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Quando os romanos travaram contato com as tribos celtas do norte da ilha britânica notaram seu hábito de pintar seus corpos com tatuagens, de onde o termo picti – literalmente, “homens pintados”. Essa palavra passou a designar os pictos, como ficou conhecido o povo da região, e também está na raiz do nome Bretanha, como mostram as palavras usadas para designar esse povo nos idiomas gaélico – cruithne – e britônico – pretani. (É muito importante, para quem estuda a história das ilhas, diferenciar os termos ‘britânico’, ‘britônico’ e ‘bretão’ – para não mencionar a costumeira confusão entre britânico e inglês.)
Os celtas que os romanos encontraram nas terras britânicas eram aparentados dos gauleses, como comprovam nomes de diversas tribos celtas encontradas em ambos os territórios (caso dos Parisi e dos Belgae, por exemplo). Como conseqüência óbvia, a mitologia celta britânica apresenta algumas semelhanças, e muitos das deidades mencionadas na página anterior também eram cultuadas na Grã-Bretanha. Entretanto, o isolamento cultural de algumas regiões, notadamente das terras que hoje formam o País de Gales, preservaram melhor alguns mitos e lendas dos celtas insulares. Um conjunto de lendas coletivamente conhecidas como “Os Quatro Ramos das Histórias da Juventude” forma a principal fonte da literatura celta da Grã-Bretanha: Pedair Cainc y Mabinogi ou, simplesmente, o ‘Mabinogion’.
Os
manuscritos foram compilados por volta do séc. XII, mas seguramente
o conteúdo das lendas remete a eras anteriores, em que tais lendas
eram transmitidas exclusivamente pela tradição oral. Compõem
o Mabinogion os quatro ramos a que se refere o nome completo – “Pwyll,
Príncipe de Dyfed”, “Branwen, Filha de Llyr”,
“Manawydan, Filho de Lyr” e “Math, Filho de Mathonwy”
– bem como outros textos: “A Aventura de Llud e Llefelys”,
“Culhwch & Olwen” (dir.), “O Sonho de Macsen
Wledig”, “O Sonho de Rhonabwy” e lendas envolvendo figuras
importantes, como Peredur, Owain e Taliesin. A seguir, uma breve introdução
aos temas de cada ramo de Pedair Cainc y Mabinogi.
Preimeiro Ramo: Pwyll, Príncipe de Dyfed
Pwyll
é o príncipe da região de Dyfed. Durante uma caçada,
ao se separar de seus companheiros, Pwyll vê um gamo sendo perseguido
por uma matilha de cães brancos de orelhas vermelhas – as
cores dos animais divinos nas lendas celtas. Ao afugentar a matilha, surge
a figura do proprietário dos cães: Arawn, Senhor do Outro
Mundo, que lhe repreende por sua falta de cortesia. Para remediar a situação,
Arawn propõe que ele e Pwyll troquem de lugar por um ano, um assumindo
a forma do outro. Sem saber das implicações que tal troca
acarretaria, Pwyll aceita o acordo, e se vê envolvido numa disputa
entre literalmente do Outro Mundo, tendo de derrotar Hafgan – um
rival de Arawn – em combate individual. Ao término do perído
de um ano, Pwyll e Aran voltam a suas formas reais e reassumem seus reinos,
satisfeitos com o desempenho um do outro. Em recompensa por seu bom desempenho
como rei do Outro Mundo, o mortal Pwyll agora recebe o título de
Pwyll Pen Annwfn – Pwyll, Regente do Outro Mundo. Não muito
tempo depois, Pwyll novamente se vê às voltas com seres divinos
– desta vez uma linda mulher que lhe surge trajando vestes douradas
e montando um corcel branco, dizendo-se por ele apaixonada: seu nome é
Rhiannon, (mais uma deusa associada a eqüinos). Apesar de ela estar
prometida para outro homem, Gwawl, eles iniciam seu romance e, graças
ao uso de uma bolsa mágica por ela ofertada a Pwyll, conseguem
se livrar de Gwawl. Da união de Pwyll e Rhiannon nasce o garoto
Gwri, que some misteriosamente do castelo e só se reúne
a seus pais tempos depois, recebendo então o nome de Pryderi. Pryderi
viria a ser o único personagem a estar presente em todos os quatro
ramos do Mabinogi e séculos mais tarde seus mitos formariam a base
do personagem arthuriano Perceval.
