A Sociedade Celta

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Nesta seção, faremos uma jornada por diversos aspectos da sociedade celta, usando como baliza os elementos comuns a todas as culturas oriundas do tronco cultural indo-europeu. A proposta é que, desta forma, tenhamos uma visão clara e livre de estereótipos acerca das origens de determinados elementos culturais dos celtas e também das transformações ocorridas com o passar das eras.

Obviamente que estas páginas oferecem uma mera introdução ao tema, por si só demasiadamente vasto para ser esgotado em poucos parágrafos. Mesmo assim, creio que seja de suma importância oferecer informação confiável sobre alguns aspectos da cultura celta que costumam ser erroneamente retratados em muitos sites e publicações.

A Sociedade Tripartida

Como ocorre em diversas culturas de origem indo-européia, a sociedade celta era basicamente dividida em três ‘extratos’:

  • uma nobreza governante, formada pelos guerreiros e de onde se originavam os líderes;
  • um clero, composto pelos druidas;
  • um conjunto de homens livres, artesãos e mestres em diversos ofícios.

A predominância da figura do guerreiro é facilmente explicada por estarmos falando de uma época conhecida como “Idade do Ferro”: o mundo de então era pautado em valores como a honra, a conquista e a glória – o melhor guerreiro, o mais valoroso e bem sucedido, teria seus feitos cantados em verso e prosa pelos poetas e bardos, ganhando, assim, a eternidade.

Ademais, é através da glória gerada pelos feitos heróicos e grandiosos que se obtém poder, atraindo e mantendo fiéis os aliados e conseguindo a obediência dos súditos. Como todas as culturas de origem indo-européia na Idade do Ferro, os celtas eram, antes de tudo, uma sociedade guerreira.

Os celtas em guerra

O conceito de guerra de nossos dias é muito diferente da visão dos povos da Antigüidade. Se hoje a guerra é vista como algo abominável, nas culturas da Idade do Ferro ela era uma forma de sobrevivência e acensão social, uma parte corriqueira do dia-a-dia de toda uma sociedade.

Entre os celtas, poder-se-ia até mesmo dizer que a guerra era como um esporte - digamos, o futebol moderno. Os melhores guerreiros - os mais fortes e habilidosos eram respeitados e admirados, e recebiam o nome de "campeões" tribais. Seu status elevado lhes trazia riquezas e regalias, como costuma acontecer com os maiores futebolistas de nossos dias.
Até mesmo as batalhas em si tinham muito a ver com o futebol moderno: existia uma 'temporada' dse guerras - normalmente na primavera - em que as tribos rivais se enfrentavam em busca de poder, riqueza e ascendência. Nas guerras inter-tribais - uma constante na idade do Ferro celta, como nos mostram os relatos clássicos e as lendas - as hostes se encaminhavam para o local de batalha com seus estandartes, ruidosas cornetas chamadas carnyx (à dir.) e gritos de guerra e, após grandes provocações, partiam para o enfrentamento. Os vencedores voltavam para casa com seus troféus - espólios e, nalguns casos, as cabeças dos melhores inimigos derrotados. Tudo isso pode soar barbárico a princípio, mas os grandes tumultos nos modernos estádios em dias de jogos importantes mostram que, exceção feita às cabeças cortadas, pouco ou nada mudou...

Ou melhor, mudou, sim: para os celtas a guerra era sagrada. Diversas deidades importantíssimas estão associadas ao ofício do guerreiro: Morríghan, a "Grande Rainha"; Scathach, a sensual instrutora nas artes da guerra; Nuada e sua espada; Lugh e sua lança 'inescapável' - todos esses mitos comprovam a sacralidade da guerra para os celtas.

E, ao contrário do que se pode imaginar, a guerra celta não tinha a função da guerra moderna de aniquilar o inimigo: existia todo um código de honra a ser respeitado em combate - em alguns casos, detectamos até mesmo semelhanças com a nobreza do código de guerra dos tão admirados e respeitados samurais do Japão feudal.
Era considerado extremamente desonroso, por exemplo, atacar um inimigo que já estivesse envolvido em combate com outro guerreiro. Atacar um inimigo pelas costas era um tabu, e como prova de que para os celtas a guerra não era um surto destrutivo e aniquilador, muitos combates entre tribos rivais sequer chegavam a ocorrer: por acordo entre as tribos, por vezes a luta se restringia a um combate individual entre os dois melhores guerreiros - os campeões tribais: a tribo do vencedor do combate era declarada a vencedora da guerra como um todo, poupando assim dezenas, centenas de vidas, sem deixar de satisfazer a função social da guerra. Essas nobres regras, contudo, não reduziam a capacidade bélica dos guerreiros celtas.

