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Irlanda:
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(Tara) > 3.Cristianismo
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Britânico > 8.A Grande
Fome > 9.Inglaterra: Amor
e Ódio >
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Paz
e Prosperidade:
O
Tigre Celta
Longe dos Conflitos
do norte, as primeiras décadas após a formação
do Estado Livre Irlandês não foram fáceis. A bem dizer,
a Irlanda era uma jovem nação, nascida numa Europa conturbada
pelos constantes conflitos e, após tantos séculos de dominação,
era preciso que a Irlanda aprendesse a caminhar sozinha. Com a independência,
toda a estrutura de uma sociedade - polícia, forças armadas,
administração, judiciário, política tarifária,
diplomacia, saúde, transportes, habitação - tudo
isso teria de ser desenvolvido a partir do nada. Em 1922, William Cosgrave,
presidente do Estado Livre Irlandês após o fim da guerra
civil, optou por um caminho cauteloso, mantendo basicamente toda a estrutura
de governo e administração pública deixada pelos
britânicos. A Irlanda era um país paupérrimo, rural
e sem indústrias - e por muitos anos assim perduraria, cunhando
a expressão de que a Irlanda era uma amostra do "Terceiro
Mundo" às portas do Primeiro.
Esse cenário
perduraria até a chegada à presidência, em 1932, de
nosso velho conhecido Éamon de Valera. Sua política isolacionista
trouxe como conseqüência guerras tarifárias contra os
ainda política e economicamente fortes vizinhos britânicos.
De Valera dá os primeiros passos rumo à industrialização
da Irlanda e a eclosão da II Grande Guerra, aliada às condições
de pobreza imperantes, quase fizeram a Irlanda se aliar aos alemães.
Mas de Valera adotou uma postura de neutralidade durante todo o conflito.
Nos
anos 1950, as terríveis condições econômicas
da Irlanda trouxeram de volta o fantasma da depopulação,
com a imigração em massa de homens e mulheres para o Reino
Unido, a América do Norte e a Oceania - uma reedição
em menor escala dos tempos da Grande Fome, que deixou a Irlanda praticamente
sem população economicamente ativa. Mesmo assim, a Irlanda
permanecia fechada em si mesma, aparentemente lambendo as suas enormes
feridas. O radicalismo da Igreja Católica irlandesa contribuiu
para esse isolamento.
Foi só
com a chegada dos anos 1960 que o cenário começou a mudar,
com uma abertura econômica que sepultava os improváveis delírios
socialistas de auto-suficiência e trazia a Irlanda definitivamente
para o livre comércio, o que gerou um crescimento lento mas gradual
da economia e da qualidade de vida dos irlandeses. Culturalmente, a censura
imposta por governo e igreja perdia a força, as mulheres ganhavam
mais direitos; administrativamente, não havia mais espaço
para retóricas nacionalistas, e surgia uma administração
nacional mais técnica. Evidentemente, a instabilidade econômica
global dos anos 1970 pôs em risco todas as conquistas da Irlanda,
e a década de 1980 viu uma participação mais profunda
da sociedade irlandesa em questões polêmicas como a legalização
do divórcio e do aborto, em referendos que mobilizaram a opinião
pública.
E
chegamos aos anos 1990. No mundo globalizado, não havia mais espaço
para conservadorismo e intolerância - nem mesmo na Irlanda. A igreja
católica perde sua força, a juventude passa a ter mais voz,
o crescimento populacional é recorde e a política de incentivos
econômicos trazida pelo ingresso na União Européia
gera uma onda de prosperidade que faz a Irlanda ser conhecida mundialmente
como "Celtic Tiger", o Tigre Celta (uma alusão às
potentes economias emergentes dos "Tigres Asiáticos"
no mesmo período).
Hoje
a Irlanda é um país consideravelmente rico e perfeitamente
integrado ao mundo do qual faz parte. As relações com seus
vizinhos britânicos melhoram cada vez mais, e sua economia fortalecida
traz segurança para seus cidadãos.
