Sociedade
Ecozóica:
Você está preparado?
Nos
textos abaixo, uma introdução às preciosas idéias
de THOMAS BERRY - geólogo, pensador, visionário - que une
uma rara habilidade de mergulhar fundo nas QUESTÕES fundamentais
de nossos dias a uma igualmente incomum capacidade de oferecer SOLUÇÕES
viáveis.
SEJA
QUAL FOR A SUA BUSCA,
QUALQUER QUE SEJA SUA ESPIRITUALIDADE, LEMBRE-SE:
O FUTURO ESTÁ EM NOSSAS MÃOS.
Traduzir
e divulgar estes textos é uma de minhas contribuições
para nossa Grande Obra - qual é a sua?
--Claudio
Quintino Crow

Um
Chamado para a Era Ecozóica - Herman
Greene e colaboradores
Resposta
Xamânica - K.
Lauren de Bôer
Descobrindo
o divino no universo - Irmã Gail Worcelo
História
da Ciência e do Espírito
- Jody Bourgeois
(©
2006 - Tradução: Claudio Quintino Crow)
Um
Chamado para a Era Ecozóica
Por Herman
Greene e colaboradores - 1997-8
"Todos
nós temos nosso trabalho particular. Temos uma variedade de ocupações.
Mas além do trabalho que desempenhamos e da vida que levamos, temos
uma Grande Obra na qual todos estamos envolvidos e ninguém está
isento: é a obra de deixar uma era cenozóica terminal e
ingressar na nova Era Ecozóica na história do Planeta Terra.
Esta é a Grande Obra".
- Thomas Berry
O Desafio:
precisamos gerar uma Sociedade Ecozóica!
O futuro da
comunidade da Terra depende de forma vital da decisão a ser tomada
pelos humanos, que se inseriram até mesmo nos códigos genéticos
dos processos da Terra. O futuro será decidido pela tensão
entre aqueles que se comprometeram com a Era Tecnozóica um futuro
com mais e mais exploração do planeta como uma fonte de
recursos voltados para o benefício dos seres humanos e os comprometidos
com a Era Ecozóica: um novo modelo de relação
entre humanos e a Terra, no qual o bem estar de toda a comunidade da Terra
é a preocupação fundamental.
Este é
o ponto de partida: o fio da navalha, o grande abismo, o chamado à
ação e ao comprometimento. Será que pertencemos à
Tecnozóica ou à Ecozóica? Nossa resposta
ecoará por todas as épocas futuras.
Ainda assim,
vemo-nos numa situação onde aparentemente não há
modo eficaz de nos livrarmos da empreitada tecnológica que nos
rodeia. Este ensaio foi redigido num computador que tomou forma graças
a milhares de processos industriais; ele é alimentado por grandes
redes elétricas que correm através de campos e florestas.
Quando saímos para o trabalho, unimo-nos a homens e mulheres ao
redor do globo na aventura contemporânea chamada "Tecnozóica".
O que podemos fazer, então?
Os
Três Pilares
Ainda que existam
diversas respostas para essa questão, bem como diversas associações
atualmente engajadas na criação da Era Ecozóica,
gostaríamos de apresentar os três focos organizacionais que
podem lançar luz nas atividades desta área, ao redor dos
quais alguns de nós podem até optar por criar novas associações.
São essas áreas: a Nova História, o Bioregionalismo
e a Espiritualidade Ecológica.
1. A Nova História
A narrativa
do desenvolvimento criativo do universo desde seu surgimento primordial
até o surgimento da Era Ecozóica é ao mesmo
tempo um relato científico e um épico
mito
de criação. Essa história relata como as
coisas surgiram e qual o significado e o papel dos humanos no drama contínuo
do cosmos. A natureza dupla da história,
sua mescla de ciência e mitologia, é o que a torna
uma "Nova História". Uma fonte primária para conhecer
essa história é o livro The Universe Story, de
Brian Swimme e Thomas Berry.
