Mitologia Celta da Irlanda

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A contínua história de isolamento da ilha da Irlanda revelou-se a um só tempo uma maldição e uma bênção para a cultura celta naquelas terras. Livre da influência romana e em tempos de cristianismo longe do controle do Vaticano, a Irlanda conseguiu preservar com muito mais riqueza de detalhes os mitos e lendas dos celtas.
Conhecida pelos gregos como Ierne e pelos romanos como Hibernia ou Scotia – nome que certamente gera alguma confusão com a moderna nação escocesa– a Irlanda recebeu os primeiros povos celtas no último milênio a.e.a.. Seus antigos habitantes haviam deixado um maravilhoso legado de estruturas megalíticas e complexos como os de Newgrange, Knowth e Dowth, os quais posteriormente foram incorporados às lendas e mitos celtas. Podemos especular que muitas das deidades celtas a povoar sua mitologia também tenham sua origem – ainda que apenas parcialmente – nos mitos e lendas desses primeiros habitantes, como costuma ocorrer sempre que uma nova cultura se estabelece numa região.

Já sabemos que os celtas não costumavam escrever seus mitos, preservando-os vivos através da tradição oral de seus bardos, poetas e druidas. A chegada da escrita à Irlanda ocorreu com os primeiros monges cristãos – sabidamente oriundos da classe de bardos e druidas. Não demorou muito para que, de posse da nova técnica da escrita, esses primeiros monges registrassem muitos de seus mitos e lendas para que as gerações futuras pudessem conhecê-los, estudá-los e, por que não, restaurá-los como fontes tão válidas e inspiradoras quanto quaisquer outros textos sagrados como o Talmud, o Corão, o Bhaghavad Gita ou o Novo Testamento. (ao lado, trecho de manuscrito conhecido como Livro de Leinster)

Muitas vezes deparamo-nos com narrativas irlandesas sendo descritas como ‘pseudo-história’ – como se um mito precisasse do suporte histórico para ser válido. Apesar das poucas – e questionáveis – evidências históricas da existência de um líder espiritual chamado Jesus na Galiléia de dois mil anos atrás, ninguém questiona a valia do cristianismo ou trata os relatos do Novo Testamento como ‘pseudo-história’. Curiosamente, os textos da Irlanda celta relatam fatos e eventos que estudos modernos comprovam estarem fundamentados em fatos reais – como a migração de tribos celtas à Irlanda a partir da Península Ibérica, ou no exemplo de Arthur acima citado. Seja como for, a mitologia celta irlandesa é vigorosa e oferece uma fonte inesgotável de lendas, poemas e contos inspiradores.

Para fins de estudo, a mitologia celta irlandesa costuma ser dividida em quatro ciclos:

1. Ciclo Mitológico;
2. Ciclo do Ulster;
3. Ciclo Feniano;
4. Ciclo dos Reis.

Ciclo Mitológico

A este grupo pertencem alguns dos mais importantes relatos mitológicos da Irlanda celta – o maior de todos sendo, sem dúvida, o Léabhar Gábhala na hÉireann (literalmente “Livro das Tomadas da Irlanda”), mais conhecido como ‘Livro das Invasões’. Trata-se de uma intrincada narrativa que descreve as sucessivas chegadas de povos míticos às terras irlandesas. A primeira ‘invasão’ é liderada pela rainha Cesair que, acompanhada por um pequeno contingente, chega a Inis Fáil (‘Ilha do Destino”, outro nome para a Irlanda) e tenta povoá-la, sem muito sucesso. Seguem-se os Partholonianos, assim chamados graças a seu líder, Partholon e oriuondos do lerste do Mediterrâneo (Bálcãs?). Os Partholonianos se mostram hábeis colonizadores, introduzem a agricultura e a pecuária, as artes metalúrgicas e outras formas de artesanato, a medicina, desenvolvem leis e introduzem a confecção de cerveja à Irlanda (algo que se tornaria uma tradição). Malaliach, o primeiro a produzir cerveja, é também o primeiro a valer-se de técnicas divinatórias na Irlanda - o que comprova a sacralidade do consumo de bebidas fermentadas como formas de se atingir o êxtase ritual que permite o contato com os deuses (‘divinação’, do latim divinatio/divinare, ‘falar com os divinos’). Os Partholonianos são também os primeiros a precisar enfrentar os temíveis Fomoire (ou Fomorianos), um povo de piratas e saqueadores de que falaremos mais a seguir. Segundo o texto, uma praga levou todos à morte no breve período de uma semana.

