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Sociedade
Ecozóica:
Você está preparado?
O
que você precisa saber
Nos
textos abaixo, uma introdução às preciosas idéias
de THOMAS BERRY - geólogo, pensador, visionário.
Com rara
habilidade de mergulhar fundo nas QUESTÕES fundamentais
de nossos dias a uma igualmente incomum capacidade de oferecer SOLUÇÕES
viáveis, o saudoso Professor Thomas Berry nos
deixou um legado precioso para, com base em seu conhecimento profundo
da história de nosso planeta e das sociedades nativas que estudou
e vivenciou, propor um 'novo' modelo de interação entre
o ser humano e o mundo em que vivemos.
Não
se trata dos delirantes exercícios de imaginação
de um 'esotérico' ou um 'místico': a obra de Thomas Berry
é o resultado das observações precisas e profundas
de um cientista que, em íntimo contato com a energia vital da
terra, entendeu seu ritmo, seus anseios e sua essência.
A partir dos estudos e teorias
de Berry, publicados na forma dos livros The Great Work, The
Universe History e The Dream of the Earth, surgiu
a "Sociedade Ecozóica" - a segunda
geração de pensadores, estudiosos e filósofos que
levam adiante o trabalho iniciado pelo Professor Berry. Os textos abaixo,
retirados das primeiras publicações da Ecozoic Society
nos anos 1990, foram por mim traduzidos e sua publicação
autorizada pela própria organziação Ecozoic
Studies.
SEJA
QUAL FOR A SUA BUSCA, QUALQUER QUE SEJA SUA ESPIRITUALIDADE,
LEMBRE-SE: O FUTURO ESTÁ EM NOSSAS MÃOS.
Para
o Prof. Berry, cada grande cultura na História da Humanidade
deixa uma contribuição que o tempo não apaga e
que beneficia as civilizações que surgem depois. A essa
contribuição Berry dá o nome de "A
Grande Obra" de cada cultura. Como exemplos, ele
cita que os egípcios nos legaram a arquitetura, os romanos a
organização social, os gregos a filosofia e assim por
diante.
Ao
contrário dos "profetas do apocalipse" que
povoam o mundo do ambientalismo e das espiritualidades alternativas
modernas, o discurso de Thomas Berry não retrata nossa civilização
moderna como um mal, um retrocesso ou um 'plano inferior' na história
da civilização humana: ao contrário, por seu conhecimento
profundo da história, ele identifica justamente nas características
mais atacadas de nossos tempos - a urbanização e a tecnologia
- a chave para a grande revolução que nos possibilite
reverter o quadro de destruição e exploração
desenfreada do planeta em que nos encontramos.
A
criação de uma nova sociedade, mais integrada ao meio
ambiente, mais consciente de seu papel no planeta e, ironicamente, mais
'humana', é a grande proposta de Thomas Berry: essa é
a "Grande Obra' que nos desafia a todos.
Traduzir
e divulgar estes textos é uma de minhas contribuições
para nossa Grande Obra - qual é a sua?
-- Claudio Quintino Crow
Sociedade
Ecozóica: Artigos
Um
Chamado para a Era Ecozóica* - Herman
Greene e colaboradores
Resposta
Xamânica* - K.
Lauren de Bôer
Descobrindo
o divino no Universo* - Irmã Gail Worcelo
História
da Ciência e do Espírito*
- Jody Bourgeois
*
© 2006 - Tradução: Claudio Quintino Crow
Uma
Espiritualidade para Salvar a Terra - Claudio Quintino Crow
O
quão "Verde" é sua Espiritualidade Verde?
- Claudio Quintino Crow

Um
Chamado para a Era Ecozóica
Por
Herman Greene e colaboradores - 1997-8
Todos
nós temos nosso trabalho particular.
Temos uma variedade de ocupações. Mas além do trabalho
que desempenhamos e da vida que levamos, temos uma Grande Obra na qual
todos estamos envolvidos e ninguém está isento: é
a obra de deixar uma era cenozóica terminal e ingressar na nova
Era Ecozóica na história do Planeta Terra. Esta é
a Grande Obra.
- Thomas Berry
O
Desafio: precisamos gerar uma Sociedade Ecozóica!
O
futuro da comunidade da Terra depende de forma vital da decisão
a ser tomada pelos humanos, que se inseriram até mesmo nos códigos
genéticos dos processos da Terra. O futuro será decidido
pela tensão entre aqueles que se comprometeram com a Era Tecnozóica
um futuro com mais e mais exploração do planeta como uma
fonte de recursos voltados para o benefício dos seres humanos e
os comprometidos com a Era Ecozóica: um novo modelo de
relação entre humanos e a Terra, no qual o bem estar de
toda a comunidade da Terra é a preocupação fundamental.
Este
é o ponto de partida: o fio da navalha, o grande abismo, o chamado
à ação e ao comprometimento. Será que pertencemos
à Tecnozóica ou à Ecozóica? Nossa
resposta ecoará por todas as épocas futuras.
Ainda
assim, vemo-nos numa situação onde aparentemente não
há modo eficaz de nos livrarmos da empreitada tecnológica
que nos rodeia. Este ensaio foi redigido num computador que tomou forma
graças a milhares de processos industriais; ele é alimentado
por grandes redes elétricas que correm através de campos
e florestas. Quando saímos para o trabalho, unimo-nos a homens
e mulheres ao redor do globo na aventura contemporânea chamada "Tecnozóica".
O que podemos fazer, então?
Os
Três Pilares
Ainda
que existam diversas respostas para essa questão, bem como diversas
associações atualmente engajadas na criação
da Era Ecozóica, gostaríamos de apresentar os três
focos organizacionais que podem lançar luz nas atividades desta
área, ao redor dos quais alguns de nós podem até
optar por criar novas associações. São essas áreas:
a Nova História, o Bioregionalismo e a Espiritualidade Ecológica.
1. A Nova História
A
narrativa do desenvolvimento criativo do universo desde seu surgimento
primordial até o surgimento da Era Ecozóica é ao
mesmo tempo um relato científico e um épico
mito
de criação. Essa história relata como as
coisas surgiram e qual o significado e o papel dos humanos no drama contínuo
do cosmos. A natureza dupla da história,
sua mescla de ciência e mitologia, é o que a torna
uma "Nova História". Uma fonte primária para conhecer
essa história é o livro The Universe Story, de
Brian Swimme e Thomas Berry.
A
Nova História precisa ser contada de diversas formas.
