Nestes tópicos, um pouco sobre os principais pontos filosóficos e espirituais do druidismo moderno.
1. Crenças
Druídicas:
Definindo o Sagrado - Animismo - Natureza: Espaço
Sagrado - Roda do Ano: Tempo Sagrado
- Cosmovisão
- O Outro Mundo
- Alma Celta
2. Os Pilares
do Druidismo:
Inspiração, Ancestralidade, Honra, Transformação
3. Ação
Druídica Hoje:
Desenvolvimento Pessoal
- A Grande Comunidade
- Ritual e Vida - Uma
'Espiritualidade Verde'
4. "Um Druida Moderno" - Artigo de Emma Restall Orr
5. Então o que é ser um Druida?
No que crêem os druidas?
Qual a sua visão de universo?
Como o druidismo vê a questão da alma?
O druidismo moderno é
um reflexo atual das crenças dos druidas históricos. Apesar
de não possuir “escrituras”, o foclore das terras celtas,
bem como os textos de autores clássicos, nos dão subsídios
suficientes para a recriação dos valores éticos e
espirituais do druidismo, adequados à nossa realidade.
É justamente essa ausência de escrituras, aliás, que
permite ao druidismo adaptar-se aos tempos e mudanças sociais,
mantendo-se sempre atual, válido e transformador.
Nas palavras de Emma Restall Orr, “é evidente que as práticas
do druidismo moderno são diferentes das do druidismo de dois mil
anos atrás – afinal, se assim não fosse, essas práticas
hoje seriam ilegais, imorais e, principalmente, ineficazes”.
Deus? Deusa? Deuses? Deusas?
O conceito de um deus ou uma deusa único não encontra respaldo no druidismo histórico. Há tentativas modernas de se enxergar um monoteísmo nas crenças druídicas – notadamente em algumas vertentes do moderno druidismo francês e no kardecismo -, mas essas tentativas esbarram nos registros históricos que dão conta de que os celtas prestavam culto a incontáveis (literalmente) deuses e deusas. Também a afirmação recorrente de que “os celtas cultuavam a Grande Deusa” é equivocada, pelos mesmos motivos.
Portanto, os celtas históricos eram politeístas, ou seja, criam em diversos deuses e deusas (ver Mitologia Celta na seção "Os Celtas"). Isto porque o conceito de deidade do ponto de vista druídico é muito diferente da visão da moderna sociedade judaico-cristã: um deus ou uma deusa celta não são distantes, não moram nas nuvens ou num “Paraíso remoto”: os deuses e deusas celtas são a própria paisagem em que vivemos.
Cada característica da natureza – um rio, uma montanha, um lago, uma floresta, a chuva, os ventos, o trovão, as estações do ano – tudo isso possui, do ponto de vista druídico, um espírito próprio. Não se trata aqui do conceito de espírito pessoal, mas sim a energia vital por trás do elemento em questão, com a qual é possível estabelecer um diálogo, uma relação, um contato – de espírito para espírito. A esse princípio damos o nome de ANIMISMO: reconhecer a presença da alma (anima em latim) em tudo que existe. Se algo tem alma, é vivo; se é vivo, é sagrado. Se é sagrado, é divino. Se é divino, é dos deuses.
Com isso em mente, podemos entender a real natureza dos deuses e deusas celtas: eles são os espíritos que habitam nosso mundo, dando-lhe forma e interagindo conosco. Um sinal inequívoco dessa visão está preservado até hoje na toponímia de diversos rios em terras celtas: o rio Shannon, na Irlanda, deve seu nome à deusa Sionann; na Escócia, o Clyde é a manifestação física da deusa Clótha; na Gália, a deusa Sequana é quem anima (animar = “dar alma”) o rio Sena – e assim por diante. Diversas montanhas, florestas, nascentes e lagos das paisagens celtas refletem a mesma crença de que a paisagem é povoada por poderosos espíritos da natureza – em outras palavras, deuses e deusas.
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Castelo de Bunratty, às margens do Rio Shannon, na Irlanda: Rios são sagrados, pois deles depende a saúde de toda a comunidade das áreas vizinhas. O Rio Shannon recebe o nome da deusa celta Siónann - para os celtas, o rio era a própria deusa que os mantinha vivos. Que diferença faria para nossos rios urbanos se essa visão fosse restaurada... |
Essa sacralização da paisagem é um dos principais ganhos do druidismo moderno: resgatar essa visão num nível mais amplo e coletivo seguramente criará uma nova consciência para as relações do ser humano com a natureza. Impossível, do ponto de vista druídico, observar a degradação do meio-ambiente sem sentir que um rio poluído é um ser divino que sofre e que morre, matando por conseqüência todas as criaturas que dele dependem – inclusive os humanos. Essa percepção faz do druidismo uma “Espiritualidade Verde”, perfeitamente alinhada com a nova visão de sociedade proposta pelo geólogo Thomas Berry em seu projeto para a Sociedade Ecozóica.
Clique na seção "Eco-Espiritualidade" do menu acima e acesse as traduções por mim feitas de importantes textos sobre a Sociedade Ecozóica - esse pensamento revolucionário que fomenta odesenvolvimento de uma nova consciência de vida, seja no plano individual e coletivo, mental e espiritual, filosófico e das ações. Numa época em que o aquecimento global é uma ameaça real ao nosso futuro, o druidismo se mostra uma espiritualidade de vanguarda, ativa, transformadora.
O mundo não nos foi dado para com ele fazermos o que bem entendermos: pelo contrário, nós somos parte desse mundo, dele dependemos e com ele interagimos constantemente. E essa interação deve ser honrosa, reconhecendo-se o espírito e a sacralidade da Paisagem.
Afinal,
nossa interação com o mundo em que vivemos é que
forma e transforma esse mundo.
O fato de os druidas históricos não construírem templos é explicado justamente por sua crença de que nenhuma estrutura erguida por mãos humanas é tão sagrada quanto a Natureza em que vivemos. Os druidas da Idade do Ferro celebravam seus rituais em bosques sagrados, chamados de “Nemteons”: essa palavra de origem gaulesa significa literalmente “bosque sagrado” e é hoje utilizada também para designar um grupo druídico que se reúna regularmente para celebrar seus rituais. O próprio termo druida significa "aquele que tem a sabedoria do carvalho" - ou seja, aquele que conhece a magia do passar das estações do ano, metáforas para nossa vida.
Os registros de autores clássicos e também a etnografia das terras celtas constituem um rico manancial de informações acerca da natureza dos rituais druídicos de outrora, e que são hoje resgatados pelos modernos grupos druídicos.
