” Mas o que teria cuasado as migrações?
Ao que tudo indica, superpopulação, que teria gerado graves
tensões sociais, especialmente diante de uma elite que concentrava
cada vez mais riqueza e poder. A busca pelas terras ao sul – Itália
e Grécia – soa natural, visto que eram terras férteis
e promissoras. As invasões celtas são retratadas por Tito
Lívio, que relata como Bellovesus e Segovesus lideram as hordas
celtas que cruzam os Bálcãs em 280 a.e.a. Outro grupo de
celtas, coincidentemente liderados por um outro Brenno, chegaria a invadir
Delfos, o coração espiritual – e sede dos tesouros
– das cidades gregas. Reza a lenda que uma tempestade trouxe loucura
e caos às hostes invasoras e o celtas, ensandecidos, mataram-se
uns aos outros. Ainda que alguns relatos mitológicos posteriores
nos informem que os celtas possuíam um furor de batalha semelhante
aos ‘berserkers’ nórdicos, é pouco
provável que essa loucura tenha acarretado a derrota dos bem preparados
guerreiros celtas. Os gregos dizem que foram seus deuses que salvaram
Delfos. Historiadores modernos dizem que talvez Lívio tenha criado
essa história para mascarar um tributo humilhante imposto pelos
invasores, nos moldes do que o outro Brenno fizera ao invadir Roma.
Mas nem sempre os gregos viram nos celtas inimigos: há registros
de mercenários celtas (gaesatae) que teriam lutado ao
lado de gregos. E mesmo um dos maiores personagens da História
Antiga, Alexandre Magno, teria recebido respeitosamente uma embaixada
de celtas – segundo alguns autores, druidas – que o visitaram
em Babilônia por volta de 323 a.e.a.
Já pelos romanos, os celtas sempre foram vistos como um povo temível,
e a invasão e povoação das terras ao norte da Península
Itálica por tribos celtas como os Boii, os insubres e os senones
mostraram que Roma tinha razão mesmo em temê-los. A expansão
dos senones só é interrompida quando, em 295, os romanos
lhes impõem uma crucial derrota em Sentinum. Roma começava
a se livrar de seus inconvenientes vizinhos do norte. Longe dali, na Trácia,
os celtas conhecidos como gálatas fundam os reinos de Tylis e da
Galácia, e guerreiros celtas são recrutados no Egito pelo
Faraó Ptolomeu I (abaixo).

Os celtas da Gália Cisalpina – a Gália “deste lado dos Alpes”, como os romanos chamavam o norte da Itália – sofreriam uma humilhante derrota para as legiões de Roma na Batalha de Telamon, mas dariam o troco anos depois, ao apoiar a invasão da Itália pelos cartaginenses liderados por Aníbal. Mas Roma, então, já era uma grande força militar, e resistiria para formar um dos mais formidáveis impérios da História.
Declínio
Séculos de contato com as culturas grega e romana levaram os celtas da Gália a absorver naturalmente muitos costumes mediterrâneos. Além da visível influência nas artes, os celtas adotaram o uso de moedas e começaram a desenvolver estruturas proto-urbanas chamadas de oppida (singular, oppidum), encontradas numa vasta área que se estende do Danúbio até a Península Ibérica e o sul da Grã-Bretanha. A despeito disso, porém, o grosso da população celta ainda vivia em pequenas vilas e estabelecimentos rurais.
No extremo oeste da Europa, nas terras hoje portuguesas, vivia a tribo
celta dos Lusitani – assim descritas pelos romanos: “nos confins
da Europa, onde as terras beijam o mar, vive um povo selvagem que não
se governa e não se deixa governar”. Em 139 a.e.a., cansados
de tamanha indisciplina, os romanos assassinam Viriato, líder dos
Lusitani – a expansão de Roma não podia parar...