Quando os romanos e suas bem treinadas legiões invadiram a Gália, depararam-se com uma resistência formidável. Por diversas vezes, a disciplina romana não foi páreo para o poderio bélico dos celtas, que inflingiram às legiões pesadas - e por vezes humilhantes - derrotas. Foi necessário que Roma aprendesse muito com essas derrotas até desenvolver uma estratégia diferenciada, totalmente adequada ao estilo de guerrear dos celtas, para que Cesar finalmente pudesse derrotá-los na Batalha de Alésia. A proverbial desunião das tribos celtas, claro, contribuiu para esse fim.

Antes disso, porém, como já mencionado antes, os guerreiros celtas eram admirados por suas habilidades e costumavam ser empregues por outros povos em suas guerras, como mercenários - é o caso dos gaesatae, lanceiros celtas que lutaram ao lado das hostes de outros povos - egípcios, gregos e outros.

Julio Cesar registra que os celtas em guerra se mostravam absolutamente destemidos, sem medo da morte, e atribui essa força aos ensinamentos druídicos sobre a eternidade da alma. Sem temer a morte, os guerreiros celtas eram dados a feitos formidáveis, que sem dúvida lhes rendiam a eternidade através das lendas, poemas e canções que os bardos entoariam pelas gerações seguintes conferindo-lhes, assim, a imortalidade pela virtude, tão desejada pelos povos indo-europeus.

A coragem pessoal era algo essencial, e o sucesso nas batalhas era uma fonte vital de prestígio, poder e seguidores, e também a riqueza material necessária para mantê-los."

- Simon James

Essa característica pode soar, aos nossos ouvidos modernos, um tanto egoísta, mas suas conseqüências eram interessantes: para preservar seu status e sua posição, os líderes celtas eram dados a grandes demonstrações de generosidade para com seus súditos. Assim, em troca do apoio que recebia da tribo, um chefe tribal lhes ofereceria proteção e banquetes – um dos pontos focais da sociedade celta. Muitas lendas celtas da Irlanda ecoam os relatos dos escritores clássicos acerca da importância dos banquetes oferecidos pelos chefes celtas da Gália. O poder de um líder era facilmente medido pela riqueza e qualidade do alimento que ele oferecia, e as peças usadas para servir os alimentos, verdadeiras obras de arte, nos dão testemunho da importância dos banquetes como forma de manutenção do prestígio dos nobres e de se fomentar a união da tribo como um todo.

Mas o líder celta – pouco importa se ‘grande rei’ ou chefe tribal – não governava só: a aconselhá-lo na paz e na guerra estava sempre a figura do druida.

Os Druidas na sociedade celta

O modelo de sociedade tripartida indo-européia identificado por Georges Dumézil apresenta evidentes variações culturais de uma sociedade para outra, mas é possível perceber os pontos em comum entre os druidas celtas, os brâmanes indianos e os flâmens romanos, por exemplo. (Saiba mais sobre os druidas)

Mas os druidas não eram apenas sacerdotes: além de oficiar as cerimônias públicas e privadas, era sua função também servir de legisladores, poetas, professores, adivinhos, historiadores e conselheiros dos governantes. Uma sobrevivência bastante conhecida dessa função do druida pode ser identificada na figura do Merlin da literatura arthuriana medieval: Arthur é o grande rei mas, no fundo, deve tudo – educação, coroação e até mesmo sua concepção – ao ‘velho mago’. Eram os druidas a aconselhar os reis celtas sobre a melhor forma de se governar o reino ou tribo. Da proverbial sabedoria druídica dependia o bem estar da comunidade dos homens livres - e chegamos então ao terceiro elemento da sociedade celta: os artesãos, ou “homens das artes”.

Os Homens das Artes

Ferreiros, oleiros, agricultores, criadores de animais, tecelões, caçadores – a maior parte da população celta, como costuma acontecer nas sociedades indo-européias, era composta pelos cidadãos livres, mestres de algum ofício. A produção em massa trazida pela industrialização moderna tirou a importância do artesão, mas em sociedades primitivas esses indivíduos eram respeitados e algumas funções eram até mesmo divinizadas. Entre os celtas, especial apreço era dedicado aos ferreiros, cuja magia em transformar pedaços de minério em utensílios como arados, tigelas e espadas era visto como sagrado. A decantada beleza plástica dos artefatos celtas prova que, realmente seus artesãos eram divinamente inspirados.