Ela precisa ser ensinada. Precisa ser lida nas histórias infantis
e contada ao pé da lareira e ao lado das fogueiras nos acampamentos.
Precisa ser cantada, dançada e expressa na liturgia e na arte.
Precisa ser batida nos tambores. Peças orquestrais, óperas
e oratórios devem ecoá-la em celebração da
aventura evolucionária que acontece por todo o universo.
Contudo,
podemos perguntar, por mais fascinante que essa Nova História seja,
por que ela é tão importante? Por três razões:
1.
a Nova História desperta um sentimento de maravilhamento
e mistério na existência e em nossa participação
na ordem cosmológica do universo;
2. a Nova História reconecta o indivíduo
(e assim o restaura) àquilo que é primordial na família,
tribo, clã ou nação o mundo natural de onde o indivíduo
vem e do qual ele faz parte;
3. a Nova História fornece uma mitologia unificadora para
todas as culturas humanas, bem como uma base para a ação
comum para a criação da Era Ecozóica.
Se levarmos
tudo isso em consideração ao mesmo tempo, podemos dizer
que a Nova Histõria é a dimensão do "SABER"
da Sociedade Ecozóica.
2.
Biorregionalismo
O segundo
pilar da Sociedade ecozóica é o Biorregionalismo. Uma "biorregião"
é uma divisão geográfica natural da Terra que funciona
como uma unidade geo-biológica distinta e relativamente
auto-suficiente.
Pensar em termos
biorregionais significa perceber os humanos como integralmente relacionados
à ordem mundial de suas comunidades locais, e não dominantes
sobre elas. O papel dos humanos numa biorregião é apreciar
e celebrar a sua diversidade e promover e preservar sua vitalidade.
O
biorregionalismo oferece uma nova visão na organização
social. Num sentido biorregional, "sociedade" significa
toda a comunidade animada e inanimada, toda ela vista como necessária
para o funcionamento correto do todo. A ordem social atual, dominada pela
ascensão dos estados-nações e das corporações
multinacionais, foi conduzida pelo objetivo de dar identidade, liberdade
e bem estar econômico aos vários povos da Terra. O nacionalismo,
aliado ao progresso, à democracia, aos direitos humanos, à
economia de mercado, aos direitos à propriedade privada e aos direitos
ilimitados ao ganho material cativaram e orientaram a imaginação
humana na era moderna.
Os
benefícios desses movimentos, focados na necessidade dos humanos,
vem exercendo sobre nós um efeito hipnótico. Só agora
começamos a perceber que, quando afastados do contexto
de uma visão global da comunidade da Terra, os benefícios
oferecidos são frágeis e temporários.
O
Bioregionalismo não se opõe à busca por mais bem-estar
à comunidade humana. Pelo contrário, ele oferece
uma base viável para essa busca, tendo como base a compreensão
de que a saúde dos seres vivos em suas muitas formas depende
da saúde da Terra. Ao reconhecer que a Terra é
uma unidade funcional que o ar, a água, os outros elementos, as
múltiplas formas de vida e a energia fluem incessantemente e se
interrelacionam por toda a Terra o Biorregionalismo é global
em sua orientação. Ao reconhecer que a Terra é uma
entidade individual e precisa ser sustentada através da integridade
de seus muitos modelos biorregionais, o Biorregionalismo é local
em sua orientação.
Intuitivamente,
sentimos que a constituição da política biorregional
preservaria não somente os direitos dos humanos, mas também
os direitos de toda a comunidade geo-biológica. Em termos econômicos,
a lei fundamental deve rezar que a economia humana deve ser sustentável
e deve preservar o funcionamento da economia da Terra. A riqueza das nações
seria aferida pelo esplendor e pela integridade de suas diversas biorregiões
vitais e pelas culturas humanas existentes dentro dessas biorregiões.
Motivados
pela nova sensibilidade do biorregionalismo, os humanos voltariam a habitar
os seus próprios hábitats. Eles voltariam para casa, como
se a ela chegassem pela primeira vez. Seus olhos poderiam ver com clareza
a grandiosidade e a beleza intricada de suas paisagens naturais, bem como
os alarmantes danos causados. Eles passariam a conhecer seus locais tanto
pelas ruas, construções e outras características
humanas quanto pelas árvores, plantas, animais, rochas e veios
d'água. Seus hábitos alimentares e suas vidas observariam
a suave ordem dos ciclos sazonais. Eles vivenciariam a comunhão
com uma família mais vasta. E também compreenderiam
e observariam os princípios básicos da ordem natural - como
dependemos uns dos outros, como sustentamos uns aos outros, e como podemos
trocar e reciclar as energias e os detritos dos outros.
O
biorregionalismo fornece o contexto para um progresso humano verdadeiro,
podendo assim ser visto como a dimensão do "FAZER"
da Sociedade Ecozóica. O trabalho de apoio à biorregião
pode incluir o plantio de hortas comunais na vizinhança; o aprendizado
e a divulgação de técnicas de compostagem; o conhecimento
das plantas, animais e da geologia locais; a organização
de grupos de caminhadas na natureza; o aprendizado e a transmissão
de permacultura e conservação ambiental; a mudança
dos padrões pessoais e familiares de consumo; o trabalho com empreiteiras,
câmaras municipais e sociedades de amigos de bairros no desnevolvimento
de comunidades que preservem os hábitats naturais; o aprendizado
e divulgação do biorregionalismo e de sua importância
para o governo e a economia; e o compartilhar de idéias sobre esforços
biorregionais que dão certo.
3.
Espiritualidade Ecológica
O
terceiro e último pilar de uma Sociedade Ecozóica é
a Espiritualidade Ecológica. Em nossa grande maioria, nós
perdemos o sentido da espiritualidade da Terra e, assim, perdemos
também nossa ligação máxima com seus processos
naturais. A visão dominante do senso de realidade e de
valor nas civilizações clássicas baseava-se na miséria
da condição humana e na natureza transiente e trágica
da ordem temporal. Como observado por Swimme e Berry em The Universe
History, o mundo dos fenômenos foi visto por essa compreensão
como opressivo aos aspectos mais exaltados do ser humano. O mundo espiritual
e o mundo natural eram vistos como duas ordens diferentes de existência.
A convicção que vê o mundo natural como uma realidade
inferior, temporal, afastada da realidade superior, eterna, combinou-se
aos benefícios aparentes da tecnologia de nossos tempos e juntas
tornaram aceitável a crença de que a exploração
dos recursos da Terra sem dar importância aos efeitos sobre o ecossistema
é positiva.