A Nova
História precisa ser contada de diversas formas. Ela precisa
ser ensinada. Precisa ser lida nas histórias infantis e contada
ao pé da lareira e ao lado das fogueiras nos acampamentos. Precisa
ser cantada, dançada e expressa na liturgia e na arte. Precisa
ser batida nos tambores. Peças orquestrais, óperas e oratórios
devem ecoá-la em celebração da aventura evolucionária
que acontece por todo o universo.
Contudo, podemos
perguntar, por mais fascinante que essa Nova História seja, por
que ela é tão importante? Por três razões:
1. a Nova História
desperta um sentimento de maravilhamento e mistério
na existência e em nossa participação na ordem cosmológica
do universo;
2. a Nova História reconecta o indivíduo
(e assim o restaura) àquilo que é primordial na família,
tribo, clã ou nação o mundo natural de onde o indivíduo
vem e do qual ele faz parte;
3. a
Nova História fornece uma mitologia unificadora para todas
as culturas humanas, bem como uma base para a ação
comum para a criação da Era Ecozóica.
Se levarmos
tudo isso em consideração ao mesmo tempo, podemos dizer
que a Nova Histõria é a dimensão do "SABER"
da Sociedade Ecozóica.
2.
Biorregionalismo
O segundo pilar
da Sociedade ecozóica é o Biorregionalismo. Uma "biorregião"
é uma divisão geográfica natural da Terra que funciona
como uma unidade geo-biológica distinta e relativamente
auto-suficiente.
Pensar
em termos biorregionais significa perceber os humanos como integralmente
relacionados à ordem mundial de suas comunidades locais, e não
dominantes sobre elas. O papel dos humanos numa biorregião
é apreciar e celebrar a sua diversidade e promover e preservar sua
vitalidade.
O biorregionalismo
oferece uma nova visão na organização social. Num
sentido biorregional, "sociedade" significa toda a comunidade
animada e inanimada, toda ela vista como necessária para
o funcionamento correto do todo. A ordem social atual, dominada pela ascensão
dos estados-nações e das corporações multinacionais,
foi conduzida pelo objetivo de dar identidade, liberdade e bem estar econômico
aos vários povos da Terra. O nacionalismo, aliado ao progresso,
à democracia, aos direitos humanos, à economia de mercado,
aos direitos à propriedade privada e aos direitos ilimitados ao
ganho material cativaram e orientaram a imaginação humana
na era moderna.
Os benefícios
desses movimentos, focados na necessidade dos humanos, vem exercendo sobre
nós um efeito hipnótico. Só agora começamos
a perceber que, quando afastados do contexto de uma visão
global da comunidade da Terra, os benefícios oferecidos são
frágeis e temporários.
O Bioregionalismo
não se opõe à busca por mais bem-estar à comunidade
humana. Pelo contrário, ele oferece uma base viável
para essa busca, tendo como base a compreensão de que a
saúde dos seres vivos em suas muitas formas depende da saúde
da Terra. Ao reconhecer que a Terra é uma unidade funcional
que o ar, a água, os outros elementos, as múltiplas formas
de vida e a energia fluem incessantemente e se interrelacionam por toda
a Terra o Biorregionalismo é global em sua orientação.
Ao reconhecer que a Terra é uma entidade individual e precisa ser
sustentada através da integridade de seus muitos modelos biorregionais,
o Biorregionalismo é local em sua orientação.
Intuitivamente,
sentimos que a constituição da política biorregional
preservaria não somente os direitos dos humanos, mas também
os direitos de toda a comunidade geo-biológica. Em termos econômicos,
a lei fundamental deve rezar que a economia humana deve ser sustentável
e deve preservar o funcionamento da economia da Terra. A riqueza das nações
seria aferida pelo esplendor e pela integridade de suas diversas biorregiões
vitais e pelas culturas humanas existentes dentro dessas biorregiões.