Agricultura e Pecuária

“Todas as terras produzem grãos em quantidade, e trigo e castanhas, e todos os tipos de gado. E nenhuma área do território deixa de ser cultivada, a não ser onde isto seja impossível graças a brejos e bosques.”

- Estrabão

Os celtas eram grandes agricultores - prova disso era a sua auto-suficiência na produção de grãos e gado. Essa produção, aliás, é comprovada por achados históricos, como grãos de trigo emmer, cultivados na Grã-Bretanha celta, encontrados em túmulos egípcios. Não nos esqueçamos que o comércio - e não a guerra - foi o primeiro contato estabelecido com as civilizações mediterrâneas. E isto por si só também ajuda a desmistificar a falsa imagem dos celtas como 'bárbaros sanguinários'.

Além do trigo, os celtas cultivavam outros grãos - cevada, centeio - e criavam animais - bovinos, caprinos, suínos e eqüinos. Também plantavam linho, com o qual confeccionavam suas vestes em conjunto com couro, lá e peles.

Aparência e Vestes

As roupas celtas eram vistosas, até demais para os austeros padrões de gregos e romanos. Fios de cores vívidas - obtidos com os mais diferentes pigmentos - eram tecidos em padrões de listras ou xadrez, e a proverbial vaidade dos celtas era satisfeita com belíssimos adereços feitos com ouro, prata, contas, âmbar e esmalte. Mas mais do que adereços, as jóias celtas determinavam seu status social. Um adereço tipicamente celta é o torque - um grosso colar de ouro usado ao redor do pescoço. Quanto mais grosso o torque, mais socialmente proeminente era seu portador.

Os homens celtas davam preferência ao uso de longos bigodes, que usavam - segundo os observadores clássicos - para 'filtrar' a cerveja enquanto a bebiam. Esse costume é retratado com clareza nas estátuas de celtas esculpidas por gregos e romanos - como a dramática imagem do "Gaulês à beira da morte" (à esq.)- e também na própria arte celta.

Ao contrário das culturas clássicas do Mediterrâneo e suas togas, os celtas eram dados ao uso dessa 'barbárica' vestimenta: as calças. Mantos e capas eram comuns, sempre em tons coloridos, e as mulheres usavam vestidos acinturados que realçavam suas formas graças a cintos de couro e, no caso das nobres, ouro e pedras presos aos quadris. Cabelos longos eram costume em ambos os sexos, e muitos vestígios arqueológicos - bem como relatos textuais - indicam o constante uso de tranças e rabos-de-cavalo. Sempre preocupados com as aparências, os celtas costumavam decorar o corpo com tatuagens e maquiagem.

Como já dito, os celtas jamais formaram uma federação ou império - em grande parte porque a base de sua organização social era a pequena tribo. A esses grupos sub-tribais os romanos deram o nome de pagi. Uma tribo – como a dos Parisi, por exemplo – era composta por diversos pagi agrupados, e raramente tribos diferentes se uniam em confederações, salvo nalguns momentos de crise – como as célebres alianças lideradas na Gália por Vercingetorix e na Grã-Bretanha pela rainha Boudicca na resistência aos romanos.

“As tribos eram geralmente governadas por reis ou chefes (normalmente em pares) com poderes limitados, e as decisões importantes eram tomadas por assembléias populares com todos os homens livres da tribo. Também havia um conselho com centenas de nobres proeminentes (chamado por César de ‘senado’), de onde eram escolhidos os líderes e do qual emanava o real poder”.

- Simon James

Até o contato com os romanos, as tribos celtas da Gália não costumavam se estabelecer em aglomerados urbanos – pelo contrário, a população de uma tribo se espalhava por uma determinada área em pequenas propriedades rurais ou, quando muito, aldeotas. A forma de construção das casas celtas costuma ser redonda nas ilhas britânicas e retangular na Gália (à dir.), e especula-se que cada uma delas costumava abrigar uma ou duas famílias aparentadas e seus dependentes. Numa colina dominante da paisagem em questão, ergueria-se o forte que servia como abrigo coletivo em momentos de crise e também residência real. A influência da cultura romana na Gália trouxe o conceito da urbe, a cidade, e muitas cidades das modernas França (Lyon) e Itália (Milão) começaram como vilas celtas.

