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Um bom jeito de conhecer meu pensamento...

Site Universo Pagão (2006)

Site da Druid Network (2005)

Comunidade Neopagã Brasileira (2003)

Jornal "A Tarde" de Salvador - BA (2002)

Site Universo Pagão (2006)

1- Pra começar eu gostaria que você fizesse um histórico seu e de suas pesquisas com os estudos mitológicos e o trabalho da Hera Mágica.

Foi meu interesse ainda na adolescência por lendas arthurianas que me pôs em contato com a mitologia celta. À época, eu queria que aquilo tudo fosse verdade, ainda existisse. E foi então que descobri a wicca, importando livros. Eu e minha sócia Patrícia Fox seguimos nossas pesquisas sozinhos, muito antes das facilidades de contato da Internet. Pouco tempo depois, através do trabalho pioneiro de Heloisa Galves e da Alemdalenda, contatamos outros neo-pagãos, alguns dos quais ainda são bons amigos. Foi lá que comecei a dar palestras para divulgar meus estudos, e foi também a Alemdalenda que, em parceria com a Editora Gaia, lançou meu primeiro livro, "A Religião da Grande Deusa". Em seguida, eu e a Patricia criamos (com nossa sócia Paula) a Hera Mágica, com a intenção de fornecer aos interessados um espaço exclusivamente dedicado ao neo-paganismo, druidismo, wicca e estudos do Feminino. Participamos na idealização da Hi-Brasil Editora, para a qual contribuímos no conselho editorial - na escolha de livros importantes para a estruturação do neo-paganismo no Brasil e também na tradução desses títulos. Foi a Hi-Brasil que lançou meu segundo trabalho, "O Livro da Mitologia Celta". Nesse meio tempo, a Hera Mágica trouxe ao Brasil nomes importantes para o estudo da espiritualidade celta, como John Matthews e Emma Restall Orr. Foi graças à nossa amizade com eles que diversas pessoas puderam participar dos cursos e palestras apresentados por eles durante suas visitas ao Brasil. E é graças a essa amizade que hoje sou o representante da Druid Network no Brasil.

2- Como você avalia, interpreta ou qual sua opinião sobre esse resgate de valores, crenças e religiões alternativas as monoteístas?

A moderna civilização ocidental é carente de ligação com o Todo. Quando se lê no principal livro da mitologia judaico-cristã que o ser humano é superior às demais criaturas, cria-se um abismo entre os humanos e o resto da criação. Esse abismo nos torna isolados, solitários, desprovidos de motivação espiritual. É por isso que, no início do século XX, muitas pessoas se voltaram aos ensinamentos orientais para suprir essa carência espiritual. E pelo mesmo motivo, a partir da segunda metade do século XX, as pessoas no ocidente começaram a resgatar a sua própria ancestralidade espiritual, recorrendo às crenças dos povos europeus pré-cristãos, como celtas e germânicos. O monoteísmo é uma artificialidade espiritual que já dura há muito tempo e vem causando danos irreparáveis à psique humana, como atestam os estudos psicológicos de autores como Carl Jung e Erich Neumann, bem como as teses antropológicas de Joseph Campbell e Marija Gimbutas. A base das correntes neo-pagãs deveria ser justamente oferecer a cura para essas carências através da restauração dos valores perdidos: a reintegração do ser humano com a Natureza, o resgate do equilíbrio entre masculino e feminino, a restauração da união lírica entre humanidade e o resto da criação.

3- Segundo algumas teses sociológicas, isto seria uma conseqüência do saturamento dos ideais modernos tais como o racionalismo, a tentativa de dominar a natureza, a política e a economia. Diante disso as pessoas estão procurando por ideais menos abstratos e naturais. Você concorda?

O processo é longo, mas perfeitamente claro para quem o analisar. As tradições judaico-cristãs dessacralizaram a natureza, enfatizando uma divindade superior (Yahweh) distante de nós, fora deste mundo. A partir daí, o mundo ocidental começou a ver tudo o que está relacionado com a natureza (a Terra, o sexo, a vida como um todo e por conseqüência, a mulher) como nocivo, "inimigo" desse deus somente espiritual. Desse ponto em diante, o que se tem é a exploração desenfreada da Natureza, a opressão à mulher, o racionalismo, o mercantilismo, a poluição... todos frutos da separação do ser humano e da Natureza. Isso sem dúvida leva um número cada vez maior de pessoas a buscar alternativas espirituais, que possam refrear esse processo de autodestruição em que a humanidade mergulhou. Não diria, contudo, que o que buscam é abstrato: pelo contrário: ao desenvolver a espiritualidade nós automaticamente desenvolvemos nosso intelecto e também nosso corpo físico. Nenhuma crença pagã acredita que se possa separar o corpo da alma, pois tudo está interligado. Assim, acredito que uma mudança de paradigmas espirituais o desenvolvimento de uma nova integração com a natureza certamente trará desenvolvimentos também no plano físico e também mental nossa busca é pelo equilíbrio pleno.

4- É comum achar este processo mencionado como uma parte de uma denominação maior, o pós-modernismo como subversão dos valores modernos. Você concorda com isso, ou acha que isso reduz essa procura por novas crenças?

