
Irlanda:
1.Introdução > 2.Celtas
(Tara) > 3.Cristianismo
> 4.Medievo > 5.Vikings
> 6.Normandos >
7.Domínio
Britânico > 8.A Grande
Fome > 9.Inglaterra: Amor
e Ódio >
10.Levante da Páscoa >
11.Irlanda Livre > 12.Partição
> 13.Tigre Celta
Tara,
Colina dos Reis:
O Centro do Universo

A um visitante
desavisado, aquela pequena colina na região do Rio Boyne, condado
de Meath, pode passar desapercebida. Elevando-se pouco mais de 150 metros
acima do nível do mar, a Colina de Tara não possui nada
que, à primeira vista, a diferencie das muitas outras colinas irlandesas.
Pesquisas arqueológicas, porém, revelaram vestígios
de ocupação humana que recuam
quase seis mil anos no tempo (dir.). Como as mega-estruturas
de Newgrange, Knowth e Douth, a primeira intervenção humana
é anterior à construção das priâmides
do Egito. Desde então, o local foi seguidamente ocupado e transformado
por levas de habitantes que ali ergueram estruturas predominantemente
voltadas para fins espirituais – tumbas e cemitérios, templos,
locais de reunião tribal. Nas palavras do Prof. Barry Raftery,
“sua função primária era, pelo que tudo indica,
ritual.” Edel Bhreathnach e Conor Newman completam: "Tara simbolizava,
autenticava e sustentava o tecido da sociedade".
A presença
de nascentes sagradas na área da Colina da Tara tornam-na ainda
mais importante; desde os tempos mais remotos, as nascentes são
tidas pelos irlandeses como portais pra o mundo espiritual - parece lógico:
afinal, a água é o elemento fundamental capaz de gerar,
nutrir e restaurar a vida. Essa percepção da sacralidade
da água perdura durante o período celta da Irlanda, e se
preserva após a chegada do cristianismo. O
mesmo se aplica à Colina de Tara: ocupada pelos
humanos desde tempos imemoriais, ela foi sendo adotada e adaptada por
cada nova leva cultural que ali chegava, sempre mantendo sua importância
como local sagrado.
A
sacralidade da paisagem é uma das mais marcantes características
da espiritualidade celta – e encontra paralelos em outras culturas
também. Em seu livro “The Druids”, o celtista
francês Jean Markale afirma que, assim como o Oráculo de
Delfos, coração do Mundo Helênico, a Colina de Tara
era o centro do universo da Irlanda celta. “A colina pré-histórica
de Tara se tornou o centro mítico da ilha – o omphallos
(“umbigo do mundo”) ao redor do qual os grandes encontros
políticos e culturais eram realizados”.
A natureza
de “centro do universo” de Tara é atestada em tempos
celtas pelo fato de ali realizarem-se anualmente assembléias presididas
pelo Rí Ruirech,
o “Rei dos Grandes Reis” da Irlanda. (Apesar de muito usado
em tempos recentes, o termo Ard Rí, "Grande Rei",
foi cunhado mais recentemente e não figura nos textos legais da
Irlanda). A principal dessas assembléias era a Féis
Temro, “A Festa de Tara”, um costume tão
vigoroso e arraigado na cultura irlandesa que somente seu banimento pelo
cristianismo interrompeu sua realização, no séc.
VI. Os registros históricos falam do fogo sagrado aceso no alto
de Tara por ocasião de Beltaine, o festival celta da fertilidade
e da vitalidade. Segundo “O
Livro das Invasões da Irlanda”, quem inaugurou esse costume
foi um druida chamado Míde, que empresta seu nome à província
irlandesa onde fica a Colina de Tara – nome esse que sobrevive ainda
hoje no condado de Meath.