Motivados pela
nova sensibilidade do biorregionalismo, os humanos voltariam a habitar
os seus próprios hábitats. Eles voltariam para casa, como
se a ela chegassem pela primeira vez. Seus olhos poderiam ver com clareza
a grandiosidade e a beleza intricada de suas paisagens naturais, bem como
os alarmantes danos causados. Eles passariam a conhecer seus locais tanto
pelas ruas, construções e outras características
humanas quanto pelas árvores, plantas, animais, rochas e veios
d'água. Seus hábitos alimentares e suas vidas observariam
a suave ordem dos ciclos sazonais. Eles vivenciariam a comunhão
com uma família mais vasta. E também compreenderiam
e observariam os princípios básicos da ordem natural - como
dependemos uns dos outros, como sustentamos uns aos outros, e como podemos
trocar e reciclar as energias e os detritos dos outros.
O biorregionalismo
fornece o contexto para um progresso humano verdadeiro, podendo assim
ser visto como a dimensão do "FAZER" da Sociedade
Ecozóica. O trabalho de apoio à biorregião
pode incluir o plantio de hortas comunais na vizinhança; o aprendizado
e a divulgação de técnicas de compostagem; o conhecimento
das plantas, animais e da geologia locais; a organização
de grupos de caminhadas na natureza; o aprendizado e a transmissão
de permacultura e conservação ambiental; a mudança
dos padrões pessoais e familiares de consumo; o trabalho com empreiteiras,
câmaras municipais e sociedades de amigos de bairros no desnevolvimento
de comunidades que preservem os hábitats naturais; o aprendizado
e divulgação do biorregionalismo e de sua importância
para o governo e a economia; e o compartilhar de idéias sobre esforços
biorregionais que dão certo.
3.
Espiritualidade Ecológica
O
terceiro e último pilar de uma Sociedade Ecozóica é
a Espiritualidade Ecológica. Em nossa grande maioria, nós
perdemos o sentido da espiritualidade da Terra e, assim, perdemos
também nossa ligação máxima com seus processos
naturais. A visão dominante do senso de realidade e de
valor nas civilizações clássicas baseava-se na miséria
da condição humana e na natureza transiente e trágica
da ordem temporal. Como observado por Swimme e Berry em The Universe
History, o mundo dos fenômenos foi visto por essa compreensão
como opressivo aos aspectos mais exaltados do ser humano. O mundo espiritual
e o mundo natural eram vistos como duas ordens diferentes de existência.
A convicção que vê o mundo natural como uma realidade
inferior, temporal, afastada da realidade superior, eterna, combinou-se
aos benefícios aparentes da tecnologia de nossos tempos e juntas
tornaram aceitável a crença de que a exploração
dos recursos da Terra sem dar importância aos efeitos sobre o ecossistema
é positiva.
A Espiritualidade
Ecológica tem por base a consciência de que, desde o início,
o universo possui uma dimensão psíquica-espiritual
e que essa dimensão se manifesta em todos os elementos do universo
e no universo como um todo. Como afirma Thomas Berry em seu artigo
"The Spirituality of the Earth," quando falamos da Espiritualidade
da Terra não estamos nos referindo à Terra como possuidora
de uma qualidade objetivamente espiritual como quando observamos a beleza
da Terra -, mas sim da espiritualidade da Terra como subjetiva a realidade
numinosa interior que dá forma à Terra e da qual compartilhamos.
A Espiritualidade ecológica pode ser vista como a dimensão
do " SER" da Sociedade Ecozóica.
Em seu sentido
mais simples, a prática da espiritualdiade ecológica
envolve a reconexão com
o mundo natural e sua qualidade numinosa. Isto pode envolver
a atenção ao canto das aves, à presença dos
ventos e dos mares, e também a absorção de uma noite
estrelada ou a proximidade à terra e às sementes.
Para alguns,
a espiritualidade ecológica envolve uma dimensão comunal
enquanto que, para outros, ela é a prática de uma religião
estabelecida. No contexto comunal, a espiritualidade ecológica
envolve a renovação das tradições
ou o surgimento de novas tradições que despertem nossa sensibilidade
ao mundo natural e à contínua criatividade do cosmos.
A referência primária dessas espiritualidades ecológicas
em suas múltiplas formas não será encontrada nos
textos escritos de nenhuma religião, mas sim na compreensão
não-verbal primária da revelação
do divino na natureza. A espiritualidade ecológica não substituirá
os ensinamentos tradicionais da espiritualidade e da ética, mas
ampliará o contexto desses ensinamentos e expandirá a consciência
do encontro entre humanos e divinos.
