|
||||||||||
|
Eco-Espiritualidade:
|
| Negação da Matéria > |
Coisificação |
Mercantilismo
> |
Industrialização
> |
Urbanização |
| Corpo
= prisão da alma; |
Se natureza não é divina, não tem alma. |
O
que não tem alma não sente e pode ser comercializado/escravizado |
Para
comercializar, tenho de produzir mais |
Para
facilitar produção / comercialização,
concentro pessoas |
É curioso notar que há um elemento comum presente em todos esses estágios de nossa história recente: a espiritualidade. Foi uma organização voltada para os assuntos do espírito – a igreja - que originou o processo, ao negar a sacralidade da carne, da terra e da natureza, ao negar o divino na matéria. O que não é sagrado não tem espírito, portanto não sente, não pensa, não reage - e pode ser comercializado. O mercantilismo impulsionou as grandes navegações e os descobrimentos, pois tinha como meta a descoberta de novas rotas comerciais, novas mercadorias, novos mercados. A história se repetia por todo o globo: uma terra era “descoberta”, para em seguida ser invadida pelos conquistadores que, de uma forma ou de outra, oprimiam, reprimiam ou suprimiam a população local. Pautado no pensamento medieval de que os que não eram cristãos eram “infiéis” e, portanto, não possuíam alma, a igreja tolerou, incentivou e patrocinou a escravidão nas Amércias, no Oriente e principalmente na África – valia tudo para produzir mais.
Surgia um processo que ainda se encontra em curso. Sabe-se que quanto maior a produção mais se precisa de mercado - e quanto maior o mercado, mais se precisa de produção. A relação com o lucro e com a produção foi criticada com veemência na corrosiva sátira “Uma Modesta Proposta” do escritor irlandês Jonathan Swift conhecido como autor de “As Viagens de Gulliver”. Em sua “Modesta Proposta”, Swift advoga com sarcasmo que a solução para a fome na Irlanda era que as famílias usassem seus recém nascidos como alimento, aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis ao mesmo tempo em que diminuíam a quantidade de pessoas a serem alimentadas. Dentro da lógica moderna do mercado, essa proposta é inatacável. Mas se você, leitor, considera-a repugnante, é porque existem valores outros em ação: a ética, a moral, os valores sociais: domínios da consciência, da filosofia e da espiritualidade. Mais um exemplo da nociva dicotomia em que vivemos atualmente.
Voltando à nossa cronologia, o surgimento de novas tecnologias nos séculos XVIII e XIX trouxe uma ruptura brutal na relação entre o ser humano e a natureza: mesmo as mazelas trazidas pela monocultura e pela escravidão do período das grandes explorações não pode ser comparado em escala e extensão ao que o ser humano faria com o auxílio da filha bastarda da alma humana: a máquina.
Ninguém é cínico o suficiente (assim espero) a ponto de atacar o uso de máquinas e de tecnologia como se fosse um moderno “luddita” (um seguidor das idéias do folclórico inglês Ned Ludd que, no século XIX, rebelou-se contra as novas técnicas de tecelagem que ameaçavam os métodos tradicionais transmitidos geração a geração). Você que lê estas linhas o faz através de uma complexa máquina – e as linhas foram por mim redigidas numa máquina similar. Como tudo, máquinas não são o problema: o problema é o uso que delas fazemos.
As questões prementes de nossos dias – esgotamento de recursos naturais, poluição, superurbanização, violência, má concentração de renda, pobreza, infraestrutura urbana, para citar alguns – todas essas questões vêm de uma falta de parâmetros que sejam capazes de realmente reger a atividade humana, não através de leis – “leis foram feitas para serem burladas” – mas através do bom senso. Do senso comum.
Em sociedades ditas “primitivas”, a figura do jurista costuma se confundir com a do sacerdote. Afinal, a verdadeira justiça é um atributo divino e não humano. Não é acaso que a imagem tradicional da Justiça a adornar as mesas de advogados e juízes seja a de uma deusa: a grega Atena. Também não é por acaso que diversas correntes cristãs aguardem o “Juízo Final” e que no hinduísmo exista a busca pela justiça da vida – o Dharma, comumente traduzido como “a lei”, mas que significa muito mais do que isso.
Para o hinduismo, Dharma é “aquilo que sustenta e dá apoio”, a essência de algo. A compreensão do Dharma está na base de todas as atividades humanas, desde as mais mundanas ações em sociedade até as mais profundas questões de ordem espiritual. Em todos os casos, agir contra o Dharma é quebrar a ordem do universo, é desrespeitar as leis naturais que regem nossas vidas. Os gregos temiam essa ação, por vezes classificando-a como ‘Hibris” – arvorar-se de algo que não é sua real natureza, não é seu Dharma.