CENTRO
SAGRADO
Esses nomes
– Míde, Meath – são traduzidos literalmente
como “meio”, “centro”. Tara, portanto, é
o centro da Irlanda – como já vimos, o omphallos,
o umbigo do mundo. Desde os tempos celtas, a ilha irlandesa é dividida
em quatro Províncias – Ulster no Norte, Leinster no Leste,
Munster no Sul e Connacht no Oeste. Míde era a quinta Província,
o centro sagrado unindo todas a partir do meio – o axis mundi,
eixo entre os mundos, ponto focal da espiritualidade das terras irlandesas
e reconhecida e eternizada pelos celtas. A própria palavra irlandesa
para “província”, cúige,
significa literalmente “um quinto” (nos textos antigos, em
irlandês arcaico, a palavra é “céiced”
e tem o mesmo significado).
Assim, Tara
é o centro de Míde; Míde é o meio, o eixo
que une as quatro províncias da Irlanda – Norte, Leste, Sul
e Oeste – Ulster, Leinster, Munster e Connacht. A unir as Quatro
Províncias ao Centro, colossais estradas de madeira foram construídas
- nas palavras do Professor James McKillop, foi “uma onda de construções
muito além de qualquer obra anterior – e que permaneceram
sem paralelo até o início da era moderna.” Segundo
uma lenda, essas cinco estradas – Slige Midlúachra, Slige
Asail, Slige Chualann, Slige Dála e Slige Mór
– surgiram magicamente no nascimento do rei Conn Cétchathach,
de quem falaremos mais abaixo.
À
esquerda, vemos a escavação de uma dessas estradas feitas
com tábuas
de madeira tratada. Abaixo, uma reconstrução dá idéia
da majestade dessas estradas - verdadeiros decks imensos a ligar
as quatro províncias da Irlanda a Tara, seu centro mítico.
(Aos
familiarizados com a cultura inca, é simplesmente irresistível
o paralelo de Macchu Picchu – o centro do universo – e suas
estradas interligando o império inca.)
Toda essa
disposição da Irlanda - quatro províncias nas quatro
direções, unidas por uma província central - é
por si só um arranjo mágico, envolvendo as quatro direções
e o centro – ou seja, orientando, norteando (no sentido
literal) a percepção da terra como entidade sagrada para,
assim, compreender seus fluxos, sua energia e sua força. Conforme
explicam Alwyn e Brinley Rees, “o quatro representa os quatro cantos
mais afastados; e o cinco, o centro do todo.” E citando novamente
o Prof. McKillop, “O cinco implica em certeza e força, talvez
um vestígio do antigo sistema quinário da Irlanda.”
Caitlín Matthews complementa, dizendo que “no texto conhecido
como The Settling of the Manor of Tara, o ancestral sábio
Fintan nos fala das cinco províncias da Irlanda
e suas respectivas qualidades:
"Sabedoria
no Oeste; Batalha no Norte;
Prosperidade
no Leste; Música no Sul;
Soberania no Centro”.
Não
por acaso, essas ‘qualidades’ podem ser facilmente identificadas
ao longo da História em cada uma das Províncias (quintos)
da Irlanda, e estão preservadas até hoje - ainda que as
pessoas não se dêem conta. Como se vê, basta conhecer
um pouco o conceito de Espaço Sagrado para perceber que os celtas
irlandeses compreendiam de forma magistral como trabalhar essa questão.
