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Disse Nietzsche,
o filósofo: "Sem
música, a vida seria um equívoco."
Ao que podemos acrescentar: e
sem a música irlandesa, a vida seria extremamente tediosa!

Afinal, por
seu vigor e energia, a música tradicional da Irlanda é contagiante
e influencia – direta ou indiretamente – muitos estilos e
artistas modernos.
Esta seção
de claudiocrow.com.br é dedicada justamente a isso: prestar
homenagem à inspiração recebida da música
das terras irlandesas: onde quer que sejam tocadas, suas vozes,
ritmos, canções e instrumentos ecoam sagrados e inspiradores.
Esta página
é composta pelas seguintes seções:
Irish
Music: biografia de um estilo musical
1. Definindo Irish Music
2. Origens
3. Instrumentos da Música Irlandesa
4. Estilos e Ritmos
5. Características
6. Aprendendo Irish Music
7. Vultos da Irish Music

Irish Music: biografia
de um estilo musical

•
O que é Irish Trad Music?
• Quais as suas origens?
• Que elementos formam sua identidade?
• Que nomes fazem a sua história?
A seguir, uma abordagem evolutiva da música tradicional irlandesa,
definições importantes e elementos marcantes.
1. Definindo Irish Traditional Music:
Segundo o Taisce
Cheol Dúchais Éireann, ou Arquivo da Música
Tradicional da Irlanda,
"Música
Tradicional Irlandesa é um termo bastante amplo que inclui diversos
tipos de música vocalizada e instrumental, músicas de diversos
períodos, como praticadas pelos irlandeses na Irlanda ou fora dela
e, atualmente, também por pessoas de outras nacionalidades."
Portanto,
a música tradicional irlandesa é vasta e diversificada,
e pode ser apresentada por pessoas de diferentes origens.
É justamente por isso que, apesar de muitas pessoas se referem
à música irlandesa como folk, o termo mais correto
é "tradicional", ou seja, com ênfase na
tradição - a transmissão do estilo - já
que folk, na acepção original, restringiria a música
irlandesa à Irlanda apenas.
Atualmente,
muitos dos principais expoentes da música irlandesa são
norte-americanos e canadenses - sem contar a crescente tradição
também na Argentina e no Brasil.
2. Origens
Para se compreender
a formação e a história da Irish Trad
Music, é preciso compreender a história
da própria Irlanda, de seu povo e de sua luta por preservar
sua identidade. Afinal, durante o longo e triste período de dominação
britânica da Irlanda, todas as manifestações culturais
originalmente irlandesas foram sufocadas. Preservar as velhas canções
era, portanto, uma forma de patriotismo, de se manter acesa a chama da
cultura da Irlanda.
Por sua estrutura,
padrões rítmicos, e campo harmônico, a música
irlandesa é categorizada como 'música européia'.
Isso pode parecer óbvio, e de fato é - mas uma comparação
com a música flamenca, por exemplo, tão tradicional das
terras européias da Espanha, mostra que o óbvio esconde
sutilezas: enquanto o flamenco possui diversos elementos (escalas, ritmos,
etc) que podem defini-lo como música oriental, a música
irlandesa é tipicamente ocidental.
Eis porque,
inclusive, algumas pessoas confundem música medieval e renascentista
com música irlandesa: existem diversos pontos em comum, mas não
são necessariamente a mesma coisa.
"Música
Celta" e "Música Irlandesa"
Outro ponto
importante a ser esclarecido é a terminologia "música
celta". Como ocorre com praticamente tudo que é descrito como
'celta', há uma grande confusão ao se aplicar o termo 'música
celta' a uma canção. Em termos gerais, o termo 'celta' define
a música tradicional das nações celtas - especialmente
Irlanda, Escócia e Bretanha francesa - e também, num sentido
mais amplo, a música preservada pelos imigrantes dessas terras
celtas nos EUA e no Canadá. De forma alguma, contudo, pode o termo
"música celta" referir-se à música produzida
e executada pelos celtas da Idade do Bronze, por um motivo
muito simples: não há registros de como fosse a música
daquela época.