As
data sagradas do druidismo estão associadas às estações
do ano, cada qual contendo temáticas e mitos que promovem a compreensão
dos ciclos da vida – nascimento, apogeu, declínio, morte
e renascimento – em diversos níveis: nas estações
do ano, na paisagem, no dia-a-dia, em nossos projetos, relacionamentos
e na nossa vida como um todo. Compreender a fundo o simbolismo mágico
dos festivais celtas requer estudo e vivência, mas é uma
experiência transformadora, que traz um novo significado à
vida de cada indivíduo e transforma sua visão do mundo e
de seu papel neste.
Quando compreendemos que não há inverno, por mais frio e tempestuoso que seja, que não traga a primavera; quando percebemos que não há noite, por mais escura e longa que seja, que não traga a aurora; então estamos prontos para entender que não há morte ou fim, por mais triste e doloroso que seja, que não traga um renascimento e um recomeço. Micro e macro em perfeita harmonia, a Vida como círculos concêntricos e interligados: um dia, um ano, uma vida, a eternidade; um indivíduo, uma coletividade, um ambiente, um Universo.
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Cosmovisão: o Universo Druídico
Uma
das características mais marcantes do druidismo é a ausência
de uma cosmogênese – os mitos e lendas celtas não mencionam
uma criação, um início do universo: isto porque,
em última análise, o universo não foi criado: ele
vem sendo criado através das eras, pelas ações transformadoras
do tempo, das intempéries e das criaturas – inclusive, nós.
Esta visão nos devolve a responsabilidade pelos nossos atos –
tanto individuais quanto coletivos – e é por isso que o druidismo
não se limita a ser somente uma filosofia ou uma religião,
mas é também um modo de vida para o qual a preservação
e restauração da natureza, os direitos dos outros animais,
o consumo consciente de produtos e recursos e a vida ética são
ingredientes fundamentais da prática druídica.
A ação individual é parte da ação global – pelo pensamento druídico, estamos todos interligados (em perfeita harmonia com as modernas teorias do pensamento sistêmico e da física quântica). Isso determina que quem adote o druidismo deve ter consciência de seus atos, das causas e conseqüências, das origens das coisas e pensamentos, das interconexões - em resumo: o druidismo é um caminho de consciência e responsabilidade, que nos mostra qual o nosso papel dentro do Universo.
O Universo Druídico
Como praticamente todos os povos de origem indo-européia, os celtas viam o universo composto por três níveis de realidade: um mundo superior, este mundo intermediário e um mundo inferior - todos interligados de forma harmônica, entrelaçados como num ‘knotwork’ celta. Uma vez que o druidismo é uma filosofia que preza o equilíbrio e não o conflito entre os extremos, ao existem conceitos como bem ou mal absolutos: portanto, não existem “Paraíso” ou “Inferno”. O que existe é a percepção do ‘mundo médio’ – o universo fenomenológico em que vivemos – e o Outro Mundo, o mundo sutil, espiritual, divino.
O Outro Mundo
Seja na forma de ilhas a oeste
das terras celtas, seja na forma das ‘colinas ocas’ da paisagem
britânica, o Outro Mundo Celta é sempre descrito como um
local paradisíaco, habitado por deuses e deusas, heróis
e heroínas, onde não há inverno nem tempestades e
há fartura e alegria. O Outro Mundo é o reflexo da perfeição,
e é dever do druida viajar ao Outro Mundo em busca dessa perfeição,
para aplicá-la neste mundo. Essa é a característica
do druida como xamã, o ‘caminhante entre mundos’ que
conhece a realidade do paraíso e aplica-a em nossa realidade, promovendo
a cura e a harmonia.
Quer dizer então que é possível viajar ao Outro Mundo
em vida? Sim. Os mitos e lendas celtas nos mostram que diversos heróis
e heroínas fizeram a ‘perigosa travessia’ que os levou
ao Outro Mundo transformando-os para sempre. Através das aventuras
de Arthur e seus companheiros nas lendas galesas, bem como as Imramma¬
(viagens por mar) irlandesas, embarcamos em verdadeiras jornada xamânicas
para Avalon / Inis Afalach (a ‘Ilha das Macieiras’),
ou Hy Brasil, a ‘Ilha dos Abençoados’.
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A Busca pelo Graal é um tema original da espíritualidade celta. O Cálice Sagrado do Outro Mundo - seja ele Avalon, Hy Brasil ou Annwn - é o recipiente que contém o néctar transformador e restaurador da Vida. Encontrar o Graal e dele beber é a metáfora perfeita para a filosofia druídica. |
A Alma Celta
Um dos mais belos pontos do druidismo é o que trata da natureza da alma: ara os celtas, a alma de um indivíduo é a manifestação temporal de uma consciência maior, que é o conjunto de todas as almas. Essa alma, segundo os druidas, é indestrutível, assim como o espírito do universo. Ao descrever a profunda filosofia druídica a respeito da alma, os atores gregos demonstavam espanto em identificar num povo a seus olhos “bárbaro” ensinamentos comparáveis aos do grande filósofo Pitágoras.
É
através desses textos clássicos que a doutrina druídica
da alma é descrita côo semelhante à metempsicose pitagórica
– a crença de que a alma de um indivíduo pode ‘migrar’
para qualquer outra criatura no pós-morte. Isso foi confundido
com a teoria da ‘reencarnação’, e equivocadamente
muitos descrevem o druidismo como reencarnacionista. Os conceitos modernos
da reencarnação implicam num constante processo evolutivo,
que em teoria um dia se encerra. Ora, o universo é infinito, portanto
não pode se encerrar – ademais, a ‘evolução’
pressupõe uma “hierarquia”, em que uma espécie
é ‘superior’ a outra (sem o que não haveria
‘evolução’). Isso é “especismo”,
preconceito entre espécies, um conceito tão danoso e equivocado
quanto o racismo.
Afirmar que um ser é superior a outro é o mesmo que afirmar
que uma raça é superior a outra – mais do que isso,
é ignorar o fato de que, para o universo, um ser humano, uma planta
e uma bactéria têm todos a mesma importância.
Ao contrário, quando compreendemos que os celtas criam que a alma de um ser humano poderia renascer (diferente de reencarnar) noutra criatura, reforçamos a percepção de que tudo na paisagem é sagrado, dotado de vida – como vimos acima.
Por fim, essa percepção nos põe em grau de igualdade e parentesco com todas as criaturas do mundo no qual vivemos – sejam elas a nossos olhos animadas ou não (e ‘animado’ significa “possuidor de alma”, de espírito, divino – como os rios das terras celtas são os corpos das deusas já mencionadas...).
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A seguir, uma breve explanação sobre alguns temas-chave do druidismo moderno – os pilares que dão ao druidismo a solidez que o torna um confortável abrigo espiritual para milhares e milhares de pessoas ao redor do mundo.
Toda religião possui uma palavra-chave: para o budismo, a Iluminação; para o cristianismo, a Salvação e assim por diante. Para o druidismo, essa palavra é Inspiração.
