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Irlanda:
1.Introdução > 2.Celtas
(Tara) > 3.Cristianismo
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7.Domínio Britânico > 8.A Grande Fome > 9.Inglaterra: Amor e Ódio > 10.Levante da Páscoa > 11.Irlanda Livre > 12.Partição > 13.Tigre Celta Partição: Os Conflitos na Irlanda do Norte
Separada do resto da Irlanda pela Partição gerada pelo Tratado Anglo-Irlandês de 1922, a Irlanda do Norte é um retrato perfeito – e triste – dos efeitos trazidos pela interferência desmedida de um império colonizador sobre um povo subjugado. Vimos anteriormente que, desde as invasões dos normandos ingleses, a influência da Inglaterra sobre a Irlanda sempre foi conturbada. Os esquemas de “plantações” de colonos protestantes e a constante opressão aos católicos gerou uma divisão praticamente irreconciliável entre grupos étnicos e culturais muito semelhantes, e o passar dos séculos e o descaso do governo de Londres só fizeram agravar a situação. Com a independência do Estado Livre Irlandês, a região majoritariamente protestante do norte permaneceu fielmente ligada ao Império Britânico. Assim, ao abismo religioso – católicos versus protestantes – alia-se outro abismo: republicanos (que desejavam uma única Irlanda governada por Dublin) versus unionistas (que advogavam a manutenção da união entre a Irlanda do Norte e a Grã-Bretanha). E cada uma dessas “divisões” era, por sua vez, fragmentada em sectos, dissidências, radicais, moderados e outras subdivisões, num caos político que só poderia degenerar em caos social. Apesar de nomes pomposos e da máscara de elevados ideais, o que se via de fato eram gangues que depredavam, saqueavam, destruíam e assassinavam-se umas as outras. A minoria católica viu-se obrigada a se organizar em milícias, e a violência degringolou. A Irlanda do Norte parecia ressucitar uma das mais negativas características da sociedade celta de outrora: a rivalidade e a desunião entre tribos aparentadas, num conflito que se desenhava aparentemente eterno.
Após algumas décadas marcadas por tentativas de se livrar da dominação britânica na Irlanda do Norte através de boicotes, assassinatos de notáveis e sabotagens, o início dos anos 70 assistiu a uma mudança nesse padrão. Ao convocar uma bem intencionada passeata em favor dos direitos civis da população católica da cidade norte-irlandesa de Derry, o parlamentar Ivan Cooper – ele próprio um protestante – acabou por dar origem a uma das páginas mais sangrentas dos tempos modernos. Havia já algum tempo que a população católica de algumas cidades da Irlanda do Norte vinha promovendo marchas e protestos, desafiando o poder britânico. Para por um fim a esses motins, Londres decidiu por uma demonstração de força – e a passeata pelos direitos civis oferecia a oportunidade ideal para essa demonstração.
Cientes do
potencial de conflito gerado pela movimentação das tropas
britânicas em Derry, os organizadores da passeata - que havia sido
declarada "ilegal" pelas autoridades britânicas - optaram
por mudar seu itinerário para evitar conflitos. Mas um pequeno
grupo de provocadores irlandeses (em sua maioria ligados ao IRA) e os
soldados britânicos (já cansados de constantes agressões
menores) trataram de tornar o enfrentamento inevitável. O que se
seguiu foi uma verdadeira chacina, com as tropas britânicas indiscriminadamente
abrindo fogo pesado contra uma população civil e desarmada.
Jovens e idosos, homens e mulheres foram caçados pelos atiradores
britânicos.
Sombras do meu passado pessoal Duas figuras ainda assombram minhas memórias de menino no final dos anos 1970: a dos líderes Gerry Adams (católico) e Ian Paisley (protestante). Quase que diariamente, ouvia-se esses nomes no noticiário televisivo, em trocas de acusações e vãs justificativas para mais atos violentos. Por anos, esses dois nomes povoaram minha imaginação, que era ilustrada pelas terríveis cenas de destruição causadas pelas explosões de carros-bomba. Mesmo com pouco mais de dez anos de idade, tudo aquilo ainda é uma sombra na minha memória. Os discrusos inflamados e radicais desses dois homens, as ações perpretadas por seus liderados - tudo isso parecia não ter fim, era parte do cotidiano de todos nós.
Cresci crendo que os conflitos entre católicos e protestantes jamais cessariam na Irlanda do Norte. Quando em 1996 visitei a Irlanda pela primeira vez, não resisti e fui até a fronteira entre as duas Irlandas. Contra a bucólica paisagem da Irlanda rural, os imensos blocos de concreto e as figuras camufladas dos soldados britânicos na fronteira criaram um contraste quase traumático. Para alguém de fora, tudo parece sem sentido – e mesmo para os envolvidos, se algum dia houve algum sentido, este estava perdido após décadas de ódio e violência política, racial e religiosa. Nas palavras de uma amiga irlandesa, “aqui na Irlanda temos os melhores católicos e os melhores protestantes – e juntos, eles são os piores cristãos”. Poético e triste. Perfeitamente irlandês.
E veio o golpe fatal, a brutalidade que pôs fim ao conflito armado: em 1998, na pacata cidade de Omagh, um carro bomba plantado pelos terroristas do RIRA (Real Irish Republican Army – mais uma das já ridículas siglas que designavam as dissidências desta ou daquela facção) ceifou a vida de vinte e nove pessoas e feriu outras duzentas. Além do já esperado repúdio de britânicos e irlandeses protestantes, pela primeira vez as lideranças católicas – em especial o já citado Gerry Adams – condenou abertamente a ação terrorista. Realmente, ninguém mais tolerava essa situação. O processo de pacificação da Irlanda do Norte acelerou-se, o IRA depôs armas oficialmente e o antes impensável aconteceu: a Irlanda do Norte está em paz. Através da reabertura de sindicâncias e inquéritos, os britânicos estão reavaliando suas ações naquele pedaço de seu outrora portentoso império. Os esforços de Bill Clinton levaram a um passo ainda mais concreto rumo à paz com o Acordo da Sexta-Feira Santa (ou Acordo de Belfast) de 1998. "Fazer
a Paz, eu descobri, é muito mais difícil do que fazer guerra".
A unificação das duas Irlandas não é mais uma possibilidade assim tão remota. Em tempos de União Européia, aliás, em que rivalidades históricas são deixadas de lado em nome da cooperação pacífica, a existência de duas Irlandas é um anacronismo tão vergonhoso quanto o muro que até outro dia ainda dividia Derry em duas. Como tributo às pessoas inocentes que involuntariamente pagaram com seu próprio sangue para que a paz se torne viável, duas fotos que chocam e nos põem a pensar: na primeira, um pai com sua filha - gente comum, como eu e você – passeiam pelas ruas de Omagh. Posam ao lado de um automóvel vermelho, sem saber que no interior do carro, em segundos, um dispositivo detonaria os explosivos criminosamente plantados por terroristas sem nenhuma dignidade em suas ações. A segunda foto mostra a mesma rua após a explosão. Revelado, o filme no interior da câmera encontrada nos escombros do atentado mostra os últimos segundos das vidas desse pai e dessa criança. Era mesmo hora de dizer chega - o espírito da Irlanda e dos irlandeses merecia um respiro, merecia a prosperidade que só a paz pode trazer - e ela veio.
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