Portanto,
podemos dizer que, se o termo "música irlandesa" é
bastante abrangente, o termo "música celta" é
ainda mais: ambos se misturam e se mesclam, o que pode soar um pouco confuso
a quem estabelece contato pela primeira vez com os estilos. A exposição
constante e ouvidos atentos, contudo, logo facilitam a compreensão.
3. Instrumentos
da música Irlandesa
HARPA
Seguramente,
o mais característico dos instrumentos tradicionais irlandeses
é a harpa. Um dos símbolos nacionais da Irlanda,
a harpa tem papel de destaque na cultura irlandesa desde os tempos dos
fílidh - os bardos irlandeses. Segundo os relatos
de Diodoro da Sicília (Séc. I a.e.a.),
"Os celtas possuem poetas que cantam e que são chamados
de bardos; eles tocam um instrumento muito semelhante à lira grega".
Não por acaso, o mais antigo nome registrado na história
da música tradicional irlandesa é o de Turlough O'Carolan,
o harpista cego que viveu entre os séculos XVII e XVIII e deixou
um legado precioso de notações musicais de sua autoria que,
até hoje, são executadas e mantidas vivas pelos músicos
tradicionais. Na imagem acima, Moya Brennan, "a voz do Clannad".
UILLEAN
PIPES
Outro instrumento típico da Irish Trad Music, as gaitas irlandesas
(ou uillean pipes) são a mais complexa
- e completa - das variações das gaitas de fole. Existem
muitas gaitas de fole por toda a Europa: as mais conhecidas são
as gaitas escocesas (Scottish Highland bagpipe), mas há
também gaitas semelhantes em outras terras celtas: a gaita galega,
a musette bretã, a checa dudy e outras mais.
Todas têm o mesmo princípio: um chanter semelhante
a uma flauta produz som graças ao ar que por ele flui oriundo de
um fole. As uillean pipes se distinguem das demais por seu fole ser preenchido
com ar não por sopro mas através da pressão exercida
pelo cotovelo do músico (uillean, em irlandês, significa
'cotovelo'). Ao lado, o mestre Ronan Browne em demonstração
- observe o posicionamento do fole sob seu cotovelo direito. O som da
uillean pipe é notadamente mais melódico e agradável
do que o das highland pipes, especialmente porque a uillean pipe é
a única que possui pausa, além de possuir duas oitavas completas.
Ouvir uma uillean pipe ao vivo, bem tocada, é uma experiência
que pode ser descrita como absolutamente mística: sua sonoridade
única e as melodias tradicionais são arrebatadoras, especialmente
por conta do acompanhamento contínuo das notas que soam pelos drones,
os 'bordões' - a impressão é a de se estar ouvindo
um mantra.
FIDDLE (Violino)
Apesar de idêntico ao violino da música erudita, na música
irlandesa (assim como na sua 'filha', a Country Music norte-americana)
este instrumento é conhecido como 'fiddle' (termo de origem germânica,
que remete a uma raiz linguística comum com a palavra 'violino').
Historiadores afirmam que instrumentos semelhantes ao violino já
eram conhecidos na pré-história, num vasto território
que envolve a massa eurasiana. De fato, há instrumentos de arco
na música tradicional da África, da Índia, do Japão
e da Europa. Para muitos, o violino pode não ser o mais irlandês
dos instrumentos, mas é o mais prontamente identificado com a Irish
Traditional Music. À direita, a americana Eileen Ivers, grande
virtuosa.