O Povo de Nemed (esq.), ou simplesmente os Nemedianos, são os próximos a aportarem em terras irlandesas, vindos por mar desde a Cítia. Liderados por Nemed, contavam entre eles o druida Míde, o primeiro a acender uma fogueira sagrada na Irlanda na colina de Uisnech – o centro que unia as quatro províncias da Irlanda celta. Uma fogueira acesa no centro cósmico da Irlanda é algo de grande importância espiritual, e as escavações na colina revelaram grandes quantidades de cinzas – de fato, Uisnech era usada pelos celtas como centro dos fogos de Beltaine. Por três vezes em sua história, os Nemedianos conseguem repelir as hostes invasoras dos Fomorianos. Na quarta batalha, contudo, a raça de piratas leva a melhor e obriga os Nemedianos a pagar um pesado tributo anual, durante o período de Samhain. A tantativa de se livrar dessa opressão fracassa, e os Nemedianos são massacrados – os poucos sobreviventes espalham-se pelo continente europeu. (Alguns historiadores - como T. O’Rahilly -identificam nos Nemedianos elementos que os associam aos Érainn, um dos primeiros povos a historicamente colonizar a Irlanda, por volta de 500 a.e.a.). Após a destruição dos Nemedianos, a Irlanda fica sob o controle dos violentos Fomorianos, uma raça terrível de deuses piratas.

Algumas gerações depois, chegam à Irlanda os Fir Bolg, literalmente os “Homens de Builg”. Os Builg são uma variação da tribo celta histórica dos Belgae, que povoaram áreas no sul da Irlanda, na Inglaterra e no continente europeu, no território que até hoje recebe seu nome – a Bélgica. Mitologicamente, os Fir Bolg descendem de Starn, um dos filhos de Nemed – portanto, não eram desconhecidos na Irlanda, mas sim uma nova leva de invasores Nemedianos, que voltavam para a Irlanda fugindo de opressão nas terras gregas onde originalmente habitavam. O Livro das Invasões explica que são os Fir Bolg a trazer armas de ferro pela primeira vez à Irlanda, e que o reinado de Eochaid mac Eirc é justo e próspero. È o Rei Eochaid que determina que as colheitas serão anuais – uma conexão clara com o desenvolvimento da agricultura. O fato de sua esposa Tailtiu ser uma deusa ctônica é outro ponto que mostra a ligação dos Fir Bolg com o desenvolvimento agrícola (Posteriormente, Tailtiu será a mãe adotiva de Lugh, um dos principais deuses celtas). Curiosamente, durante o período de ocupação dos Fir Bolg, os sempre terríveis Fomorianos não são mencionados. Quem viria a interromper a dominação Fir Bolg seria os mais formidáveis invasores da Irlanda: os Tuatha de Danann.

Lugh, Manannan mac Lír, Brighid, Morríghan, Dagda, Nuada, Ogma, Angus Óg, Bóann – quem se interessa por mitos e lendas celtas certamente já viu ao menos alguns desses nomes antes. São os mais importantes deuses e deusas da mitologia celta irlandesa, seres poderosos, divinos, passionais, carismáticos. Oriundos de quatro cidades míticas – Falias, Findias, Gorias e Murias – de onde trazem quatro tesouros (cada um associado a um dos quatro elementos), os Tuatha de Danann chegam à Irlanda vindos do Oeste – a direção do Outro Mundo – em navios mágicos envoltos por uma bruma que eclipsa o sol por três dias. São eles a introduzir na Irlanda o conhecimento druídico (draíocht), bem como a criação de suínos. Eles derrotam os Fir Bolg na Primeira Batalha de Moytura, e depois, sob a liderança de Lugh Lamfhóta, finalmente repelem os temíveis Fomorianos de uma vez por todas na Segunda Batalha de Moytura, estabelecendo uma ‘era dourada’ de paz e prosperidade durante a qual reina a magia e a força desses deuses e deusas. Uma dessas deusas é Ériu, que dá seu nome até hoje à República da Irlanda – Éire. A chegada dos Milesianos, um grupo de mortais liderados por Mil Espáine, põe fim ao domínio dos Tuatha de Danann que, dali por diante, passam a habitar as colinas ocas e/ou as ilhas paradisíacas a oeste da Irlanda – entre elas, Emain Ablach, a “Fortaleza das Macieiras” (associada à Avalon Arthuriana) e a “Ilha dos Abençoados”, Hy Brasil.

