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Símbolos
'Um
Império
Irlandês':
O papel da Irlanda no Império Britânico
Irlanda e Inglaterra:
as ligações entre esses povos vizinhos são mais profundas
do que os séculos de intermináveis conflitos militares,
religiosos, políticos e culturais podem fazer supor - a começar
pelas origens celtas comuns.
(para mais sobre os celtas, ver seção correspondente
aqui)
Ao norte da
Inglaterra situa-se a Escócia, cujo produto mais famoso é
o whisky. Poucos sabem que essa bebida, na verdade, é originalmente
uma criação irlandesa: a palavra 'whisky' vem do gaélico
irlandês uisge, que significa "água".
Como, então, um irlandês diferencia a água 'comum'
do whisky em seu idioma? Chamando o whiskey de "uisge beatha"
- a "água da vida"!
O próprio
nome Escócia, na verdade, significa "Terra dos Irlandeses"
- a raiz latina "scotum" significa literalmente "irlandês".
Isso porque o reino da Escócia surge a partir de colônias
de irlandeses do Reino de Dal Ríada que, séculos
antes, atravessaram o estreito braço de mar que separa as duas
ilhas ao norte da Irlanda e lá se estabeleceram, influenciando
as tribos locais com sua cultura superior.
É
inegável que a Inglaterra deve muito à Irlanda,
sobretudo no período medieval, como já vimos - e especialmente
no campo da religião e da filosofia - muitas igrejas e mosteiros
na Inglaterra foram fundados por monges irlandeses - para não mencionar
a literatura: alguns dos maiores nomes do que hoje chamamos de Literatura
Inglesa são, na verdade, filhos da Irlanda.
Mas o passar
dos séculos e as constantes transformações na população
das duas ilhas criaram diferenças irreconciliáveis entre
ambos - o que não impediu associações importantes,
mesmo nos momentos de maior crise - e até mesmo nos momentos em
que as relações entre essas duas culturas atingiram seus
mais altos níveis de desiguladade, como durante o Império
Britânico. Para entender a complexa relação entre
Irlanda e Inglaterra, é necessário entender o desenvolvimento
dessas duas culturas durante o surgimento, a expansão e o declínio
do Império Britânico. Comecemos, conservadoramente, do começo.
Nascimento
e expansão do Império Britânico
O nascimento
de uma superpotência não é um evento fortuito: depende
da combinação de uma série de fatores sociais, políticos,
econômicos e internacionais. Em termos simplistas, o Império
Britânico começa a nascer com a derrocada das potências
atlântica - Portugal e Espanha - e o subsequente controle das rotas
marítimas pela nova potência naval: a Inglaterra. Começando
com os piratas ingleses que minaram o tráfico de produtos extraídos
das Américas por espanhóis e portugueses e extendendo-se
até a 2a. Guerra Mundial, a poderosa Marinha Britânica era
a chave para o controle político, econômico e militar sobre
outras nações - situação que só mudou
em meados do século XX, com o surgimento das aeronaves.
Desde seus
ancestrais normandos, os ingleses já interferiam nos destinos da
Irlanda havia alguns séculos, portanto uma releitura mais cuidadosa
da História revela que a primeira "colônia" britânica
foi, na verdade, a Irlanda - ainda que os britãnicos jamais tenham
usado essa palavra para definir seus vizinhos.
Nos séculos
de dominação britânica, a pobreza trazida à
Irlanda pelo jugo britânico levaria muitos irlandeses a buscarem
emprego em empresas inglesas - sobretudo nas minas, moinhos e tecelagens
da Inglaterra durante a Revolução Industrial. Décadas
antes, porém, outra importante áre de atividade britãnica
atrairia os irlandeses em busca de emprego: a indústria naval.
Nos grandes
estaleiros de Liverpool e Belfast, os
operários irlandeses construíam os poderosos navios que
fariam da Marinha Britânica a formidável força dominante
no cenário internacional. A tripulação desses navios
também era, em grande parte, composta por filhos da Irlanda - tanto
na marinha mercante quanto nas poderosas naus militares que garantiam
a união e a expansão do Império Britânico.