Que há um componente 'subversivo' nessa movimentação espiritual não há dúvida: muita gente se identifica com a wicca ou outras manifestações neo-pagãs apenas por ser contra o cristianismo assim como nós, em nossa adolescência, contrariamos nossos pais ou professores somente pelo prazer de contrariar. Isso é saudável, mas até certo ponto. O que precisa haver em seguida é a maturação do processo, para que não seja somente uma 'onda' passageira. É preciso que as pessoas realmente compreendam que as correntes neo-pagãs não se resumem a ler meia-dúzia de livros, celebrar rituais com capas ou coisas do gênero. A contestação do que está errado hoje é positiva, mas temos de ir além: temos de oferecer uma alternativa sólida, coerente e válida. Se de fato a espiritualidade moderna não mais nos satisfaz, temos que estruturar alternativas. A wicca, o druidismo e o neo-xamanismo podem ser essas alternativas, desde que sejam tratados com respeito e carinho, a começar por aqueles que se dizem praticantes.

5-Como você acha que a globalização e o encurtamento de tempo e espaço causados por ela influenciam neste processo?

As diversas correntes neo-pagãs acima citadas hoje se valem de recursos como a Internet para ampliar seu alcance. Como tudo, isso é a um tempo bom e ruim: bom, porque mais e mais pessoas ganham acesso às informações, e ruim, porque existe muita informação equivocada circulando pela net. Precisamos 'filtrar' essa informação, evitar grupos e indivíduos que manipulam dados e desfrutar do contato que nos é oferecido com grupos sérios ao redor do mundo.

Para mim, como para qualquer pessoa séria que siga o druidismo, é evidente que o druidismo surge nas terras celtas da Antigüidade, mas ele possui diversos elementos que o unem às tradições guaranis, ao xamanismo nativo-americano e à espiritualidade maori, por exemplo. Esses elementos comuns formam uma ponte que permite que mais e mais pessoas troquem experiências e fortaleçam os princípios do neo-paganismo com as práticas de outras espiritualidades da terra.

6- Em relação da fluência de culturas ao redor do mundo como você avalia esse firmamento de culturas ,como a celta com sua forte imagem irlandesa num país como o Brasil?

É muito fácil perceber que, apesar de separados por um oceano físico e um abismo cronológico, ambas as espiritualidades (a celta e a guarani) possuem crenças em comum: ambas vêem a Natureza como sagrada, ambas vêem o ser humano como mais uma das muitas criaturas que povoam este planeta, ambos vêem infindáveis espíritos (deuses, totens, almas) em toda a criação. Tive o privilégio de ouvir o grande Kaká Werá, que promove a espiritualidade guarani, dizer sobre meu livro sobre espiritualidade celta que "estamos todos falando a mesma língua". Que língua é essa? A língua da Natureza, de uma espiritualidade que devolva o divino ao Todo, à paisagem, ao mundo em que vivemos e às criaturas que compartilham de nossa existência no mundo. Essa é a ponte, o elo que será capaz, um dia, de unir todas as espiritualidades do planeta que se dispuserem a perceber que o modelo atual simplesmente não pode mais ser mantido.

7- De acordo com o que li em seu livro "O livro da Mitologia Celta", os deuses celtas viviam no mesmo solo em que os seres humanos. Você acha que esse resgate pagão poderia ser uma resposta às promessas de um paraíso apenas após a morte das religiões monoteístas? Um jeito de se aproximar da natureza e do divino no solo mundano?

Não restam dúvidas. É como eu disse acima, não só a espiritualidade celta, mas também a dos guaranis, dos maoris da Nova Zelândia e das nações indígenas da América do Norte mostram que o ser humano é parte de um Todo, e que esse Todo é divino. Todas essas espiritualidades valorizam a vida como um todo. Tudo é sagrado, portanto não tem cabimento ficar projetando um paraíso a que só teremos acesso no pós-morte. Pelo contrário, o Paraíso é aqui mesmo, à nossa volta, dentro de nós. A visão de um Paraíso Celeste e distante de nossa realidade é a principal causa da desconexão do ser humano com o mundo em que vivemos. É por menosprezarmos nosso planeta que gerações e gerações vêm poluindo rios, intoxicando os ares, exterminando espécies, devastando florestas. O ser humano se julga tão superior, mas age como uma das mais primitivas formas de vida: o vírus. Ele se reproduz desenfreadamente, até matar seu 'hospedeiro'. No caso, o ser humano está matando a Terra: muito mais do que hospedeira, a Terra é a Mãe de tudo que existe. Isso fica claro em diversas mitologias da Antigüidade e de povos modernos ditos 'primitivos' e que hoje aflora na wicca, por exemplo. O resgate dessa visão da Terra como Sagrada por si só já nos devolve a percepção de que o Paraíso, realmente, é aqui.

8- A Internet muitas vezes promove a interação tribal, mas por outro lado os vínculos virtuais algumas vezes podem ser muito etéreos. Como o orkut onde pode haver diversos forums de crenças pagãs, mas só de forma superficial, como se a pessoa usasse uma mascara pagã momentânea somente ao usar o computador. Qual a sua opinião? Você concorda?

Como já dito, a Internet é amplamente usada em nossos dias para a divulgação de idéias e conceitos. Existe gente séria fazendo trabalhos sérios, mas existe também muita bobagem por aí: isso não só no paganismo, mas em todas as áreas. A superficialidade a que você se refere não brota exclusivamente da internet: conheci, nestes anos todos, gente com um conhecimento considerável do que é magia, paganismo, etc. mas que na hora de celebrar um ritual, por mais simples que fosse, travava. A superficialidade, então, não está relacionada apenas à internet, mas sim à sensibilidade e à responsabilidade de cada um. Outro fator que contribui para isso é a qualidade do material divulgado seja na net, seja em livros. Costumo dizer que o cenário pagão no Brasil ainda carece de um pouco de maturidade, de conhecimento não me refiro à idade dos praticantes, mas à postura de muitos deles.

9- Vivemos em uma sociedade por deveras mercadológica onde qualquer coisa esta na mira de ser reduzida e transformada em um produto superficial de consumo. Você teme que isso aconteça com os valores tribais neo pagãos?