Anos depois, a anexação do sul da Gália por Roma
dá origem a uma nova província romana – até
hoje conhecida como Provence. É mais ou menos neste período
que foram redigidos alguns dos mais preciosos registros da cultura celta
da Gália, graças às viagens do grego sírio
Poseidonius. Os textos de Poseidonius são surpreendentemente neutros
para um grego, e seus relatos recolhidos in loco mostram o dia-a-dia,
ois valores e costumes dos celtas. O texto integral da Historia de Poseidonius
infelizmente se perdeu, restando apenas trechos citados por autores posteriores,
como Diodoro da Sicília, Estrabão, Ateneu e outros. Seja
como for, a ele devemos muito do que hoje se sabe sobre os celtas continentais.
No
ano de 58 tem início a conquista da Gália. Os relatos de
Julio César em De Bello Gallico constituem outra importante fonte
de referência sobre os celtas, se bem que devam ser filtrados pela
natureza panfletária de seus textos, cuja intenção
fundamental era justificar suas campanhas contra os celtas junto ao senado.
Em 55, Julio César finaliza a conquista da Gália após
a batalha de Alésia, quando o líder gaulês Vercingetorix
depõe suas armas (à direita). Vercingetorix é
até hoje comemorado pelos franceses como um herói, e realmente
ele se destaca por ter conseguido um feito inédito: unir tribos
celtas diferentes sob seu comando – a autoridade intertribal era
uma característica que só os druidas possuíam e há
indícios que o próprio Vercingetorix fosse um druida.
Os druidas gozavam de ampla ascendência na sociedade celta, e parece óbvio que as conquistas das terras celtas da Gália e da Bretanha só seriam possíveis aos romanos quando estes se livrassem dos druidas. Julio César é taxativo ao afirmar que os druidas da Gália dirigiam-se à Bretanha para lá serem instruídos, e é por isso que, após a conquista da Gália, os romanos lançam-se com força sobre as terras britânicas. A invasão de 43 e.a. é comandada pelo Imperador Claudius – ele próprio nascido em território gaulês, na cidade de Lugdunum (moderna Lyon). Na Bretanha, Claudius depara-se com uma feroz resistência liderada por Cunobelinus, que mais tarde inspiraria a personagem Cymbeline de Shakespeare. A resistência dos celtas britânicos cai por terra quando, em 51, o líder Caratacus é capturado. Menos de dez anos depois, os romanos promovem o terrível massacre da Ilha de Môn (Anglesey, País de Gales) – um centro druídico onde a barbárie dos legionários romanos é reprovada até pelo historiador Tácito. Em Anglesey, mulheres, crianças e idosos são massacrados pelas legiões de Roma. A destruição do centro druídico de Anglesey parece ter relação com a revolta liderada pela rainha Boudicca no ano 60.
Boudicca
(à esq., estátua de Boudicca em Londres) escreve
uma das mais dramáticas páginas da história dos celtas,
ao unir sob seu comando tribos diferentes na tentativa de expulsar os
romanos da ilha da Grã-Bretanha – e quase consegue, impondo
pesadas derrotas aos romanos. Mas sua resistência também
se mostra insuficiente para deter as legiões, e diante da derrota
iminente, Boudicca comete suicídio, preferindo tirar a própria
vida a ser capturada e novamente humilhada pelos romanos. Aqui cessam
os registros clássicos dos celtas. As terras da Gália, da
Grã-Bretanha, da Galácia e da Ibéria, não
eram mais celtas, mas romanas; as tribos dos Boii, dos Sequani, dos Belgae
e dos Parisi não eram mais livres, pois haviam sido romanizadas
e subjugadas. Os celtas deixavam o mundo real e passavam para as páginas
da história. E esta página, ao menos no continente europeu,
estava virada.
Sobrevivência
Mas as sandálias dos legionários romanos jamais pisaram a Hibernia. A oeste da Grã-Bretanha, essa grande ilha nos confins da Europa estava envolta em mistério. Habitada por tribos celtas que se desenvolveriam longe dos olhos de gregos e romanos, a Irlanda seria o último bastião da cultura celta, e continua sendo uma fonte maravilhosa para a compreensão do legado dos celtas. Também a Escócia, isolada pelos romanos com a construção de uma muralha que ligava um litoral ao outro da ilha, foi capaz de preservar elementos da cultura celta – e o mesmo se aplica ao País de Gales.
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Gália |
Estrutura
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