Ilustração de 1824 retrata o lançamento
do vapor Aurora em Belfast.
Se as naus
britânicas construídas e triopuladas por irlandeses interligavam
os territórios do Império em todos os continentes, a administração
desses territórios também estava, em grande parte, nas mãos
de irlandeses - tanto nos escritórios de burocratas (uma minoria)
ou, na esmagadora maioria dos casos, nos canteiros de obras de ferrovias,
edifícios, estradas e feitorias que o Império levava às
suas colônias. Mas era nos campos de batalha - na defesa e expansão
do Império Britânico - que a contribuição dos
irlandeses era mais perceptível.
Irlandeses
lutando pelo Império Britânico
"É
uma curiosa contradição - não muito lembrada na Inglaterra
- que durante várias gerações os soldados do exército
britânico eram, em sua maioria, irlandeses".
- Cecil Woodham-Smith, historiadora
britânica
Costumo dizer
que o sangue celta jamais deixará de correr nos irlandeses: a tendência
tipicamente celta de lutar em guerras de outros povos é recorrente
na história da Irlanda - nas Guerras Napoleônicas,
rebeldes irlandeses formaram o "Regimént Irlandaise"
e lutaram a favor do imperador francês - contra os ingleses, vistos
como inimigos comuns.
Mas há
diversos exemplos de irlandeses guerreando a favor do poderoso
Império vizinho - por lealdade ou opressão, os
irlandeses sempre se mostraram valorosos combatentes e são de fato
responsáveis pela construção do Império
Britânico, seja em situação de paz, quando
milhares de operários irlandeses ajudaram a construir ferrovias
e a administrar colônias britânicas nos quatro cantos do mundo
ou nos campos de batalha nas fronteiras do Império, como veremos
abaixo.

Irlandeses
dos Connaught Rangers - regimento conhecido como "The
Devil's Own", ou seja, "(O Regimento) do próprio
Demônio".
Os combatentes irlandeses foram fundamentais na vitória britânica
sobre o Império Napoleônico.
Na imagem acima, durante a sangrenta tomada de Badajoz, Espanha.

Soldados
do Royal Irish Regiment pausam ao lado das pirâmides,
em campanha das forças imperiais britânicas no egito e Sudão.

Os irlandeses dos Royal
Irish Fusiliers e Royal Dublin Fusiliers mostram
sua força no cerco a Pieters Hill, 1900,
nas Guerras Boer (África do Sul).
Estes são
pequenos exemplos de quão importantes foram os soldados irlandeses
para a formação e expansão do chamado Império
Britânico. A seguir, uma lista de alguns de seus mais notórios
comandantes - todos filhos da Irlanda:

Marechal de Campo Sir Hough Gough (1779-1869)
Um verdadeiro mito do
Império Britânico, lutou contra os holandeses na conquista
da Cidade do Cabo e contra as Forças Napoleônicas na Espanha
antes de entrar para a história com suas campanhas na China e na
Índia Britânica. Adorado por seus comandados, Gough costumava
trajar um casaco branco em batalha - para ser facilmente visto ao atacar
o inimigo.
Visconde
Sir Garnet Woseley (1833-1913)
Nascido nas cercanias de Dublin numa família de passado militar,
Woseley alistou-se cedo e logo tomou parte nas constantes guerras de sua
época na distante Birmânia, onde de imediato mostrou sua
coragem, ao comandar, na tenra idade de 20 anos, um pelotão no
assalto de Myat Toon. Posteriormente, seu espírito de comando o
levaria a vitórias na Criméia, na China e na Índia.
Sempre um profissional da arte da guerra, Wolseley saiu em licença
para, em 1862, poder "assistir" à Guerra Civil norte-americana!
Voltaria à América do Norte para suprimir revoltas no Canadá,
e ainda participaria de muitas batalhas na África, no Egito e no
Sudão. Sua brilhante carreira foi coroada com a indicação
pela Rainha Vitória para o posto mais alto do exército britânico
- o de comandante-em-chefe. Deixou como legado uma importante literatura
militar que revolucionou as táticas da época.

