Explicando
a Mitologia Celta
“Chamamos
de Mitologia ao conjunto de crenças de outros povos”.
- Joseph Campbell
A frase acima, da pena de um
dos mais conceituados mitólogos de nossos tempos, pode ser traduzida
como:“a minha crença é religião, a dos outros,
apenas mito”. Nada mais falso e presunçoso: as mitologias
dos mais diferentes povos devem ser sempre tratados com respeito e dignidade,
pois os mitos e lendas de uma cultura são os responsáveis
pela preservação e transmissão dos valores sócio-culturais,
éticos e morais daquele povo. As crenças de qualquer cultura,
em qualquer era, figuram entre os bens mais preciosos dessa cultura –
e, muitas vezes, também são válidos para povos distantes
no espaço e no tempo.
Os mitos e lendas celtas são
um exemplo claro: em diversos aspectos, seus valores éticos e morais
atendem às mais prementes carências de nossos dias –
valor pessoal, consciência tribal, igualdade entre sexos, irmandade
com a Natureza. Nos mitos celtas, nada disso é retratado de forma
piegas ou pedante: os celtas não eram ‘hippies’
pacifistas nem militantes ecológicos: o que os mitos nos mostram
é um respeito pelo equilíbrio entre as
polaridades – masculino e feminino, vida e morte, indivíduo
e coletividade, humano e natureza, mortal e divino – que pode contribuir
muito para a formação de uma “nova velha consciência”
para o mundo ocidental, tão carente que é de harmonia entre
esses e outros ‘opostos’.
“A História
constantemente se assemelha ao mito porque, no fundo, ambos são
feitos da mesma matéria”.
- J.R.R. Tolkien
Muitas vezes os relatos mitológicos
de diversas culturas são desprezados como sendo somente ‘contos
fantásticos’ ou histórias para entretenimento, ou
ainda visões primitivas de sociedades que não compreendiam
a realidade do universo.
Será que, ao lermos
mitos, temos o direito de questionar se o universo foi criado a partir
de um Oceano de Leite, ou se o Sol é o olho de um deus, se uma
virgem é capaz de parir um filho ou se um povo foi escolhido por
um deus único? Claro que não: todos os exemplos mitológicos
acima são sagrados para as culturas em que florescem. Da mesma
forma, o que se propõe ao estudar a mitologia celta é reconhecer
o que há de profundo em seus símbolos e entrelinhas e de
que forma esses símbolos, atuando em nossos subconscientes e nossas
almas, podem propor um modelo mais adequado de vida.
Nas palavras do poeta e nacionalista
irlandês Patrick Pearse,
“podemos especular
o que aconteceria se, ao invés de desenterrar a literatura da Grécia
e de Roma, os pesquisadores do século XV tivessem encontrado outra
literatura, que permaneceria oculta por mais quatro séculos. Então,
ao invés do Renascimento Clássico, teríamos o Renascimento
Céltico. Ou melhor, a cultura celta seria chamada de clássica,
e teria transmitido seus fundamentos à Europa. Não afirmo
que com isso a Literatura teria lucrado; contudo, não creio que
saísse perdendo: perderíamos o ideal grego da busca pela
forma perfeita, e a análise calma e sábia dos helênicos.
Por outro lado, teríamos ganho uma visão mais direta, uma
inspiração mais nobre – posto que humana – e,
acima de tudo, uma espiritualidade mais profunda. (...)
Reclamo então, para a literatura irlandesa, estas particularidades:
uma visão mais clara do que a grega, uma humanidade mais generosa
do que a grega, uma espiritualidade mais profunda do que a grega.”
Mitos e Lendas Celtas: as
mil faces de uma cultura
À
primeira vista, a amplitude da mitologia celta assusta. São incontáveis
(literalmente) deuses e deusas com nomes complicados, grafias estranhas,
lendas desencontradas e atributos variáveis. Pudera: os mitos e
lendas celtas de terras tão distantes quanto o sul da França
e a Escócia, pertencentes a períodos tão diferentes
quanto a Idade do Ferro e o período medieval, todos eles foram
agrupados sob o rótulo “Mitologia Celta”. A confusão
é imediata: como conceber uma mitologia que nos apresente seres
poderosos como Taranis, Teutatis e Esus, o trio de poderosos deuses da
Gália celta descritos pelos escritores clássicos ao lado
dos leprechauns do folclore irlandês?
A verdade é que, de
fato, eles não pertencem a uma mesma mitologia: as diferenças
culturais das terras e épocas em que tais mitos se desenvolvem
são tantas e tamanhas que só mesmo muita dedicação,
bom senso e boa vontade podem proporcionar uma compreensão mais
profunda dos símbolos desses seres divinos. Símbolos, mensagens,
significados: todo mito traz em seu bojo uma mensagem transformadora,
captada não pela mente racional, mas pelo subconsciente, pela alma
de quem lê ou ouve o relato.
Citando o grande poeta português
Fernando Pessoa,
“Primeiro sentir
os símbolos, sentir que os símbolos têm vida e alma,
que os símbolos são gente. Mais tarde virá a interpretação,
mas, sem esse sentir, a interpretação não vem.”
De qualquer modo, uma avaliação
profunda da espiritualidade celta (pois mitologia e espiritualidade são
aqui tratados como sinônimos) revela – até por suas
origens indo-européias – diversos ingredientes que podem
ser categorizados como xamânicos:
- a visão animista
do mundo, em que cada característica da paisagem, cada local,
cada ofício, cada força da natureza é dotada de
um espírito;
- a presença de totemismo
em nomes tribais ligados a animais e a nomes de indivíduos como
Oisin (“pequena corça”), Cuchulainn (“Cão
de Cullan”), Arthur (“Herói Urso”) e também
em deidades/heróis que se metamorfoseiam constantemente em animais
(Cerridwen, Gwion, Morríghan, Sadbh, para citar apenas alguns);
- a existência de técnicas
de ‘transe ritual’ em que o praticante atinge a ‘iluminação’
ou um estado alterado de consciência – as técnicas
druídicas do imbas forosnai e dichetal do chenaib,
por exemplo, ou ainda os Aweniddion, místicos do País
de Gales que, em arrebatamentos rituais, faziam profecias e oráculos.
- a
profunda compreensão dos processos da natureza.
Definir a espiritualidade celta
como ‘xamânica’ é uma das chaves para a sua real
compreensão. Qualquer outra abordagem fica incompleta por não
compreender os elementos fundamentais que ligam a espiritualidade celta
a muitas outras espiritualdiades de diversa culturas e épocas centradas
no reconhecimento da natureza como fonte de todas as forças
e da vida como um todo.
A seguir, uma pequena apresentação
da mitologia celta em suas principais fontes.
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