Já por
ser o centro espiritual da Irlanda, Tara é sagrada. Por ser o centro
do poder, assento do Rei Supremo, Tara é ainda mais divina –
pois é um conceito tipicamente celta que reza que o rei deve ser
sempre um indivíduo “íntegro física, mental
e espiritualmente” – ou seja, o soberano celta deveria ser
perfeito - caso contrário, não seria digno de desposar a
Soberania - o Espírito da Terra Viva. Algumas lendas nos mostram
essa ligação sagrada entre a Terra e o Rei, como a importante
e simbolicamente riquíssima Baile in Scáil, "O
Êxtase do Espectro":
Conn
Cétchathach ("das Cem Batalhas") é o
primeiro rei de Tara e dali governa toda a Irlanda. Numa tarde, enquanto
inspeciona as muralhas de Tara junto a seus druidas, baixa sobre eles
um denso nevoeiro que encobre sua visão. Do meio das brumas, surge
um cavaleiro que os convida a segui-lo até uma enorme casa com
uma coluna central de ouro branco. Conn
e os druidas aceitam o convite. Lá chegando, vêem que o interior
da casa é totalmente decorado com ouro, e Conn avista uma linda
Donzela sentada num assento de cristal, sua cabeça ornada por uma
riquíssima coroa de ouro. A seu lado, um trono, sobre o qual se
senta um Espectro magnífico - ninguém menos do que Lugh
Lámfhota, que lhes explica ser a Donzela a sua esposa:
a encarnação da Soberania da Irlanda. Eles banqueteiam e
então, quando a Donzela pergunta a quem deve ofertar o cálice
com a cerveja vermelha, Lug responde na forma de uma lista de todos aqueles
que sucederão a Conn como legítimos Reis de Tara. Em seguida,
Lugh, a Donzela e a casa desaparecem - ficando Conn com o Cálice
da Soberania.
É evidente
que esta antiga lenda irlandesa serviu de inspiração aos
trovadores medievais que compuseram as Lendas
Arthurianas. O cálice/graal, a pergunta "a quem deve o
cálice ser ofertado?" a legitimidade do Rei de toda a Terra
(Conn na Irlanda e Arthur na Grã-Bretanha) e, inclusive, o fato
de que o filho de Conn se chama... Art MacCuinn - Art, filho de Conn.
A sagrada ligação
entre o Rei e a Terra ocorre no centro - Tara - na província do
meio - Mídhe. Uma metáfora perfeita da busca pelo equilíbrio,
por ser "centrado", que caracteriza a espiritualidade celta.
TARA - O NOME
A grafia Tara é
uma 'anglicização' do irlandês Temair.
Como bons poetas, os irlandeses sempre brincam com os sentidos e sonoridades
das palavras - sejam elas nomes de objetos, lugares, deuses ou pesoas.
Para mentes lineares, isso pode até soar estranho - afinal, o
mundo moderno ocidental tem uma percepção limitada que
diz que "uma coisa é uma coisa", jamais podendo ser
outra (bendita a física quântica que vem destroçando
essa limitada visão!). Pois para os celtas, uma coisa pode ser
várias, uma palavra pode ter diversos significados, um significado
pode ter incontáveis interpretações - esta é
uma das chaves do pensamento druídico.
Assim sendo, o nome Tara/Temair
possui diversas interpretações e origens possíveis
- todas elas perfeitamente aceites. A mais comum dá conta de
que Temair deriva de tea-múr, a muralha de Téa,
esposa de Érémon, rei dos Milesianos. Segundo consta,
Téa pede a seu esposo e rei que seu nome seja eternizado por
uma muralha erguida ao redor de seu túmulo, que foi criado sobre
a colina de Druim Cáin ("o belo topo") - nome dado
pelos Fír
Bolg à colina que viria a ser eternizada como Temair (Tara).
Outra possível origem para o nome diz que Temair significa "uma
elevação com uma bela vista". Pode-se até
questionar a origem filológica desta interpretação,
mas quem visita Tara jamais duvidaria dela - como atesta a foto abaixo.