Não. Na verdade, eles já foram suprimidos, oprimidos, deturpados e usurpados através dos séculos. Mesmo assim, eles retornam sempre. Isto porque conceitos fundamentais das espiritualidades pagãs modernas - como a ligação com a Natureza, a Ancestralidade e a sacralidade de todas as formas de vida - estão, por assim dizer, impressas em nossa memória ancestral: aquilo a que Carl Jung chama de "inconsciente coletivo". Desta forma, por mais que a cultura de massa e de consumo manipule nem sempre de forma positiva esses conceitos, eles são por demais sólidos e fortes e sempre sobrevivem.

10- Você conseguiria traçar um perfil das pessoas que procuram a Hera Mágica? Se já são pessoas embasadas no assunto, curiosos, estudiosos de outras áreas?

Recebemos na Hera Mágica todo tipo de pessoas. Existem algumas pessoas que lá chegam sem nenhuma idéia do que buscam, bem como outras que já trazem algum conhecimento. A Hera Mágica é um ponto de encontro para que essas pessoas possam compartilhar de suas visões, de seus estilos. Nossos rituais e cursos congregam todas essas pessoas de forma bastante saudável, e todas tiram proveito sempre, independentemente de sua bagagem.

11- E qual é a procura por parte da mídia?Vocês são bastante procurados e divulgados pela grande mídia ou a procura é feita por veículos mais segmentados e especializados no tema?

Em épocas como o Hallowe'en muitos grandes veículos vêm até nós em busca de explicações históricas sobre as datas. No mais das vezes, são publicações, sites, etc mais específicos que nos procuram.

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Site da Druid Network (2005)

Entrevistadora: Emma Restall Orr

Obrigado por aceitar a entrevista Claudio!

É sempre um prazer e honra!

Aqui na Inglaterra e na Irlanda, muitos crêem que o druidismo se espalhou a partir daqui para as comunidades anglófonas na Australásia, América do Norte e África do Sul, levado pelos imigrantes. Contudo, no Brasil existe uma saudável comunidade druídica: pode nos dizer algo a respeito?

O Brasil, embora originalmente uma colônia portuguesa, recebeu várias ondas de imigrantes de várias partes do globo. Como resultado, criamos o que costumamos chamar de caldeirão cultural, onde ingredientes dessas novas culturas são fervidos e misturados. Isso por si só faz do Brasil um pais muito tolerante, onde muitas espiritualidades diferentes convivem lado a lado harmoniosamente. Portanto, não foi difícil para o druidismo encontrar seguidores aqui.

Devo ressaltar, no entanto, que o druidismo não foi trazido por imigrantes – ao menos não por imigrantes “físicos”! Muitos membros da comunidade druídica aqui possuem origens diferentes mas viram-se atraídos pelo druidismo e suas crenças , independentemente de linhagem sangüínea. É a conexão mágica com a paisagem e com os ancestrais, tão importantes ao druidismo, que atrai as pessoas. Atualmente a comunidade druídica brasileira vem crescendo bastante, muitos livros têm sido publicados abordando o tema e alguns grupos conduzem rituais sazonais, públicos ou privados. O Druidismo está realmente florescendo.

Quem ou o que o inspirou em sua exploração pessoal do druidismo?

Eu sempre senti uma atração absolutamente inexplicável pela Irlanda e tudo o que fosse celta ... Uma coisa levou a outra, creio eu. Tive a oportunidade de visitar a Irlanda duas vezes e essa foi de fato uma experiência mágica - especialmente na primeira vez, em 1996, quando viajei por toda a Irlanda, bem ao estilo mochileiro... Claro que até então eu já tinha lido muito sobre cultura e espiritualidade celta, já trabalhava com isso tudo no Brasiltudo mais. Mais a principal inspiração veio logo depois de meu retorno, quando li um livro de uma autora inglesa que assina com um pseudônimo felino, se você entende o que eu quero dizer! Seu livro “Ritual” foi um divisor de águas, pois fez com que todos os meus trabalhos e estudos anteriores se unificassem.

Ahem, acho que esse é um de meus livros! (risos) Mas vamos em frente! Como instrutor de druidismo no Brasil, qual elemento do druidismo você considera como crucial?

Costumo dizer que o druidismo está sendo construído sobre alguns pilares cruciais: a conexão com a paisagem e seus ritmos, a compreensão de nossas heranças pessoais e coletivas e a busca pela inspiração para viver a vida plenamente. Essas são a base de tudo o que eu faço por aqui – palestras, cursos, celebrações públicas e privadas. Pelo meu ponto de vista, a partir desses pontos qualquer pessoa pode entender e vivenciar o druidismo, seja onde for.

Você pode nos contar um pouco a respeito dos livros que têm escrito e o que vem por aí? Você já escreveu algum livro em inglês ou eles estão todos no belo português do Brasil?

Meu primeiro livro foi publicado em 2000 e se chama “A religião da grande deusa”. Eu não gosto muito desse titulo por que não exprime completamente o seu conteúdo, mas ele foi um pedido da editora “por questões de marketing” ... O título original seria “Raízes e Sementes”, uma tentativa de mostrar às pessoas as raízes da espiritualidade neo-pagã e a semente que carregam aqueles que a seguem. À época, a editora argumentou que esse título poderia ser facilmente confundido com um livre de jardinagem! (risos) Ao que eu respondi que, de certa forma, era de fato um livro de jardinagem, para que aqueles que o leiam possam florescer... Títulos à parte, tenho muito orgulho do livro, especialmente por que foi minha primeira empreitada como escritor.