TIN WHISTLE (Flauta Irlandesa)
Este
versátil instrumento de sopro pertence à família
da flauta doce, sendo, porém, mais simples. Chamado de Feadóg
em irlandês, é praticamente idêntico ao flageolet
e muito semelhante às flautas nativo-americanas. O outro nome para
a tin whistle, 'penny whistle', refere-se ao seu baixo custo,
o que a tornou um instrumento muito popular durante os anos em que a população
da Irlanda enfrentou graves dificuldades econômicas, durante o domínio
britânico. Nesse mesmo período, os marinheiros irlandeses,
que se alistavam nas marinhas de praticamente todas as nações,
levaram consigo esse instrumento simples e resistente, que passou a ser
identificado com as músicas de piratas e navegantes. Na imagem
ao lado, a encantadora Andrea Corr e sua tin whistle. Merece destaque
aqui a parente mais complexa da tin whistle: a Irish Flute,
da família da flauta transversal. Feita de madeira, seu timbre
doce e suave é característico das melodias mais suaves na
Irish Trad Music.
BODHRÁN
Como
costuma acontecer com instrumentos de percussão, as origens do
bodhrán se perdem na noite dos tempos - há quem diga que
ele se originou na África e chegou à Irlanda através
do contato com as culturas da Península Ibérica, assim como
há quem diga que a origem do bodhrán é o Oriente
Médio, tendo chegado à Irlanda com as primeiras tribos celtas.
E há ainda aqueles que defendem que o bodhrán, apesar de
semelhante aos tamborins ao redor do mundo, é uma criação
local. Seja qual fora a sua origem, ao contrário do que muita gente
pode acreditar, o bodhrán foi um dos últimos instrumentos
a ser incorporado ao universo da música tradicional irlandesa.
Há registros de seu uso como instrumento para marcar a cadência
da marcha de tropas de soldados irlandeses, mas parece certo que ele tenha
passado a ser usado como instrumento de percussão musical apenas
no séc. XX. Por outro lado, Sean O'Riada, o 'Pai'
da música tradicional irlandesa, afirma que o bodhrán é
um instrumento nativo da Irlanda e que já era usado desde a Antigüidade
celta. John Matthews, prolífico autor de espiritualidade celta,
concorda e afirma que "o bodhrán é o candidato
natural a tambor sagrado das técnicas xamânicas dos druidas
da Antigüidade". Como tudo que cerca o bodhrán é
misterioso e mágico, também não se sabe ao certo
o nome dado a um "tocador" de bodhrán: duas versões
são as mais aceitas: bodhránaí (pronunciado
"boráuni") ou bodhrádóir (prununciado
"bouradúr").
A verdade é uma
só: o bodhrán é o coração que faz pulsar
vida na música irlandesa!
BANJO
A década de 1960 assistiu à consolidação da
Irish Trad em sua forma mais 'clássica'. Um de seus nomes mais
importantes foi Tommy
Makem (ao lado), que importou o instrumento, típico
da música 'bluegrass' norte-americana. O banjo é
uma adaptação de instrumentos semelhantes de origem africana
- entre eles, o mbanza, de Angola. Da África para a América
do Norte, desta para a Irlanda - o banjo é uma presença
marcante em alguns estilos da música irlandesa.
CONCERTINA
Chamado
em português de 'acordeão diatônico', a concertina
é um instrumento tipicamente europeu, pertencendo à mesma
família de instrumentos de fole à qual pertencem a sanfona
e o bandoneón, tão popular no tango argentino. Na Argentina,
inclusive, há quem diga que o bandoneón chegou às
terras portenhas levado pelos marinheiros irlandeses que serviam à
Marinha Imperial Britânica). Também é uma inclusão
recente no universo da Irish Trad Music.

BANDOLIM
Outro instrumento que foi "importado" para a música irlandesa,
o bandolim tem origem na Itália renascentista e foi prontamente
incorporado à musicalidade irlandesa. Um dos maiores responsáveis
por sua popularização na Irish Music é o grande compositor
e multi-instrumentista Andy Irvine (ao lado).
BOUZOUKI
Este instrumento tipicamente grego tem origem na Antigüidade,
sendo uma evolução do tradicional pandura, ancestral
comum de todos os bandolins e assemelhados. O pioneiro do bouzouki na
música irlandesa foi Johnny Moynihan, que adaptou
um bouzouki original grego para suas necessidades. Posteriormente, o hoje
mítico grupo Planxty popularizou o instrumento adaptado, agora
chamado de Irish bouzouki, "bouzouki irlandês",
graças ao virtuosismo de Andy Irvine e Dónal Lunny.