De forma grosseira, podemos dizer que os Tuatha de Danann deixam de habitar este mundo e passam a viver noutra dimensão, mais sutil, espiritual – mas ainda em contato com esta realidade. Prova disso é sua habilidade de transitar entre nós, mortais, graças ao encantamento conhecido como féth fiada (‘maestria das brumas’) ou ceo druídecta, o ‘fog druídico’, através do qual o ‘usuário’ fica invisível ou assume a forma de um animal – xamanismo novamente.

Os Milesianos são a última onda migratória a se assentar na Irlanda. Após derrotarem os poderosos Tuatha de Danann, o povo liderado por Mil Espáine se estabelece nas terras irlandesas e encerra o “Livro das Invasões”. De todos os fatos narrados no texto mitológico, a invasão dos milesianos parece ser a que mais possui equivalência histórica, por sua associação com os Goidels, ancestrais dos modernos irlandeses. Segundo o Livro das Invasões, os Milesianos vêm da Cítia e se instalam na Península Ibérica, na região onde hoje fica a cidade portuguesa de Bragança (Trás-os-Montes, uma área rica em vestígios da ocupação celta pré-romana). De lá, partem para a Irlanda, onde aportam durante Beltaine, após demonstrarem grande conhecimento de magia. Um dos mais belos exemplos dessa magia é o poema recitado por Amergin, o primeiro bardo da Irlanda, ao desembarcar.

Sou o vento que sopra sobre o mar;

Sou a onda das profundezas;

Sou o rugido do oceano;

Sou o Gamo de Sete Batalhas;

Sou um falcão no penhasco;

Sou um raio de sol;

Sou a mais verdejante das plantas;

Sou um javali em fúria;

Sou um salmão no rio;

Sou um lago na planície;

Sou uma palavra de Sabedoria;

Sou a ponta de uma lança;

Sou a fascinação para além dos confins da terra;

Como os deuses, posso mudar de forma.

Conhecido como a Canção de Amergin, esse poema é uma ode à Natureza - tão nobre e inspirador quanto os textos sagrados hindus. Parafraseando Peter Beresford-Ellis, “nesta canção, Amergin une o universo a seu próprio ser, num pensamento filosófico que remete à declaração de Krishna no Bhagavad Gita hindu”.

Assim como os textos mitológicos indianos estão repletos de referências históricas e vice-versa, também na Irlanda celta o mesmo se aplica. Por analogia, se Shiva, Sarasvati, Ganesh e outas deidades hindus são ainda hoje cultuadas após a restauração do hinduísmo nos últimos séculos, também os deuses e deusas celtas permanecem vivos nos corações, nas mentes e nas almas dos que procuram restaurar a mitologia/espiritualdiade celta como fonte coerente e válida de inspiração para nossas vidas.