A
Espiritualidade Ecológica tem por base a consciência de que,
desde o início, o universo possui uma dimensão psíquica-espiritual
e que essa dimensão se manifesta em todos os elementos do universo
e no universo como um todo. Como afirma Thomas Berry em seu artigo
"The Spirituality of the Earth," quando falamos da Espiritualidade
da Terra não estamos nos referindo à Terra como possuidora
de uma qualidade objetivamente espiritual como quando observamos a beleza
da Terra -, mas sim da espiritualidade da Terra como subjetiva a realidade
numinosa interior que dá forma à Terra e da qual compartilhamos.
A Espiritualidade ecológica pode ser vista como a dimensão
do " SER" da Sociedade Ecozóica.
Em
seu sentido mais simples, a prática da espiritualdiade
ecológica envolve a reconexão
com o mundo natural e sua qualidade numinosa. Isto pode envolver
a atenção ao canto das aves, à presença dos
ventos e dos mares, e também a absorção de uma noite
estrelada ou a proximidade à terra e às sementes.
Para
alguns, a espiritualidade ecológica envolve uma dimensão
comunal enquanto que, para outros, ela é a prática de uma
religião estabelecida. No contexto comunal, a espiritualidade ecológica
envolve a renovação das tradições
ou o surgimento de novas tradições que despertem nossa sensibilidade
ao mundo natural e à contínua criatividade do cosmos.
A referência primária dessas espiritualidades ecológicas
em suas múltiplas formas não será encontrada nos
textos escritos de nenhuma religião, mas sim na compreensão
não-verbal primária da revelação
do divino na natureza. A espiritualidade ecológica não substituirá
os ensinamentos tradicionais da espiritualidade e da ética, mas
ampliará o contexto desses ensinamentos e expandirá a consciência
do encontro entre humanos e divinos.
Este
é o artigo base para os grupos de apoio à Sociedade Ecozóica,
desenvolvido por Herman Greene com consultoria de Thomas e Jim Berry,
Brian Swimme e outros. Herman Greene é advogado e um ministro Batista
vivendo em Chapel Hill, Carolina do Norte.
Topo

A
Resposta Xamânica

Editorial
por K. Lauren de Bôer
(Revista EarthLight No. 46, Verão de 2002)
Poucas
coisas estimulam mais a imaginação humana do que o sentimento
do Mistério. O Mistério inspira reverência, mas também
terror, despertando em nós a vitalidade e a vida através
da sensação de completo maravilhamento diante das forças
da Terra e do universo. A mente humana - especialmente a mente ocidental
- possui um desejo insaciável de "saber", de transformar
o misterioso em partes manipuláveis e previsíveis. Mas o
Mistério nos obriga a retornar a um estado de não-saber,
diminuindo nossa arrogância, lembrando-nos de que somos
humildes passageiros nesta Terra. Para isso, precisamos restaurar nossa
capacidade atrofiada de confiar nas forças que estão além
do que nossa mente pode compreender.
Isto
vale para nossas vidas pessoais, bem como na área das mudanças
culturais. Aqueles dentre nós que gostariam que nosso mundo fosse
um lugar melhor gostam de falar em 'quebrar paradigmas'. Mas nenhum paradigma
possui o monopólio da verdade. Como escreveu a saudosa Donella
Meadows em Places to Intervene in a System: (precisamos perceber
que) "nenhum paradigma é a 'verdade'; mesmo
aquele que suavemente molda a confortável visão de mundo
de um indivíduo não passa de uma visão tremendamente
limitada de um universo imenso e supreendente."
Existe
um meio pelo qual o Xamã transcende o conceito do paradigma e encara
a incerteza e o caos, aceitando-os, ao mesmo tempo em que dá ao
mistério uma forma utilizável para promover cura e orientação.
Não sou uma especialista em xamanismo, nem disponho da experiência
prática de que alguns dispõem. Mas tenho para mim que, atualmente,
a Personalidade Xamânica é uma resposta criativa à
necessidade de mudança de um paradigma que ama a morte, para outro
que valorize a vida. A emergência contemporânea dessa
personalidade religiosa é uma reação da imaginação
humana que atua na construção de uma resposta coletiva aos
paradoxos de nossos dias. Um destes paradoxos, do ponto de vista do cosmólogo
Brian Swimme, é que a espécie humana atingiu uma força
"macrofásica, mas ainda se comporta com uma sabedoria microfásica".
Existe
uma série de motivos para que a figura do Xamã seja aplicada
à nossa situação e o por quê de a reação
xamânica ser particularmente íntima a esta revista, EarthLight.
Assim como o xamã lida com as forças terrenas primitivas
e cósmicas para promover a cura da comunidade e aumenta o sentimento
religioso em épocas de transição, EarthLight
representa uma crença em e um retorno ao Espírito e às
forças primais da Terra como nossa fonte fundamental de cura. O
Espírito é, no fim das contas, o único caminho com
um coração, o único meio de se aprofundar nossa sabedoria
e promover a paz para todos os seres. É também
o Espírito que nos leva a uma ação compassiva.

Como uma figura marginal excluída da sociedade secular, o
Xamã está em condição de questionar a autoridade
moral dominante. Isto é algo necessário, num momento
em que existe um vácuo moral na Casa Branca e em que a ganância
política e comercial predominam. Como atesta nosso consultor editorial
John Grim - que neste outono ministra um curso de Xamanismo na Universidade
Bucknell -, dar atenção à visão global xamânica
é uma chance de se reavaliar a relação entre os valores
xamânicos e os valores das modernas sociedades globais.
De
certa forma, nesta edição estamos defendendo a figura do
Xamã como sendo a imagem religiosa para nossos dias. A
maioria de nossas principais tradições religiosas tornou-se
tão afastada dos mistérios da Terra e do universo que não
mais cumprem sua missão de nos unir ao sagrado. A Personalidade
Xamânica não representa somente um praticante do sagrado,
pois sua função principal é a de promover a cura
através do contato com as forças do mundo natural. A
necessidade de cura é algo comum a todos nós hoje,
seja um indivíduo pertencente a um grupo nativo ou um industrial
ocidental, homem ou mulher, criança ou adulto com quatro patas,
com asas, com folhas ou com nadadeiras.