Conde Herbert Kitchener (1850-1916)
Talvez o último
general do período "romântico" e seguramente o
último grande militar do Império Britânico, Horatio
Herbert Kitchener, nascido no Condado de Kerry de um pai militar, frequentou
a escola militar de Snadhurst e era um exímio estrategista e cartógrafo.
Serviu nos conflitos no Egito, Sudão, na África do Sul e
na Índia, e foi um dos principais nomes das forças birtânicas
no início da Primeira Guerra Mundial. Era conhecido por sua ferocidade
em combate, e seu carisma e retidão de caráter fizeram dele
um verdadeiro ícone na campanha pelo alistamento das tropas britânicas
para a Grande Guerra.
Como se vê,
é perfeitamente possível - e correto - afirmar que o Império
Britânico, na verdade, foi construído por mãos irlandesas.
Ambiguidade
Mas depois
de tantos séculos de opressão e conflito, como isso seria
possível? Justamente por conta da opressão e da dominação
britânica sobre a Irlanda. Depois de tantos séculos sob o
jugo britânico, os irlandeses ou eram descendentes diretos dos colonos
e administradores ingleses, ou acabavam por perder sua identidade cultural.
Nascidos na condição de serem "britânicos nascidos
na Irlanda", os jovens irlandeses sentiam-se divididos entre a lealdade
ao governo que administrava a Irlanda (Londres) e as tradições
de sua terra natal (Irlanda). A dicotomia é evidente e os traumas
de uma identidade assim dividida são inevitáveis: talvez
por isso que Sigmund Freud teria dito que, "dentre
todos os povos do mundo, os irlandeses são os únicos que
não podem se beneficiar da psicanálise".
À já
mencionada motivação econômica - busca de emprego
- soma-se esta falta de identidade cultural dos irlandeses. Não
era, assim, tão difícil lutar pelo Império - o mesmo
Império que oprimia e controlava a Irlanda. Difícil é
para alguém de fora entender. E a dificuldade vem da eterna ambiguidade
que caracteriza a mente irlandesa desde os tempos celtas: este mundo também
é o outro mundo; o cristianismo incorpora o paganismo celta; o
normando se torna irlandês; o irlandês luta pelo império
britânico; e por aí vai.
Um dos casos
mais dramáticos dessa ambígua relação entre
a Irlanda e o Império Britânico é a fantástica
história de Roger Casement, mais um "britânico nascido
na Irlanda": num curto espaço de tempo, Casemente deixa a
condição de herói do Império para a de desprezível
traidor condenado à morte.

Roger
Casement: Herói Irlandês, Vilão Britânico

Diplomata e
hábil negociador do Império; cavalheiro de virtudes e homem
de fé; pioneiro na defesa dos direitos dos povos nativos da África
e da América do Sul: parece difícil atacar a biografia de
Roger Casement. Com o passar do tempo, todas as susas virtudes seriam
negativadas e sua reputação manchada para além do
túmulo.
Nascido em
1864 nas cercanias de Dublin, Roger Casement logo viu-se órfão
de ambos os genitores, sendo então criado por parentes no Ulster
e recebendo educação no seio protestante da Irlanda.
Como diplomata,
Casement atuou como Cônsul Britânico no Congo,
e ganhou notoriedade ao relatar as terríveis atrocidades
promovidas pela administração do Rei Leopoldo II da Bélgica
no vizinho "Estado Livre do Congo" - uma imensa colônia
de exploração de borracha e cobre que atendia aos interesses
pessoais do criminoso monarca belga.
O que Casement
viu e relatou no Congo era estarrecedor: em pleno século XIX, as
tribos nativas eram forçadas a trabalhar na extração
dos produtos que alimentavam a riqueza pessoal do Rei Leopoldo II e subjugadas
através de torturas, mutilações e amputações
- um regime desumano até mesmo para os padrões da época.
O relatório de Casement foi fundamental para que outras nações
intercedessem e tomassem de Leopoldo II o controle sobre o Congo, que
passou a ser administrado pelo Parlamento Belga como uma colônia,
e não como a propriedade particular de um rei tirânico.