Meu segundo livro, chamado “O Livro da Mitologia Celta” é um trabalho mais conciso e maduro. Ele começa com uma introdução sobre quem foram os celtas e como era sua espiritualidade - o druidismo. Seus treze capítulos são dedicados a deidades celtas, de Brighid a Ceridwen, do Dagda a Merlin. Meu objetivo ao escrevê-lo não foi apenas abordar a espiritualidade celta e seus deuses e deusas, mas também fazer o leitor entender que todos aqueles maravilhosos heróis, rainhas e guerreiros ainda vivem dentro de nós.

Na internet obviamente não podemos ouvir esse tipo de coisa, mas eu me lembro de nosso primeiro encontro, quando fiquei totalmente encantada com seu sotaque: uma bela mistura de “brasileiro” e irlandês. O que na alma da Irlanda atraiu seu coração?

Essa é uma pergunta que venho tentando responder nos últimos dez anos ou mais, sempre em vão! Quando fui à Irlanda pela primeira vez, não sabia exatamente o que estava procurando, ou ao menos se estava procurando alguma coisa. Mas depois de algum tempo por lá, entendi que o que eu estava procurando era algo ao mesmo tempo familiar e desconhecido, velho e novo. Seja o que for, eu acabei encontrando algo, e esse ‘algo’ despertou minha alma. A partir de então, entendi que a paisagem - todas as paisagens - são sagradas, mas quando exploramos nossas paisagens internas e lhes damos vida, então - e só então - compartilhamos dessa sacralidade. Esse é, de longe, o souvenir mais precioso que eu trouxe da Irlanda e o que eu estimarei para sempre.

E sobre Hy Brasil? Muitos nem imaginam que há um mito celta por trás do nome Brasil. Qual é sua visão sobre esse lugar mágico e sua importância como fonte de inspiração para você?

A mística ilha de Hy Brasil era um forte elemento no imaginário europeu no final da Idade Média. Ela pode ser encontrada nos mapas dos mais renomados cartógrafos da época, como Angelo Dalorto. Para os que não estão familiarizados com as lendas celtas, pode parecer estranho que um mito celta da Irlanda possa ter se tornado popular em toda a Europa, mas não nos esqueçamos que a mais importante lenda do velho mundo também é celta em sua origem – A Saga do Rei Arthur e a busca do Graal têm profundas raízes nos mitos ancestrais galeses e irlandeses.

Em alguns manuscritos, Hí-Breasil (a “Ilha dos Abençoados”) podia ser alcançada por um navegante irlandês que cruzasse o Atlântico rumo ao oeste, por vezes ao sudoeste. É exatamente isso que é preciso fazer para se chegar à América. Hí-Brasil é descrita como uma terra onde não há inverno, onde não há árvore que não de fruto e não há arbusto que não de flor. Para quem conhece o Brasil, essa descrição soa perturbadoramente familiar... até onde vejo, parece natural que o mito tenha se originado depois que navegantes celtas partiram das ilhas britânicas e chegaram a estas praias. Com o desenvolvimento desse mito, ele – bem como muitos outros mitos celtas – foram transmitidos a outras nações européias e, quando os navegantes portugueses alcançaram essas terras, deram-lhe o nome do paraíso sagrado celta. Como eu costumo brincar por aqui, os druidas da Grã-Bretanha desejam, quando morrerem, ir para Hí-Brasil, mas nós já moramos aqui!

O ogham é um belo e poderoso aspecto da tradição irlandesa, usado por muitos na Grã-Bretanha. Há algumas das árvores do ogham no Brasil? Eu adoraria que você ou qualquer outra pessoa desenvolvesse um ogham brasileiro usando árvores nativas. Adoro a idéia de um ogham da floresta tropical.

O Brasil é um pais muito vasto e há climas diferentes aqui, do semi-árido ao temperado. No sul, onde o tempo é frio, algumas árvores do ogham podem ser encontradas, tanto nativas quanto trazidas por imigrantes europeus, especialmente alemães e italianos. Mas a floresta tropical é tão rica em biodiversidade que teríamos que nos empenhar em um grande estudo para estabelecer correspondências que funcionem. Sei de algumas pessoas que têm tentado, com vários níveis de sucesso.

Mas a mais gritante coincidência é a maneira como alguns dos Primeiros Povos do Brasil chamam seus sacerdotes: “caraí” é uma palavra em guarani que significa “aquele que conhece as canções das árvores”. Muito semelhante às origens da palavra druida: “aquele que têm o conhecimento das árvores”. Impressionante, não?

Há outros aspectos da tradição druídica norte-européia que você adaptou? Se sim, de que forma o fez para que essa prática seja relevante para o hemisfério sul e sua própria cultura?

Como já dito, nós buscamos uma conexão com a terra e, dessa forma, todas as práticas druídicas - os festivais sazonais, por exemplo - são adaptadas à nossa realidade. Algumas pessoas tendem a manter a roda do ano assim como ela é praticada no hemisfério norte, enquanto outros simplesmente a invertem. Por minha experiência, posso dizer que ambas as formas funcionam – se você sabe o que está fazendo e as razões para tal - não há só um modo correto, nenhum “jeito único” para se fazer as coisas.

Contudo, é necessário um certo esforço para fazer as coisas funcionarem: é preciso conhecer a origem dos festivais, seus significados, sua evolução através dos tempos e como isso pode gerar uma nova percepção adaptada à nossa realidade – ou à de qualquer outro lugar.

Eu normalmente digo que o druidismo é uma religião britânica na origem, mas que deve se adaptar a novos ambientes, assim como fazemos quando nos mudamos para outro país – nos adaptando a um novo clima, uma nova linguagem, tudo.