Todos esses
instrumentos são ouvidos, com maior ou menor freqüência,
nas diferentes formas de Irish Traditional Music. Pela maior versatilidade
e disponibilidade, o violão hoje costuma ser até
mais popular do que o bouzouki, o banjo e o bandolim. As combinações
dependem do estilo de música, da região de origem e, claro,
da disponibilidade. Por sua simplicidade, a música irlandesa não
define conjuntos típicos; por sua complexidade, a música
irlandesa exige destreza e copnhecimento dos diferentes ritmos - que exploraremos
a seguir.
4. Música Irlandesa: Estilos e ritmos

Tradicionalmente,
a música irlandesa está diretamente relacionada à
dança e seus ritmos, andamentos e cadências são realmente
contagiosos - como costumo dizer, "é impossível
ouvir a música tradicional irlandesa sem bater pelo menos um dedo
ou um pé!"
Por conta
disso, os nomes de alguns ritmos tradicionais também designam danças
- como jigs, reels, hornpipes...
REELS
Em tempo 'quadrado'
- 2/2 ou 4/4 -, as reels são músicas bastante animadas,
e as mais tradicionais. Costumam seguir um padrão de dois temas,
"A" e "B", arranjados em sequência (A-A, B-B),
intercalados (AB-BA) ou alternados (A-B, A-B). Normalmente, um dos instrumentos
melódicos dita o tema, que é seguido pelos demais instrumentos;
costuma também haver muita improvisação, especialmente
dos violinos e tin whistles.
JIGS
A partir das 'gigas' medievais italianas, esta dança em
2/4 chegou à Irlanda, onde foi adaptada para outros andamentos
e atualmente é descrita como tradicionalmente sendo em 3/4 ou 6/8
- aparentada, portanto, à valsa e, assim como esta, irresistivelmente
dançável.
HORNPIPES
Este ritmo, não tão popular quanto as jigs e reels,
é bastante intrigante por apresentar síncope - um elemento
que diferencia a música irlandesa da música escocesa, por
exemplo, e de resto de praticamente toda a música tradicional européia.
Muito contratempo, muito "suíngue", que é
facilmente identificável por brasileiros graças ao samba
e à bossa-nova. Este elemento sincopado, aliás, acabou por
ultrapassar os limites das hornpipes e hoje permeita praticamente todos
os estilos da música irlandesa, tornando-a ainda mais atraente
e rica.
Além
desses ritmos, existem também as canções irlandesas,
com letras em inglês ou em irlandês, entre as quais figuram
também as airs (do italiano ária).
Mais introspectivas e, portanto, menos "dançáveis",
as canções irlandesas tradicionais costumam falar de amor
e saudade, mas também de patriotismo e guerra - o que nos faz lembrar
da célebre frase de GK Chesterton:
"For the great Gaels of Ireland / are the men that God
made mad;
for all their wars are merry / and all their songs are sad."
("Pois
os grandes gaélicos da Irlanda, são os homens que Deus criou
insanos:
pois todas as suas guerras são alegres, e todas as suas canções,
tristes")
5. Características da Irish Trad Music
Afinal, o que
define um artista ou uma melodia como "tradicional"? Para responder
a esta questão, recorremos à maior autoridade mundial em
música irlandesa: o Taisce
Cheol Dúchais Éireann, ou Arquivo da Música
Tradicional da Irlanda. Para este órgão vinculado ao Conselho
das Artes do Governo Irlandês, as características fundamentais
da Irish Trad Music são as seguintes:

É
uma tradição popular viva
Ou seja, apesar de ter origem no passado e seu repertório
consistir majoritariamente de peças antigas, a música
tradicional irlandesa está viva, em constante evolução,
"através do descarte de alguns elementos, resgate de outros
elementos antes negligenciados, criação de material novo
e alteração criativa de repertório pré-existente".