TARA APÓS
OS CELTAS
Com a chegada
do cristianismo, diversos centros culturais, políticos e espírituais
da Irlanda celta ou foram cristianizados, ou foram banidos e em seguida
abandonados. Com Tara aconteceu o segundo - depois da cristianização
da Irlanda e a proscrição dos druidas e de seus ensinamentos,
a ocupação de Tara entra em declínio. Mas o espírito
de Tara permanece vivo e mantém sua importância mesmo em
tempos cristãos, visto que ao menos três santos irlandeses
têm sua vida ligada de alguma forma à Colina de Tara. O primeiro,
claro, é São Patrício que, desafiando
as antigas tradições druídicas, na Páscoa
acendeu uma fogueira no alto da colina sagrada. O que se seguiu, segundo
a lenda, foi uma batalha de magia, da qual - é claro - São
Patrício saiu vencedor - o primeiro grande passo para a conversão
da Irlanda à nova religião. Tara teria sido também
o ponto de encontro entre São Patrício e outro importante
santo irlandês: São Brendan, ou São Brandão
- o Navegador. Por fim, temos também São
Rúadán de Lórrha, que teria convertido ao
cristianismo Diarmait macCerbaill, último Rei de Tara a celebrar
a Feis Temro. Em todos os casos, o que se vê é a
sobreposição da fé cristã ao local sagrado
celta.
Mas os espíritos
dos locais são poderosos, e mantêm-se vigorosos mesmo que
as pessoas não percebam. Tara continuou sendo um local de grande
apelo popular, freqüentemente citado nas
lendas e no folclore e enaltecido por Geoffrey Keating, o pioneiro historiador
irlandês do século XVII. A obra de Keating seguramente inspirou
o nacionalista Daniel O'Connell a escolher Tara como
local para um dos mais impressionantes eventos da luta irlandesa pela
independência: o "Encontro Monstro" de 1843 (esq.), ao
qual teriam comparecido mais de um milhão de irlandeses exigindo
a retirada do poder britânico.
Atualmente,
há no sopé da Colina uma igreja – dedicada, previsivelmente,
a São Patrício. Essa igreja é recente, mas foi erigida
sobre as fundações de outra mais antiga, criada pelos Cavaleiros
Hospitalários de São João – uma ordem monástica
semelhante aos seus contemporâneos mais famosos, os Templários.
Dessa primeira igreja, sobrevive uma coluna de pedra com uma imagem da
misteriosa Sheela-na-Gig
– a conhecida
figura feminina com olhos esbugalhados que grotescamente abre sua enorme
vagina, e que paradoxalmente orna diversas igrejas medievais na Irlanda
e na Inglaterra. A imagem da Sheela de Tara está bem desgastada,
pois reza a lenda que passar a mão sobre ela traz fertilidade.
A julgar pelo desgaste, muitas mãos já a esfregaram. A julgar
pela quantidade de crianças nas ruas de qualquer cidade irlandesa,
o costume funciona. Em
minha primeira visita, por via das dúvidas, fiz questão
de acariciar essa poderosa entidade - minha filha Brigitte talvez seja
mais uma prova da força da Sheela-na-Gig.
O
COMPLEXO ARQUEOLÓGICO DE TARA:
Mais de cinco mil anos de ocupação
A sacralidade
daquela região é atestada pela grande quantidade de estruturas
ali existentes – mais de trinta num pequeno raio de dois quilômetros.
Na própria
Colina de Tara, temos as estruturas circulares do Forrad
e Téch Cormaic. Ao lado destas, o Monte
dos Reféns – todos estes dentro de uma estrutura
elíptica maior, conhecida como Ráth na Ríg.
Alguns metros ao norte, o Ráth dos Sínodos
– parcialmente destruído para a construção
de uma igreja – e seguindo em linha reta ainda para o norte, a estrutura
retangular conhecida como Téch Midchúarta.
A oeste desta, Ráith Gráinne e os círculos
gêmeos de Clóenfherta.
O Forrad
Este pequeno
monte de cume plano foi construído em pelo menos três fases
distintas: na primeira, foram erguidos três pequenos montes sepulcrais
– do tipo em que são depositados os restos mortais de cremações
(cinzas), alguns deles ainda utilizados mesmo após a cristianização
da Irlanda. Esses três montes sepulcrais foram unidos num círculo
delimitado por um fosso e uma paliçada – Téa
Múr, o "Muro de Téa". Ao que tudo indica,
o nome Forrad pode significar 'monte, plataforma".