Ciclo do Ulster

A Irlanda celta era dividida em cinco províncias: Leinster, a leste; Munster, ao Sul, Mídhe, no centro; Connacht no oeste, e Ulster ao norte. Daquela região nos chegam as lendas e feitos de heróis como Cuchulainn (dir.), Conchobhar mac Nessa e Fergus mac Róich, poderosas mulheres como Macha, Maedbh e Fedelm, e a trágica história de amor de Deirdre dos Pesares. Menos divino do que o Ciclo Mitológico, o Ciclo do Ulster – também conhecido como Ciclo do Ramo Vermelho – tem seus primeiros registros por escrito datando do século VIII, e muitos fatos e personagens foram preservados também no folclore da Irlanda, da Ilha de Man e da Escócia. A magia é uma característica constante: humanos assumem a forma de animais e interagem com os divinos Tuatha de Danann. Os hábitos e costumes relatados fornecem um retrato bastante claro dos valores dos celtas da Irlanda: sociedades guerreiras em busca de prestígio e ascensão, mulheres e homens em paridade, riqueza representada pela posse de gado, heroísmo individual e irmandade tribal.
Alguns dos textos mais importantes do Ciclo do Ulster são: “O Banquete de Bricriu”; “A Destruição da Pousada de Da Derga”; “A Doença de Cuchulainn e o Único Ciúme de Emer” e, principalmente, “O Roubo de Gado de Cooley” ("Táin Bó Cuailgne"), onde vemos a saga de Cuchulainn como o guerreiro irlandês por excelência.

Ciclo Feniano

Como diz o próprio nome, este grupo de lendas, poemas e contos apresentam as aventuras dos Fianna Éireann, um mítico grupo de guerreiros liderados pelo herói Fionn mac Cumhaill. Os relatos apresentam diversos fatos históricos que retratam a transição da religião celta para o cristianismo, especialmente no “Colóquio dos Anciães”, em que Oisín, filho de Fionn, argumenta com São Patrício a favor da antiga religião, enaltecendo suas virtudes: a coragem, a generosidade, a hospitalidade e a liberdade da sociedade celta original. Também as lutas entre tribos celtas do sul e do Oeste da Irlanda são retratadas. Assim como no Ciclo do Ulster, as lendas do Ciclo Feniano estão repletas de eventos mágicos e contatos com deuses ancestrais. Além de “O Colóquio dos Anciães”, dois outros textos significativos são “Os Feitos de Fionn na Infância”, que relatam como ele se tornaria o grande guerreiro e sábio que é, e a história de amor “A Perseguição de Diarmuid e Gráinne”, que pode ser identificada como uma das mais remotas raízes para o clássico “Romeu e Julieta” de Shakespeare.

Ciclo dos Reis

Descrito como “menos mágico do que o Ciclo Mitológico, menos heróico do que o Ciclo do Ulster e menos romântico do que o Ciclo Feniano” (James MacKillop), o Ciclo dos Reis retrata os feitos de diversos reis históricos de pequenos reinos locais da Irlanda. É importante alertar que a palavra “rei” no sentido celta é bem diferente da visão moderna do déspota plenipotenciário ou da figura alegórica que caracterizam os reis no imaginário popular de nossos dias. O rei celta deveria ser “física, mental e espiritualmente íntegro”, pois de seu casamento simbólico com a Soberania do Reino dependia a prosperidade da terra e de seu povo. Os reis celtas costumavam ser escolhidos não por sua linhagem, mas por seu valor e sabedoria – o que não impedia o estabelecimento de famílias reais que deram origens à visão da liderança dos clãs. A própria palavra ‘clã’ vem do irlandês clann, literalmente, ‘família’ – não a família nuclear que conhecemos, mas a família estendida, a tribo. É o que vemos em Baile in Scáil, “O Êxtase Poético do Espectro” no qual o ‘espectro em questão é ninguém menos que o poderoso deus Lugh surge ao lado de sua esposa, a Donzela da Soberania da Irlanda, diante do rei Conn “das Cem Batalhas” para lhe oferecer a taça com a cerveja vermelha da Soberania – um tema intimamente associado à imagem do Graal arthuriano. A pergunta que o cavaleiro Perceval deveria ter feito ao Rei Pescador no romance medieval Persival – “a quem serve o Graal?” – surge nesta lenda irlandesa anterior e pouco conhecida: ao ofertar o cálice com a cerveja vermelha a Donzela da Soberania pergunta a Lugh: “a quem devo ofertar esta taça?”

