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Símbolos Partição: Os Conflitos na Irlanda do Norte
Separada do resto da Irlanda pela Partição gerada pelo Tratado Anglo-Irlandês de 1922, a Irlanda do Norte é um retrato perfeito – e triste – dos efeitos trazidos pela interferência desmedida de um império colonizador sobre um povo subjugado. Vimos anteriormente que, desde as invasões dos normandos ingleses, a influência da Inglaterra sobre a Irlanda sempre foi conturbada. Os esquemas de “plantações” de colonos protestantes e a constante opressão aos católicos gerou uma divisão praticamente irreconciliável entre grupos étnicos e culturais muito semelhantes, e o passar dos séculos e o descaso do governo de Londres só fizeram agravar a situação. Com a independência do Estado Livre Irlandês, a região majoritariamente protestante do norte permaneceu fielmente ligada ao Império Britânico. Assim, ao abismo religioso – católicos versus protestantes – alia-se outro abismo: republicanos (que desejavam uma única Irlanda governada por Dublin) versus unionistas (que advogavam a manutenção da união entre a Irlanda do Norte e a Grã-Bretanha). E cada uma dessas “divisões” era, por sua vez, fragmentada em sectos, dissidências, radicais, moderados e outras subdivisões, num caos político que só poderia degenerar em caos social. Apesar de nomes pomposos e da máscara de elevados ideais, o que se via de fato eram gangues que depredavam, saqueavam, destruíam e assassinavam-se umas as outras. A minoria católica viu-se obrigada a se organizar em milícias, e a violência degringolou. A Irlanda do Norte parecia ressucitar uma das mais negativas características da sociedade celta de outrora: a rivalidade e a desunião entre tribos aparentadas, num conflito que se desenhava aparentemente eterno.
Após algumas décadas marcadas por tentativas de se livrar da dominação britânica na Irlanda do Norte através de boicotes, assassinatos de notáveis e sabotagens, o início dos anos 70 assistiu a uma mudança nesse padrão. Ao convocar uma bem intencionada passeata em favor dos direitos civis da população católica da cidade norte-irlandesa de Derry, o parlamentar Ivan Cooper – ele próprio um protestante – acabou por dar origem a uma das páginas mais sangrentas dos tempos modernos. Havia já algum tempo que a população católica de algumas cidades da Irlanda do Norte vinha promovendo marchas e protestos, desafiando o poder britânico. Para por um fim a esses motins, Londres decidiu dar mais uma demonstração de força – e a passeata pelos direitos civis (abaixo) oferecia a oportunidade ideal para essa demonstração.
Cientes do potencial de conflito gerado pela movimentação das tropas britânicas em Derry, os organizadores da passeata - que havia sido declarada "ilegal" pelas autoridades britânicas - optaram por mudar seu itinerário para evitar confrontos. Mas um pequeno grupo de provocadores irlandeses (em sua maioria ligados ao IRA) e os soldados britânicos (já cansados de constantes provocações e agressões menores) trataram de tornar o enfrentamento inevitável. O que se seguiu foi uma verdadeira chacina, com as tropas britânicas indiscriminadamente abrindo fogo pesado contra uma população civil e desarmada. Jovens e idosos, homens e mulheres foram caçados pelos atiradores britânicos. Ao relatar o caso meses mais tarde, o investigador britânico Hubert O'Neill afirmou: “Este domingo passou a ser conhecido como Domingo Sangrento porque sangrento ele foi. Foi tudo desnecessário. Percebo que naquele dia as tropas saíram do controle e atiraram sem pensar no que faziam. Eles atiraram contra pessoas inocentes. A passeata pode até ter sido proibida, mas isso não justifica as tropas abrirem fogo indiscriminadamente. Eu diria, sem hesitar, que se trata de puro assassinato. Foi assassinato.”
Sombras do meu passado pessoal Duas figuras
ainda assombram minhas memórias de menino no final dos anos 1970:
a dos líderes Gerry Adams (católicos) e
Ian Paisley (protestantes). Quase que diariamente, ouvia-se
esses nomes no noticiário televisivo, em trocas de acusações
e vãs justificativas para mais atos violentos. Por anos, esses
dois nomes povoaram minha imaginação, que era ilustrada
pelas terríveis cenas de destruição causadas pelas
explosões de carros-bomba. Mesmo com pouco mais de dez anos de
idade, tudo aquilo ainda é uma sombra na minha memória.