Outro
motivo pelo qual a Personalidade Xamânica é necessária
hoje é o fato de que, nos momentos mais negros, nós precisamos
de força. Estamos diante de crises monumentais - a ganância
política e empresarial, a extinção em massa de espécies,
um ataque brutal ao meio-ambiente, o aquecimento global, terrorismo e
guerras, a epidemia da AIDS. Num nível mais pessoal, Martín
Prechtel em seu artigo relata o terrível trauma por ele vivido
na vila guatemalteca de Santiago Atitlán. Os descendentes dos maias
daquela comunidade foram assassinados às centenas por esquadrões
de executores, e sua vila foi destruída. Foi sua iniciação
xamânica, diz ele, que lhe permitiu suportar essa experiência
sem causar danos à sua espiritualidade, sem ressentimentos, permitindo
que ele vivesse em meio à mesma cultura que, de muitas formas,
foi a responsável pelo massacre e ainda por cima oferecendo cura
a essa cultura. Existe um Espírito nativo, diz ele, mais antigo
e mais resistente do que qualquer coisa que ocorra atualmente - não
importa o quão negativo seja o momento.
O
enfoque xamânico em nossa revista não é o de encorajar
a exploração das crenças nativas, nem de sugerir
que corramos todos para as saunas xamânicas, confeccionando cachimbos
sagrados ou embarcando em jornadas. Cada um de nós possui
seu próprio caminho espiritual nesta vida. Essas práticas
nativas merecem nosso respeito. Elas exigem anos, por vezes toda uma vida,
de preparação. Nossa intenção é a de
compreender a essência daquilo que os xamãs podem nos ensinar
sobre nós mesmos. Por que será que estamos tão afastados
da compreensão de que a Terra é fundamental? Que perda espiritual
estamos vivendo? Como podemos reencontrar o caminho que nos leve de volta
aos poderes restauradores da Terra e do Espírito? Não existem
respostas prontas: cada um de nós deve descobrir seu caminho,
refletindo sobre o que isso representa para nós mesmos, para nossas
famílias, nossas comunidades, nossa cultura.
Agindo
assim, precisamos nos lembrar de que todos nós somos nativos
da Terra; até mesmo aqueles dentre nós que caíram
num profundo esquecimento dessa verdade. O xamanismo é uma prática
global, e todos nós descendemos de povos que na Antigüidade
praticavam alguma forma de xamanismo. O impulso por trás do xamanismo
é universal e, no fim das contas, somos todos um único
povo, incluindo-se os não humanos, e a cura e o desenvolvimento
que vêm de um caminho espiritual é um direito de nascença
de todos nós. O Xamã é a presença arquetípica
em nosso código cultural e em nosso DNA. Podemos até dizer
que, sempre que se fala do bem estar do planeta e das gerações
futuras, é nossa responsabilidade encontrar nosso retorno a esse
caminho e vivenciá-lo, e não somente falar sobre
o tema. A compreensão do significado histórico
do Xamã e da Personalidade Xamânica emergente é de
grande valia para entendermos o que é preciso fazer numa época
em que a própria sobrevivência do planeta está em
risco.
Tudo
tem por base a consciência e a confiança de que vivemos num
profundo mistério, experimentando o universo, com fé em
que o desdobrar contínuo desse universo é um processo benigno
e que temos um papel único e belíssimo nesse processo. Essa
é a base para uma fé profunda em nós mesmos e nos
poderes que não podemos compreender com a mente racional. E uma
crença de que nossa reação, embasada no verdadeiro
Espírito Xamânico, trará cura, beleza e sabedoria.
Em
parentesco espiritual,
K.
Lauren de Boer
Topo

Descobrindo
o divino no universo

Por Irmã
Gail Worcelo, 2000
O
sino toca às 5 da manhã, a chamada matinal para a oração.
É o início de nosso dia monástico em Vermont; é
hora da Vigília Matinal. Neste momento, tudo está escuro,
com exceção da vela solitária que ilumina nosso local
de oração. Assumo minha posição e me junto
às demais, reunidas para uma hora de preces contemplativas.
A
hora das Vigílias é a da observação noturna
- uma hora em que tocamos a presença misteriosa de Deus no coração
do Universo. Descobrimos, como nos diz o Evangelho de João, que
"a luz brilha na escuridão".
Nesta
manhã, pude vivenciar isso literalmente. O céu noturno se
estende por sobre nossas cabeças e, nestas horas escuras que antecedem
a aurora, posso ver as estrelas cintilantes da Via Láctea. Vêm
à mente as palavras da salmista: "Louvado seja o Senhor, sol
e lua; louvado o Senhor, estrelas cintilantes!"
Reflito
sobre o fato de que eu sou feita da mesma matéria. O fogo luminoso
que brilha naquelas estrelas vem brilhando há 15 bilhões
de anos no desenrolar do universo e arde em mim esta manhã. Arde
em meu desejo pelo Sagrado. Arde em cada folha, animal, pedra e ave. É
o Fogo por trás do fogo de todas as coisas.
Trata-se
do mesmo fogo que consumiu a touceira flamejante que chocou Moisés
e fez com que ele descalçasse seus sapatos e exclamasse: "este
local é Solo Sagrado!" Tento absorver as palavras do Velho
Testamento: "este local é Solo Sagrado!"
Desejo
imbuir-me na plenitude dessa compreensão e levo minha contemplação
para além das velhas e limitadoras noções que põem
Deus nalgum Paraíso abstrato. O Livro da Sabedoria declara: "O
Espírito de Deus preenche todo o Mundo!" Quero conhecer esse
mundo pleno com o Espírito de Deus e me situar em seu contexto
mais amplo.
Já
no fim de sua vida, Teilhard de Chardin escreveu: "cada
vez menos vejo diferença entre a pesquisa e a adoração."
Para Teilhard, bem como para outros poetas e místicos, a prece
era uma meditação sobre o universo, composta pelo conhecimento
aberto ao Mistério.
Reflito
sobre como a tecnologia nos deu a capacidade de ampliar nossos sentidos,
tornando-os capazes de ver e ouvir o que sempre esteve ali, mas que não
éramos capazes de perceber sem auxílio a nossos sentidos.
Subitamente, foi-nos permitido vislumbrar as pegadas de Deus mescladas
ao cosmos, à medida que começamos a compreender como funciona
o universo.
Nós
somos o resultado de 15 bilhões de anos de desenvolvimento. Somos
poeira vital, uma evolução da bola de fogo original.
Em nossa oração desta manhã, tento me localizar em
nossa vizinhança galáctica. A galáxia na qual eu
oro possui 100.000 anos-luz de largura. Um único ano-luz equivale
a oito mil e quatrocentos trilhões de quilômetros. Nossa
vizinha mais próxima, a Galáxia de Andrômeda, está
a 2,3 milhões de anos luz de distância.