Nos EUA, é necessária uma constante conscientização para assegurar o respeito às tradições dos nativos americanos. No Brasil, como o druidismo interage com as tradições indígenas nativas sobreviventes?

Quando mencionei os caraís, imagino que fica claro que tencionamos criar uma ponte entre tradições nativas - pois o druidismo é a tradição nativa britânica. Há um grupo muito ativo aqui chamado Nemeton Tabebuya – o nome combina a palavra gaulesa Nemeton, ‘bosque sagrado’, e Tabebuya, o nome guarani para uma árvore nacional popularmente conhecida como ipê! Marcos Reis, um dos membros do Nemeton Tabebuya, é muito ligado à espiritualidade e aos mitos nativos, e nos oferece uma sólida ponte para nos conectarmos a eles.

O quanto o ambientalismo e a destruição das paisagens virgens e florestas tropicais são parte de um diálogo com as culturas nativas? Você pode falar de seu próprio trabalho na área ambiental? O que outros druidas podem fazer para ajudar, no Brasil e em outras partes do mundo?

Além de mostrar as pessoas em cursos e palestras o quão sérios são os danos que temos causado enquanto espécie, alguns membros estão profundamente envolvidos nas causas ambientalistas – oferecemos ajuda para muitas instituições que cuidam de animais silvestres ou cães e gatos abandonados através da arrecadação de fundos e da doação de materiais a essas instituições. Não podemos viver um druidismo só de rituais: temos que participar. Normalmente eu menciono a letra de uma das minhas bandas inglesas de pop preferidas: “Nós somos os motoristas e não passageiros na vida”. Então, mãos no volante e façamos a diferença!

Pelo que sei, há evidências arqueológicas de culturas ainda mais antigas no Brasil, incluindo as dos círculos de pedra. Você pode falar um pouco sobre as mais antigas tradições do Brasil?

Para mim, a mais intrigante cultura destas terras é uma muito antiga, que desapareceu séculos antes da chegada da cultura tupi-guarani. Ela floresceu no norte do Brasil, mais precisamente na Ilha do Marajó. Sua cerâmica era ricamente decorada com motivos espirais e eles eram muito bons na confecção de jóias ornadas com padrões zoomórficos – para aqueles acostumados com a arte celta, isso soa familiar... Mas não estou afirmando nada... Fora isso, há afirmações discutíveis de que viajantes fenícios e vikings possam ter alcançado estas terras.

Uma coisa, contudo, é certa: pesquisas sérias comprovam que humanos se estabeleceram aqui antes do que normalmente se crê – ou nos impõem os antropólogos e arqueólogos americanos. E nós como druidas, temos o dever de honrar sua presença como os Primeiros Povos a trilhar estes caminhos, muito antes de nossa chegada.

O que você espera do druidismo no Brasil para o futuro?

Meu principal objetivo como alguém que trabalha com o druidismo não é promovê-lo ou gerar um grande número de praticantes; meu objetivo pessoal é pelos IDEAIS do Druidismo – aprender com o passado para criar um futuro melhor, ver o mundo como um Sistema Vivo e Sagrado e sendo parte dele por inteiro – para que esses ideais possam ser compreendidos e adotados pelo maior número possível de pessoas – independentemente da palavra que usem para denominá-lo.

Assim – e somente assim – nós poderemos aspirar por algo melhor não só para o Brasil como mas toda a comunidade da Terra.

Claudio, agradeço pelo seu tempo e por compartilhar a visão da bela paisagem de seu lar. Que suas cançõess possam nos acordar a todos para cuidar com mais responsabilidade desse planeta sagrado. Minhas bênçãos!

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Comunidade Neopagã Brasileira (2003)

Comunidade Neopagã Brasileira - Há quanto tempo você trabalha com o paganismo? Em que frentes? Quais atividades?

Claudio Crow Quintino - Meu interesse pelo paganismo começou a se mostrar quando eu tinha uns 15 anos, e era fascinado pelas histórias do Rei Arthur - um dos meus discos prediletos de então era o velho e bom "Myths and Legends Of King Arthur and the Knights of the Round Table", de Rick Wakeman - rock progressivo dos anos Setenta, herança de minha irmã mais velha! Eu lia tudo o que achava sobre lendas arthurianas, e percebi que os livros que analisam os elementos dessas lendas sempre apontavam para uma coisa até então meio obscura para mim: "as antigas lendas dos celtas". Eu me perguntava, quem raios foram esses celtas? E comecei a pesquisar: conheci a espiritualidade celta, suas íntimas ligações com a natureza e com os ciclos da vida, morte e renascimento. Foi como voltar para casa! Pouco depois, por volta de 1989, travei meu primeiro contato com a wicca, que se dizia herdeira das tradições celtas. Mergulhei de cabeça, e apesar de meu caminho ter mudado, respeito e estudo a wicca até hoje. Portanto, são pelo menos uns 14 anos em contato com tradições pagãs. Nesse tempo todo, escrevi livros, dei palestras, associei-me a gente séria e o resultado é a Hera Mágica, um espaço cultural pagão voltado ao esclarecimento dos princípios pagãos, sua história, suas tradições e práticas - sem sensacionalismo, sem mentiras e com muito esclarecimento. Sempre senti a necessidade de compartilhar do fruto de meu trabalho de práticas e pesquisas com todos aqueles que desejam fazer do paganismo um caminho espiritual sólido e significativo, e não uma moda passageira ou um show de horrores. Desnecessário dizer que, aliado a esse trabalho de divulgação, a Hera Mágica desenvolve um trabalho igualmente sério - e fundamental para o verdadeiro paganismo - de conscientização ambiental, trabalhando com bem-estar animal, qualidade de vida e civismo. Não dá para separar uma coisa da outra.