Awen
O
conceito da Awen já foi traduzido como “espírito
que flui” através de nós, ‘êxtase poético’,
arrebatamento profético e até mesmo como “musa”
– segundo os gregos, o espírito feminino que inspira as artes.
A chave para a compreensão da real natureza da Awen é a
palavra inspiração. Inspirar e receber algo, introjetando-o.
Como o ar que inspiramos em nossa respiração enche nossos
pulmões, a Awen nos toca, nos estimula, nos transforma. Similarmente,
da mesma forma que temos de expelir o ar de nossos pulmões para
continuarmos vivos, a Awen – a inspiração que recebemos
– deve ser transformada em ação. De espírito
para espírito, de alma para alma.
A Awen, portanto, é o espírito que flui através de nós – é a ‘musa’ que inspira nossas ações e reações. Quando reconhecemos a presença do espírito em tudo (ver animismo), possibilitamos o contato profundo entre cada um de nós e “o outro” – seja o outro em questão uma pessoa, outro animal, uma paisagem, um nascer do sol, um lugar, um prato de alimento, nosso trabalho...
A Awen é um conceito abstrato: é como uma sinapse que nos une aos diversos aspectos do universo: é através dela que nos relacionamos, estabelecendo vínculos, pontes e interconexões com todos e cada um dos aspectos de nossas vidas, ressacralizando-a.
“A busca pela Awen é a busca pelo próprio espírito do druidismo.”
– Philip Shallcrass, líder da British Druid Order (B.D.O.)
Uma das principais fontes de
inspiração do druidismo moderno é a sua própria
História. As crenças dos druidas da Antigüidade, os
feitos dos heróis e heroínas celtas e suas lendas e mitos
maravilhosos nos inspiram a atualizar o druidismo para nossos dias, tornando-o
uma espiritualidade ativa, coerente, embasada e transformadora.
Isso é um dos aspectos da Ancestralidade Druídica. É
por isso que sempre afirmo, em textos, cursos e palestras, que
“O Druidismo é informação inspirada e inspiração informada”.
Todos nós estamos familiarizados
com o conceito de ancestralidade significando “linhagem sangüínea”.
Somos filhos de um pai e de uma mãe – nossos primeiros ancestrais
– e também de avós, bisavós, trisavós
e assim por diante, recuando até a aurora dos tempos e –
assim nos explica a moderna genética - nos irmanando com praticamente
todos os seres humanos.
Essa ancestralidade sangüínea determina, através da
transmissão de informações genéticas, quem
somos fisicamente: a cor de nossos olhos, tez e cabelos, estatura e compleição
física etc. A eles todos devemos o simples fato de existirmos.
Mas essa não é nossa única ancestralidade: outra, tão importante quanto a sangüínea, determina no que cremos, nossos valores, nossa filosofia – em outras palavras, determina a herança de nossa alma: é a Ancestralidade Espiritual.
Quando
optamos por seguir um determinado caminho espiritual, seja ele qual for,
ingressamos numa senda aberta por outros antes de nós. Para que
possamos trilhar esse caminho com segurança, é necessário
que conheçamos suas características, sua história,
suas origens e transformações. Essa é a nossa Ancestralidade
Espiritual. E ela não é limitada pela ancestralidade sangüínea,
pois se assim fosse não haveria nenhum budista que não fosse
indiano, nem cristão que não fosse de origem judia.
Para um druida, conhecer a História do druidismo é honrar nossas origens, impedindo mistificações, falácias e fantasias. Da mesma forma que é possível traçar uma árvore genealógica que nos mostra quem são nossos ancestrais de sangue, é importante que possamos traçar uma ‘genealogia’ espiritual que nos ponha em contato com o sagrado e inesgotável manancial de inspiração que vem dos druidas históricos. Isso é honrar nossa história, nosso caminho, nós mesmos.
Poucas palavras são tão mal compreendidas como ‘honra’. Honra não é o mesmo que ‘orgulho’ – basta flexionar os verbos para compreender a diferença: orgulhar-se é pessoal, volta para si mesmo. Honrar é externo, é uma doação ao outro. Ou ainda: “Honro meu país” é bem diferente de “orgulho-me de meu país” – neste caso, honrar é ativo, orgulhar-se é passivo.
A honra é a chave da boa relação – seja entre pessoas, uma pessoa e seu trabalho, seu alimento, sua história. É o elemento que determina bom fluxo da Awen – da inspiração – numa dada relação.
E é a Honra que, no
druidismo, torna a existência de escrituras supérflua. Em
primeiro lugar, porque o druidismo é uma tradição
basicamente oral, ou seja: seus ensinamentos são transmitidos sem
que se recorra a textos sagrados, ou a mandamentos recebidos do além,
ou ainda a visões de um profeta. Os textos sagrados do druidismo
são a paisagem em que vivemos: as mudanças do clima e a
ciclicidade do tempo; os espíritos dos ancestrais e do local em
que vivemos; o fluxo da inspiração que emana de cada criatura,
de cada momento. É da compreensão desses ciclos e dessas
interrelações que os druidas destilam sua compreensão
do universo em que vivem e, assim, estabelecem os códigos de ética
e de conduta que norteiam sua experiência.
Mas então por que não existem textos druídicos que
normatizem esses ensinamentos? Porque isso seria matar aquilo que o druidismo
tem de mais sagrado, de mais precioso: o incentivo ao desenvolvimento
pessoal, individual. Qualquer texto, qualquer conjunto de mandamentos
e regras pré-determinadas inibem, pelo simples fato de serem impostas,
a individualidade. Afinal, como diz o ditado inglês, “o leite
de um homem é o veneno de outro”: o que é correto
para um não é necessariamente correto para os demais. A
situação piora ainda mais quando falamos de regras e conceitos
escritos séculos, milênios atrás, quando os valores
sociais, os costumes, as relações entre os seres humanos
e entre estes e a paisagem em que vivem eram totalmente diferentes.
Bem X Mal?
Essa
explanação já basta também para acabar com
a percepção errônea de que ‘honra’ e ‘moral’
são sinônimos. A palavra ‘moral’ traz em seu
bojo conotações como certo e errado, bom e mau, bem e mal.
Esses conceitos dualistas simplesmente inexistem no druidismo.
O druidismo é uma religião pautada na natureza: não
existe, na Natureza, bem ou mal. Portanto, o druidismo não reconhece
esses princípios. E, ao não reconhecê-los, inviabiliza
a redação – seja ela ditada pelos deuses, recebida
por um profeta iluminado ou canalizada por um espírito –
de códigos de conduta, de leis, de mandamentos.