Em poucas palavras, ao contrário do que querem alguns "puristas"
que não compreendem sua essência e teimam em ver a música
tradicional irlandesa como se fosse música clássica, ela
está vigorosamente aberta à evolução.

É transmitida de geração para geração
Parte do vigor da Irish Trad Music está no fato de ela ser querida
por irlandeses de todas as idades. Isto se deve, em grande parte,
à necessidade que os irlandeses têm de resgatar sua identidade
cultural após tantos séculos de dominação
britânica, que gera neles um ernome orgulho de todos os
elementos de sua cultura original.
É
aprendida pelo exemplo e não por ensino formal
O que vale dizer que, como costuma acontecer com música étnica
ou popular, seu aprendizado não segue a formalidade de
métodos e partituras, mas se dá pela observação
direta de artistas e sua "imitação" - falaremos
mais sobre o aprendizado da música tradicional abaixo.
É
predominantemente antiga (Séc. XVIII)
Como já vimos, a maior parte das músicas e canções
tradicionais irlandesas foi composta entre os séculos XVII e XIX.
Mas a grande liberdade de execução dessas músicas
desde sua origem faz com que hajam diversas versões diferentes
para uma mesma melodia, letras diferentes para uma mesma canção,
nomes iguais para músicas diferentes, nomes diferentes para uma
mesma melodia... isso se deve ao fato de que a Irish Music...
É
predominantemente oral em sua transmissão
Ou seja, as peças não estão consolidadas
por uma partitura que determine seu tempo, ritmo, acompanhamento,
harmonização ou mesmo linha melódica. Cada região,
e até mesmo cada músico individual vai interpretar uma determinada
música com um 'tempero' próprio.

É música do povo (folk)
Por ser popular, não está restrita à 'elite'. Diversos
elementos comprovam isso: a simplicidade dos instrumentos usados (instrumentos
mais caros e sofisticados, como piano, cravo, oboé, etc não
costumam ser utuilizados na música tradicional irlandesa); a ligação
direta com danças populares também comprova esse elemento
popular. Isso, contudo, não faz da Irish Trad Music um estilo 'pobre':
ao contrário, a riqueza de texturas melódicas, ritmos e
arranjos harmônicos faz da música irlandesa um dos
mais elaborados estilos da música ocidental.
Sua
natureza é ' doméstica'
Originalmente, a música tradicional irlandesa não foi criada
para execução em teatros ou casas de espetáculos,
mas sim para ser tocada em casas, pubs e festas sociais. As origens
rurais estão por trás desta característica,
pois era comum que os músicos se reunissem em pubs ou mesmo nas
casas uns dos outros para participarem de uma 'seisiún'
de música tradicional, promovendo intercâmbio de melodias,
técnicas e estilos, enriquecendo sua prática através
da improvisação e do contato com outros músicos.
6.
Aprendendo Irish Trad Music
Como visto
acima, a música tradicional irlandesa "é aprendida
pelo exemplo e não por ensino formal". Evidentemente,
contar com um instrutor que lhe passe os fundamentos de um instrumento,
os diferentes estilos e ritmos e as nuances da música irlandesa
ajuda muito. Mas o ponto-chave para quem quer aprender a tocar Irish Music
é mesmo a observação e "imitação"
dos artistas renomados. A seguir, a recomendação do próprio
Taisce Cheol Dúchais Éireann:
“Aprender
a cantar ou tocar música tradicional depende não só
de aptidão inata, mas também de uma grande motivação,
exposição freqüente e ouvidos atentos.”
Em termos práticos, o que isso significa? Significa
que, no aprendizado da Irish Trad Music, a ênfase está na
prática e no resultado, e não na teoria e no exercício.
Como, então, aprender a tocar ou cantar música irlandesa?