Este é
o artigo base para os grupos de apoio à Sociedade Ecozóica,
desenvolvido por Herman Greene com consultoria de Thomas e Jim Berry,
Brian Swimme e outros. Herman Greene é advogado e um ministro Batista
vivendo em Chapel Hill, Carolina do Norte.
Topo

A
Resposta Xamânica
Editorial
por K. Lauren de Bôer (Revista EarthLight No. 46, Verão de
2002)
Poucas coisas
estimulam mais a imaginação humana do que o sentimento do
Mistério. O Mistério inspira reverência, mas também
terror, despertando em nós a vitalidade e a vida através
da sensação de completo maravilhamento diante das forças
da Terra e do universo. A mente humana - especialmente a mente ocidental
- possui um desejo insaciável de "saber", de transformar
o misterioso em partes manipuláveis e previsíveis. Mas o
Mistério nos obriga a retornar a um estado de não-saber,
diminuindo nossa arrogância, lembrando-nos de que somos
humildes passageiros nesta Terra. Para isso, precisamos restaurar nossa
capacidade atrofiada de confiar nas forças que estão além
do que nossa mente pode compreender.
Isto vale para
nossas vidas pessoais, bem como na área das mudanças culturais.
Aqueles dentre nós que gostariam que nosso mundo fosse um lugar
melhor gostam de falar em 'quebrar paradigmas'. Mas nenhum paradigma possui
o monopólio da verdade. Como escreveu a saudosa Donella Meadows
em Places to Intervene in a System: (precisamos perceber que)
"nenhum paradigma é a 'verdade'; mesmo aquele
que suavemente molda a confortável visão de mundo de um
indivíduo não passa de uma visão tremendamente limitada
de um universo imenso e supreendente."
Existe
um meio pelo qual o Xamã transcende o conceito do paradigma e encara
a incerteza e o caos, aceitando-os, ao mesmo tempo em que dá ao
mistério uma forma utilizável para promover cura e orientação.
Não sou uma especialista em xamanismo, nem disponho da experiência
prática de que alguns dispõem. Mas tenho para mim que, atualmente,
a Personalidade Xamânica é uma resposta criativa à
necessidade de mudança de um paradigma que ama a morte, para outro
que valorize a vida. A emergência contemporânea dessa
personalidade religiosa é uma reação da imaginação
humana que atua na construção de uma resposta coletiva aos
paradoxos de nossos dias. Um destes paradoxos, do ponto de vista do cosmólogo
Brian Swimme, é que a espécie humana atingiu uma força
"macrofásica, mas ainda se comporta com uma sabedoria microfásica".
Existe uma
série de motivos para que a figura do Xamã seja aplicada
à nossa situação e o por quê de a reação
xamânica ser particularmente íntima a esta revista, EarthLight.
Assim como o xamã lida com as forças terrenas primitivas
e cósmicas para promover a cura da comunidade e aumenta o sentimento
religioso em épocas de transição, EarthLight
representa uma crença em e um retorno ao Espírito e às
forças primais da Terra como nossa fonte fundamental de cura. O
Espírito é, no fim das contas, o único caminho com
um coração, o único meio de se aprofundar nossa sabedoria
e promover a paz para todos os seres. É também
o Espírito que nos leva a uma ação compassiva.
Como uma figura
marginal excluída da sociedade secular, o Xamã está
em condição de questionar a autoridade moral dominante.
Isto é algo necessário, num momento em que existe um vácuo
moral na Casa Branca e em que a ganância política e comercial
predominam. Como atesta nosso consultor editorial John Grim - que neste
outono ministra um curso de Xamanismo na Universidade Bucknell -, dar
atenção à visão global xamânica é
uma chance de se reavaliar a relação entre os valores xamânicos
e os valores das modernas sociedades globais.