O que nos traz ao ponto inicial deste raciocínio: como então viver uma vida ‘equilibrada’ sem ‘manuais de instrução’? A resposta mais objetiva é: vivendo a vida; inspirando-se nela e por ela; honrando-a. Afinal, a vida não é um aparelho, previsível, lógico, mecânico para ter um ‘manual de instruções’: ela é viva e, por assim ser, não existem regras para todos a todos os momentos.
Com equilíbrio, aliando o conhecimento à inspiração, a razão à emoção, o druidismo ensina cada um de nós a descobrir o seu caminho. Esse é um caminho de Honra.
Chegamos então ao último
“pilar” do druidismo contemplado nestas páginas: a
Transformação.
Nas palavras de Emma Restall Orr, “No druidismo a mudança
é sagrada. Ela é tão integral à nossa tradição
quanto aos ciclos da Natureza, às fases da lua, às marés,
às estações do ano...”
Essa ligação com a natureza, essa característica
tão xamânica do druidismo – e não esqueçamos
que o xamanismo está na base de todas as religiões –
é que faz do druidismo uma religião ‘pagã’.
‘Pagão’: palavra que vem do latim paganus, aquele que
nasce no pagus, ou seja, no campo. Assim, em termos espirituais, ‘pagão’
se refere a uma espiritualidade do campo, da Natureza. É do contato
com esses espíritos da Natureza que os druidas e druidesas modernos
obtêm sua inspiração, canalizando-a, fazendo bom uso
dela e, assim, honrando sua fonte, sua origem.
“O druidismo não é somente uma tradição mágica, mas sim uma busca pela pureza da quintessência da vida. Pode-se passar eras e eras ponderando sobre teorias e crenças; pode-se crer ter encontrado alguma verdade superior, o que nos leva a derrapar no desejo de salvação e de poder. Porém, é na experiência da conexão, de espírito para espírito, que podemos saborear a verdadeira inspiração, o verdadeiro leite da Mãe Natureza, o toque dos deuses”.
-- Emma Restall Orr
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A busca por uma vida melhor
é – ou deveria ser – o cerne, a motivação
e o objetivo de todas as espiritualidades do mundo. O druidismo propõe
que essa vida melhor seja atingida através do conhecimento que
gera ação – Consciência.
Espíritos conscientes não são dominados ou manipulados:
ao contrário, eles agem. O druidismo é uma espiritualidade
que devolve às nossas mãos o controle de nossas vidas: sem
propostas de “salvação futura”, o druidismo
age no Agora: “inspirados pelo Passado, atuamos
no Presente para criar um Futuro Melhor”.
| You're a driver,
not a passenger in life And if you're ready, you won't have to try 'cause you are the Universe |
Você
é o motorista e não o passageiro na Vida E se estiver pronto, nem precisará tentar, Pois você é o Universo |
- Siedah Garrett & Andrew Levy
Desenvolvimento Pessoal:
Como
deve (ou deveria) ocorrer com todos os caminhos espirituais, o druidismo
propõe uma melhor qualidade de vida a partir da vivência
plena de nossa existência - para isso, tudo de que se precisa é
somente a disposição de conhecer-se plenamente, revendo
conceitos num processo contínuo de auto-conhecimento e auto-desenvolvimento.
O conceito de um paraíso no "pós-morte" existe
entre os celtas, mas não é a razão de nossas existências
- muito ao contrário, a percepção de que este mundo
é sagrado faz daqui, desta vida, uma experiência imediata
do Paraíso. "O Druida não vê o Outro
Mundo: ele vê este mundo com outros olhos".
Ou seja: a partir da compreensão dos conceitos druídicos, aprendemos a ressacralizar nossas vidas, nosso trabalho, nossa alimentação, nossos prazeres... quando assim fazemos, toda nossa vida se torna divina, mágica - e ao nos tornarmos pessoas melhores, contribuímos para a criação de uma consciência coletiva melhor: ao curar a mim mesmo, promovo a cura da comunidade.
Comunidade Druídica:
Os
druidas já foram descritos como "o eixo ao redor do qual gravita
a sociedade celta", o que vale dizer que o druida não busca
o contato com o sagrado em mosteiros, ou no isolamento de um eremita que
leve uma vida de "contemplação": por definição,
o druida vive em contato direto com a comunidade da qual
faz parte.
É fácil entender por quê: os celtas eram um povo tribal que prezava a união da comunidade. Essa característica gregária é facilmente identificada nos ensinamentos druídicos, nas lendas celtas, no papel dos bardos, ovates e druidas da Antigüidade e, naturalmente, no druidismo contemporâneo.
Não
por acaso, druidas do mundo todo mantêm contato constante para trocar
informações, experiências, práticas e costumes
- um intercâmbio que preserva o dinamismo e a energia do druidismo
como um todo.

Talvez o maior exemplo disso atualmente seja a Druid Network
- literalmente, uma rede druídica que serve de ponto focal
para conectar indivíduos e grupos que se interessem e/ou pratiquem
o druidismo nos quatro cantos do mundo.
Conheça a
Druid Network - (páginas
em português da Druid Network)
Atualmente, existem incontáveis grupos druídicos espalhados pelo planeta - de pequenos groves intimistas a grandes ordens organizadas. Em comum, todos têm o desejo de vivenciar o druidismo não como uma espiritualidade de final de semana, mas como uma religião no sentido pleno da palavra - uma filosofia que se manifeste e seja percebida em todas as nossas ações: não há separação entre 'sagrado' e 'profano' porque no druidismo tudo é sagrado - e o convívio harmonioso de um grupo druídico é uma experiência transformadora.
O Brasil hoje
tem diversos grupos druídicos - alguns fechados e praticamente
anônimos, outros abertos em suas celebrações e na
orientação aos interessados: este é o caso do Caer
Piratininga, uma Gorsedd (grupo druídico) formada
por ex-alunos de meus cursos que se tornaram grandes amigos. Em 2005,
após um período de instrução formal, os participantes
receberam instrução específica no Caminho do Bardo
e passaram por uma cerimônia para a criação de uma
Gorsedd na tradição da British Druid Order. Nascia a Sagrada
Gorsedd dos Bardos de Caer Piratininga - o nome
une as palavras galesa 'Caer' ('fortaleza', 'cidade') e guarani 'Piratininga'
(o primeiro nome da cidade de São Paulo), promovendo a ponte direta
entre as terras celtas da Grã-Bretanha e do Brasil, integrando
os espíritos dessas duas terras e promovendo a adequação
do druidismo à nossa realidade, às nossas necessidades,
ao nosso
universo.
Para conhecer mais sobre os trabalhos do Caer Piratininga, visite o site:
www.druidismo.com.br.