Existem diversos métodos e partituras escritos... mas este não
é o melhor meio: por ser uma tradição oral, o melhor
mesmo é a "imitação". E vamos deixar claro:
imitação, neste caso, não é a cópia
pura e simples, não é reprodução exata das
notas e da interpretação de um determinado músico
tradicional, mas sim a assimilação das características
e do vocabulário musical, para que você possa introduzir
seu toque pessoal.
Esse processo
exige que o músico se exponha o mais possível à música
irlandesa, e a forma original - e claro, a mais eficaz - é a observação
de músicos ao vivo. Em outros tempos, isso era um problema: praticamente
não havia músicos tocando Irish Trad Music no Brasil, e
nem todos tinham como ir para a Irlanda com a regularidade necessária...
hoje, contudo, a internet torna tudo muito mais próximo.
Assim, sempre
de acordo com as dicas do Taisce Cheol Dúchais Éireann,
temos cinco fontes possíveis de exposição à
Trad Irish Music:
• Seisiún;
• apresentações organizadas;
• concertos e shows;
• festivais;
• gravações.
Seisiún
Esta
palavra irlandesa tem praticamente a mesma pronúncia da inglesa
"session", e basicamente o mesmo significado de uma
"jam session" - a reunião de músicos
que, sem ensaio prévio, improvisam músicas tradicionais
e/ou compõem instantaneamente peças dentro do estilo tradicional.
Praticamente todos os pubs da Irlanda promovem seisiúnna
regularmente - especial menção às já clássicas
seisiúnna dos pubs de Doolin, cidadezinha
no oeste da Irlanda conhecida como "a capital da música irlandesa".
Pela ainda pouca quantidade de músicos dedicados ao estilo por
aqui, ainda é raro encontrar no Brasil um grupo de músicos
em seisiún, mas estas já ocorrem com uma certa
regularidade aqui em São Paulo, como as organizadas pelo talentoso
músico Ricardo Dias (se você souber de outros locais onde
ocorram autênticas "seisiúnna", quero
saber!)
Apresentações organizadas
São aquelas em que, apesar de também costumarem
acontecer em pubs, o caráter improvisativo é menos presente
- as músicas são executadas após ensaios prévios.
Na Irlanda, normalmente são patrocinadas pelo Bórd
Fáilte (o órgão oficial de Turismo)
e anunciadas na mídia. Exemplos destas apresentações
no Brasil são aquelas que ocorrem de tempos em tempos em pubs como
o O'Malley's e o St. John's - ambos
em São Paulo.
Concertos e shows
Semelhante às
apresentações organizadas, mas em locais maiores - teatros
e casas de espetáculos.
Festivais
Na
Irlanda, festivais de música tradicional ocorrem praticamente durante
todo o ano - mas no verão o fã de Irish Trad enlouquece
com a profusão de eventos grandiosos. Alguns desses festivais -
fleadhanna ceoil - são de natureza competitiva,
oferecendo-se prêmios aos melhores artistas nas diferentes categorias.
No Brasil, está virando tradição a realização
de festivais de música irlandesa no St.
John's Irish Pub, bem como os eventos em comemoração
ao St. Patrick's Day - a festa nacional da Irlanda -
em 17 de março. A cada ano, mais e mais pubs e bares aderem às
celebrações do“Paddy’s Day”
– em São Paulo, a mais tradicional delas ocorre no O'Malley's
Pub.
Gravações
Eis a melhor fonte de exposição à
música irlandesa para nós, brasileiros - direto da fonte.
Assistir a videos e gravações online dos mais renomados
artistas é, sem dúvida, a melhor forma de se travar contato
com as muitas nuances e texturas da Trad Irish Music. Mas quem são
esses artistas que podem nos inspirar?
7.
Vultos da Música Irlandesa
A música
é seguramente uma das mais preciosas manifestações
da alma humana. Por seus feitos, alguns indivíduos ultrapassam
os limites de seu tempo e entram para a história como guardiões
da tradição musical de um povo. Abaixo, alguns dos nomes
mais importantes para a formação da Irish Trad Music.
