Rei Arthur, o Principal Mito do Ocidente
O pensar ocidental está permeado pelas lendas arthurianas: mesmo que indiretamente, as figuras do Rei Arthur, de Merlin, o Mago, de Morgana e de Guinevere manifestam-se com inegável freqüência – e por vezes imensa profundidade – nos arquétipos, figuras históricas, lendas e mitos das terras outrora ocupadas pelos celtas e também nas que viriam a sofrer a influência européia após as navegações. E poucas pessoas percebem o quanto há de celta nessas figuras supostamente medievais. A literatura arthuriana se desenvolve na Idade Média, entre os séculos IX e XI, num eixo fixo entre Grã-Bretanha, França e Inglaterra. Dessas terras nos chegam os relatos dos feitos de um rei sagrado e seu valoroso grupo de nobres guerreiros, donzelas puras e poderosos senhores e senhoras da magia. Relegados em nossos tempos à condição de mitos juvenis, as sagas do Rei Arthur (chamadas em seu coletivo de "Arthuriana") são, na verdade, sobrevivências de antigas lendas celtas muito anteriores – fortes demais para desaparecerem mesmo depois do declínio da cultura celta.
Como costuma ocorrer com os mortais, porém, o Arthur histórico um dia morreu. Mas os mitos jamais morrem – surgem então as lendas que dão conta que Arthur – agora elevado à condição de Rei – na verdade não morreu, mas jaz adormecido numa caverna (ou em Avalon, o que em termos celtas é praticamente a mesma coisa) apenas aguardando o momento em que as terras da Grã-Bretanha sejam ameaçadas por invasores – ocasião em que o Rei Arthur se erguerá novamente e, acompanhado por seus nobres guerreiros, defenderá como sempre a ilha sagrada da Grã-Bretanha.
A mitologia celta da Irlanda também contribuiu com diversos elementos que enriquecem as lendas de Arthur. A Irlanda também tem seu líder divino que conduz um grupo de guerreiros nobres e poderosos: Fionn MacCumhaill é o líder dos intrépidos Fianna, cuja destreza, honra e sabedoria faz dese grupo de guerreiros os precursores dos Cavaleiros da Távola Redonda arthurianos. Nalgumas versões, Fionn também 'morre' - mas na verdade aguarda o momento certo de retornar para salvar a Irlanda. Como na Irlanda mito e história são uma só coisa, o próprio nome de Arthur parece devirar de um rei histórico chamado Art mac Cuinn, filho do grande Rei Conn "das Cem Batalhas" - primeiro Rei de Tara, a Colina Sagrada e centro espiritual da Irlanda. Os temas se mesclam deliciosamente, pois numa bela lenda chamada Báile in Scáil" o Rei Conn tem uma visão - uma verdadeira jornada mística ao Outro Mundo - na qual recebe do poderoso Lugh um Cálice que lhe conferia a Soberania sobre as terras irlandesas. É evidente que esse cálice inspirou o graal das lendas medievais arthurianas.
O Retorno do Rei Mítico também permeia a vida e as lendas do rei germânico Frederico Barbarossa e de outras personagens que, por seus feitos grandiosos, despertam no inconsciente coletivo a memória ancestral de poderosos temas presentes nas lendas celtas. Podemos dizer que Dom Sebastião, Barbarossa, Rei Arthur, Lugh, Fionn MacCumhaill e Bran, o Abençoado são todos e cada um deles manifestações desses arquétipos profundos do pensamento ocidental que os celtas tão bem retratavam e preservavam em suas lendas, transmitidas oralmente nas cortes dos reis celtas pelos bardos, e posteriormente reinventadas e adaptadas pelos menestréis e trovadores medievais, para serem novamente resgatadas pelos druidas modernos em sua busca pela compreensão da Alma Humana.
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