De certa forma,
nesta edição estamos defendendo a figura do Xamã
como sendo a imagem religiosa para nossos dias. A maioria de nossas
principais tradições religiosas tornou-se tão afastada
dos mistérios da Terra e do universo que não mais cumprem
sua missão de nos unir ao sagrado. A Personalidade Xamânica
não representa somente um praticante do sagrado, pois sua função
principal é a de promover a cura através do contato com
as forças do mundo natural. A necessidade de cura é
algo comum a todos nós hoje, seja um indivíduo
pertencente a um grupo nativo ou um industrial ocidental, homem ou mulher,
criança ou adulto com quatro patas, com asas, com folhas ou com
nadadeiras.
Outro motivo
pelo qual a Personalidade Xamânica é necessária hoje
é o fato de que, nos momentos mais negros, nós precisamos
de força. Estamos diante de crises monumentais - a ganância
política e empresarial, a extinção em massa de espécies,
um ataque brutal ao meio-ambiente, o aquecimento global, terrorismo e
guerras, a epidemia da AIDS. Num nível mais pessoal, Martín
Prechtel em seu artigo relata o terrível trauma por ele vivido
na vila guatemalteca de Santiago Atitlán. Os descendentes dos maias
daquela comunidade foram assassinados às centenas por esquadrões
de executores, e sua vila foi destruída. Foi sua iniciação
xamânica, diz ele, que lhe permitiu suportar essa experiência
sem causar danos à sua espiritualidade, sem ressentimentos, permitindo
que ele vivesse em meio à mesma cultura que, de muitas formas,
foi a responsável pelo massacre e ainda por cima oferecendo cura
a essa cultura. Existe um Espírito nativo, diz ele, mais antigo
e mais resistente do que qualquer coisa que ocorra atualmente - não
importa o quão negativo seja o momento.
O enfoque xamânico
em nossa revista não é o de encorajar a exploração
das crenças nativas, nem de sugerir que corramos todos para as
saunas xamânicas, confeccionando cachimbos sagrados ou embarcando
em jornadas. Cada um de nós possui seu próprio caminho
espiritual nesta vida. Essas práticas nativas merecem
nosso respeito. Elas exigem anos, por vezes toda uma vida, de preparação.
Nossa intenção é a de compreender a essência
daquilo que os xamãs podem nos ensinar sobre nós mesmos.
Por que será que estamos tão afastados da compreensão
de que a Terra é fundamental? Que perda espiritual estamos vivendo?
Como podemos reencontrar o caminho que nos leve de volta aos poderes restauradores
da Terra e do Espírito? Não existem respostas prontas: cada
um de nós deve descobrir seu caminho, refletindo sobre o que isso
representa para nós mesmos, para nossas famílias, nossas
comunidades, nossa cultura.
Agindo assim,
precisamos nos lembrar de que todos nós somos nativos da
Terra; até mesmo aqueles dentre nós que caíram
num profundo esquecimento dessa verdade. O xamanismo é uma prática
global, e todos nós descendemos de povos que na Antigüidade
praticavam alguma forma de xamanismo. O impulso por trás do xamanismo
é universal e, no fim das contas, somos todos um único
povo, incluindo-se os não humanos, e a cura e o desenvolvimento
que vêm de um caminho espiritual é um direito de nascença
de todos nós. O Xamã é a presença arquetípica
em nosso código cultural e em nosso DNA. Podemos até dizer
que, sempre que se fala do bem estar do planeta e das gerações
futuras, é nossa responsabilidade encontrar nosso retorno a esse
caminho e vivenciá-lo, e não somente falar sobre
o tema. A compreensão do significado histórico
do Xamã e da Personalidade Xamânica emergente é de
grande valia para entendermos o que é preciso fazer numa época
em que a própria sobrevivência do planeta está em
risco.
Tudo tem por
base a consciência e a confiança de que vivemos num profundo
mistério, experimentando o universo, com fé em que o desdobrar
contínuo desse universo é um processo benigno e que temos
um papel único e belíssimo nesse processo. Essa é
a base para uma fé profunda em nós mesmos e nos poderes
que não podemos compreender com a mente racional. E uma crença
de que nossa reação, embasada no verdadeiro Espírito
Xamânico, trará cura, beleza e sabedoria.