Eis a raiz de nossas questões modernas: incapazes de agir de acordo com seu ‘Dharma’ coletivo, a espécie humana não consegue mais alinhar a sua Verdade, a sua Natureza, à Verdade da Natureza da qual fazemos parte. O resultado, como temiam os gregos, é catastrófico: afastamo-nos de nossa natureza, perdemos nossa identidade, passamos a vagar a esmo sem saber ao certo de onde viemos e para onde seguimos.
Compreender a malha da criação da Natureza tem sido a tarefa de gerações e gerações de cientistas e pesquisadores ao longo de séculos e ao redor do mundo. Pesquisas do genoma, clonagem, células-tronco, meteorologia, materiais sintéticos: todos os avanços da ciência moderna – avanços que permitiram a criação das máquinas que me facultam escrever estas linhas e você a lê-las - podem ser positivos se esse é nosso Dharma, se essa é a nossa Verdade. Mas quando usados de forma negligente ou equivocada, trazem poluição, consumismo, esgotamento de recursos – todas as mazelas acima mencionadas.
Se o raciocínio destas linhas parece circular, isso é proposital: a intenção é mesmo a de criar um senso de repetição que traga a cada vez que um tema é mencionado um aprofundamento da questão central. Mas qual é a questão central?
Precisamos de espiritualidade.
Precisamos resgatar a esfera espiritual em nossas vidas – não necessariamente através desta ou daquela senda espiritual, não necessariamente a espiritualidade no sentido de religião organizada, não necessariamente através de textos ou escrituras sagradas, palavras de profetas ou ensinamentos de algum guru ou instrutor. O que precisamos de fato é de um senso de que há no mundo em que vivemos uma Verdade, um Dharma que sustenta nossa existência e aumenta nossa compreensão dos processos mais sutis e profundos de nossas vidas como parte da Grande Vida.
Teorias como a Hipótese Gaia de James Lovelock, ou a Filosofia de Processos de Alfred North Whitehead, ou a proposta de Sociedade Ecozóica de Thomas Berry, a obra de Fritjoff Kapra ou ainda as explanações quânticas de Amit Goswami – todas essas correntes de pensamento não só reconhecem a interconexão em tudo que há como também a existência de alguma forma de ‘espiritualidade’- uma força ou consciência inquantificável pela mente racional de nossos tempos: não raro, para explicar suas percepções esses estudiosos recorrem a conceitos que em tese nada têm de científicos, pois pertencem aos domínios da espiritualidade.
Esta é a História da Não-Religião: de suas origens até nossos dias, vimos seu surgimento como reação aos excessos da religião institucionalizada, mas vimos também que essa reação, como tudo no universo, trouxe conseqüências nem sempre desejáveis. É preciso entender que até mesmo os hoje odiosos conceitos de Descartes foram fundamentais para sua época: naquele contexto, Descartes e os Iluministas foram os agentes de uma necessária revolução que retirasse o ser humano ocidental da estagnação em que se encontrava; do mesmo modo, a Revolução Industrial teve seu papel fundamental e positivo na nossa história recente. O contexto histórico valida todas as ações acima, perfeitas para o momento em que ocorreram. Contudo, como bem diz o pensador italiano Domenico De Masi, “precisamos nos livrar dos valores que regiam o trabalho na Revolução Industrial, precisamos nos livrar do ‘nine-to-five’: nossos tempos precisam de novos valores, que reflitam nossas necessidades atuais de trabalho.”
Estamos diante de uma oportunidade única de olhar para o passado e agradecer aos nossos ancestrais pelas corajosas revoluções que eles promoveram. Ao mesmo tempo, porém, precisamos estar atentos ao momento em que vivemos, para que atualizemos os valores dessas revoluções de forma a torná-las ainda válidas, de forma a permitir que evoluam. E para que isso seja realmente eficaz, precisamos ter sempre um olho no futuro, para antever os resultados de nossas ações atuais, unindo passado, presente e futuro numa única unidade de tempo, constante e contínua, na qual tudo são processos e adequações. Este é o conceito do Mundo Espiritual. Esta é a dimensão da Verdade das coisas, e através dessa verdade podemos agir com Justiça – não humana, mas Natural. E, portanto, Divina.
O passar do
tempo nos aproxima de uma percepção espiritual mais aguda,
algo que mesmo a raivosa mente de Descartes reconheceu:
“no final, sinto-me constrangido a confessar que, dentre
todas as coisas em que eu acreditava, não há nada que eu
não questione nalgum nível.”
Segue para Sociedade Ecozóica
©
2007, 2008, 2010 - Claudio Quintino Crow – Conteúdo do site registrado
na Biblioteca Nacional – Lei Federal 9.610/98.
Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia
e expressa autorização por escrito do autor.