Outro texto importante deste Ciclo é “A Loucura de Suibhne”, em que o Rei Suibhne, o Louco desafia o cristianismo de São Ronan e, como resultado de ‘maldições’ lançadas pelo cristão, enlouquece e passa a viver como um pássaro, voando pelos bosques da Irlanda e recitando poemas que são verdadeiras odes à Natureza e às árvores. Pelo paralelo facilmente estabelecido com a história britânica de Myrddyn / Merlin, que também ‘enlouquece’ e passa a profetizar em meio à natureza, podemos identificar em ambas as histórias sobrevivências de elementos xamânicos pré-cristãos da espiritualidade celta.

Imramma, Jornadas ao Outro Mundo

Outro componente de natureza bastante xamânica da literatura celta irlandesa são as lendas conhecidas coletivamente como immrama, ou literalmente, “remações”, viagens por água, que são jornadas ao outro mundo – retratado como ilhas sagradas a oeste da Irlanda. Entre elas, citamos a “Balada de Oisín no Outro Mundo”, em que o herói Oisín, filho de Fionn Mac Cumhaill, viaja para Tír na nÓg, a ‘Terra da Juventude’, numa jornada por mar em companhia da belíssima – e divina – Niamh “dos Cabelos Dourados”. Lá ele passa 300 anos como esposo de Niamh, que lhe concede três filhos. Quando ele decide visitar a Irlanda, Niamh tenta demove-lo da idéia, mas por fim ele parte no cavalo branco dela, com instruções expressas de jamais descer do cavalo. Ao retornar, a Irlanda que ele encontra está transformada – os grandes e nobres Fianna haviam desaparecido, os homens são fracos e sem dignidade. Por fim, Oisín acaba descendo do cavalo, o que faz com que ele envelheça todo o tempo que ele estivera fora.

Em “A Viagem de Bran mac Febail”, o protagonista também é atraído ao Outro Mundo por uma linda mulher que lhe surge num sonho (transe xamânico?). Sua jornada pelos domínios do deus Manannán (o mar) é plena de maravilhas, passando por diversas ilhas mágicas repletas de simbolismo até que também ele retorna para uma Irlanda que ele não reconhece – afinal, o tempo passado no Outro Mundo correra de forma diferente... ele relata suas aventuras usando varetas com inscrições em Ogham – o alfabeto sagrado dos druidas irlandeses – e em seguida retorna para o Outro Mundo.

A imram de Bran é em diversos aspectos muito semelhante à de Mael Duin, e seu simbolismo oculto foi ricamente explorado pela autora Caitlín Matthews em sua obra “O Livro Celta dos Mortos”, um inspirado trabalho oracular facilmente compreendido por quem se disponha a estudá-lo.
Elementos de ambas são encontrados na obra Navigatio Sancti Brendani, a “Viagem de São Brandão, o Navegador”, um místico irlandês que, no século VI, teria feito uma jornada a terras pardisíacas a oeste da Irlanda. A popularidade desse texto levou-o a ser redigido em diversos idiomas, inclusive no português – daí não ser difícil estabelecer uma correlação bastante direta com a nomeação, em eras posteriores, das terras descobertas pelos portugueses na América com um dos nomes das ilhas sagradas da mitologia irlandesa, alcançada justamente por uma imram: Hy Brasil, a “Ilha dos Abençoados”.
O fato de São Brandão de Clontarf ser uma personagem histórica oriunda da classe druídica da Irlanda aumenta a importância dos relatos e de sua relevância mística na nomeação das terras brasileiras.

São Brandão, o Navegador

Mapa com a 'Ilha Brasil' a oeste da Irlanda

(no alto, à esquerda)

Ao final de toda imram, chega-se ao Paraíso, as terras sem maldade, sem doenças, onde todos permanecem jovens: o mundo perfeito. As imramma podem ser, assim, vistas como jornadas míticas que nos levam a uma visão da perfeição, para que essa perfeição informe nossa ação no mundo em que vivemos – o trabalho de cura e transformação inspirada do mundo, função fundamental dos mitos e lendas de todos os povos.

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