Segundo Ramo: Branwen, Filha de Llyr
Bendigeid
Bran (Bran, o Abençoado) é o gigantesco e poderoso rei da
Ilha dos Poderosos (Grã-Bretanha). Para fortalecer uma
aliança com Matholwch, rei da Irlanda, fica decidido que a irmã
de Bran, Branwen, se casaria com o rei irlandês. Logo de início,
as traquinagens de Efnisien, o maligno meio-irmão de Bran e Branwen,
quase geram um confronto: às escondidas ele mutilara os cavalos
do rei irlandês e, para compensar, além de repor os cavalos
e oferecer ouro e prata, Bran também dá a Matholwch um caldeirão
mágico – tema recorrente nos mitos celtas – capaz de
restaurar a vida de guerreiros mortos. Com o passar do tempo, Branwen
passa a ser hostilizada e humilhada pelos irlandeses, e é rebaixada
de rainha a cozinheira. Para livrar-se de sua condição,
ela treina um estorinho (dir.) que leva notícias suas
até seu irmão Bran. Enfurecido, Bran parte com suas hostes
através do Mar da Irlanda, numa expedição punitiva
que, após mais traições de Efnisien, acaba num massacre
em que perecem todos os irlandeses e somente sete galeses sobrevivem –
dentre eles, Pryderi, Bran e seu irmão, Manawydan. Por se sentir
responsável por tamanha destruição, Branwen morre
com o coração partido. Bran, mortalmente ferido, pede para
seus companheiros que cortem sua cabeça para que ela não
morra e possa oferecer-lhes companhia e orientação um pouco
mais. Mais tarde ela seria enterrada, de acordo com suas próprias
instruções, sob uma colina para que dali pudesse para sempre
proteger as terras da Grã-Bretanha.
Terceiro Ramo: Manawydan, Filho de Llyr
Depois
de suas desventuras na Irlanda no Segundo Ramo, Manawydan e Pryderi casam-se
– Manawydan com Rhiannon (esq.), mãe de Pryderi,
e este com uma jovem chamada Cigfa. Os casais vivem em paz durante algum
tempo, até que uma bruma misteriosa traz seca e desolação
a suas terras. Eles partem para o reino vizinho de Lloegyr (Inglaterra),
onde prosperam como artesãos em couro e sapateiros. Os comerciantes
locais se enfurecem e, para não causarem problemas, Pryderi e Manawydan,
acompanhados de suas esposas, optam por retornar para suas terras no País
de Gales e viver da caça. Numa caçada, eles seguem um javali
de branco resplandecente até um palácio, onde Pryderi e
sua mãe desaparecem. Manawydan assegura a Cigfa que vai cuidar
dela e que resgatarão seus esposos. Isso só viria a ocorrer
muito tempo depois, quando surge Llwyd, amigo do Gwawl que fora humilhado
por Pwyll no primeiro ramo, revela que tanto o desaparecimento de Pryderi
e Rhiannon quanto as pragas que afetavam as terras deles eram formas de
vingança pelo ocorrido anterioremente. Após seu reencontro,
os casais Manawydan e Rhiannon e Pryderi e Cigfa vivem novamente em felicidade.
Quarto Ramo: Math, Filho de Mathonwy
Gwydion,
um mago, é sobrinho de Math, rei do norte do País de Gales.
Para satisfazer os desejos de seu irmão Gilfaethwy, que ama a bela
Goewin, ele provoca a guerra entre o reino de Math e o reino ao sul, governado
por Pryderi – afinal, a jovem Goewin tinha a função
real de segurar os pés do rei durante todo o tempo, a não
ser quando ele estivesse em batalha. Infelizmente, porém, todo
esse esforço foi em vão: a bela Goewin não se interessa
por Gilfaethwy, o qual acaba por forçá-la. Independentemente
disso, a guerra seguia seu curso, e só acaba quando Gwydion mata
Pryderi em combate individual. Para salvar a honra de Goewin, Math casa-se
com ela e lança sobre os irmãos Gwydion e Gilfaethwy um
encantamento que os transforma sucessivamente em casais de gamos, porcos
e lobos, gerando filhotes em cada período. Após os três
anos de encantamento, voltam às formas humanas e retornam à
corte de Math, quando Gwydion sugere que sua irmã Arianhrod substitua
Goewin como a virgem que segura os pés do rei. Mas Arianrhod não
passa no teste de virgindade de Math, e acaba por gerar dois filhos: Dylan
– o mar – e outro garoto, que é criado pelo próprio
Gwydion contra a vontade da mãe, que amaldiçoa aquele filho
indesejável dizendo que ele jamais receberia um nome, seria armado
cavaleiro ou teria uma esposa a não ser que fossem concedidos por
ela própria. Graças às artimanhas de Gwydion, o garoto
viria a receber um nome de sua mãe: Lleu Llaw Gyffes “O Belo
com a Mão Certeira” – num momento de crise é
a própria Arianrhod que lhe dá armas para defender seu palácio
e por fim, a questão da esposa é resolvida quando, através
de sua magia, Gwydion e Math produzem uma esposa para Lleu com flores:
seu nome, Blodeuwedd, significa literalmente ‘rosto de flores’.