Turlough
O'Carolan
Impossível falar de música irlandesa sem
mencionar Toirdhealbhach Ó Cearbhalláin,
ou Turlough O'Carolan - o harpista cego que deixou os primeiros registros
da música irlandesa ainda no séc. XVIII. Seu intercâmbio
com compositores continentais tornou-o conhecido em outras terras, e também
garantiu a introdução de outros elementos musicais à
sua arte. Sua música era predominantemente composta para a harpa,
instrumento tradicional dos bardos e poetas da Irlanda celta, e o fato
de O'Carolan atuar como músico itinerante faz dele um herdeiro
direto da tradição dos bardos e Fíli, os poetas celtas
da Irlanda medieval e pré-cristã. Após O'Carolan,
muito por força da opressão cultural e política britânica,
a música irlandesa não produziu nenhum nome de vulto até
seu renascimento já no século XX. Os elementos barrocos
e renascentistas da música de O’Carolan tornam-no um favorito
daqueles que buscam na Irish Music um componente mais lírico.
Sean
O'Riada
O "pai" da música tradicional irlandesa
nasceu John Reidy, em 1931, mas logo adotou a versão 'gaelicisada'
de seu nome por amor à sua cultura e sua nação -
amor que fica evidente já em seu primeiro trabalho de vulto: a
trilha sonora composta para o filme "Míse Éire"
("Eu sou a Irlanda", 1951) sobre o nascimento da nação
irlandesa. Anos mais tarde, O'Riada criaria e dirigiria o mítico
Ceoltóirí Chualann, grupo que resgatou
muitas músicas tradicionais que estavam condenadas ao desaparecimento
nos rincões rurais da Irlanda e, através de programas televisivos,
garantiram que tais músicas fossem conhecidas pelas novas gerações.
Do Ceoltóirí Chualann (abaixo) surgiria o mais
influente grupo da Irish Trad Music moderna: os Chieftains.

The
Chieftains
Desde 1962, The
Chieftains é sinônimo de música irlandesa.
Graças a seu virtuosismo, sua versatilidade e um profundo conhecimento
da alma da música tradicional irlandesa, os Chieftains se tornaram
uma referência ao redor do mundo, abrindo diversas portas para a
Irish Trad Music - como as muitas trilhas sonoras por eles compostas,
e os diversos prêmios Grammy a eles presenteados.
Confiantes e tranqüilos de sua capacidade ímpar em preservar
a música tradicional, sempre se mostraram abertos às influências
de outros artistas e outros estilos musicais: astros do pop como Mark
Knopfler, Elvis Costello, Roger Daltrey, Tom Jones, Sinéad O'Connor,
The Corrs, Art Garfunkel e Sting já gravaram com os Chieftains,
promovendo uma saudável mescla que garante sua evolução
no sécuo XXI e para além.

Seamus Ennis
O mago
das uillean pipes, Seamus
Ennis rompeu todos os limites do instrumento e definiu a
abordagem a ser seguida pelos músicos de gerações
futuras. Algumas de suas gravações dos anos 50 sobrevivem
como um testemunho à grandiosidade deste gênio da Irish Trad.
Clannad
Surgido
nos anos 1970, este grupo composto por parentes de uma mesma família
(Clannad significa "em família") começaram
com uma abordagem bem tradicional, posteriormente aderindo aos instrumentos
modernos e eletrônicos e assim criando um estilo único. Eithne
Brennan, mais conhecida internacionalmente como Enya,
participou brevemente do Clannad,
ao lado de sua irmã, a vocalista Máire (Moya) Brennan.
Apesar de Enya ser mais facilmente encaixada na categoria "New
Age Music", muitos elementos de suas composições
são inegavelmente irlandeses. Na foto ao lado, Enya é a
de vestido xadrez.
Planxty
Uma "super
banda" da Irish Trad Music, pelo Planxty
passaram nomes de peso como Paul
Brady, Donál
Lunny, Andy Irvine
e Christy
Moore - todos posteriormente estabeleceram uma grande reputação
como músicos de Irish Trad Music em suas carreiras solo.