Em parentesco
espiritual,
K. Lauren de
Boer
Topo

Descobrindo
o divino no universo
Por Irmã
Gail Worcelo, 2000
O sino toca
às 5 da manhã, a chamada matinal para a oração.
É o início de nosso dia monástico em Vermont; é
hora da Vigília Matinal. Neste momento, tudo está escuro,
com exceção da vela solitária que ilumina nosso local
de oração. Assumo minha posição e me junto
às demais, reunidas para uma hora de preces contemplativas.
A hora das
Vigílias é a da observação noturna - uma hora
em que tocamos a presença misteriosa de Deus no coração
do Universo. Descobrimos, como nos diz o Evangelho de João, que
"a luz brilha na escuridão".
Nesta manhã,
pude vivenciar isso literalmente. O céu noturno se estende por
sobre nossas cabeças e, nestas horas escuras que antecedem a aurora,
posso ver as estrelas cintilantes da Via Láctea. Vêm à
mente as palavras da salmista: "Louvado seja o Senhor, sol e lua;
louvado o Senhor, estrelas cintilantes!"
Reflito sobre
o fato de que eu sou feita da mesma matéria. O fogo luminoso que
brilha naquelas estrelas vem brilhando há 15 bilhões de
anos no desenrolar do universo e arde em mim esta manhã. Arde em
meu desejo pelo Sagrado. Arde em cada folha, animal, pedra e ave. É
o Fogo por trás do fogo de todas as coisas.
Trata-se do
mesmo fogo que consumiu a touceira flamejante que chocou Moisés
e fez com que ele descalçasse seus sapatos e exclamasse: "este
local é Solo Sagrado!" Tento absorver as palavras do Velho
Testamento: "este local é Solo Sagrado!"
Desejo imbuir-me
na plenitude dessa compreensão e levo minha contemplação
para além das velhas e limitadoras noções que põem
Deus nalgum Paraíso abstrato. O Livro da Sabedoria declara: "O
Espírito de Deus preenche todo o Mundo!" Quero conhecer esse
mundo pleno com o Espírito de Deus e me situar em seu contexto
mais amplo.
Já no
fim de sua vida, Teilhard de Chardin escreveu: "cada vez menos vejo
diferença entre a pesquisa e a adoração." Para
Teilhard, bem como para outros poetas e místicos, a prece era uma
meditação sobre o universo, composta pelo conhecimento aberto
ao Mistério.
Reflito sobre
como a tecnologia nos deu a capacidade de ampliar nossos sentidos, tornando-os
capazes de ver e ouvir o que sempre esteve ali, mas que não éramos
capazes de perceber sem auxílio a nossos sentidos. Subitamente,
foi-nos permitido vislumbrar as pegadas de Deus mescladas ao cosmos, à
medida que começamos a compreender como funciona o universo.
Nós
somos o resultado de 15 bilhões de anos de desenvolvimento. Somos
poeira vital, uma evolução da bola de fogo original.
Em nossa oração desta manhã, tento me localizar em
nossa vizinhança galáctica. A galáxia na qual eu
oro possui 100.000 anos-luz de largura. Um único ano-luz equivale
a oito mil e quatrocentos trilhões de quilômetros. Nossa
vizinha mais próxima, a Galáxia de Andrômeda, está
a 2,3 milhões de anos luz de distância.
São
números que levam algum tempo até serem absorvidos. Nós
estamos na vastidão, no vasto coração de Deus. Apesar
de me sentar imóvel e firme durante este período de meditação,
reflito sobre o fato de que a Terra está girando a 1.260 km/h.
Ela orbita o Sol a 26,6 quilômetros por segundo. Movemo-nos num
sistema solar a 56.000 km/h ao redor do centro de nossa galáxia,
e nossa galáxia se expande a 17 milhões de quilômetros
por minuto.
É neste
contexto em que me encontro enquanto me sento para orar. As coisas podem
estar tudo, menos imóveis. Imagino Deus dançando em total
entrega nos recônditos mais remotos do universo. Na leitura de hoje
do Evangelho de João, as palavras "Residam em mim como eu
resido em vocês" ganham novo significado. O local onde o Divino
habita é muito mais vasto do que podemos imaginar. Habitar em mim
significa "habite minha vastidão, habite meu universo".