É no topo dele que se encontra a Lia Fáil
(dir.), a "Pedra do Destino", que canta diante do verdadeiro
Rí Temro, "Rei de Tara", rei
da Irlanda.
Téch
Cormaic
Literalmente,
"a Casa de Cormac" – uma referência ao grande rei
mítico Cormac MacArt, neto do Conn acima mencionado.
Esta pequena colina artificial também é circundada por fossos.
Vestígios de uma casa circular tipicamente celta são encontrados
numa pequena elevação circular um pouco fora do centro da
colina – vestígios da morada do rei de Tara?
Monte dos Reféns
Este
estranho nome é a tradução literal do irlandês
Duma na nGiall e é explicado pelo fato
de que, de acordo com o costume celta, reinos em aliança mantinham
reféns um do outro para assegurar a paz – um costume que
sobrevive durante a Idade Média e que é facilmente compreendido
se pensarmos que esses "reféns" são como os modernos
cônsules e embaixadores. A estrutura, porém, é muito
mais antiga: trata-se de um "túmulo de passagem" que
remonta a 3.000 a.e.a. e que, como costuma acontecer nessas estruturas,
tem sua entrada e sua câmera interna alinhada ao eixo leste-oeste.
Em seu interior, os vestígios de cremações de séculos
e séculos de uso como sepultura de entes queridos mais uma vez
atesta a importância espiritual do local.
Ráth na Ríg
"O Forte
dos Reis" é o nome dado ao grande círculo (na realidade,
uma elipse) que contém o Forrad, Téch Cormaic e
Duma na nGiall. A estrutura de fosso e monte é semelhante
à dos fortes da Idade do Ferro encontrados por toda a Irlanda e
em outros pontos da Europa, a não ser pelo fato de que está
invertida. Com efeito, sua disposição em nada impediria
a penetração de inimigos – descartando, portanto,
qualquer função defensiva. Isso leva muitos especialistas
a – mais uma vez – confirmar a função sacra
da estrutura. A posterior construção de uma paliçada
nos limites do Ráth na Ríg, datando do período cristão,
pode ser indicativa de uma mudança no status do local – nas
palavras de Edel Bhreathnach e Conor Newman, essas mudanças "refletem
o declínio da ancestral estrutura pagã e o surgimento de
uma nova ordem cristã, na qual o pragmatismo político sobrepujou
os conceitos da santidade pagã".
Ráth
dos Sínodos
No
século VIII, o abade do mosteiro de Iona, Adomnán,
supostamente realizou uma série de sínodos eclesiásticos
neste local – daí seu nome. Como nos outros casos, contudo,
seu uso é muito anterior ao cristianismo. Esta complexa estrutura
de círculos concêntricos foi severamente danificada no início
do século XX, quando judeus britânicos
se puseram a escavar a área sem o menor critério, crendo
que ali encontrariam a 'Arca da Aliança' (!). Em suas várias
fases de ocupação, o "Ráth dos Sínodos"
foi diversas vezes utilizado como cemitério. O tipo de estrutura
– quatro círculos concêntricos – é bastante
raro, e só se repete em outros dois sítios: Rathra, no Condado
de Roscommon, e Tláchtga, um pouco a oeste de Tara. Além
dessa estrutura de múltiplos fossos, todos esses três círculos
têm em comum também o fato de terem sido erguidos ao redor
de colinas sepulcrais – o que leva a intuir uma rede de monumentos
cerimoniais diferenciados. Neste local foram encontrados alguns artefatos
romanos, o que levou alguns estudiosos a apressadamente afirmar que a
Irlanda fora nalgum momento invadida pelas legiões de Roma. A escassez
de artefatos, contudo, parece indicar muito mais o comércio ou
mesmo os bens importados - privilégio de algum nobre abastado que
tivesse morado na região (sobre a "presença" romana
na Irlanda, ver artigo do Dr. Simon James aqui).