Esse é o alimento dos conformistas: quando nos acostumamos com uma determinada condição, crendo-a perene, a resolução da situação torna-se cada vez mais difícil. Por isso cresci crendo que os conflitos entre católicos e protestantes jamais cessariam na Irlanda do Norte. Em 1996, quando visitei a Irlanda pela primeira vez, não resisti e fui até a fronteira entre as duas Irlandas. Contra a bucólica paisagem da Irlanda rural, os imensos blocos de concreto e as figuras camufladas dos soldados britânicos na fronteira criaram um contraste quase traumático. Para alguém de fora, tudo parece sem sentido – e mesmo para os envolvidos, se algum dia houve algum sentido, este estava perdido após décadas de ódio e violência política, racial e religiosa. Nas palavras de uma amiga irlandesa, “aqui na Irlanda temos os melhores católicos e os melhores protestantes – e juntos, eles são os piores cristãos”. Poético e triste. Perfeitamente irlandês.
O recrudescimento das ações britânicas é típico da frase de Niall Ferguson acima citada: no século XX o Império Britânico perdia sua importância no cenário mundial – o novo império norte-americano é quem ditava as regras após a Segunda Guerra. A independência e a devolução das ex-colônias britânicas seguia o seu ritmo irresistível – África do Sul, Palestina, Iraque, Egito, Índia; menos a Irlanda.
Em 1985, as coisas começaram a mudar. Um novo Acordo Anglo-Irlandês, com a participação dos governos britânico e da República da Irlanda, passava a salvaguardar os direitos das populações tanto católica quanto protestante. Pouco a pouco, a violência diminuía. E veio o golpe fatal no ciclo de agressões - o ato brutal que, pela creualdade, pôs fim ao conflito armado. Em 1998, na pacata cidade de Omagh, um carro bomba plantado pelos terroristas do RIRA (Real Irish Republican Army – mais uma das já ridículas siglas que designavam as dissidências desta ou daquela facção) ceifou a vida de vinte e nove pessoas e feriu outras duzentas. Além do já esperado repúdio de britânicos e irlandeses protestantes, pela primeira vez as lideranças católicas – em especial o já citado Gerry Adams – condenaram abertamente a ação terrorista. De fato, ninguém mais tolerava essa situação. O processo de pacificação da Irlanda do Norte acelerou-se, o IRA depôs armas oficialmente e o antes impensável aconteceu: a Irlanda do Norte está em paz. Através da reabertura de sindicâncias e inquéritos, os britânicos estão reavaliando suas ações naquele pedaço de seu outrora portentoso império. Os esforços de Bill Clinton levaram a um passo ainda mais concreto rumo à paz com o Acordo da Sexta-Feira Santa (ou Acordo de Belfast) de 1998.
A unificação das duas Irlandas não é mais uma possibilidade assim tão remota. Em tempos de União Européia, aliás, em que rivalidades históricas são deixadas de lado em nome da cooperação pacífica, a existência de duas Irlandas é um anacronismo tão vergonhoso quanto o muro que até outro dia ainda dividia Derry em duas. "Fazer
a Paz, eu descobri, é muito mais difícil do que fazer guerra". Como tributo às pessoas inocentes que involuntariamente pagaram com seu próprio sangue para que a paz se torne viável, duas fotos que chocam e nos põem a pensar. Na primeira delas, um pai com sua filha - gente comum, como eu e você – passeiam pelas ruas de Omagh. Posam ao lado de um automóvel vermelho, sem saber que no interior do carro, em segundos, um dispositivo detonaria os explosivos criminosamente plantados por terroristas sem nenhuma dignidade em suas ações. A segunda foto mostra a mesma rua após a explosão. Revelado, o filme no interior da câmera encontrada nos escombros do atentado mostra os últimos segundos das vidas desse pai e dessa criança. Era mesmo hora de dizer chega - o espírito da Irlanda e dos irlandeses merecia um respiro, merecia a prosperidade que só a paz pode trazer - e ela veio.
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