Forma-se
em mim uma percepção, enquanto meus olhos contemplam a vastidão
dos céus: a percepção de que quanto mais mergulho
na oração, mais distante eu vou no universo. O interno
e o externo são um só. É isto que os místicos
de nossa tradição cristã compreenderam ao mergulhar
mais fundo em sua experiência de Deus. Eles experimentaram uma harmonização
de suas vidas com os ritmos mais elevados da existência. Eles descobriram
através da fé o que a ciência sabe empiricamente:
que o universo está carregado com a presença e a realidade
do Divino.
Estes místicos
permitiram que o fogo da contemplação os transformasse em
união amorosa com toda a criação. Eles compreenderam
que a Radiância Divina jorra pelo universo, tornando todas as coisas
sagradas.
Sei disso de
forma também intuitiva. Creio que é assim com todos nós.
O céu noturno começa a dar espaço à aurora
e a Via Láctea se torna uma memória nebulosa desta manhã.
Antes que o sino toque anunciando o final de nossa hora de preces, lembro-me
das palavras de Annie Dillard: "que no mundo existem dois tipos de
freiras: as que estão dentro e as que estão fora dos conventos.
A vocação delas, independentemente de a qual tipo pertençam,
é a contemplação do que é real."
O sino toca
quando o primeiro brilho da manhã surge no céu matinal.
A hora de preces chega ao seu fim. Apago a vela da oração,
extinguindo a chama. Sei, contudo, que o Fogo no interior do fogo de todas
as coisas ainda arde em cada criatura, galáxia e estrela, bem como
em cada pessoa que anseia pelo Sagrado.
Gail Worcelo
é membro da Comunidade de Freiras Passionistas e criadora de um
Mosteiro Ecozóico nas Montanhas Verdes de Vermont. Junto a Bernadette
Bostwick, e com o apoio do geólogo Thomas Berry, Gail espera fundar
o a primeira comunidade de freiras católicas dedicadas à
cura da Terra.
Topo

A
História da Ciência e do Espírito
Jody Bourgeois,
1997
Como um geocientista
e historiador da Terra, gosto de me ver como um "geologista"
- uma expressão criada por Thomas Berry. Graças à
minha disciplina acadêmica e à minha vocação
de professor, desenvolvi a capacidade de narrar o mito da criação
cósmica do ponto de vista científico: uma história
poderosa, de proporções míticas e que nos une a todos:
todos os humanos, todas as criaturas, todas as rochas, todos os planetas,
todas as estrelas como pertencentes a uma só tribo. E como geólogo,
debruço-me sobre aspectos da formação da Terra que
me levam a conhecer nosso planeta na intimidade. Este é um ato
de amor, um ato de culto, um meio de se conhecer Deus. Contudo, por força
de minha posição acadêmica, quase nunca exteriorizo
esses aspectos de minha profissão.
Há alguns
anos, num retiro, fiz uma apresentação um tanto pungente
sobre as dimensões sagradas da história científica
do universo. Também apresentei relatos mais íntimos das
histórias que algumas rochas podem nos contar. Naquele fim de semana,
uma mulher me disse que estava muito estimulada por conhecer um cientista
capaz de falar sobre as dimensões sagradas da ciência, com
isso querendo dizer que são poucos os cientistas capazes disso.
Ela compartilhou comigo sua visão inspiradora de que o laboratório
de biologia era como "ir à igreja". Ficou evidente que
ela jamais ousara compartilhar essa imagem com seu professor de biologia.
Com efeito, nenhum de meus alunos jamais disse o mesmo sobre minhas aulas
de geologia. Como permitir que os alunos façam tal comparação?
Durante o retiro
mencionado, inspirado pelos textos e ensinamentos de Thomas Berry e Brian
Swimme, bem como por minha busca pessoal em integrar minhas facetas científicas
e espirituais, comecei a explorar as dimensões sagradas da ciência.