São
números que levam algum tempo até serem absorvidos. Nós
estamos na vastidão, no vasto coração de Deus. Apesar
de me sentar imóvel e firme durante este período de meditação,
reflito sobre o fato de que a Terra está girando a 1.260 km/h.
Ela orbita o Sol a 26,6 quilômetros por segundo. Movemo-nos num
sistema solar a 56.000 km/h ao redor do centro de nossa galáxia,
e nossa galáxia se expande a 17 milhões de quilômetros
por minuto.
É
neste contexto em que me encontro enquanto me sento para orar. As coisas
podem estar tudo, menos imóveis. Imagino Deus dançando em
total entrega nos recônditos mais remotos do universo. Na leitura
de hoje do Evangelho de João, as palavras "Residam em mim
como eu resido em vocês" ganham novo significado. O local onde
o Divino habita é muito mais vasto do que podemos imaginar. Habitar
em mim significa "habite minha vastidão, habite meu universo".
Forma-se
em mim uma percepção, enquanto meus olhos contemplam a vastidão
dos céus: a percepção de que quanto mais mergulho
na oração, mais distante eu vou no universo. O interno
e o externo são um só. É isto que os místicos
de nossa tradição cristã compreenderam ao mergulhar
mais fundo em sua experiência de Deus. Eles experimentaram uma harmonização
de suas vidas com os ritmos mais elevados da existência. Eles descobriram
através da fé o que a ciência sabe empiricamente:
que o universo está carregado com a presença e a realidade
do Divino.
Estes
místicos permitiram que o fogo da contemplação os
transformasse em união amorosa com toda a criação.
Eles compreenderam que a Radiância Divina jorra pelo universo, tornando
todas as coisas sagradas.
Sei
disso de forma também intuitiva. Creio que é assim com todos
nós. O céu noturno começa a dar espaço à
aurora e a Via Láctea se torna uma memória nebulosa desta
manhã. Antes que o sino toque anunciando o final de nossa hora
de preces, lembro-me das palavras de Annie Dillard: "que no mundo
existem dois tipos de freiras: as que estão dentro e as que estão
fora dos conventos. A vocação delas, independentemente de
a qual tipo pertençam, é a contemplação do
que é real."
O
sino toca quando o primeiro brilho da manhã surge no céu
matinal. A hora de preces chega ao seu fim. Apago a vela da oração,
extinguindo a chama. Sei, contudo, que o Fogo no interior do fogo de todas
as coisas ainda arde em cada criatura, galáxia e estrela, bem como
em cada pessoa que anseia pelo Sagrado.
Gail
Worcelo é membro da Comunidade de Freiras Passionistas e criadora
de um Mosteiro Ecozóico nas Montanhas Verdes de Vermont. Junto
a Bernadette Bostwick, e com o apoio do geólogo Thomas Berry, Gail
espera fundar o a primeira comunidade de freiras católicas dedicadas
à cura da Terra.
Topo

A
História da Ciência e do Espírito

Jody
Bourgeois, 1997
Como
um geocientista e historiador da Terra, gosto de me ver como um "geologista"
- uma expressão criada por Thomas Berry. Graças à
minha disciplina acadêmica e à minha vocação
de professor, desenvolvi a capacidade de narrar o mito da criação
cósmica do ponto de vista científico: uma história
poderosa, de proporções míticas e que nos une a todos:
todos os humanos, todas as criaturas, todas as rochas, todos os planetas,
todas as estrelas como pertencentes a uma só tribo. E como geólogo,
debruço-me sobre aspectos da formação da Terra que
me levam a conhecer nosso planeta na intimidade. Este é um ato
de amor, um ato de culto, um meio de se conhecer Deus. Contudo, por força
de minha posição acadêmica, quase nunca exteriorizo
esses aspectos de minha profissão.
Há
alguns anos, num retiro, fiz uma apresentação um tanto pungente
sobre as dimensões sagradas da história científica
do universo. Também apresentei relatos mais íntimos das
histórias que algumas rochas podem nos contar. Naquele fim de semana,
uma mulher me disse que estava muito estimulada por conhecer um cientista
capaz de falar sobre as dimensões sagradas da ciência, com
isso querendo dizer que são poucos os cientistas capazes disso.
Ela compartilhou comigo sua visão inspiradora de que o laboratório
de biologia era como "ir à igreja". Ficou evidente que
ela jamais ousara compartilhar essa imagem com seu professor de biologia.
Com efeito, nenhum de meus alunos jamais disse o mesmo sobre minhas aulas
de geologia. Como permitir que os alunos façam tal comparação?
Durante
o retiro mencionado, inspirado pelos textos e ensinamentos de Thomas Berry
e Brian Swimme, bem como por minha busca pessoal em integrar minhas facetas
científicas e espirituais, comecei a explorar as dimensões
sagradas da ciência. A literatura sobre o tema é farta e
incontáveis teólogos, filósofos e cientistas já
abordaram essa área. Contudo, atualmente a maioria de nós,
cientistas, e especialmente nas escolas públicas, sente-se compelido
a limitar tal debate, a afastá-lo da sala de aula, de nosso local
de trabalho. Na verdade, a justiça americana decretou que a ciência
e a religião sejam mantidas afastadas nas salas de aula.
Diante
disso, como e onde podemos, em nossos dias, discutir ciência E religião?
Em poucos lugares. Cerca de dois anos atrás, senti-me aliviado
ao ser descoberto pelo SciSpi, ou Grupo de Ciência
e Espiritualidade (em inglês, Science and
Spirituality group, n. do T.), um grupo formidável
de pessoas em sua maioria cientistas que buscavam um local para discutir
as dimensões espirituais da ciência. Em nosso encontro de
dezembro de 1996, estimulados pelo livro The Universe is a
Green Dragon, de Brian Swimme, levantamos
a seguinte questão: é possível, é aconselhável,
e como podemos transmitir um senso da sacralidade e do "significado"
numa aula de ciência? O que se seguiu foi um agitado intercâmbio,
com muitas opiniões diferentes. Inspirado por tal discussão,
no semestre seguinte ofereci aos meus alunos de "Evolução
da Terra" cinco temas a serem abordados em seus trabalhos, dentre
eles este:
"Como
podemos 'fazer ciência' ao mesmo tempo em que respeitamos crenças
religiosas diferentes?" Praticamente metade da classe optou
por essa questão. Diversos alunos vieram falar comigo, visivelmente
gratos pela oportunidade. Muitos dos trabalhos eram profundamente tocantes.