Ritual e Vida:
A vivência do druidismo está fortemente embasada na celebração dos rituais celtas hoje conhecidos como "A Roda do Ano" mencionada acima. São celebrações no sentido literal da palavra: festas, encontros de pessoas que se reúnem com a intenção de compreender e vivenciar a sacralidade do tempo e os presentes que sua passagem nos traz através de ritos que, dependendo da ocasião, são alegres ou pungentes, festivos ou introspectivos, multicoloridos ou escuros, pondo-nos em contato direto com todas as nuances da existência para que possamos dela desfrutar de forma mais plena e positiva.

A busca de cada ritual é a inspiração, que costuma
se manifestar em música, dança e poesia e que, invariavelmente,
é seguida de um banquete comunitário que aproxima as pessoas,
fortalecendo os laços de amizade e o senso de comunidade - algo
tão precioso e tão pouco disponível em nossos tempos
de individualismo excerbado...
Em minha experiência druídica, testemunhei o início de relacionamentos afetivos - alguns dos quais até tive a honra de celebrar o casamento! - o que comprova que o druidismo moderno oferece não só uma chance de "desenvolvimento espeiritual", mas também aclhe as pessoas no nível emocional, físico e mental.
Druidismo: uma "Espiritualidade Verde"
Por
ser o druidismo uma "Espiritualidade Verde", que enxerga a Natureza
como sagrada e divina, é natural que os druidas modernos estejam
profundamente envolvidos com questões ambientais - desde a ação
ativista de grandes instituições como o Greenpeace, o WWF
e a SOS Mata Atlântica até a ação individual
- invisível, porém fundamental! - manifesta na reciclagem,
no cuidado de uma praça ou canteiro, nas ações (institucionais
ou voluntárias) em defesa dos direitos dos animais, no consumo
responsável, na alimentação consciente. Tudo isso
faz parte de uma vivência druídica, e para inspirar os que
desejam legar um mundo melhor às gerações vindouras,
sugiro conhecer estes websites:
Instituto Akatu - com a missão de conscientizar o consumidor brasileiro em busca de um futuro melhor e uma comunidade sustentável;
Cassiopéia - uma excelente linha de produtos de limpeza e fitocosméticos naturais que não agridem nem ao meio-ambiente, nem a você. Não faltam em minha casa!
Revista Vida Simples - uma revista alternativa abordando diversos temas importantes - ambientalismo, consumo responsável, qualidade de vida e muito mais.
Projeto Hera - um espaço cultural em São Paulo que oferece cursos, workshops, vivências e palestras sobre druidismo, xamanismo, espiritualidade feminina e muito mais. Idealizado e gerenciado pela minha "irmãzinha" Patricia Fox.
Como se vê, a vivência druídica não se limita em cuidar de nossa alma: é preciso cuidar de nosso corpo e de nossa mente também. Aliás, por tudo que vimos, fica claro que o druidismo não é cuidar somente de si mesmo: é cuidar da comunidade e do planeta também!
Artigo de Emma Restall Orr
© 1999 originalmente publicado em Druidry: Rekindling the Sacred Fire (literatura interna da British Druid Order)
- Tradução exclusiva autorizada © 2003 – Claudio Quintino
A
cada jornalista, repórter e apresentador de tevê que me entrevista,
em algum momento me vejo respondendo a seguinte pergunta: “Mas como
você sabe que o que pratica é o autêntico druidismo
ancestral?”
Por vezes essa pergunta é feita por pura curiosidade; noutras ocasiões, é feita como uma alfinetada naquilo que chamamos de druidismo moderno e eu costumava hesitar diante dessa pergunta ali, sob os refletores, com a figura fálica do microfone próxima demais para me deixar à vontade, os olhos refletidos das câmeras uma verdadeira invasão de meu espaço íntimo. Hoje, porém, minha resposta imediata começa com uma risada e um sorriso que quebram qualquer tentativa de defesa. Pois seguramente, se praticássemos hoje o druidismo que era praticado dois ou três mil anos atrás, não demoraria muito para que a polícia nos descobrisse e nos encarcerasse. Isso não quer dizer que o druidismo de dois mil anos atrás fosse mais barbárico do que qualquer outra cultura da época; numa época em que os escritores clássicos descreviam a natureza sacrificial do druidismo, o Circo de Roma era o deleite dos cidadãos romanos com sangrentas lutas mortais entre animais e prisioneiros. A ética social, o sistema penal e o valor dado à vida eram totalmente diferentes se comparados aos de hoje. Se tivéssemos alguma chance de saber com exatidão o que nossos ancestrais druidas faziam em seus rituais, possivelmente a maior parte de suas práticas fosse hoje considerada ilegal, inaceitável e, principalmente, ineficiente.
Ainda assim, o valor e a vitalidade do druidismo foram preservados porque este era – e ainda é – uma tradição oral. Os druidas não eram iletrados: suas transações comerciais ocorriam em grego quando necessário. Contudo, seus ensinamentos e sua sabedoria jamais foram passados para a palavra escrita. Dessa forma, eles preservaram seus conhecimentos para uma elite intelectual, protegendo-o do mal uso, preservando sua própria força e estimulando o desenvolvimento da mente através de um treinamento extensivo em filosofia, matemática, ciências naturais, astronomia, história, poesia e muito mais, registrando tudo nos ‘arquivos’ de suas próprias memórias. Como resultado, apesar de podermos dizer que muito da moderna cultura britânica tem por base a filosofia druídica ancestral, pouco sabemos hoje das práticas rituais de nossos ancestrais druídicos, obtendo poucas informações a partir de registros arqueológicos, de textos clássicos e dos textos mais antigos, hoje com cerca de mil anos.
Essa busca por evidências começa do pressuposto de que o druidismo só existiu num período relativamente curto de tempo, que os druidas eram os sacerdotes dos celtas da Idade do Ferro, praticando uma religião que surge do nada e desaparece com os romanos ou com a igreja católica. Isso não está certo: a evolução de culturas e espiritualidades não funciona dessa forma rígida.
Ao contrário de religiões que têm por base escrituras sagradas ou as palavras de profetas, o druidismo não possui nenhum artifício que o restrinja a uma certa cultura ou era: o druidismo sempre existiu no aqui e no agora. O livro sagrado dos druidas de dois mil anos atrás ainda nos está disponível: é a intrincada simplicidade das rochas e dos ventos, da lua a se por sobre o oceano; as flores de nossa paisagem, as árvores que brotam e perdem suas folhas, o vôo das aves e a dança das abelhas. O livro sagrado dos druidas é a história de nossos povos, as histórias de amor, poder e dor, as canções dos invasores cujo sangue e respiração lutaram e se misturaram aos dos habitantes locais através de guerras e casamentos, e também são as lendas dos exploradores que retornavam de jornadas a terras desconhecidas. O livro sagrado dos druidas é nossa própria história contínua. Esse livro não tem começo identificável e jamais saberemos como ele terminará para além dos véus do futuro.