A literatura sobre o tema é farta e incontáveis teólogos,
filósofos e cientistas já abordaram essa área. Contudo,
atualmente a maioria de nós, cientistas, e especialmente nas escolas
públicas, sente-se compelido a limitar tal debate, a afastá-lo
da sala de aula, de nosso local de trabalho. Na verdade, a justiça
americana decretou que a ciência e a religião sejam mantidas
afastadas nas salas de aula.
Diante disso,
como e onde podemos, em nossos dias, discutir ciência E religião?
Em poucos lugares. Cerca de dois anos atrás, senti-me aliviado
ao ser descoberto pelo (SciSpi), ou Grupo de Ciência e Espiritualidade
(em inglês, Science and Spirituality group, n.
do T.), um grupo formidável de pessoas em sua maioria
cientistas que buscavam um local para discutir as dimensões espirituais
da ciência. Em nosso encontro de dezembro de 1996, estimulados pelo
livro The Universe is a Green Dragon, de Brian Swimme, levantamos
a seguinte questão: é possível, é aconselhável,
e como podemos transmitir um senso da sacralidade e do "significado"
numa aula de ciência? O que se seguiu foi um agitado intercâmbio,
com muitas opiniões diferentes. Inspirado por tal discussão,
no semestre seguinte ofereci aos meus alunos de "Evolução
da Terra" cinco temas a serem abordados em seus trabalhos, dentre
eles este:
"Como
podemos 'fazer ciência' ao mesmo tempo em que respeitamos crenças
religiosas diferentes?" Praticamente metade da classe optou por essa
questão. Diversos alunos vieram falar comigo, visivelmente gratos
pela oportunidade. Muitos dos trabalhos eram profundamente tocantes. Um
aluno escreveu que não ensinar a "história da criação"
numa aula científica era o mesmo que delcarar-se um ateu uma declaração
que até hoje me assombra.
Em minha palestra
de fim de curso, como sempre, abordei a atual crise ambiental gerada no
breve período de tempo dos humanos na história geológica.
Após agradecer meus alunos por seus trabalhos, mergulhei no tema
da ciência e do significado, e de como eles se relacionam com nossa
doença atual: a separação da ciência e do espírito.
Levantei os seguintes tópicos:
> Nós
esquecemos quem somos. Precisamos de um mito de criação,
e a história da criação científica é
de proporções míticas, unindo todas as demais: budista,
cristã, nativa americana... ave, rocha, estrela, bactéria...
> Nós
perdemos nossa noção da sacralidade (não
necessariamente como indivíduos, mas seguramente no coletivo).
Todas as religiões incluem um sentimento de sacralidade da natureza.
A ciência não nega a sacralidade, se bem que atualmente raramente
a ciência a reconheça abertamente.
> Nós
nos afastamos da Terra. Tanto a ciência quanto a religião
nos ensinam que estamos todos interligados, mas vivemos 'ocupados demais'
para nos lembrarmos disso.
A Terra
não é frágil: ela é preciosa!
Dom Bede Griffiths,
em seu livro Universal Wisdom, atentou para a patologia que é
separar a ciência do espírito:
"A
mente ocidental concentra sua atenção no mundo material,
tentando compreender seu funcionamento através da ciência...
Mas tudo foi feito às custas da ... exploração dos
recursos de que a vida humana depende. A ciência ocidental se desenvolveu
com a ilusão de que existe um mundo material 'fora' da mente. Somente
agora, e lentamente, começa a aprender o que a filosofia eterna
sempre soube: que o mundo, que parece estar fora de nós, não
pode ser concebido fora da mente que o observa."
Assim como
não discutimos as dimensões sagradas da ciência nas
salas de aula, raramente ouvimos falar da ciência nas igrejas e
templos. Sonho com a possibilidade de que, ao reconhecermos que a ciência
não é a "verdade" e que as crenças religiosas
são diferentes, possamos integrar esses dois aspectos fundamentais
de nossas vidas: a ciência e a espiritualidade.
Jody Bourgeois,
Professor de Geologia na Universidade de Washington, leciona Geologia
e História da Geologia.
Topo |