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Desde a inauguração deste website, sentia um desejo incapaz de ser apaziguado de prestar esta homenagem ao espírito da Irlanda - suas terras, sua história, suas gentes, sua magia.

Trata-se de um tributo e uma retribuição, em agradecimento a tudo que há décadas a 'Ilha Esmeralda' vem me oferecendo - tanto em termos de inspiração, aqui, à distância, quanto durante minhas visitas àquelas terras.
Em nenhum momento advogo a estas páginas qualquer rigor acadêmico: pelo contrário, o que motiva o fluir das palavras é a inspiração que a Irlanda me desperta. Claro, essa inspiração é informada por diversas fontes acadêmicas, mas a mola motriz é a paixão.

História e lendas, magia e progresso, pessoas e deuses, cidade e campo - na Irlanda, as fronteiras entre essas esferas simplesmente não existem (ao menos por ora...). Então, como se costuma dizer por lá, Céad míle Fáilte - Cem mil boas vindas às paginas da Irlanda em claudiocrow.com.br!

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Por que a Irlanda?

"Eu não estava preparado para o que aconteceria naquela manhã, quando pela primeira vez avistei a Irlanda pela janela de um avião. Depois da longa viagem noturna, finalmente eu via, através dos retalhos de nuvens, a terra verde e amaciada pela chuva.
E fiquei emocionado. Minha pele se arrepiou. Tive a sensação de que algo invisível se erguia em minha direção, como partículas atômicas. Uma espécie de pó fino, formado de bilhões de mensagens embaralhadas, enviadas a mim pela silenciosa terra verdejante. Transcendendo os séculos - talvez os milênios. Erguendo-se para além do mundo compreensível e suas histórias, para falar comigo.
"Venha", elas pareciam sussurrar.
"Venha para casa - estávamos a sua espera." - Pete Hamill, "The Long Circle Home" (in Irish Spirit)


As palavras acima são de Pete Hamill, um jornalista nova-iorquino - mas poderiam muito bem ser minhas - se eu tivesse a mesma capacidade de escrever bem. Assim como Pete Hamill, em minha primeira visita à Irlanda eu não sabia ao certo o que eu buscava. Só sabia que era necessário fazer essa jornada praticamente sagrada - uma peregrinatio, uma busca de mim mesmo. Segundo a poetisa irlandesa Mary O'Malley, "todas as jornadas, não importa o seu destino, são circulares. Elas começam e terminam com você mesmo, a sós, e o destino nem sempre é o mais importante. Mas eles importam o bastante". Minha jornada começara muitos anos antes...

Identificando

Eu deveria ter uns quatorze anos de idade quando tomei um ônibus em meu bairro, na Zona Sul de São Paulo, com destino ao Centro - mais precisamente, à Biblioteca da Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa. Minha intenção à época era conhecer mais (sem saber exatamente o quê...) da Grã-Bretanha. Fui atendido pela gentil bibliotecária que, diante de meu entusiasmo, me presenteou com uma série de impressos sobre diversos aspectos da Grã-Bretanha. (Àquela altura, sem que eu me desse conta, meus primeiros passos rumo ao universo da cultura e espiritualidade celta já haviam sido dados graças ao druida Panoramix e seus amigos gauleses). Depois de folhear alguns livros interessantes (muitos dos quais viria a adquirir posteriormente), voltei para casa feliz, mas ainda incerto sobre o que eu queria. Anos mais tarde, apaixonei-me pelas paisagens das highlands escocesas, e procurei conhecer mais (sem saber exatamente o quê) sobre aquele país, sua cultura, sua história heróica, suas paisagens fascinantes... mas ainda não era exatamente aquilo... Eu já sentia uma certa afinidade com a cultura da Grã-Bretanha (em termos de 'fantasia', castelos, magos, reis e guerreiros sempre me fascinaram muito mais do que espaçonaves, extraterrestres ou dinossauros) mas ainda não era exatamente aquilo...

Foi então que os olhos da minha alma se desviaram um pouco mais para a esquerda no mapa: lá estava ela... Irlanda, uma ilha nos confins ocidentais da Europa, cujo maior ponto de referência naquela altura eram os aparentemente eternos conflitos entre católicos e protestantes e os atentados terroristas do IRA - como se vê, nada muito atraente. (Mal sabíamos nós que os "Problemas" - The Troubles, os conflitos - não ocorriam na República da Irlanda, mas sim em setores de algumas cidades da Irlanda do Norte - especialmente Belfast e Derry.)


Paralelamente - se é que cabe dizer isso -, minha sede de conhecer cada vez mais sobre os celtas já me devorava, e todas as fontes apontavam para a Irlanda como um manancial primordial de conhecimento sobre os celtas. Nesse mesmo período ocorreu o lançamento dos primeiros video-clips da cantora irlandesa Enya, uma das precursoras de um estilo musical que viria a ser conhecido como New Age.

Apesar de eu ter me encantado com suas músicas, para mim faltava algo ali - faltava, como se diz no mundo da música, "pegada". Foi então, ao procurar conhecer a música irlandesa tradicional, que a minha montanha-russa irlandesa acelerou: as coisas começaram a cair no meu caminho, entrelaçando-se, qual um knotwork celta tipicamente irlandês - mitologia celta, a heróica História da Irlanda, sua música tradicional, as paisagens - ah, as paisagens!