Não
há de ser por coincidência que, após atuar como diplomata
no Congo, então uma das maiores fontes de borracha do mundo, Casement
tenha sido transferido pelo governo britânico para o Brasil
durante o conhecido "ciclo da borracha". Durante sua permanência
no Brasil, Casement é um dos primeiros intelectuais a mencionar
a real origem do nome Brasil: em seus escritos, Casement registrou que,
"o Brasil deve seu nome não à abundância
de uma certa árvore, mas à Irlanda. O privilégio
de dar nome à grande nação sulamericana, creio eu,
pertence tanto à Irlanda quanto à ancestral crença
celta, tão ancestral quanto a própria mente celta."
(veja mais sobre esta teoria aqui)
Após
períodos em Belém e em Santos, Casement (acima, no Guarujá)
assumiu o posto de Cônsul-Geral na então capital, Rio de
Janeiro. Ao integrar uma comissão para estudar denúncias
de escravidão e violência no cultivo e extração
da borracha na Amazônia peruana, Casement viu-se novamente diante
do mesmo cenário tétrico e desumano que relatara no Congo.
E mais uma vez, sua ação como defensor dos direitos das
populações nativas rendeu-lhe o reconhecimento da sociedade
que via no cavalheiresco e altruísta Casement um exemplo de conduta
- que culminou com sua condecoração como "Companheiro
da Ordem de São Miguel e São Jorge" e "Cavaleiro
Celibatário" do Império Britânico. Por
todo o Império Britânico, Casement, o pioneiro na defesa
dos direitos humanos, era um herói nacional.
Duas
Faces do Império
Suas experiências
no Congo e na Amazônia mostram-lhe outro aspecto do imperialismo:
para além do 'progresso' e da administração, o imperialismo
dos belgas no Congo, e britânico na Amazônia (a Peruvian
Amazon Company era britânica) revelaram-lhe as atrocidades
e a violência sofrida pelos povos nativos nas colônias. Como
irlandês, Casement percebeu que a condição da Irlanda
sob o jugo do Império Britânico não diferia muito:
se por um lado a Irlanda não testemunhava mais tortura e atrocidades,
por outro o descaso com que o drama da população irlandesa
foi tratado pelos britânicos durante a "Grande Fome" décadas
antes não devia nada em crueldade ao que Casement testemunhara
no Congo e na Amazônia.
Pouco a pouco,
sua lealdade para com o Império que representava e que lhe adorava
foi sendo por ele mesmo testada e questionada. De volta à Irlanda
em 1913, ele deparou-se com um crescente movimento nacionalista que buscava
o fim da dominação britânica sobre a Irlanda. Ao lado
de outras figuras notáveis irlandesas, Casement ajudou a fundar
o movimento conhecido como "Irish Volunteers",
sendo co-autor de seu manifesto.
Sob o pseudônimo
Shan van Vocht, Casement escreve textos para
o periódico nacionalista "Irish Freedom" - Shan van Vocht
é uma grafia alternativa para Sean-bhean Bhoct, "velha
mulher pobre" - a encarnação da Soberania da
Irlanda na forma de uma Anciã, tão comum nos mitos
celtas da irlanda na forma da Cailleach Bhéirre. Por seu elevado
senso poético, Casement deseja que seus textos sirvgam de porta
voz para que os novos guerreiros irlandeses sejam mais uma vez capazes
de ouvir a voz da terra, como o faziam os nobres guerreiros de outrora,
como o Fionn macCumhaill dos mitos celtas.
Em busca de
apoio para a causa nacionalista irlandesa, Casement emprestou seu prestígio
internacional numa arriscada viagem à América, onde procurou
atrair fundos e simpatia entre os irlandeses e descendentes que haviam
imigrado para os Estados Unidos. Arriscada porque expôs seu envolvimento
com a causa irlandesa: dali por diante, o Império que ele
por tantos anos defendera passaria a vê-lo como um traidor.
Suas ações
seguintes fortaleceriam essa condição: primeiro em 1914,
quando ele patrocina o contrabando de armas de fogo para alimentar os
regimentos nacionalistas irlandeses; e pouco depois quando, às
vésperas da 1a Grande Guerra, propõe uma aliança
entre Irlanda e o inimigo da Grã-Bretanha: a Alemanha kaiserista.
Num encontro
secreto em Nova York, Caement propõe ao diplomata alemão
Conde Von Bernstorff que, se os alemães fornecessem armas
e treinamentos aos revolucionários irlandeses, estes se rebelariam
contra o governo britânico, dividindo a atenção
das tropas do Império que já se preparavam para o confronto
em solo europeu. As negociações se estenderam, e o gesto
mais significativo foi a viagem do próprio Casement para a Alemanha.
O antigo cônsul britânico agora viajava como "embaixador
do povo irlandês", traindo sua nacionalidade legal
britânica em nome de um país que, para todos os efeitos,
ainda não existia.
Traidor
A existência
da Irlanda como nação soberana, o amor por sua terra e seu
horror pelo imperialismo levaram Casement a arriscar tudo: sua reputação,
sua condição de herói, sua carreira, sua vida.
Diplomaticamente,
sua viagem à Alemanha foi um sucesso: Casement conseguiu do governo
alemão garantias de que a Irlanda não seria invadida pelas
forças imeriais alemãs "em nenhuma circunstância".
Um aspecto de sua viagem, porém, não foi tão bem
sucedido. À esta altura a 1a. Grande Guerra já se havia
iniciado: os combates deflagrados faziam muitas vítimas e vários
prisioneiros de ambos os lados. Dada a grande quantidade de prisioneiros
de guerra nas prisões alemãs serem "britânicos
nascidos na Irlanda", Casement tentou recrutar entre esse contingente
desertores que lutassem pela Irlanda contra o Império Britânico
- sem grande sucesso. Afinal, os irlandeses que lutavam pelo Império
Britânico o faziam voluntariamente, e a ideia de se rebelar contra
seus ex-companheiros não lhes pareceu atraente.
E o apoio diplomático
que recebera dos alemães não se materializou no apoio logístico
que Casement ambicionara. Em 1916, somente uma parte das armas que os
alemães haviam prometido embarcou num navio alemão. Ao contrário
do combinado, sem nenhum comandante militar alemão que conduzisse
as forças irlandesas. O fracasso seria ainda mais dramático
quando esse cargueiro alemão (convenientemente disfarçado
de nau norueguesa) foi interceptado e confiscado pela Marinha Britânica.
Nas palavras
do historiador Angus Mitchell, sem dúvida uma
das maiores autoridades na vida de Casement, "o retorno de Casement
à Irlanda não poderia ser mais rico em simbolismo":
antes um herói nacional, Casement retorna a sua terra natal um
traidor do Império; a viagem de volta num submarino alemão
é a metáfora perfeita para suas ações "sob
a superfície" - e seu desembarque solitário
em solo irlandês ecoava a solidão desamparada a que tinha
se atirado em seu fervor nacionalista.