Se por um lado isto nos traz a liberdade da presença em nossa tradição, por outro lado esta presença é abençoada e colorida por nossa compreensão do passado e de nosso entendimento da paisagem em que vivemos. Como cada indivíduo que estuda e pratica o druidismo desenvolve sua própria compreensão e experiência da história de nossa terra, de suas próprias vidas e realidades, o que resulta é uma diversidade na tradição druídica a um só tempo fascinante e frustrante.
Atualmente, os druidas destilam seus entendimentos do que é druidismo a partir de fontes bastante diferentes, as quais refletem diferentes locais e ambientes. Alguém que estude os textos medievais galeses, encontrando sua inspiração nas escuras montanhas do norte do País de Gales, certamente será um druida diferente de outro do sul da Inglaterra, com suas florestas e rios, inspirado por visões de um sacerdote da terra selvagem, vestido em peles e penas; ou de outro mais, que se conecte com o período romano-britânico quando essas duas culturas se fundiram, ou com o período da chegada do cristianismo, ou mais tarde, com o paganismo saxão, ou com o monoteísmo solar do Renascimento Druídico do século XVIII. Cada parte da história destas terras, seu clima e seus povos, desde o começo de sua povoação na Idade do Gelo, é uma fonte válida de informação na busca dos elementos que compõem o druidismo moderno.
A exploração do espectro da diversidade druídica pode ser altamente confusa. Existem correntes no druidismo moderno que possuem poucos elementos em comum com as demais. Contudo, existem certas crenças básicas que formam a base de toda a tradição druídica: a mais importante delas é a compreensão de que o druidismo é (ou tem por base) a espiritualidade nativa das ilhas britânicas. Se podemos chamar os primeiros sacerdotes destas ilhas de ‘druidas’ é em grande parte uma questão puramente semântica; Júlio César afirmou que o druidismo originou-se na Grã-Bretanha e, apesar de a palavra ‘druida’ possuir raízes que se perdem nas brumas do tempo, não sabemos se os sacerdotes usavam essa palavra para se designar 500 anos antes da chegada dos romanos ou até mesmo antes disso.
É questionável afirmar que existia uma tradição religiosa por toda a Europa da Idade do Ferro. Sabemos, contudo, que o foco da religião pagã nativa eram as forças da natureza; as evidências mais antigas apontam para a morte como a fonte principal de poder. É fácil imaginar o medo que nossos ancestrais nutriam pela morte, cercados que estavam pela sua proximidade constante num ambiente gélido, dependendo da caça, à mercê das doenças. Entretanto, apesar de seu foco na morte ser inspirado pelo medo dela, podemos facilmente vislumbrar seu respeito, sua honra e seu maravilhamento diante do poder da morte. Eles certamente sentiam ou visualizavam a energia do espírito daqueles que haviam morrido. Atualmente, todos nós ainda temos os mesmos sentimentos diante da morte: ela é uma parte significativa da cultura e da psique humana.
Ainda atribuímos a mesma importância à morte, assim como outros aspectos da natureza também moldam nossas vidas como moldaram a de nossos ancestrais através dos milênios; entre estes um dos mais importantes é a fertilidade, que surge da consciência dos ciclos menstruais e de nascimento dos animais caçados e criados, bem como da dependência da agricultura. A busca pelos poderes que controlam esses ciclos e que preservavam a fertilidade da terra, bem como a compreensão dessas mesmas forças dentro do corpo feminino deu origem a um enfoque religioso que também perdura até nossos dias como parte fundamental da mente humana e é uma força determinante em nossa sociedade.
A morte, a fertilidade e a força dos ancestrais e da terra formam a essência de qualquer espiritualidade da terra. Ao redor desses pilares agregam-se os elementos do clima e da história de um povo, dando a essa tradição a sua linguagem, suas cores e suas prioridades. A mudança de nosso clima ocasionou o “milênio chuvoso” antes da chegada dos romanos; a influência da cultura romana antropomorfizou as deidades e alterou as estruturas sociais; a chegada da deidade e da ética cristã; o retorno do paganismo através dos germânicos e vikings; o intercâmbio de culturas e idéias através do comércio e das imigrações; a Reforma; o Renascimento; a Idade da Razão, da ciência e da indústria – todos nos confrontaram com a ameaça da mudança, com benefícios e desvantagens. Seja como for, todos esses momentos estão entremeados pelas forças da natureza, as forças de nossos ambientes – tanto interno quanto externo – as forças do mundo natural e da mente humana, as forças da terra, do mar e dos céus, bem como dos ancestrais.
É nossa busca por essas forças que cria uma religião da natureza – e a busca nestas ilhas formou e continua formando a filosofia e as práticas do druidismo. Contudo, compreender as forças não basta: como druidas nós procuramos uma conexão, uma relação, percebendo a consciência e o propósito dessas forças na forma de espíritos e/ou deidades. A essência do relacionamento é o reconhecimento, a interação e a troca; quando vamos além da troca física e mental, através do corpo e das idéias, quando percebemos as forças envolvidas, reconhecendo o espírito, então a relação assume outra natureza.
Isto se aplica quando a relação é entre um humano e a lua, com sua luz refletida numa lagoa no escuro de uma floresta, ou entre uma criança e um seixo polido pelas marés numa praia, ou entre uma árvore e o vento que brinca por entre seus ramos, ou entre o sol poente e o oceano que o devora, ou entre um homem e uma mulher na nudez do amor. Quando percebemos o espírito, percebemos a força da invulnerabilidade na natureza. É nesses momentos que temos a oportunidade de trocar energia pura, de entrar em comunhão, de espírito para espírito, com as forças da natureza. No druidismo, isso é Awen, a essência fluida do espírito. Numa relação de espírito para espírito, quando permitimos que a força da Awen flua através de nós, inundando e inspirando nossa criatividade, nós honramos o dom da vida, usando-o bem e plenamente.
Ainda que diferentes druidas percebam a deidade de diferentes formas, honrando deuses diversos (dos celtas ao cristão, dos greco-romanos aos saxões, dos animistas aos conceituais), a Awen é vista como originária das forças da natureza que são as deidades – os deuses do trovão, da guerra e da morte, do amor e da fertilidade, os deuses que são simplesmente energia vital pura. Assim, quando um druida honra o fluxo de Awen como inspiração divina, usando-a como fonte de sua criatividade e oferecendo os produtos de sua inspiração como presentes aos deuses, essa é a forma de sua reverência.