Téch Midchúarta
O
"Salão dos Banquetes" é o criativo nome atribuído
pelos escritores medievais à estrutura retangular ao norte do Ráth
dos Sínodos. Segundo eles, essa estrutura teria sido um grande
salão onde o Rei Cormac MacArt se reunia com sua corte, e foi comparada
em esplendor à corte de Salomão, o rei bíblico. Os
estudos arqueológicos não suportam essa tese, pois não
há indícios de que houvessem paredes e menos ainda um telhado.
O mais provável é que Téch Midchúarta tenha
sido, na verdade, um cursus, ou 'avenida cerimonial', típicos
do Neolítico britânico mas extremamente raros na Irlanda.
A reforçar essa tese, o fato de que, segundo o Dinshenchas, a extremidade
sul do monumento terminava num charco, Sescend Temrach ('o charco
de Tara'). É sabido que charcos e pântanos – bem como
outras massas de água – eram sagrados aos celtas como portais
para o Outro Mundo, como atestam as muitas oferendas encontradas em banhados,
pântanos, lagos e rios.
Ráth Gráinne
O nome comemora
a bela jovem Gráinne que se nega a casar com o grande herói
Fionn MacCumhaill e foge com seu amado Diarmuid em Tóraigheacht
Dhiarmada agus Ghráinne, "a perseguição
a Diarmuid e Gráinne", uma das mais belas – e influentes
- lendas de amor da Irlanda celta.
Clóenfherta
"Os Fossos
Desmoronados", assim chamados por estarem em terreno bastante íngreme
- um fato pouco comum nos montes circulares pré-históricos
– foram escavados com grande dificuldade dada a inclinação
da área. Esse esforço indica que a localização
exata da estrutura deveria ser respeitada – possivelmente por sua
importância cerimonial. Uma lenda diz que ali ficava o palácio
de Lugaid MacCon, Rei de Tara – e que a estrutura desabou porque
ele havia sido injusto numa de suas decisões – os reis celtas
precisam ser perfeitos...
Todas essas
estruturas compõem o chamado núcleo de Tara – mas
ao redor da Colina de Tara encontram-se diversas outras preciosas estruturas
arqueológicas com nomes muito evocativos: Ráth
Maeve ao Sul, Ringlestown Rath
a sudoeste, Riverstown Enclosure a oeste, Rathmiles
ao norte e Rath Lugh a nordeste – tudo
num curto raio de menos de dois quilômetros da Colina.
Não
restam dúvidas de que Tara sempre foi um importante centro de atividade
humana: estruturas de uso religioso, cemitérios, sepulturas, sede
de grandes reis, local de encontro de druidas, cenário para duelos
de magia, monumentais manifestações políticas, batalhas.
Quando um lugar assiste a tantas e tão variadas manifestações
humanas, é sinal de que ele emana força e atrai as pessoas
– mesmo que elas nem se dêem conta disso. No século
XIX, o historiador William Wilde – pai do grande escritor Oscar
Wilde – assim descreveu a Colina de Tara:
"Ao
nos postarmos no topo ou na extremidade sul desta relíquia, e tendo
em conta os muitos relatos e lendas bárdicas dos escritores irlandeses,
é impossível não recuarmos a antigos e heróicos
tempos e novamente, em nossa imaginação, povoar esta área
com seus primeiros habitantes. Aqui se sentaram em tempos remotos os reis
com suas reluzentes coroas douradas sobre suas cabeças; guerreiros
portavam espadas reluzentes; bardos e menestréis com suas harpas;
ollamhs com suas barbas cinzentas; druidas com suas coroas de folhas de
carvalho..."
Uma visão romântica,
é verdade, mas que não deixa de atestar a magia que a Colina
de Tara exerce sobre quem a visita.
Tara:
onde Druidas e Guerreiros Modernos se Encontram
Tara está
sob ataque. Um grande número de homens se aproxima da Colina Sagrada.