A Mulher Celta

“As mulheres claramente ocupavam uma posição mais importante na sociedade celta do que no mundo greco-romano”.

- Barry Cunliffe

A divisão tripartida da sociedade celta nos apresentou a nobreza, o clero e os homens livres. Por tudo que podemos depreender das lendas, dos registros históricos e de sobrevivências de usos e costumes das terras celtas, a mulher estava inserida em todos esses três ramos da sociedade celta. Rainhas históricas como Boudicca e Cartimandua ou mitológicas como Maedbh atestam o poder político-social da mulher entre os celtas, mulherres como Fedelm e a própria Boudicca mostram seu papel como druidesas e sacerdotisas.

“As mulheres gaulesas não se assemelham aos homens somente em sua grande estatura, mas também lhes são páreo em coragem”.

- Diodorus Siculus

O predomínio de mulheres como instrutoras militares nas lendas – como Scáthach, responsável pelo aprendizado de Cuchulainn, o maior dos guerreiros da Irlanda – bem como os mitos de Erc, que integrava os Fianna Éireann, ou Aife, “a mulher mais forte do mundo” mostram que entre os celtas era normal que mulheres desempenhassem as funções de guerreiras – e este segmento social era o celeiro dos líderes tribais.

Os direitos das mulheres celtas são atestados por diversas fontes: as Leis Brehon irlandesas, as lendas do País de Gales, os registros históricos de gregos e romanos. A união de um casal poderia ocorrer de diversas formas, com diferentes níveis de independência da mulher.

Ainda assim, é muito importante deixar de lado afirmações equivocadas como “os celtas eram matrifocais” – isso é uma uma fantasia moderna. Se descontarmos os costumeiros exageros de César – que afirma que os maridos tinham direito de vida e morte sobre suas esposas e filhos - veremos que em muitos casos a sociedade celta se mostrava bastante machista.

“A divisão fundamental – como provavelmente em qualquer sociedade – é a que existe entre homens e mulheres. As mulheres celtas, especialmente as nobres, possuíam um papel mais destacado do que suas equivalentes gregas ou romanas, mas todos os domínios celtas eram aparentemente centrados na figura masculina”.

- Simon James

Temos de ter essa visão clara em mente, até para podermos apreciar ainda mais uma sociedade que, em plena turbulência militar da Idade do Ferro, onde valores masculinos como coragem e força eram vitais, mesmo assim fomentou a igualdade entre os sexos de forma bastante acentuada. Ainda que a sociedade celta jamais tenha sido 'matrifocal' como querem alguns, a mulher celta era muito mais respeitada do que as mulheres de culturas ditas "civilizadas" como a grega e a romana.

A beleza das mulheres celtas foi decantada pelos autores clássicos. Seu ar impoente, suas vestes e adereços deveriam fazer delas uma visão sem dúvida formidável aos olhos de gregos e romanos. Orgulhosas, elas usavam jóias em ouro, contas e pedras preciosas, e a igualdade de direitos lhes dava ainda mais força. A sexualidade não era algo de que os celtas se envergonhassem, pelo contrário: nas palavras de Diodorus Siculus, "elas geralmente cedem sua virgindade a outros e isto não é visto como uma desgraça: pelo contrário, elas se sentem ofendidas quando seus favores são recusados". Esse costume social retratado por um historiador grego observando os gauleses encontra eco nas lendas irlandesas da Rainha Maedbh, que afirmava "jamais ter se deitado com um homem sem que houvesse outro a esperá-la na sombra".

E quando uma nobre romana, não acostumada com a liberdade e a força do caráter das mulheres celtas questionou a integridade moral de uma delas, ouviu a acachapante resposta: "nós mulheres celtas atendemos as exigências da natureza com muito mais dignidade do que vocês, romanas: pois enquanto nós copulamos abertamente com nossos melhores homens, vocês secretamente se sujeitam aos mais vis."

Para saber mais:
- Cunliffe, Barry, The Ancient Celts, Penguin, 1997
- Haudry, Jean, Os Indo-europeus, Rés Editora
- James, Simon, Exploring the World of the Celts, 1993, Thames&Hudson
- Le Roux, Françoise, Guionvarc’h, Christian, A Sociedade Celta, Europa-América, 1991
- MacKillop, James, The Oxford Dictionary of Celtic Mythology, OUP, 1998

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