Os rituais druídicos são uma dança de interação. Ao criar o espaço sagrado – um santuário de beleza e confiança – os druidas (sozinhos ou em grupo) buscam pela sua fonte de inspiração – a força da natureza – convidando os espíritos ou deidades dessa força para estarem presentes no local enquanto simultaneamente formam um ‘recipiente’ mágico no interior do qual eles podem se abrir para receber a Awen. Para alguns na tradição druídica, este processo é uma jornada meditativa no silêncio de um quarto à luz de velas e sem distrações; para outros, é no transe no interior de uma floresta, ao redor de uma fogueira e ao som de tambores. A Awen pode ser recebida em momentos de perfeita comunhão na forma de iluminação ou de visões, como conexão através do coração enamorado e da sensação de pertencer, como êxtase físico, Eros ou ágape. Não é definida pela forma em que é sentida, mas sim como inspiração divina – e essa inspiração deve ser usada criativamente para honrar sua fonte.
Como sacerdotisa da tradição druídica, como alguém que coordena uma Ordem, não finjo ser uma grande historiadora ou mitóloga. Existem outras pessoas muito mais capacitadas do que eu para essas tarefas. Também não sou uma política. O que eu faço é honrar a terra e a ancestralidade – a minha e a dos demais. Eu ouço e procuro aprender com os outros, com sua compreensão dos poderes da natureza, através das velhas lendas, através de nossas histórias, através da filosofia das leis naturais. Mas acima de tudo, sou uma ritualista: eu honro os poderes como eu os percebo, criando minha via de interação com os deuses nos preciosos momentos em que sentimos Presença. Eu honro o poder do aqui e do agora – este espaço entre o passado e o futuro, o momento intangível no qual vivemos. Assim fazendo, minha jornada abarca a essência do druidismo – o poder da terra e dos ancestrais – e se torna uma espiritualidade moderna e, portanto, relevante.
Numa época em que a humanidade está começando a compreender a extensão dos danos que vem causando ao planeta e o poder das forças da terra e do universo (previsível e imprevisível), sentimos uma grande urgência em nossa psique humana que nos impulsiona a nos reconectarmos com as forças da natureza que podem ser determinantes para nossa sobrevivência. Não sou daqueles que pregam a eminência de algum grande cataclisma, mas a visão cotidiana que é parte da filosofia e da prática druídica obedece aos princípios da sacralidade dos ecossistemas e habitantes de nosso planeta. O Druidismo é, definitivamente, uma espiritualidade verde, pois promove o cuidado com o ambiente através da responsabilidade pessoal, do aumento da consciência e do pensamento positivo que surge do relacionamento de espírito para espírito.
Outra razão pela qual o druidismo se desenvolve com tanta rapidez em todo o mundo é por seu enfoque no equilíbrio. Ainda que não seja necessariamente uma espiritualidade que procure seguir sempre o caminho do meio, a compreensão do todo é fundamental para o druidismo. Assim como o ciclo do ano no clima temperado das ilhas britânicas se move do verão para o inverno – do crescimento para a decadência – também no druidismo a escuridão é tão sagrada quanto a luz, a noite tão vital quanto o dia. Nossos rituais podem ser celebrados nos campos banhados de sol diante de centenas de pessoas, ou ainda na escuridão de uma floresta, na reclusão da noite. A escuridão é vista como o ventre do potencial: é o solo escuro da terra que nos alimenta e no qual se enraizam as árvores. No druidismo não existe o conceito de bem ou mal: o que existe é a compreensão de que o apodrecimento é necessário para preparar o crescimento e que na escuridão encontramos o medo do desconhecido, mas também a liberdade.
É a interação ente as forças da luz e da escuridão que nos traz a força regeneradora da criação, manifesta através da união entre masculino e feminino, através dos ancestrais símbolos sagrados da Adaga e do Caldeirão, a espada Excalibur e o Santo Graal. Ao honrarmos os fluxos da natureza como sagrados, ao trabalharmos dentro de uma tradição que tem por foco as forças naturais da regeneração, da morte e do renascimento através do ciclo de ser, percebemos também a sexualidade como sagrada. Em nenhum momento existe a noção de que tal união precise ser entre um homem e uma mulher, pois o importante é a comunhão ente duas forças, dois espíritos. A união de mentes e de corações também, e qualquer relação que inspire criatividade e traga regeneração constitui a prática viva do druidismo.
Assim, honrando o masculino e o feminino, temos tanto homens quanto mulheres na tradição – ambos desempenhando igualmente os papéis de sacerdotes e instrutores, conduzindo grupos e groves, compartilhando de suas próprias fontes individuais de inspiração e beleza.
O druidismo, enquanto espiritualidade moderna, é um reflexo do druidismo ancestral que muitos dão como há muito perdido. Contudo, o druidismo é a canção de nossos ancestrais – aqueles que há muito se foram e os recém partidos; o druidismo é a sensação de maravilhamento que sentimos ao perceber o poder da natureza, a magnificência das montanhas, a beleza dos rios, as cores silvestres nos campos, a energia do trovão. Nascido na Grã-Bretanha, o druidismo é uma filosofia espiritual carregada em nossos corações, em nossos genes, nas memórias de todos aqueles que viveram nas terras européias e dali seguiram para praias distantes. O poder do druidismo está em cada um de nós, e surge através de nossa relação direta e individual com a Natureza, suas leis e sua beleza, no processo contínuo de criação.
Que assim seja, para sempre.
TopoDepois de tomar contato com a essência das crenças druídicas; depois de conhecer os pilares que dão estrutura e força ao druidismo; depois de entender o que é a ação druídica hoje; e depois de se inspirar com o belo texto "Um Druida Moderno" de Emma Restall Orr, resta descrever como vivem os druidas nos dias de hoje...
Em primeiro
lugar, levar uma vida druídica não faz de alguém
melhor ou pior do que as demais pessoas - pertencer a um grove
ou Gorsedd, receber a tradição bárdica ou
mesmo simplesmente compreender e vivenciar os princípios do druidismo
no dia-a-dia não torna ninguém especial - a não
ser pelo fato de que, através da vivência
druídica, nós compreendemos melhor os processos
que fazem parte de
nossas vidas - escolhas, ciclicidades, ritmos. O druidismo também
nos mostra que de nada adianta buscar o desenvolvimento espiritual - seja
qual for o caminho que escolhamos - se negligenciarmos o desenvolvimento
de nosso corpoe nossa mente. Todos nós somos feitos desses três
'corpos': o físico, o mental e o espiritual, e é do equilíbrio
e da harmonia entre eles que vem a vivência plena de nossos potenciais
e forças - e essa é uma das mais belas práticas do
druidismo.
Dessa compreensão nos vem uma maior capacidade de desfrutar dos diversos momentos que a vida nos apresenta - e isso é pura magia.
Ao contrário da visão comum de que magia é "a capacidade de controlar as forças ocultas da natureza para se obter um benefício", para um druida, Magia é a arte de compreender os ciclos, perceber as oportunidades que eles trazem e desfrutar delas - ao invés de "manipular" as forças da natureza, 'desfrutar' delas. Sábio - como as aves são sábias ao desfrutar das termais em seus vôos, como é sábio as sementes desfrutarem das chuvas para germinar, assim como as frutas desfrutam da luz solar para amadurecer...