Comunidade - Como você definiria o (neo)paganismo?

Claudio - Como uma alternativa para um modelo espiritual falido. Como um caminho que oferece respostas a perguntas que restam irrespondidas para a maioria das pessoas. Como um caminho que preza o equilíbrio e devolve à figura da mulher e à Natureza o respeito que milênios de patriarcado e dessacralização da natureza lhes tiraram. Como uma voz ancestral que volta a ser ouvida.
De tempos em tempos, a Terra grita nos ouvidos de todos nós, e alguns parecem ouvir. Percebem que nós, humanos, estamos há muito tempo afastados da Natureza, a verdadeira Força Criadora de tudo. Vejo o neo-paganismo atual como um reflexo do neo-pagansimo romântico europeu do século XIX, só que agora os conceitos pagãos afloram não mais em poemas e contos, mas sim em posturas de vida e atitudes. Vejo também que o paganismo atual precisa urgentemente de conhecer sua própria história, suas origens e os processos que nos trazem até os dias de hoje.

Comunidade - Qual a origem do (neo)paganismo brasileiro? Em que tradições se baseia?

Claudio - Existe ainda muita desinformação no Brasil sobre o que é paganismo. Esse termo abarca inúmeras tradições, como os cultos afro-brasileiros e até alguns aspectos do catolicismo popular, por exemplo. Porém, algumas pessoas parecem confundir as coisas, e excluem as tradições afro desse meio.
No que diz respeito ao neo-paganismo europeu, a principal tradição no Brasil é a wicca, seguida de perto pelo druidismo. Ambas compartilham de alguns elementos comuns, como a influência celta, mas também possuem diferenças marcantes, especialmente no âmbito filosófico.

Comunidade - Você acha que a comunidade (neo)pagã tem crescido? Por que?

Claudio - Sem dúvida. Cresce porque há mais tolerância na mídia. São diversos fatores que colaboram para tanto: a popularização crescente do Hallowe'en nos grandes centros, a exibição de filmes e seriados televisivos que retratam bruxas como belas e bondosas, a criação de revistas e quadrinhos voltadas para o público jovem que mostram o mesmo tipo de bruxas e por aí vai. Eu me lembro que, quando há doze ou treze anos eu tentava explicar a alguém o que era a visão pagã de um bruxo, esse alguém se cobria de preconceitos. Hoje, contudo, está fácil dizer-se um bruxo, para a maioria das pessoas a palavra perdeu o peso negativo. A palavra pagã, contudo, ainda precisa ser resgatada. em seu sentido original, pagão (do latim paganus) é aquele que mora no Pagus, no campo, em contato com a natureza. Em termos espirituais, portanto, paganismo é uma religião que estabelece um contato com a natureza, com suas forças, seus espíritos e suas deidades. Não tem absolutamente nada a ver com ser contra o cristianismo ou ser satanista...

Comunidade - Os (neo)pagãos formam uma comunidade unida e representativa, nos moldes das outras religiões do país? Quais as diferenças entre elas?

Claudio - Não, em hipótese alguma. Existe - como em muitos outros meios sociais - muito ciúme, muita intriga. Tem muita gente querendo ser o que não é, posando de grande mestre, ou de iniciado e por aí vai. Ademais, a wicca - que como jé dito é a principal corrente neo-pagã do momento - é uma espiritualidade pautada na liberdade, no trilhar individual do caminho. Muita gente, contudo, tenta manipular, impor regras, dizendo-se representante deste ou daquele caminho, desta ou daquela tradição.
Felzmente, como costumo dizer, essas pessoas são hoje uma minoria anacrônica, que em breve estará extinta. A maior parte dos wiccanos hoje já conhece sua história, já livrou-se da manipulação daqueles que só querem deter o poder, já percebeu que a wicca é um lindo caminho que se trilha individualmente - pode-se até associar-se a um grupo, mas o caminho interior, aquele que realmente implica numa transformaÇÃo profunda de conceitos e prÁticas, esse é individual.
Talvez por isso mesmo exista uma certa dificuldade em se criar uma noção de coletividade pagã.

Comunidade - Você acha que há discriminação para com os pagãos? Eles têm medo de assumirem suas crenças perante a sociedade?

Claudio - Sim e não. Hoje a situação é melhor do que costumava ser, mas ainda há um certo preconceito. Porém, é bom que se diga, esse preconceito é em parte motivado pelos próprios pagãos. Ser pagão para mim não é usar roupas pretas e pendurar um pentagrama gigantesco no pescoço. Eu não preciso de crachá ou uniforme para ser pagão, isso só faz com que as outras pessoas vejam o paganismo - em especial a wicca - como uma seita de malucos que se reúne em praças e parques para, empunhando adagas e vestindo capuzes, fazer algo no mínimo estranho. Isso alimenta negativamente o imaginário das pessoas, e dá à wicca uma pecha extremamente negativa. É preciso despertar para o fato que um pagão é feito de gestos e idéias, e não de roupas e pingentes. Os verdadeiros pagãos são pessoas comuns, membros úteis da sociedade, e não um bando de malucos que vive em guetos espirituais e culturais.
Quanto ao medo de assumir-se pagão, eu diria que só tem medo quem não sabe ao certo o que é ser pagão. Se eu sou capaz de argumentar para quem for o que são minhas crenças, quais são suas histórias, suas práticas e seus objetivos, então não tenho nada a temer. Quando alguém realmente sabe o que é ser um verdadeiro pagão, esse alguém é capaz de explicar, descrever e transmitir os conceitos do paganismo - respeito à natureza, honra aos ancestrais, contato respeitoso com os espíritos vivos do mundo que nos rodeia - e sejamos francos, ninguém em sã consciência seria capaz de refutar esses conceitos como sendo negativos...

