Mitologia Celta da Gália

Mitologia 1.Gália 2.Grã-Bretanha 3.Irlanda

Atualmente abundam registros de escritos em línguas celtas em diversas regiões por eles povoadas. Contudo, os celtas não faziam uso da escrita para registrar seus mitos, tidos por eles como “sagrados demais para serem profanados pela escrita”. Assim, o pouco que sabemos acerca dos deuses e deusas celtas da Gália nos foi transmitido pelos relatos – muitas vezes tendenciosos e preconceituosos – de escritores clássicos como Julio César, Estrabão, Lucano, Plínio, Tácito e tantos outros. Para complicar o nosso trabalho, os autores romanos, no intuito de facilitar a compreensão de seus leitores, valiam-se de um recurso que Tácito chama de interpretatio romana – a ‘interpretação romana’ – dos deuses e deusas celtas, comparando-os aos seus próprios deuses e deusas. O resultado disso é que por vezes deparamo-nos com frases como “os celtas cultuavam Mercúrio acima de todos os deuses” – Mercúrio, neste caso, muito provavelmente refere-se ao deus celta Lugh e não ao próprio Mercúrio/Hermes do mundo clássico.

Seja como for, alguns importantes deuses celtas mencionados pelos escritores clássicos são identificados pelos seus nomes locais, como Taranis (esquerda) - cujos altares espalhados da Grã-Bretanha aos Bálcãs atestam sua importância. Taranis é uma obscura deidade associada ao trovão (em galês e em bretão, ‘trovão’ é taran) e que, se dermos crédito aos textos de Julio César, exigia copiosos sacrifícios de sangue. Quando Lucano o descreve como um “mestre da guerra”, ele o compara ao romano Júpiter – um deus um tanto violento da mitologia clássica. Ao lado de Esus e Teutatis, Taranis é listado como os três principais deuses da Gália. Sobre Esus, podemos afirmar pouco: apesar do status importante a ele atribuído por Lucano, parece mais provável que Esus fosse um deus tutelar da tribo celta que levava seu nome: os Esuvii. Este parece ser também o caso de Teutates, cujo nome (Teuto-valos) significa literalmente “deus da tribo”. A visão de que cada tribo celta possui sua própria deidade tutelar ajuda a explicar o extraordinário número de deidades celtas reconhecidas. Mas Teutates possui uma distinção: um templo da Bretanha romana ostenta o nome Mars Teutates, o que o põe em ligação direta com a figura do Marte romano, deus das artes da guerra. Outro importante deus da Gália continental é Belenos, deidade associada ás águas curativas e, por seu nome (Bel = brilhante), também ao sol - associação comprovada num templo na Escócia dedicado a Belenos com a inscrição “Apollini Granno” – Apolo é o deus solar greco-romano, e Granno contém a partícula lingüística grian – irlandês para “sol”. A deusa Belisama é por vezes descrita como sendo esposa de Belenos, mas não há evidências mitológicas a comprovar tal tese. Belisama também era associada a águas curativas, o que pode fornecer pistas sobre seu culto – Ptolomeu inclusive indica um rio na Grã-Bretanha com o nome de Belisama.

Os registros históricos também mencionam Sucellos (à direita, ao lado da deusa Nantosuelta), “aquele que golpeia bem” – uma figura bastante viril, portanto um grande martelo e que costuma aparecer ao lado de Nantosuelta – uma deusa gaulesa associada ao corvo e à prosperidade – e, portanto, facilmente identificável com a irlandesa Morríghan). Por falar em associações com a Irlanda, um dos casos clássicos de deidades pan-célticas é Lugos, conhecido na Irlanda como Lugh e cuja importância é atestada pelas muitas cidades que levam seu nome: Lyon na França (Lugdunum), Leyden na Holanda, Leon na Espanha, Liengnitz na Áustria, Dinlleu no País de Gales, Luguvalium, atual Carslile na Inglaterra. Lugos é o deus gaulês cujo nome a interpretatio romana omite ao compará-lo a Mercúrio. Já Sequana, deusa tributária do rio Sena, era imensamente popular na Gália, a ponto de até mesmo os conquistadores romanos dedicarem-lhe dois grandes templos. Sequana era uma deusa da cura, como atestam as oferendas votivas de partes de corpo que os seus suplicantes desejavam ver curadas – exatamente como ocorre ainda hoje em diversos templos cristãos.

Outra deusa bastante benéfica é Rosmerta, cujo nome pode ser traduzido como “A Grande Provedora”. As imagens do período galo-romano mostram-na com atributos clássicos da fertilidade – como a cornucópia, cestos de frutas e o caduceu de Mercúrio – deus que, por vezes, surge ao lado dela em estatuária. Epona (esq.), cujo nome pode ser traduzido como “Égua Sagrada”, é a deusa gaulesa que mais possui inscrições e estátuas encontradas. Costuma ser representada montando um cavalo, na companhia de outros animais, notadamente um potro, um cão e uma ave. Sua característica proteção dos eqüinos fez dela uma das principais deidades da cavalaria romana, que prontamente a adotou, a ponto de ela passar a fazer parte do panteão romano, tendo inclusive um dia determinado para ser celebrada: 18 de dezembro. Entre os celtas insulares, ela foi associada à britânica Rhiannon e possui evidentes ligações com a irlandesa Macha. Uma tribo celta da Escócia, os epidii, podem a ela estar associados.

Taruos Trigaranos (dir.), o “Touro com Três Garças”, é outra deidade bastante intrigante da Gália celta: seu culto parece estar associado aos mistérios do outro mundo, como implica a figura das garças, bem como à fertilidade da terra associada ao touro. A catedral de Notre Dame de Paris foi construída exatamente sobre um local destinado a seu culto, como comprova a estátua encontrada sob a catedral em 1711.

Foi também em Paris que foi encontrada a imagem da talvez mais importante deidade celta continental: Cernunnos (abaixo), o “Deus com Chifres” – senhor das forças da natureza, das florestas, dos animais, da fertilidade e da prosperidade. Seu culto é comprovado por achados arqueológicos que vão das ilhas britânicas ao leste europeu. Sua imagem mais conhecida é a que estampa o caldeirão de Gundestrup.

Na imagem ali apresentada, Cernunnos possui chifres de gamo e senta-se em meio a diversos animais numa posição semelhante à ‘posição de lótus’ das práticas orientais. Um selo milenar da cultura de Mohenjo-daro, na Índia, traz uma representação de Pashupati, “pai dos rebanhos” – também conhecido como proto-Shiva e senhor dos animais sentado de forma semelhante, ostentando chifres (de bovino) e também ele rodeado de animais. As semelhanças parecem apontar para uma origem comum tanto a celtas quanto a indianos – origem atestada pelos estudos indo-europeus. Com base nisso, não é difícil intuir que, se a espiritualidade dos celtas não tivesse sucumbido às influências de Roma e do cristianismo, possivelmente ela teria se desenvolvido em paralelo com o hinduísmo, obviamente diferenciando-se desse pelo colorido cultural de uma paisagem e uma sociedade diferentes, mas preservando em sua essência a mesma profundidade filosófica e comunhão com o universo do hinduísmo que hoje tanto inspira e atrai os ocidentais.

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