Após um começo de casamento apaixonado, Blodeuwedd trai
Lleu com Gronw Pebyr. O casal adúltero planeja matar Lleu e quase
têm sucesso – mas quando Lleu é golpeado na única
situação que lhe poderia tirar a vida, ele assume a forma
de uma águia e desaparece. Math e Gwydion se dispõem a retificar
a situação e, novamente através da magia –
desta vez usando uma vara mágica -, Gwydion restaura Lleu a sua
forma humana. O processo inverso é feito com Blodeuwedd que, para
pagar por seu adultério, é transformada numa coruja para
que nunca mais seu rosto seja visto à luz do dia. A Lleu também
é consentido o direito de vingar-se de Gronw, o que ocorre quando
Lleu atira-lhe uma lança com tamanha força que esta trespassa
a pedra atrás da qual Gronw se ocultara e matando-o instantaneamente.
Após isso, Lleu volta a prosperar em suas terras.
As demais lendas presentes em Pedair Cainc y Mabinogi nos apresentam diversos personagens importantes que viriam a sobreviver em outras formas nas muitas lendas medievais que narram os feitos de Arthur, Rei dos Bretões, e seus nobres cavaleiros.
‘Arthuriana’

Descrito por estudiosos como “o principal mito do Ocidente”, as lendas do Rei Arthur (coletivamente conhecidas como Arthuriana) são extensas e complexas versões de diversas fontes originais, especialmente as lendas celtas da Grã-Bretanha – e alguns elementos podem ser encontrados também na Irlanda. Para compreender o mito de Arthur, é preciso lembrar que muitas personagens lendárias das mais diferentes mitologias têm origens em fatos reais realizados por pessoas mortais que, com o tempo, são revestidos por uma aura mítica – nas palavras de J.R.R. Tolkien, há, sempre houve e sempre haverá um ‘caldeirão mitológico’ no qual fervem os mitos e lendas de todas as culturas do mundo. De tempos em tempos, personagens mortais são nele mergulhados e recebem uma carga divina.
“Parece claro que Arthur, a um tempo histórico (e talvez dessa forma sem grande importância) também foi mergulhado no Caldeirão, onde cozinhou por um longo tempo, juntamente a muitas outras figuras e temas, mitológicos e divinos, e até mesmo outros pedaços perdidos da história (como a defesa do rei Alfredo contra os dinamarqueses) até que surgisse como Rei Divino.”
- JRR Tolkien
Assim, ao líder guerreiro descrito por Gildas no início do século VI somaram-se diversas outras lendas e histórias que terminaram por formar o mito arthuriano como o conhecemos. O sucesso das histórias do Rei Arthur e a posterior agregação de outros temas originalmente não relacionados se deve em grande parte, como propõe a psicologia, à imagem arquetípica do ‘Rei Sacerdote’, o monarca salvador que representa e encarna seu povo trazendo sucesso para seus súditos, fertilidade para sua terra e prosperidade para seu reino. O nome Arthur vem da fusão dos vocábulos galeses arth, ‘urso’, e gwr, ‘herói’. Portanto, Arthur é o “Herói Urso” – como dito anteriormente, um exemplo clássico do totemismo entre os celtas. Para uma apreciação mais profunda da importância de Arthuriana para a alma ocidental, veja o texto referente em “Herança Cultural Celta – Espiritualidade” (em breve).
Muitos elementos que compõem o ‘caldo’ mitológico de Arthur podem ser encontrados nas lendas da ilha vizinha á Grã-Bretanha: a Irlanda.
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