Comunidade - Em relação a outros países, como você caracterizaria a comunidade pagã brasileira?

Claudio - Conheço bem o paganismo na Irlanda e na Inglaterra. Eu diria que com relação à Irlanda, levamos alguma vantagem pela capacidade que o brasileiro tem de tolerar o diferente. Os pagãos irlandeses são mais reclusos do que nós. Lá o paganismo tem uma característica mais xamânica também, e menos ritualista - isto, é claro, no geral.
Já na Inglaterra, pode-se dizer que realmente existe um movimento pagão. Eles possuem organizações sólidas, que congregam diversas correntes.
Em Portugal, onde tenho amigos pagãos preciosos, o paganismo vem ganhando bastante força também, e existe um trabalho muito sério e consciente de divulgação do ideário pagão.
E acho que é esse o ponto fraco no Brasil: a divulgação por aqui ainda esbarra em muita desinformação, muita ignorância, muita falta de conhecimento. O Brasil leva uma enorme vantagem sobre os países acima por ter uma cultura tolerante, mas o movimento neo-pagão por aqui não tira vantagem disso por ser desinformado acerca de sua própria natureza.
Recentemente escrevi um artigo no qual eu dizia que o paganismo no Brasil chegou à sua adolescência: quando somos crianças, nossos erros são tolerados com maior facilidade. Com a adolescência, chegam também as cobranças, e não podemos mais errar. Pois o paganismo brasileiro não pode mais errar, tem de adotar uma postura madura, tem de fazer escolhas, tem de mostrar que existe e é sério. Senão, fica para trás. Fica relegado a um culto, a uma seita, de uma minoria que teima em se isolar por ser incapaz de ser reconhecida como séria.

Comunidade - Quais os canais principais de comunicação dos Pagãos?

Claudio - A internet sem dúvida desempenha um papel importantíssimo na comunicação entre os pagãos do Brasil e do mundo. Diariamente, milhares de pessoas trocam idéias e impressões através de emails, sites, grupos de discussão, blogs e chats. Contudo, é muito importante filtrar a informação obtida na net, pois tem muita tolice - e muita insanidade também.
Além da internet, espaços culturais como a Hera Mágica acabam servindo de ponto de encontro para pagãos. Nós da Hera Mágica já vimos surgir diversos grupos de trabalho formados por freqentadores de nossas palestras e grupos de estudos - grupos que ficam fortes e sólidos porque as pessoas realmente se conhecem - não são só nomes que se reúnem de tempos em tempos para celebrar rituais, mas sim verdadeiros amigos, que se falam semanalmente, que saem juntos para uma boa cerveja, uma boa refeição. em suma, gente normal, que compartilha de suas crenças com quem pensa igual.
Quando vemos esses grupos se formando, quando vemos o nível das discussões nos nossos grupos de estudos, quando vemos que o público da Hera Mágica é composto por muitos jovens, mas também por gente madura, adulta e que busca conhecer em profundidade seu caminho espiritual, então temos certeza de que o paganismo está crescendo, sim. Mas mais importante é ver que está crescendo de forma consciente, ordenada, sólida. De nada adianta existirem hoje, digamos, dez mil pagãos no Brasil se amanhã, por falta de estrutura e informação consistente, eles deixam o caminho que trilhavam. Como pagão, como xamã, como druida, o crescimento que desejo para o paganismo no Brasil é qualitativo, e não quantitavivo. Este último é uma decorrência do primeiro.

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Jornal "A Tarde" de Salvador - BA (2002)

Mulher e holismo celta

A mulher ocidental vive o dilema de estar mergulhada num espiritualismo profundamente machista. Não há holismo (visão integral do ser humano) em religiões como cristianismo, islamismo e judaísmo, por exemplo. Todas as três vertentes falam de um Deus masculino com uma legião de homens na Terra representando-O. Cresce, por causa disso, a procura de uma espiritualidade que respeite a dignidade feminina e coloque a mulher também no altar. Neste sentido, a espiritualidade celta tem conseguido cada vez mais adeptas e adeptos em todas as partes do mundo, por causa de suas deusas guerreiras, mas guerreiras da paz, da convivência harmoniosa com os homens e com a natureza.

O L&I entrevista Claudio Crow Quintino, especialista em xamanismo celta, sobre a ascensão, queda e ressurgimento desta religiosidade ancestral.

Mulher, natureza e espiritualidade

Tony Pacheco

Claudio Crow Quintino é um pesquisador que se debruçou sobre a cultura celta para provar que aquele povo tinha uma espiritualidade que tem mais a ver com a vida moderna do que nossas religiões atuais. Principalmente no que tange à mulher, sua procura por dignidade em sociedades que, ao voltarem ao fundamentalismo (cristão, judaico ou islâmico), ameaçam as conquistas do mundo feminino. Autor de O Livro da Mitologia Celta (Hi-Brasil Editora, 2002), Claudio fala de uma espiritualidade que pode ser a minha ou a sua.

Lazer&Informação - Quando se fala de mitologia, geralmente a primeira coisa que nos vem à mente são os deuses gregos e suas lendas. Qual a característica mais marcante da mitologia celta?

Claudio Crow Quintino - O grande mitólogo Joseph Campbell diz em sua obra que mitologia é o nome que damos para a religião dos outros... os mitos gregos não eram só lendas e contos para entreter: eram a forma pela qual os gregos preservavam sua cultura, seus valores, seus ideais. Com os celtas é o mesmo: seus deuses e deusas representam o modo de viver e de encarar o mundo do ponto de vista dos celtas.