Um aluno escreveu que não ensinar a "história da criação"
numa aula científica era o mesmo que delcarar-se um ateu uma declaração
que até hoje me assombra.
Em
minha palestra de fim de curso, como sempre, abordei a atual crise ambiental
gerada no breve período de tempo dos humanos na história
geológica. Após agradecer meus alunos por seus trabalhos,
mergulhei no tema da ciência e do significado, e de como eles se
relacionam com nossa doença atual: a separação da
ciência e do espírito. Levantei os seguintes tópicos:
>
Nós esquecemos quem somos. Precisamos de um mito
de criação, e a história da criação
científica é de proporções míticas,
unindo todas as demais: budista, cristã, nativa americana... ave,
rocha, estrela, bactéria...
>
Nós perdemos nossa noção da sacralidade
(não necessariamente como indivíduos, mas seguramente no
coletivo). Todas as religiões incluem um sentimento de sacralidade
da natureza. A ciência não nega a sacralidade, se bem que
atualmente raramente a ciência a reconheça abertamente.
>
Nós nos afastamos da Terra. Tanto a ciência
quanto a religião nos ensinam que estamos todos interligados, mas
vivemos 'ocupados demais' para nos lembrarmos disso.
A
Terra não é frágil: ela é preciosa!
Dom
Bede Griffiths, em seu livro Universal Wisdom, atentou para a
patologia que é separar a ciência do espírito:
"A
mente ocidental concentra sua atenção no mundo material,
tentando compreender seu funcionamento através da ciência...
Mas tudo foi feito às custas da ... exploração dos
recursos de que a vida humana depende. A ciência ocidental se desenvolveu
com a ilusão de que existe um mundo material 'fora' da mente. Somente
agora, e lentamente, começa a aprender o que a filosofia eterna
sempre soube: que o mundo, que parece estar fora de nós, não
pode ser concebido fora da mente que o observa."
Assim
como não discutimos as dimensões sagradas da ciência
nas salas de aula, raramente ouvimos falar da ciência nas igrejas
e templos. Sonho com a possibilidade de que, ao reconhecermos que a ciência
não é a "verdade" e que as crenças religiosas
são diferentes, possamos integrar esses dois aspectos fundamentais
de nossas vidas: a ciência e a espiritualidade.
Jody
Bourgeois, Professor de Geologia na Universidade de Washington, leciona
Geologia e História da Geologia.
Topo

Uma
Espiritualidade para salvar a Terra
Claudio
Quintino Crow, 2002
Nos últimos
anos, mais e mais pessoas parecem perceber que o atual modelo de exploração
do meio ambiente não pode mais persistir. Já são
séculos de desmatamentos, poluição de águas
e ar e extinção de incontáveis animais e plantas.
A
Natureza está gritando ‘basta!’ e temos de dar ouvidos
– até porque nós fazemos parte dessa Natureza e dela
dependemos, queiramos ou não.
Em tempos
recentes, houve grandes avanços filosófico-científicos,
como a aceitação nos anos 1970 da conhecida ‘Hipótese
Gaia’, através da qual o pesquisador James
Lovelock propõe que o planeta Terra é um organismo
vivo, auto-regulável, com todas as reações de qualquer
outro ser vivente. Por conta disso, a Terra não pode mais ser explorada
como nos moldes atuais, mas deve ser compreendida e respeitada como uma
criatura orgânica, sistêmica, consciente, viva.
O crescimento
dos movimentos de ecologistas e ambientalistas ao redor do planeta também
demonstra uma nova consciência. Mais e mais pessoas colaboram, ainda
que à distância, com as inúmeras ONGs voltadas para
a defesa do meio ambiente – seja em escala global, seja
num âmbito local. Diversas cidades ao redor do globo já
trabalham na despoluição de seus rios e na restauração
de áreas verdes, e mesmo onde não exista um programa oficial
de coleta seletiva, a iniciativa privada e os próprios cidadãos
lutam para diminuir o desperdício. Até mesmo órgãos
governamentais, geralmente insensíveis a causas ecológicas,
começam a propor e sancionar leis que contemplam as necessidades
dessa área.
São
mudanças importantes, mudanças que se manifestam em novos
conceitos, novas idéias e novas atitudes. Mas talvez isto não
baste. Os danos ainda são muitos, e o organismo da Terra
começa a dar claros sinais de esgotamento e colapso –
notadamente no que diz respeito à água potável. O
problema é muito mais grave do que se imagina: para se ter uma
idéia clara, basta ver as somas incalculáveis de dinheiro
destinadas à pesquisa espacial em busca de água em outros
planetas do Sistema Solar.
Mas se a situação
é assim tão premente, por que então as pessoas demoram
tanto a reagir? Por que todos sabem o que deve ser feito, mas
tão poucos se mobilizam? Talvez a resposta esteja numa
palavra: espiritualidade.
Precisamos
de uma ESPIRITUALIDADE VERDE
O mundo atual
é totalmente desespiritualizado. Os valores sociais, a vida diária
das pessoas, salvo raríssimas exceções, possuem poucos
elementos de espiritualidade. Não falamos aqui de uma espiritualidade
declarada em sensos ou em questionários, mas sim um desenvolvimento
autêntico de conceitos fundamentais para os seres humanos,
como os que definem a alma e as relações desta com o todo
que nos rodeia – as outras pessoas, as paisagens, o alimento ingerido
– em suma, a relação que estabelecemos com tudo aquilo
que faz da nossa vida o que ela é.
E chega-se
a conclusão que essa desespiritualização da humanidade
trouxe uma das piores conseqüências possíveis: a ausência
de honra nas relações. Não se honram mais
os alimentos que nos trazem sustento, não se honram mais as preciosas
horas de sono que nos restauram a energia; não se honra mais o
trabalho, não se honram mais as árvores e os animais, não
se honram as pessoas: não se honra mais a vida,
em nenhuma de suas formas.
A BUSCA
PELA HONRA PERDIDA
A
vida como um todo foi dessacralizada. Hoje morre-se por um par
de tênis. Morre-se por um time de futebol, por uma batida num cruzamento,
por um partido político, pelo fim de uma relação.
Muitas pessoas vêem nisso um reflexo da desintegração
do tecido social, o que é verdade – mas não toda a
verdade.
Em sociedades
onde os valores espirituais estão arraigados no dia-a-dia das pessoas,
em culturas onde os crimes estão associados não
só a códigos penais, mas também a valores éticos
e morais mais profundos, é raro ver um gesto de delinqüência.