A tripulação do submarino alemão U20 observa o pequeno
bote que levou Casement de volta à Irlanda.
Atualmente, esse bote é uma verdadeira relíquia histórica.
(Arte: Gerry Embleton)
Casement foi
preso pelos britânicos logo após desembarcar, encaminhado
para a temível prisão na Torre de Londres sob a acusação
de "traidor do Império". A princípio, a população
não aceitava que aquele nobre e heróico cavalheiro defensor
dos direitos humanos fosse condenado à morte - até mesmo
alguns setores da sociedade civil inglesa de certa forma apoiavam Casement.
Mas quando o governo britânico publicou o conteúdo de diários
supostamente escritos por Casement durante sua permanência na América
do Sul, a conservadora e moralista sociedade britânica de então
viu-se incapaz de defendê-lo: aos olhos do povo, mais grave do que
a traição política era a revelação
de que Casement seria homossexual.
O conteúdo
dos "Diários Negros" de Roger Casement
revela suas relações homossexuais com jovens sul-americanos.
Poucos anos antes, Oscar Wilde, outro gênio irlandês, fora
condenado à prisão pela Justiça Britânica por
revelar-se homossexual. Wilde saiu vivo da prisão, apenas para
morrer meses depois com o corpo castigado por uma meningite cerebral e
a alma torturada pela humilhação, pela miséria e
pelo encarceramento.

Casement sabia
que este seria seu destino inevitável. Em momento nenhum Casement
pediu clemência ou admitiu as acusações: ao ser julgado
como traidor do Império Britânico, Casement alegou não
reconhecer nem a acusação, nem o tribunal: a seu ver, ele
era um cidadão irlandês e não britânico.
O resultado
inevitável foi sua condenação à forca. Aos
51 anos, no dia 3 de agosto de 1916, Roger Casement foi executado na "Prisão
de Sua Majestade" em Pentonville, Londres.
Um
julgamento, vários subtemas
Obviamente,
o julgamento de uma figura notória como Roger Casement atraiu a
atenção de todo o público - na Grã-Bretanha
e fora dela. Não só pela fama do réu, mas também
pelas posições contrárias que ele gerou. Muitos protestavam
contra o julgamento e pediam clemência - entre estes, intelectuais
de peso como WB Yeats, Bernard Shaw e Conan Doyle (todos irlandeses).
Mas pouco a pouco, a opinião pública ficou contra Casement.