L&I - Mas quem foram os celtas?

Claudio Crow - Os celtas foram uma grande família de povos que, entre os séculos X a.C. e I d.C., se espalharam por toda a Europa. Seus domínios iam de Portugal até a Turquia, da Escócia ao sul da França, e sua cultura só começa a perder força quando o Império Romano expande seus domínios pela Europa. Apesar de ainda pouco divulgados, os celtas são muito importantes para a formação do pensamento ocidental tanto quanto os gregos e os romanos. E, arrisco dizer, seus mitos e lendas podem oferecer soluções para os problemas do mundo atual.

L&I - De que forma?

Claudio Crow - Veja só: os celtas possuem uma espiritualidade bastante positiva e voltada para a natureza. Seus mitos e lendas nos falam de deuses e deusas que são encarnações dessa própria natureza. Os deuses celtas não são distantes, não moram no céu ou no alto de uma montanha, nem menosprezam os mortais, como a maioria dos deuses de outras religiões. Na verdade, os deuses e deusas celtas são os rios, lagos, montanhas, árvores e bosques sagrados de sua paisagem. Para os celtas, tudo é vivo, tudo é divino, tudo é sagrado. E por isso deve ser respeitado. Por conta disso, é impossível imaginar a natureza sendo devastada, poluída e explorada como vemos acontecer hoje. Do ponto de vista celta, poluir um rio é matar sua deusa; derrubar uma árvore é como desmembrar um deus. Essa visão da natureza sagrada precisa ser resgatada, antes que destruamos todo o nosso planeta, e acabemos por destruir a nós mesmos, seres humanos. Outro ponto muito importante é a questão da mulher. Sabemos que os mitos de uma sociedade qualquer refletem os costumes e práticas dessa sociedade. Nas culturas patriarcais judaico-cristãs e islâmicas, a mulher não tem muito espaço, é vista como inferior e submissa às vontades do homem. O mesmo já acontecia entre os romanos e os gregos da Antigüidade. Na sociedade celta, contudo, a mulher possuía os mesmo direitos e o mesmo espaço que o homem. Existem inúmeros exemplos de rainhas poderosas na sociedade celta, guerreiras, sacerdotisas e filósofas. O mesmo acontece com suas deusas. Muitas das deusas celtas são extremamente poderosas, como exemplifico em meu livro. Um caso bastante interessante é o de uma deusa chamada Maeve: uma mulher eternamente bela, sedutora e independente, mas ao mesmo tempo sábia e poderosa governante. Lendas como essa desmontam o estereótipo nocivo de que a mulher tem de ser sempre frágil Maeve é uma destemida guerreira, mas não deixa de ser sensual e capaz de gerar e educar filhos. E não é exatamente isso que todas as mulheres modernas vem fazendo com a dupla jornada: no trabalho e em casa? Toda mulher atual é mãe e guerreira ao mesmo tempo!

L&I - Que outros temas são abordados em O Livro da Mitologia Celta?

Claudio Crow - Ofereço ao leitor diversos mitos retirados de traduções originais das lendas da Irlanda e do País de Gales, sempre acompanhadas de uma interpretação que facilita a compreensão do leitor. Com o correr dos capítulos, vemos o quanto os celtas respeitavam a natureza, o quanto eles desenvolviam sua visão de que o mundo é algo sagrado, é a grande mãe que gera toda a vida. O ponto mais importante, a meu ver, é a proximidade dos deuses e deusas celtas. Eles vivem entre nós, interagem conosco, estão sempre próximos: na natureza à nossa volta, e em nosso interior. A mitologia celta nos mostra que a vida é algo mágico, e que a magia é parte do dia-a-dia. Para um celta, a magia não é algo reservado a poucos e bons: ela está ao alcance de todos, é algo natural, presente em todo o universo. E os celtas sabiam como ninguém a lidar com a magia: basta citar os druidas, os sacerdotes da cultura celta.

L&I - Fale-nos um pouco dos druidas...

Claudio Crow - Os Druidas eram filósofos, magos, juristas, poetas eram os guardiães do conhecimento dos povos celtas, e por isso eram sempre consultados por reis e governantes. Um pouco da imagem do druida antigo sobrevive até hoje na figura de Merlin, o conselheiro do Rei Arthur. Através da filosofia dos druidas percebemos a profundidade da relação dos celtas com a Natureza Viva algo que, repito, precisa ser resgatado!

L&I - De onde vem seu interesse pela cultura celta? Você descende de celtas?

Claudio Crow - Não diretamente. Na verdade, um autor já disse que ser celta não implica em ancestralidade, mas sim em adotar a filosofia e a espiritualidade dos antigos celtas. Meu interesse, ou melhor, minha paixão pela cultura celta, vem da identificação com essa filosofia. Vem da compreensão de que esse povo, por tantos anos deixado de lado pelos historiadores, contribuiu de forma determinante para que a cultura da Europa e, por conseqüência, da América seja o que é. A paixão dos celtas pela poesia, sua música, sua arte e seus conceitos sociais ganham a simpatia de um número cada vez maior de pessoas. Conhecer sua cultura, seus mitos e sua espiritualidade profunda e ao mesmo tempo simples é, sem dúvida, um resgate muito importante para os dias de hoje. Estudar os mitos celtas não é falar de deuses desaparecidos ou mortos: é falar da natureza humana. Ao conhecer suas deidades, percebemos o quanto eles se parecem conosco, e com isso aprendemos muito sobre o mundo em que vivemos, sobre a natureza e sobre nós mesmos.

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