Alguns países islâmicos possuem leis tão severas contra
crimes que ninguém nem ousa cometê-los... não se questiona
aqui a correção ou não de se executar alguém
que tenha cometido um roubo.
O que se ressalta
é o fato de que, por respeito àquilo em que se acredita,
essas pessoas não se entregam a desejos “criminosos”.
Quem impõe essa proibição? Elas mesmas – não
por temerem a punição por um órgão estatal,
mas por obediência àquilo que as pessoas, em seu íntimo,
acreditam ser correto. Em São Paulo, uma das mais agitadas metrópoles
de nossos tempos, até poucas décadas atrás os açougues,
leiteiros e padeiros deixavam as encomendas de carne, leite e pão
de seus clientes à soleira da porta, na calçada –
e ninguém as tocava. É uma questão de moral. De valores.
De honra.
A honra numa
relação é algo esquecido, raro de se encontrar. Toda
relação deve possuir honra: entre um casal, entre
pais e filhos, entre amigos; entre uma pessoa e seu trabalho, seu alimento,
sua casa, seu meio ambiente. Assim ocorre atualmente entre os povos indígenas
das Américas e entre os aborígenes da Austrália.
Assim ocorria entre diversas culturas ditas ‘primitivas’.
Honra-se a vida. Vive-se com honra. Morre-se com honra.
A pergunta
que fica então é: por que não há honra
no mundo moderno? Por que as pessoas reclamam tanto de seus empregos
e seus relacionamentos? Por que não honram sua refeição?
Porque o mundo
dos humanos foi, por eles mesmos, desonrado e dessacralizado. Mas não
é só: a Natureza também deixou de ser sagrada –
e o que não é sagrado pode ser profanado.
Assim, do mesmo modo que roubo o pão deixado na porta de meu vizinho
(pois somos todos vizinhos!), derrubo uma árvore. Do mesmo modo
que derrubo uma árvore, matando todas as criaturas que nela vivem
e dela dependem, posso matar um ser humano. Afinal, nada mais tem honra,
nada mais é sagrado, nada mais tem valor. Ainda que se questione
a proporção de todos os delitos acima listados, o princípio,
a raiz de todos eles, é o mesmo.
É uma
crise que parece sem fim – uma crise de valores, de ética.
Rouba-se idéias, rouba-se a água dos rios, rouba-se
a vida das florestas, rouba-se a alma das pessoas.
Até
quando? Como alertamos no início deste artigo, o problema não
está só no nosso mundo humano, mas envolve todo o planeta,
toda a biosfera, envolve tudo. A natureza não tem mais valor. Mas
desrespeitar a natureza é desrespeitar, no sentido original da
palavra “natura”, tudo aquilo que nasce. Inclusive nós.
Não há dúvidas de que, do ponto de vista ambiental,
a ‘nova’ consciência ecológica e a ação
de grupos, indivíduos e organizações lutam para mudar
o cenário atual, e isso é um avanço. Essa consciência
cria uma ética, que influencia nossos gestos e ações.
Mas ainda estamos longe da solução, pois existem leis contra
os homicídios, contra a derrubada de árvores, contra a caça
predatória, contra furtos e roubos. No entanto, a despeito dessas
leis, esses crimes continuam a acontecer. Por que? Porque leis, por melhores
que sejam, não bastam.
LEIS
NÃO BASTAM
As
leis são feitas pelos humanos e talvez sejam belas num livro, mas
não fazem parte dos conceitos éticos e morais mais profundos
desses mesmos humanos de nossos dias. As leis, que são
a única forma de se tentar controlar o cidadão em nossos
tempos, são uma ética externa, imposta pela legislação,
pela polícia, pela justiça, pelas convenções
sociais. E, por ser externa, não está presente no coração
dos homens.
A ética
interna, os valores mais íntimos de uma pessoa, são determinados
somente por essa pessoa: pelas coisas em que ela acredita, em que ela
crê e confia. E é aqui que entra a espiritualidade. Uma espiritualidade
que dessacralize a natureza, que negue a existência de divindade
na matéria (e matéria
vem de ‘mater’, Mãe em latim) é
uma espiritualidade que pouco a pouco leva à dessacralização
de nós mesmos. Isto fica claro em conceitos atuais como
a busca por uma vida melhor no pós-morte, visão essa que
faz de nossa existência atual nada mais do que uma ‘provação’.
Se este é um mundo de provação, então ele
é tão bom e prazeroso quanto uma câmara de torturas,
certo?
Errado! Conceitos
como este atuam nos níveis mais profundos de nosso subconsciente,
afetando o modo como nos relacionamos com esse mundo. “Se ele é
assim negativo, por que razão deveríamos respeitá-lo?”
Ao pensar dessa forma, eu dessacralizo a natureza – não
só ao meu redor, mas a minha própria. Eu me vejo
como rival deste mundo, que só me serve de provação.
E aprendo a odiar as flores, as árvores, os rios, lagos e mares,
os animais – os outros seres humanos. É simples assim. Ao
depreciar o mundo, deprecio a mim mesmo, pois dele eu faço
parte – querendo ou não. E tudo o que ele traz de belo e
inspirador é por mim rejeitado.
Não
pode ser assim. Nem sempre foi assim. Para alguns povos, ainda hoje não
é assim. Muitas culturas ainda vivem em perfeita harmonia com o
meio em que vivem, honrando as diversas relações estabelecidas
com a natureza, com o trabalho e com outras criaturas. São povos
que preservam a visão de que os seres humanos são
parte da natureza, e não uma criatura eleita por
um deus para "dominar, submeter e subjugar". São
povos que vivem a vida em harmonia, em paz, em compreensão –
não por força de leis, mas por integrarem-se perfeitamente
ao mundo em que vivem. E isto parte de suas crenças, de seus valores
mais íntimos – de suas almas.
Talvez essa
visão seja a solução de que tanto precisamos para
frear o processo destrutivo em que a humanidade hoje se encontra. Resgatar
os valores desses povos primitivos, restaurar sua visão
de que o mundo é um paraíso, que a terra é sagrada
e viva, que os animais e florestas são sagrados, que o trabalho
é sagrado, que a vida é sagrada. Ninguém
desrespeita o que lhe é verdadeiramente sagrado. Assim, ninguém
desrespeitaria a terra, nem aos que nos rodeiam.
Onde, então,
encontrar uma espiritualidade que resgate essa comunhão plena com
a Natureza, que lhe devolva a sacralidade e, por extensão, torne
também sagrada a sua vida?
Muitas pessoas
atualmente se voltam para espiritualidades que restaurem esses valores.