Ironicamente,
o maior desafio da Irlanda atualmente é lidar com o movimento inverso:
se por séculos os irlandeses deixaram sua ilha em busca de sobrevivência
e uma vida melhor em outras terras, agora são os imigrantes vindos
do Leste Europeu e da Ásia que invadem a Irlanda, atraídos
pela estabilidade econômica e social. Enquanto escrevemos isto,
existe um temor entre os irlandeses de que a imigração maciça
traga problemas sociais no futuro - de ordem prática, como desemprego
e criminalidade, mas também de ordem cultural, com a possível
perda da identidade irlandesa. Esse é o preço pago pela
globalização.
Entre minhas
duas visitas à Irlanda, em 1996 e em 1998, notei diferenças
gritantes nalguns pontos - especialmente no aumento do consumismo e do
materialismo entre os irlandeses - especialmente em centros urbanos como
Dublin e Cork. Comparado com o resto do mundo, contudo, a Irlanda ainda
é um oásis.
Evidentemente,
aquele estereótipo do irlandês beberrão, piadista
e briguento não existe mais - a Irlanda é um país
jovem e dinâmico, um centro de referência na exportação
de tecnologia de ponta na área da informática, e ainda possui
paisagens lindíssimas - a despeito dos avanços do "progresso"
rumo ao interior. Atualmente, uma grande polêmica agita a Irlanda
e os hibernófilos ao redor do planeta acerca da construção
de uma auto-estrada que passa muito próxima da sagrada Colina
de Tara, o coração da Irlanda Celta. As constantes manifestações
parecem ter sensibilizado o governo, que reduziu o ritmo das
obras, aguardando um posicionamento definitivo da sociedade e do poder
público. A população irlandesa se renova rapidamente
- poucos lugares do mundo apresentam tantos carrinhos de bebê quanto
um subúrbio de Dublin! - e mesmo a continuidade de jovens que ainda
deixam a Irlanda em busca de uma vida no exterior - e não são
poucos! - não chega a causar danos sociais à Irlanda de
hoje. E os que ficam, trabalham para si mesmos, mas sem deixar de ter
enorme orgulho de sua terra. A Irlanda pode ser um país jovem,
mas é também uma nação antiquíssima
- e seu povo conhece e se orgulha de seu passado, de sua origem, de sua
história.
A
essa ancestralidade soma-se uma vigorosa jovialidade, uma efervecência
cultural e uma estabilidade econômica que, juntas, fazem da Irlanda
um destino especial para quem queira conhecer uma terra que ainda é
mágica, habitada por gente alegre e hospitaleira, numa rara fusão
do que de melhor há nos dois mundos.
Já no
século XII, o galês Giraldus Cambrensis assim a descreveu:
"Irlanda...
separada do resto do mundo conhecido, e devendo de alguma forma ser vista
como um outro mundo."
 A
Irlanda é um dos poucos lugares com essa qualidade divina, em que
passado, presente e futuro se fundem harmoniosamente; em que a tradição
e o novo convivem lado a lado, sem grandes conflitos.
Como dito no
início, ao me propor a percorrer estes milênios de história
da Irlanda, não tive a pretensão de redigir uma história
oficial daquelas terras e gentes - minha abordagem não é
científica, nem tem a frieza incontestável da fotografia.
Ao contrário, espero que, ao chegar a este ponto, o amigo internauta
tenha a percepção de ter visto uma pintura - mais subjetiva
e apaixonada do que a frieza de fatos, nomes e datas; uma pintura que
retrata a Irlanda não apenas por suas idéias intelectuais
ou por suas imagens físicas: o que eu espero ter transmitido nessa
pintura de linhas mal traçadas e cores borradas é o retrato
de um espírito: a biografia de uma Terra que já nasceu e
renasceu diversas vezes, sem com isso perder sua identidade e sua magia.
Como bem nos ensinam os druidas da Antigüidade celta da Irlanda,
tudo é cíclico e a grande magia da vida está justamente
nessa eterna alternância entre crescimento, apogeu, declínio
e fim - sempre seguido do reinício.
Os
mitos e lendas celtas da Irlanda nos contam como as terras irlandesas
assistiram à chegada de uma sucessão de povos míticos
e divinos. Esses textos maravilhosos são conhecidos como "O
Livro das Invasões da Irlanda" - e esse processo não
parou com o último capítulo daquele livro - continuou depois,
com a chegada dos gaélicos, do cristianismo, das invasões
vikings e de normandos, das lutas e conflitos com os ingleses, as vitórias
e derrotas, os períodos de paz e prosperidade - num eterno pulsar
que começa com a chegada dos primeiros humanos à Irlanda
(ou mesmo antes!) e deságua nas novas invasões: de imigrantes,
estudantes, turistas e apaixonados por uma terra que continua viva, independentemente
da filosofia, religião ou espiritualidade vigente.