The
Bothy Band
Outra
"super banda", pela qual passaram nomes importantes, como Matt
Molloy, Tríona Ní Dhomhnaill, Dónal Lunny
e muitos outros, The
Bothy Band ajudou a dar forma à moderna música
tradicional irlandesa nos anos 1970. Posteriormente, seus músicos
estabeleceram outros projetos igualmente importantes - Matt Molloy juntou-se
aos Chieftains, Tríona Ní Dhomhnaill levou seus teclados
e encantadora voz ao maravilhoso projeto hiberno-escocês Relativity
e ao Nightnoise, Kevin Burke integrou
o Patrick
Street... por tudo isso, percebe-se uma grande integração
e um enorme intercâmbio entre os maiores músicos da música
tradicional irlandesa, prova de que gênios nem sempre são
sinônimo de egos inflados.
A nova geração da música irlandesa
Nos
últimos anos, com a popularização global da Irish
Trad Music, novos artistas vêm surgindo - seja como músicos
puramente tradicionais ou incorporando elementos tradicionais a estilos
mais modernos, como o pop e o rock. Neste cenário, merece menção
especial os irmãos do The
Corrs que, com maestria, mesclam seu enorme conhecimento
da música tradicional irlandesa ao rock e o pop moderno, abrindo
caminho para que mais uma geração de apreciadores da Irish
Trad Music surgisse ao redor do mundo. Reconhecidos como grandes instrumentistas
tradicionais pelos maiores vultos da Irish Trad Music, os Corrs têm
um lindo album - adequadamente chamado "Home" - em
que tocam somente músicas irlandesas, a maioria canções
tradicionais, no qual demonstram sua maestria no estilo.
Outro
grupo muito importante - e infelizmente pouco conhecido - é o Solas.
Composto por músicos irlandeses e norte-americanos, o Solas ("Luz"
em irlandês) teve como membro fundador o violonista John
Doyle, um músico extraordinário que praticamente
reinventou o papel do violão na Irish Music. Liderados por Doyle,
o Solas ficou notório pela enorme capacidade de seus músicos
de improvisarem sempre ao vivo - a improvisação é
uma característica marcante da música irlandesa tradicional,
especialmente em seu "hábitat natural": a "seisiún"
(session) nos pubs.

Os californianos do Gaelic
Storm ganharam fama mundial como a banda irlandesa tocando
nos porões do navio Titanic no blockbuster do mesmo nome. Incluindo
diversos elementos do rock a músicas tradicionais e canções
próprias com letras muito bem humoradas, o Gaelic Storm foi a primeira
banda a ser chamada de "Celtic Rock", pois incorpora instrumentos
e melodias tradicionais a ritmos modernos e instrumentos elétricos.
Nos anos 1980,
os irlandeses do The
Pogues, liderados por Shane McGowan, fundiram a música
tradicional irlandesa ao punk rock. O resultado foi tão inusitado
que inaugurou um novo estilo musical: "Irish Hardcore"; seu
sucesso influenciou o surgimento de diversas bandas americanas no estilo:
Flogging Molly,
Dropkick
Murphys e The
Tossers, apenas para citar algumas.
Deixando de
lado o peso do rock e resgatando a tradição vocal típica
das canções "sean nos" (literalmente,
"à moda antiga" em irlandês), temos os grupos modernos
Celtic Woman
e The
High Kings. Muitos críticos afirmam que estes dois
conjuntos caminham sobre a fina linha que separa o belo do 'brega', mas
suas versões de alguns clássicos irlandeses são,
sem dúvida, belíssimas.
Do country
ao hardcore, do lírico ao pop eletrônico, a Irish Music influencia
muitos estilos e mantém-se viva nas reinterpretações
dos mais variados artistas. A cada nova geração, ela se
renova, se adequa e se revigora, incorporando novas tendências mas
sem jamais perder sua essência.

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