Por ver a vida como sagrada, o druida desfruta dela em todos os momentos - não só durante uma celebrção ou ritual, mas no trabalho, à sua mesa, com os amigos, com a família. Por ser animista, o druida percebe a presença de espírito em todos esses momentos, em todas essas companhias. Ao perceber o espírito de cada um, um druida se relaciona melhor com todos - inclusive consigo mesmo.
Um dos maiores desafios que encaro em meus cursos é justamente a dificuldade que todos temos (alguns mais, outros menos) em reconhecer a presença de um espírito numa sala, numa idéia, num pensamento, numa aula, numa árvore, numa deidade. Em nosso mundo moderno e "coisificado", não nos é dado perceber as diferentes formas de energia que transitam à nossa volta, num eterno e dinâmico baile que nos envolve por completo - estejamos ou não conscientes disso. Por vezes realmente é difícil lembrar que a todos os momentos de nossas vidas estamos em contato com outras formas de energia - e não me refiro aqui somente a "espíritos desencarnados", mas também - e principalmente - à energia (portanto, espírito) de outro animal, de um prato de alimento, de uma divindade, de uma tarefa, de uma data. Não por acaso, esse tema exige muito trabalho e muitos exercícios práticos, para que nós possamos redescobrir essa percepção de um Sagrado que é próximo, 'informal', amistoso, corriqueiro, familiar. Em minha posição de instrutor, é muito satisfatório receber depoimentos de alunos dizendo que, após a compreensão do conceito do animismo, a percepção de suas vidas muda, pois passam a se relacionar melhor com familiares, amigos, colegas, com o trabalho, com seus próprios corpos, consigo mesmos.
A
partir desse ponto, a vivência druídica 'deslancha'. Resgata-se
a sacralidade da Vida - desde os conceitos mais profundos e filosóficos
até suas manifestações mais simples e cotidianas.
Passamos a compreender o real significado dos rituais e celebrações,
passamos a identificar a influência dos ciclos em nossas vidas,
a importância do espaço em que vivemos, a sacralidade das
relações que estabelecemos - passamos, em resumo, a viver
melhor.
Um druida hoje passa desapercebido na multidão: nada de amuletos, pingentes ou vestes especiais; nada de posturas de superioridade, comuns aos "iniciados" (que não compreendem o real significado da palavra); nada de olhares assoberbados; nada de "cultura de gueto". Um druida moderno é uma pessoa como outra qualquer, que vive sua vida em honra e equilíbrio, de forma inspirada - e inspiradora.
Um druida moderno honra seu trabalho - mesmo que não seja o ofício de seus sonhos; honra suas origens - ainda que não se identifique com ela como um todo; honra suas experiências - mesmo que não sejam exatamente o que ele ou ela havia planejado.
Um druida moderno compreende melhor seu papel dentro da comunidade, dentro do planeta e dentro de sua própria vida. Consciente de que os pequenos atos fazem a diferença, um druida moderno consome com consciência, recicla, pré-cicla, norteia suas ações pelo bem estar - seu, da comunidade e do planeta, aprendendo, como diz Emma Restall Orr, a "pisar mais suavemente sobre a Terra" - a viver com menos impacto, com mais plenitude, com menos resistência aos ciclos de vida, morte e renascimento, que fazem parte de todos os momentos de nossa existência.
Como se percebe, as coisas que um druida faz - reciclar, buscar uma vida equilibrada, tentar compreender os ritmos da vida, vivenciar o sagrado - tudo isso é feito por indivíduos de outras espiritualidades, algumas até por gente que não se identifica necessariamente com esta ou aquela religião. Isto ocorre porque, como já vimos, no druidismo não há separação entre o sagrado e o mundano - entre o religioso e o dia-a-dia, entre a ação (físico), a filosofia (mental) e a crença (espiritual). E, é bom que se diga, desse reconhecimento de que o druidismo não é o único caminho (filosófico ou espiritual) a propor essas ações brota a abertura ao diálogo entre o druidismo e outras correntes filosófico-espirituais.
Essa abertura ao diálogo, essa busca pelo entendimento tão característica do druidismo é que gera o reconhecimento de outras correntes filosófico-religiosas. Na Grã-Bretanha, sua terra de origem, o druidismo é reconhecido como uma espiritualidade consistente e sólida. Muitos grupos druídicos costumam ser consultados por arqueólogos e órgãos governamentais, para que se posicionem quando uma determinada escavação vai ocorrer num local sagrado (respeito à Ancestralidade), ou quando há um plano de obra que envolva a derrubada de árvores, por exemplo (integração ao espaço sagrado). Na Grã-Bretanha, os druidas não são vistos como "fanáticos" de alguma "seita" estranha: são respeitados porque se fazem respeitar - e a melhor forma de se fazer respeitar é respeitando os demais.
Quando
travei contato com as idéias e conceitos do Prof. Thomas Berry,
idealizador da "Sociedade
Ecozóica", percebi que aquilo era "druidismo puro"
- especialmente quando percebemos que a busca de um futuro melhor para
o planeta e a humanidade está pautada em três pilares fundamentais:
1.) A Nova História; 2.) o Bio-regionalismo;
e principalmente, 3.) a Espiritualidade Ecológica.
Quando comprendemos de fato os papéis do bardo, do ovate e do druida
na sociedade celta da Antigüidade, prontamente identificamos essas
três funções sagradas nessa proposta: o conceito da
Nova História implica numa abordagem mais fluida e orgânica
dos eventos que nos trouxeram até onde estamos hoje - tanto individual
quanto coletivamente; o bio-Regionalismo pressupõe uma compreensão
profunda da diversidade dos espíritos - animais, plantas, árvores,
intempéries - que compõem uma determinada paisagem, posibilitando
assim uma melhor interação entre essas diversas comunidades,
inclusive - e principalmente - a comunidade humana, numa nova relação
de equilíbrio, consciência, responsabilidade, carinho; e
a Espiritualidade Ecológica é justamente a definição
mais adequada para o druidismo de ontem, hoje e sempre. Ao compreender
o quanto estamos falando a mesma linguagem, pus-me em contato direto com
os idealizadores da Sociedade Ecozóica, que me autorizaram a traduzir
e divulgar seus textos (os mais importantes disponíveis neste site,
na área Eco-Espiritualidade).
O ciclo então se fecha, voltamos ao ponto original, estabelecemos a ciclicidade da vida: ser druida, hoje, é viver melhor física, mental e espiritualmente. Mas, acima de tudo, ser druida hoje é viver a vida de forma plena, inspirada. E inspiradora.
Awen.
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