O professor hiberno-americano (norte-americano de origem irlandesa) Edward
Hagan afirma que "Na Irlanda, os objetos físicos
incorporam o espiritual, independentemente da religião. Shamrocks
e pedras são objetos sagrados que incorporam o espiritual. Eles
não representam o mundo espiritual: eles são o próprio
mundo espiritual."
Barbara Flaherty, poetisa hiberno-americana completa:
"O conceito místico da paisagem como portal para o mundo
sutil é uma poderosa força que atua através dos artistas
e escritores irlandeses". Se não por qualquer outra coisa,
no mínimo por manter viva a pecepção de que o Divino
não está distante e inatingível, mas sim no "aqui
e no agora", o Espírito da Irlanda merece esta homenagem.
Por
tudo o que eu tenho recebido do Espírito da Irlanda, através
das palavras de seus escritores e dos versos de seus poetas; através
dos acrodes de seus músicos e dos sorrisos de suas gentes; através
da inspiração de seu Passado e do exemplo para nosso futuro;
por tudo isso e muito mais, só me resta concluir este tributo com
um sincero, honesto e franco "muito obrigado":
Go
raibh math agat...

Para
saber mais: www.irishinstitute.com.br
Bibliografia:
Bell,
Brian - Ireland - 1994, Apa Publications (HK) Ltd
Bhreathnach, Edel, Newman, Conor - Tara - 1995, The Government
of Ireland
Cahill, Thomas - How the Irish Saved Civilization - 1995, Anchor
Books
Duffy, Seán (Ed.) - MacMillan Atlas of Irish History, The
- 1997, Macmillan USA
Ferguson, Niall - War of the World, The - 2007, Penguin Books
Harbison, Peter - Pre-Christian Ireland - 1994, Thames &
Hudson
MacKillop, James - Oxford Dictionary of Celtic Mythology, The
- 1998, OUP
MacKillop, James
- Myths and Legends of the Celts - 2005, Penguin
Markale, Jean - The Druids, Celtic Priests of Nature - 1999, ITI
Monaghan, Patricia (Ed.) - Irish Spirit - 2001, Wolfhound
Moorhouse, Geoffrey - Sun Dancing - 1997, Harcourt Brace
O'Donohue, John - Anam Chara, A Book of Celtic Wisdom - 1997,
Harper Perennial
Pakenham, Thomas - The Year of Liberty - 1997, Weidenfield &
Nicholson
Raftery, Barry - Pagan Celtic Ireland - 1994, Thames & Hudson
Somerset Fry, Peter and Fiona - History of Ireland, A - 1993,
Routledge
Dedico
estas páginas acima de tudo ao espírito de Ériu,
Éire, Irlanda; mas também a meus eternos amigos da Família
Cox (June, Pete, Brian e Michelle - e a nova geração que
vai aumentando!), a Patricia Monaghan e seu inspirado e inspirador trabalho
com o Espírito da Irlanda, a Ali e todo mundo no O'Malley's (My
home away from home - and from jail!), a Mike Breslin, a Brendan McAuliffe,
a Maria Alice Ancona Lopez e Peter O'Neill (com a gratidão por
realizarem o sonho do Irish
Institute), a Lorraine Brady, aos amigos das bandas Dundalk, Merrow
e Leannan Shee e a todos os hibernófilos que, pelos mitos, pela
música, pela história ou por qualquer outro motivo, também
ouvem as vozes que atravessam o Atlântico e nos chamam "para
casa". Obviamente, não posso deixar de agradecer à
minha filhinha Brigitte, por não se irritar tanto por eu abrir
mão de horas e horas em que poderíamos estar brincando juntos
para ficar em frente ao computador... E claro, dedico um carinho todo
especial, pelo apoio técnico, lingüístico e logístico
e, principalmente, pelo incentivo, carinho e amor, a Carina Corr - a Garça
que graciosa e inspiradoramente acompanha o vôo deste Corvo.
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