Tradições como o xamanismo e o druidismo,
por exemplo, atendem prontamente a essas necessidades. Ao apresentar uma
mudança de consciência, ao fazer com que as pessoas vejam-se
novamente como partes de um todo amplamente integrado, de uma natureza
cujo segredo é a inter-relação de espécies
e indivíduos, o xamanismo e o druidismo operam a grande transformação
de que o mundo precisa: alterando os valores internos das pessoas, esses
caminhos espirituais mudam seu modo de ver o mundo, de agir, de interagir,
de ser.
Filosoficamente,
o mundo está mudando. Já se sabe que não é
possível prosseguir a exploração dos recursos naturais
neste ritmo devastador. Isto é um começo. Mas a grande transformação
só virá quando as pessoas desenvolverem a noção
de que cortar uma árvore é errado não porque fere
a lei, mas porque fere a Vida – a da árvore, a das criaturas
que nela vivem e a da própria pessoa que a corta. Mas, mais do
que isso, é preciso perceber que ao derrubar uma árvore,
ou maltratar um animal, ou poluir um rio, o que estamos fazendo na verdade
é dar um passo a mais rumo à destruição de
nossos valores pessoais internos. O que separa alguém que
polui um rio de um homicida?
Pense nisso.
Mas, mais do que pensar, aja. O tempo é escasso.
©
2002, Claudio
Quintino Crow – Proibida a reprodução total ou parcial
da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito
do autor. Registrado na Biblioteca Nacional - Lei Federal 9.610/98.
Originalmente publicado no site
www.heramagica.com.br
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O
quão “Verde” é a sua “Espiritualidade
Verde”?
Claudio
Quintino Crow, 2008
O
Druidismo é uma “Espiritualidade Verde”. O que isso
quer dizer? Quer dizer que o druidismo, ao lado das diversas
correntes xamânicas modernas e tradicionais, da bruxaria moderna,
do hinduísmo e de tantas outras sendas espirituais, tem por base
e por princípio o fato que a natureza é viva porque tudo
tem energia. Energia é alma. E as almas da Natureza são
divinas, são deidades.
Esse discurso
é um ponto comum a praticamente todos os caminhos pagãos
da atualidade – e não poderia ser diferente, dada a origem
do próprio termo “pagão”: aquele que
vem do pagus, do campo, da Natureza. Mas esse mesmo
discurso é uma armadilha para os mais incautos – não
é raro encontrar pagãos das mais diferentes vertentes vociferando
contras a espécie humana e seus desmandos e irresponsabilidades
– eu próprio já fiz parte desse coro sedutor, que
nos arrebata e empolga pelos argumentos aparentemente irrefutáveis
de que, de fato, “o ser humano é uma criatura vil, destrutiva,
suja e maligna” – e aqui reside a armadilha.
NUNCA
NEGUE SUA NATUREZA
Um mínimo
de reflexão nos mostra facilmente que a insistência nesse
discurso tende a puxar o gatilho de um processo de auto-negação
que, a princípio, pode se aplicar à espécie humana
apenas de forma retórica, abstrata - mas que acaba por minar, nos
mais profundos níveis do subconsciente, a própria natureza
humana de quem adota esse discurso. E, em última análise,
atinge em cheio a auto-estima, o senso coletivo, o respeito ao ser humano
em geral – respeito esse que se deve não por ser o ser humano
‘superior’, ‘mais evoluído’, ‘eleito’
ou o que for, mas simplesmente porque o ser humano é MAIS UMA das
tantas espécies que compõem a grande comunidade da Terra.
TRIBO
Uma das características
mais marcantes do druidismo é seu senso de coletividade. Até
em função do papel histórico dos druidas como conselheiros,
juristas, poetas, historiadores, curandeiros e “até mesmo”
sacerdotes da sociedade celta, é possível afirmar –
como o faz o escritor Jean Markale - que “não existe
druida sem a comunidade”. Não por acaso, druidas
tendem a formar grupos, ordens, clãs, groves, Gorseddau
ou qualquer outro termo que se use para designar um grupo de pessoas que
vivenciam o druidismo.
Diante disso
tudo, temos as seguintes reflexões:
- por prezar
e honrar a comunidade, o druidismo é uma espiritualidade
‘tribal’;
- por prezar e honrar a Natureza, o druidismo é uma espiritualidade
‘verde’;
- o druidismo vê toda a Natureza como uma Comunidade Sagrada,
da qual faz parte o ser humano;
- a Natureza é a fonte da sacralidade do druidismo;
Parece claro,
então, que o druidismo só é de fato uma “Espiritualidade
Verde” quando se mostra capaz de RE-INSERIR o ser humano
na Natureza num contexto coletivo, comunitário e divino
– e isso só acontece quando o ser humano resgata o divino
de sua PRÓPRIA existência.
Em outras palavras:
o ‘discurso verde’, por si só, de nada serve.
A ‘ação verde’, quando exclui o ser humano,
serve pouco. O que precisamos, então, é de uma
mentalidade que perceba e resgate o Divino Natural no seio do próprio
Universo Humano - o conjunto de conceitos e idéias que envolvem
as artes, as cidades, a agricultura, as leis, as relações
dos humanos com o ambiente e com as outras espécies…
MAIS
EVOLUÇÃO
Há bem
pouco tempo, a maioria das pessoas não se sensibilizava com as
agressões humanas a rios, mares, florestas, animais em extinção
e outras questões ambientais. Os últimos anos assistiram
a uma evolução: muitos dos que hoje se revoltam com esses
crimes adotam uma postura de denúncia, protesto e boicote numa
militância útil e válida, mas que perde sua força
ao atacar o ser humano e excluí-lo da Comunidade Natural –
por ironia, exatamente como o fazem os que não se sensibilizam
com as questões ambientais.
Percebe-se,
então, que essa evolução já cumpriu seu papel
– é necessário uma nova evolução, que
desperte mais pessoas para essas questões não apenas
com críticas às mazelas da urbanização, da
sociedade de consumo e da exploração desenfreada dos recursos
naturais mas que também ofereça alternativas práticas,
aplicáveis não a longo prazo pelos governos ou grandes corporações
– mas aqui, agora; por mim, por você, por todos nós.
Esse é
o nosso desafio atual: achar o Verde muito além da floresta e dos
mares – achar o Verde em cada um de nós.
©
2008, Claudio Quintino Crow – Proibida a reprodução
total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização
por escrito do autor. Registrado na Biblioteca Nacional - Lei Federal
9.610/98.
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