 

Tudo isso se juntou e alimentou em meu coração um desejo praticamente incontrolável de conhecer as terras que abrigaram os heróis Cuchulainn e Fionn, a música de Clannad e Turlough O'Carolan, os deuses e deusas dos Tuatha de Danann, os atores do adorável filme The Commitments, as palavras mágicas de Yeats, Wilde, Joyce, a sensibilidade espiritual de John O’Donoghue... Ray Houghton, autor daquele gol contra a Itália na Copa de 1994, Guinness em pints... tudo isso (e muito mais) é a Irlanda.

Tudo isso - agora não tinha mais jeito! - já tinha encontrado seu lugar em meu coração.

Tudo isso era agora parte de mim. Tudo isso, contudo, estava... tão longe!

Conhecer a Irlanda tornou-se um desejo - mais que um desejo, um sonho - mais que um sonho, uma obsessão. E uma bem difícil, a meu ver, de se tornar realidade. Eu ansiava pela Irlanda à distância, como um personagem shakespeariano anseia por sua amada distante - amor não correspondido, separados por um oceano. Mas espíritos enamorados sempre dão um jeito de se unir! Qual Oisin em busca de sua Niamh no Outro Mundo, pus-me a cruzar o Atlântico em busca não de Hy-Breasil (a "Ilha dos Abençoados, um dos nomes do "Paraíso" celta), mas em sentido inverso - em busca de Éire.
Sem saber, minha alma ecoava o grande bardo Amergin no desembarque dos milesianos: "I seek the Land of Ireland" - eu busco pelas terras da Irlanda...

 

Érin go Brágh

1996: naquele Sete de Setembro, independi-me do Brasil e, pela primeira vez, toquei a carne daquela a quem até então só amara em espírito. Desembarcando em Dublin, iniciei a arriscada aventura de conhecer de fato aquilo que até então era para mim só idealização... o potencial de frustração, nesses casos, é imenso. Mas eu fui à Irlanda no espírito do "aquilo que vier, vem bem". Éire, a deusa celta que ainda hoje empresta seu nome à República da Irlanda, retribuiu com carinho. Acolheu-me. Afagou-me. Educou-me. Embriagou-me. Seduziu-me. Possuiu-me. Tocou-me fundo na alma. Mostrou-se sem fantasias. Revelou-se de cara lavada. Ao viajar pelo interior da Irlanda, ao sair dos caminhos usuais do turista, conheci a Irlanda como ela é. E amei-a ainda mais... Amantes de verdade são sempre um espelho, e no processo passei a me conhecer muito melhor também. Minha primeira viagem foi transformadora. Tive de voltar. Tenho de voltar. Sempre. Érin go Bragh - o slogan nacionalista significa "Irlanda para Sempre". No meu coração, na minha alma.

Lia Fáil, na Colina Sagrada
de Tara - Coração espiritual
da Irlanda. (1996)

"Ser irlandês não é, por princípio, uma questão de nascimento ou linhagem de sangue, ou de linguagem: ser irlandês é envolver-se com a situação da Irlanda - e, no mais das vezes, ser por ela ferido."
-- Conor Cruise O'Brien, político e escritor irlandês

A importância da Irlanda

Como podemos atestar noutras sessões deste website, a Irlanda é fonte fundamental para as pesquisas celtas em termos sócio-culturais, tendo sido vital para o surgimento e desenvolvimento do druidismo ancestral e contemporâneo, além de atrair admiradores ('hibernófilos') por sua gente alegre e hospitaleira, por sua influente música tradicional e pop, pelos luminares da literatura recente e por suas inspiradoras paisagens.

Nas páginas a seguir, estes e outros temas serão abordados com o máximo de embasamento histórico, mas sem descuidar da paixão que as terras irlandesas, sua cultura e sua história despertam em todos nós. Dos celtas a São Patrício, da sacralidade da paisagem à música pop, das diversas manifestações culturais modernas à literatura, tudo isso receberá o devido carinho. O mesmo carinho com que as terras de Ériu sempre me receberam.

Faço minhas, então, as palavras de Amergin - o mítico primeiro poeta da Irlanda:


Eu busco pelas Terras de Éire.
Poderoso é seu frutífero mar,
Frutíferas suas compactas montanhas,
Compactos os bosques úmidos,
Úmidas as cascatas de rios,
Cascateantes os tributários dos lagos,
Com tributários as nascentes a jorrar nas colinas,
A jorrar as pessoas às assembléias,
Assembléias do Rei de Tara,
Tara, colina das tribos,
Tribos do povo de Mil,
Mil das naus e barcos,
Naus da poderosa Éire,
Éire, poderosa e verdejante.
Um habilidoso encantamento,
Habilidade das esposas de Bres,
Bres, das esposas de Buaigne,
Grande Senhora Éire:
Erémón molestou-a,
Ír e Éber por ela clamaram –
Eu busco pelas Terras de Éire.

(“Canção da Irlanda” de Amairgin - 'Leabhar Gábala na hÉireann')


(Estas páginas foram ao ar pela primeira vez a 01 de agosto de 2008 - festival celta de Lughnasadh)

1a atualização: Imbolc 2011

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