"High Treason" Na pintura de Sir John
Lavery, a desproporcionalidade do apelo de Casement,
um traidor irlandês, diante das figuras agigantadas dos magistrados
britânicos à direita.
Em meio à
turbulência da 1a Grande Guerra, o Império Britânico
não poderia se dar ao luxo de permitir que um traidor fosse condenado
a qualquer coisa menos que a morte. Ao mesmo tempo, esse mesmo Império
Britânico não podia simplesmente condenar um de seus mais
ilustres representantes. O cenário político e as pressões
sociais da época foram determinantes para que o julgamento de Casement
tivesse cores fortes: não era somente um cidadão sendo julgado
porque cometera um crime: no fundo, era todo um Império que tentava
manter-se vivo em meio às atribulações de um mundo
convulsionado pela guerra.
Ao condenar
Casement por traição, a justiça britânica tentava
demonstrar que a Coroa ainda era poderosa; ao revelar sua suposta homossexualidade,
os britânicos tentavam reafirmar as "virtudes" do Império;
e ao enforcar um rebelde irlandês, o Império tentava demonstrar
que ainda sabia "lidar" com as colônias. Para alcançar
seus intentos, o Império não mediria esforços.
Como bem ressalta
o historiador Angus Mitchell, uma das maiores autoridades
sobre a vida de Roger Casement, o mesmo ano de 1916 assistiria a outra
execução "exemplar": a da elefante circense Mary,
condenada à morte pela justiça norte-americana e enforcada
num guindaste de trem por matar seu tratador durante uma parada. Seria
cômico se não fosse tão trágico: em ambos os
julgamentos, não é dada a Casement ou à pobre elefante
a menor possibilidade de defesa: na tentativa de justificar seus desequilíbrios,
a cretinice humana parece de fato não conhecer limites.
Forja
A autenticidade
dos "Diários Negros" de Roger Casement - base
para demolir sua imagem pela acusação de homossexualismo
- permanece em discussão. De fato, a investigação
legal realizada em 2002 que concluiu pela "autenticidade" dos
Diários Negros beira o ridículo: conduzida pelo professor
W.J. MacCormack - declaradamente um anti-irlandês - e com exames
grafológicos superficiais sem levar em consideração
o conteúdo dos textos, o resultado é posto a perder pela
postura tendenciosa dos envolvidos e por ignorar elementos fundamentais
da biografia de Casement e da comparação do conteúdo
dos "Diários Negros" com os seus diários oficiais.
Enterrado em
cal numa vala comum como traidor da Coroa, o corpo de Casement só
seria trasladado para ser novamente sepultado em solo irlandês em
1965, onde recebeu tratamento de herói nacional. Até em
morte, Casement encarnou a Ambiguidade das relações anglo-irlandesas.
Por ocasião
do 5o Simpósio de Estudos Irlandeses na América do Sul
(Curitiba, 2010), numa conversa informal o historiador Angus Mitchell
relatou a história do prato usado por Casement em sua última
refeição na prisão. Desprezado pelos ingleses, esse
prato teria permanecido no porão do pub londrino que preparou a
refeição até ser descoberto por irlandeses que, após
insistirem junto ao proprietário, adquiriram o objeto. Levado
para a Irlanda, o "Prato de Casement' é hoje uma relíquia
quase sacra para os irlandeses; para o proprietário do pub inglês,
era só um prato velho usado por um traidor célebre.
Em seu artigo
"Secular Relics: Casement's Boat, Casement's dish",
a autora norte-americana Lucy McDiarmaid advoga que o
status elevado dos objetos relacionados a Roger Casement são como
uma catarse dos irlandeses para livrarem-se da culpa por permitirem que
Casement fosse aprisionado, condenado e morto pelos britânicos.
Seja como for, Por seus feitos, sua importância e sua vida, Roger
Casement encarna como ninguém a natureza ambígua e complexa
que caracterizou as relações entre a Inglaterra e a Irlanda
durante o Império Britânico.
Por estar aprisionado
em Londres, Casement não teve chance de participar do evento que
um grupo de compatriotas irlandeses deflagaria no dia 24 de abril de 1916
- apenas três dias depois de seu fatídico desembarque no
retorno à Irlanda: o evento que, independentemente do resultado,
muda para sempre a história irlandesa e marca o início do
processo que faz da Irlanda, hoje, uma nação livre e soberana.
Segue
para 1916 - O Levante da Páscoa
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