Portam objetos metálicos de destruição e são
amparados por poderosas máquinas. O cerco é total, não
parece haver saída – a Colina está sitiada!
A
cena, que parece descrever uma das muitas batalhas da Idade do Ferro,
na verdade retrata as hostes de operários com pás e picaretas
e conduzindo potentes tratores para a abertura da rodovia M3, a poucos
metros da Colina de Tara. "Tempo é dinheiro", reza o
adágio moderno – e colinas são apenas amontoados de
terra e pedras que tomam o tempo e atrasam o mais cultuado 'deus' de nossos
dias: o automóvel.
A febre "progressiva"
e a busca por enriquecimento que assola a Irlanda desde a injeção
de verbas trazida pelo ingresso na União Européia cegou
os mandatários daquele país para uma das maiores –
se não a maior – riqueza da Irlanda: sua história.
O roteiro é conhecido: para "atender às necessidades
e demandas" do mundo moderno, para encurtar distâncias e permitir
o maior fluxo do tráfego de automóveis, projetos são
aprovados, empreiteiras são contratadas, obras são iniciadas...
e quem sofre é a paisagem.
Toda
paisagem é sagrada – e na Irlanda isso fica perfeitamente
evidenciado pelas lendas e pelo folclore que enxerga o divino em tudo
que há. Dentre todas as características do relevo irlandês,
Tara se destaca como uma das mais sagradas. Mas nem ela escapa da ganância
de nossos tempos. As obras de construção da rodovia M3 levaram
as escavadeiras a cravar suas garras metálicas em importantes sítios
arqueológicos, desfigurando para sempre Ráith Lugh (dir.)
e outros monumentos menores. Isso gerou uma enorme onda de protestos –
a princípio na própria Irlanda, e logo ao redor do mundo.
Gente comum
se mobilizou em passeatas – em Dublin e no próprio sítio;
alguns mais ousados invadiram o canteiro de obras e enfrentaram a polícia
(esq.);
druidas modernos celebram rituais com freqüência sobre a Colina;
atores de Hollywood engrossam o coro; abaixo-assinados e petições
online exigem o fim da destruição deste importante sítio.
Se não pelo valor histórico, que as autoridades entendam
que ali reside o espírito da própria Irlanda. Talvez isso
seja pedir demais a gente que, assim como os governantes de outras nações,
pouco se importam com cultura, e menos ainda com espírito.
Mas o espírito
de Tara se faz ouvir – os guerreiros se mobilizam, os druidas despertam
os ancestrais, a luta continua. Cada voz erguida hoje contra a M3 ecoa
as vozes heróicas dos ancestrais, num apelo - muitas vezes inconsciente
- para que resgatemos a honra e a dignidade da terra em que vivemos.
Seja na Irlanda,
na China, na Austrália ou no Brasil, o exemplo de Tara deve ser
seguido sempre que a ganância e a ignorância venham a ameaçar
a paisagem sagrada, os espíritos do local. Tara era sagrada para
os povos neolíticos, continuou sagrada para os reis e druidas celtas,
teve sua importância reconhecida pelos cristãos e seu carisma
aproveitado pelos nacionalistas irlandeses. Não
será uma mera auto-estrada que tirará a glória e
o poder do Espírito de Tara.
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Uma
multidão toma as ruas de Dublin para protestar contra a rodovia
M3. |
Na
Colina, um dos organizadores orienta os participantes para formar
uma imagem humana. |
O
resultado final é belíssimo: corpos humanos formam
os dizeres "Salvem o Vale de Tara" e a Harpa, símbolo
da Irlanda. (veja o video
no Youtube) |
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Em
Dublin, três mulheres vestidas como guerreiras celtas representam
Bánba, Fótla e Ériu - as três deusas
da Soberania da Irlanda - e caminham até o Parlamento Irlandês,
exigindo providências para interromper as obras da rodovia
M3. |
Abaixo,
links para os websites de campanhas para preservar a Colina de Tara.
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